Maria Luís Gameiro é administradora da Motivo, empresa que representa a marca JCB em Portugal, mas como gosta de desafios também é piloto de todo-o-terreno. Começou a correr em 2022, tendo obtido resultados revelantes no campeonato português e espanhol, onde venceu a categoria das senhoras. Passou anos a sonhar com o Dakar até que concretizou o sonho de estar à partida da corrida mais longa e difícil do mundo.
Aos 47 anos, disputou pela segunda vez a prova, desta vez com o imponente Mini JCW da equipa X-raid, um protótipo com 360 cv, que atinge os 170 km/h nas areias do deserto. Foram duas semanas de peripécias incríveis, adversidades e muitas ultrapassagens – mais de 150 ao longo das 13 etapas – o que condicionou naturalmente o andamento. Apesar disso, venceu a taça das senhoras, que era o seu grande objetivo, e terminou no 41.º lugar da categoria Ultimate. O estado de espírito de Maria Luís Gameiro e da sua navegadora Rosa Romero foi sempre o de resolver um problema de cada vez até chegar ao controlo final. Poucos dias depois de regressar da Arábia Saudita, contou-nos as suas aventuras ‘dakarianas’.
Após duas participações bem conseguidas, pode explicar porque razão o Dakar é tão difícil?
A principal dificuldade do Dakar é a imprevisibilidade, por isso é considerada a corrida mais longa e difícil do mundo. Há muitas contingências ao longo da prova e é preciso gerir bem o esforço físico e o desgaste do carro durante 14 dias e 8.000 quilómetros. Depois, há as condicionantes do terreno, o percurso é secreto e nunca sabemos o que vem a seguir. O fator psicológico é também muito desafiante e há sempre picos. De manhã, estava entusiasmada e acreditava que o dia ia correr bem, mas, por vezes, não foi bem assim. Depois, há uma máxima que é muito verdadeira: a partir do momento em que vamos para trás, nunca mais de lá saímos. Isso só acontece porque os pilotos prioritários e outros concorrentes partem à frente segundo os critérios da organização. Por tudo isso, terminar o Dakar é uma vitória.
Qual o sentimento no momento da partida?
Há um grande entusiasmo e alegria por participar no Dakar, que é o sonho de qualquer piloto. Representa também o início de uma aventura, onde vou competir contra mim própria, por isso sinto alguma ansiedade, mas não há pressão.
No início da prova foi abalroada por um camião! O que aconteceu?
Na primeira etapa ficámos sem ar condicionado e fizemos 300 quilómetros com 60 graus no habitáculo, mas o pior veio a seguir. Na segunda etapa fomos abalroadas por um camião, que tentava voltar à pista. Foi tudo muito rápido e nem deu para assustar. A nossa visibilidade lateral é muito reduzida, só me apercebi que um vulto se aproximava do nosso carro, mas nunca pensei que me batesse. Eles queriam ficar à nossa frente e forçaram a entrada no trilho. Depois do embate, a equipa teve um comportamento correto, voltou atrás para saber se estava tudo bem e, no final da etapa, foram ao nosso bivouac [tenda] pedir desculpa. O problema é que com esse incidente perdemos muito tempo, caímos na classificação e passámos a sair para as etapas seguintes muito atrás.
Como foi a evolução ao longo da prova?
Fiz algumas provas em Marrocos de preparação para o Dakar, mas nunca são suficientes. Penso que fui melhorando o andamento ao longo do rali, embora isso não seja muito percetível ao ver a classificação, mas isso deve-se à condicionante das ultrapassagens. A meio da última semana, o responsável pelo meu carro disse-me que estava preparada para começar o Dakar. O que mais me angustiou foram as ultrapassagens permanentes e com muito pó. Foi muito stressante para mim e para quem estava a ser ultrapassado, todos os dias ultrapassava os mesmos carros. A ultrapassagem é a manobra mais perigosa, já que a maioria dos pilotos não facilita. Numa dessas ultrapassagens saí do trilho e bati numa pedra enorme, que causou danos no carro.
Alguma vez pensou que podia não terminar o Dakar?
Nunca! Só pensarei em desistir se tiver algum problema físico ou se o carro não aguentar. Agora, a pancada do camião foi grande e, durante alguns segundos, pensei que o Mini estava muito danificado e que não podia continuar. Depois, percebi que estava tudo no lugar e concluímos a etapa, embora andássemos mais devagar porque o carro ficou com problemas de travões.
Além do episódio do camião, passou por outras situações delicadas?
Durante a prova acontece tanta, tanta coisa. Nas ultrapassagens apanhei alguns sustos porque não via os outros carros devido ao pó e várias vezes ia batendo. Nas dunas havia sempre muita gente nos locais onde os pilotos deviam passar e isso criou-me alguma tensão. Cruzei-me também com turistas que andavam a passear e vinham em sentido contrário ao da prova. Outro momento difícil foi quando ficámos sem caixa de velocidade depois de ter concluído o setor seletivo. Eu e a Rosa não conseguíamos empurrar o Mini, que pesa duas toneladas, e só saímos de lá rebocadas por um camião. Quando o carro começou a andar a caixa desencravou e conseguimos terminar a etapa. Houve também uma situação caricata em que entrámos num ‘caldeirão’ de carros e camiões atascados no meio das dunas. Tive de parar e o Mini acabou por ficar preso na duna.
Nessas situações recebe ajuda de outros concorrentes?
Quando há muitos carros atascados, os pilotos acabam por se ajudar uns aos outros, mas em situações normais não. Ficar presa numa duna quebra muito o ritmo e faz-nos perder bastante tempo, pois temos de cavar a areia para colocar as pranchas e tentar sair. Depois, é descansar uns segundos e voltar à corrida. O facto de termos ultrapassado aquele obstáculo dá-nos maior movimentação para continuar.
Mas esteve sempre disponível para ajudar outros pilotos?
Durante a prova prestei apoio aos pilotos da equipa X-raid. Parei para ceder os dois pneus e outro tipo de material, sem isso não teriam terminado a prova. Perdi um lugar no top 40 também por essas paragens, mas fiquei feliz porque fui útil à equipa.
Como foram as etapas maratonas? Do que é que sentiu mais falta: do duche, do hotel ou das refeições normais?
Essas etapas representam o Dakar no estado puro. Todos os pilotos dormem numa tenda, com um saco-cama, e recebem uma ração militar e água, não tínhamos absolutamente mais nada. Senti falta do duche e, sobretudo, dos sanitários. No primeiro acampamento havia umas rochas, onde os pilotos iam fazer as suas necessidades fisiológicas. O segundo bivouac era num descampado, por onde passavam carros e a população local, e não tinha qualquer privacidade. Além disso, a comida era muito má. O frango com chili depois de aquecido ficava numa pasta horrorosa e não consegui comer. A nossa sorte é que tínhamos levado no carro uns enlatados e comemos bacalhau com grão e croissants de chocolate.
E consegue dormir nessas condições?
Sim, até porque não há internet e não temos nada para fazer. Por outro lado, esses acampamentos permitem uma maior proximidade entre pilotos, jantamos juntos, partilhamos histórias e cria-se um ambiente diferente, nos outros dias cada um tem o seu espaço próprio.
Foi a primeira vez que disputou o Dakar com o Mini JCW da categoria principal. Um protótipo com 360 cv, que custa cerca de 800 mil euros. Como foi a experiência?
Gostei muito do Mini, é mais desafiante do que o SSV que conduzi o ano passado. É um carro com muitos ‘esteróides’ e dos rápidos do todo-o-terreno, atinge 170 km/h, o que torna a condução muito animada. Funciona tudo bem e dá muita confiança. Em termos físicos, é exigente, sobretudo nos setores seletivos com 400 quilómetros ou mais. Outra dificuldade é mudar um pneu, pois cada roda pesa 50 quilos. É um trabalho de equipa e não nos desenrascámos mal, conseguimos fazer a troca em três minutos.
Qual a sensação de terminar o Dakar como vencedora da Taça das Senhoras?
Este troféu dá grande visibilidade às mulheres que desafiam o Dakar. Por outro lado, é uma grande honra trazer este prémio para Portugal e espero que sirva de inspiração para que mais mulheres participem no campeonato nacional de todo-o-terreno e, quem sabe, concretizem o sonho de fazer o Dakar.
O Dakar continua a ser uma prova muito masculina. Sentiu algum mal-estar por ter ficado à frente dos homens?
É verdade que há poucas mulheres, na edição deste ano apenas 3,4% dos pilotos eram senhoras. Quando estamos no bivouac, os senhores são sempre muito simpáticos e educados. Durante a prova não é bem assim. Tivemos uma situação em que um piloto se desviou para deixar passar outro concorrente, que também era uma mulher, mas quando viu o Mini cor de rosa dificultou ao máximo a ultrapassagem. O ambiente no Dakar é de não facilitar as ultrapassagens. Estas situações ainda acontecem, mas quero acreditar que são cada vez menos frequentes. Mas isso também é um desafio para mim.
O Mini cor de rosa ficou conhecido no Dakar? Já a identificam como a mulher que desafiou o deserto?
A cor do carro e o facto de ser uma equipa feminina teve grande impacto e as pessoas reagiam à nossa passagem. Éramos facilmente reconhecidas e muito acarinhadas, sobretudo pelas senhoras e crianças. Os homens também queriam tirar fotografias connosco e diziam que era para oferecer à namorada ou à mulher.
Depois da cerimónia do pódio onde teve o presidente da FIA, quanto tempo demorou a regressar à terra?
Vivi nessa bolha durante alguns dias. Quando cheguei a Portugal tive uma bonita receção na Motivo, onde sou administradora. Foi bom receber o carinho das pessoas mais próximas e o apoio dos nossos trabalhadores. Mas continuo a reviver essa experiência e ainda não passei a página.
Depois da vitória na Taça das Senhoras, o que vem a seguir?
Ainda não temos nada decidido, mas a ideia é voltar ao Dakar em 2027 com o objetivo de obter uma classificação melhor. Durante este ano vou fazer algumas corridas em Portugal, Espanha e Marrocos de preparação. Existe a possibilidade de correr com a equipa X-raid, mas ainda não está fechado.
Trocava o Dakar por alguma outra coisa?
Neste momento não tenho outro desafio que me entusiasme tanto, por isso não trocava o Dakar por nada. Para quem faz todo-o-terreno, o Dakar é algo de muito especial e também de extravagante.