sexta-feira, 15 mai. 2026

Lesões. O corpo é que paga

A recente lesão de Cristiano Ronaldo lançou novamente o alerta sobre o excessivo número de jogos durante uma época. Os dados são esclarecedores: nos últimos cinco anos registaram-se 22.596 lesões, que custaram aos clubes mais de 3,4 mil milhões de euros! Os jovens são o novo grupo de risco
Lesões. O corpo é que paga

O futebol profissional é um dos desportos mais exigentes a nível físico e técnico, sujeitando os jogadores a um desgaste permanente ao longo da época. O aumento do número de competições e de jogos oficiais com a remodelação das competições europeias e do Campeonato do Mundo de Clubes tem impacto na saúde dos atletas, sendo isso particularmente evidente nas cinco principais ligas europeias. Na época 2024/25, alguns clubes realizaram mais 10 jogos do que no ano anterior e os futebolistas de topo disputaram cerca de 70 partidas entre clubes e seleções.

O relatório de Índice de Lesões no Futebol Masculino Europeu, elaborado pela seguradora Howden Sport & Entertainment, refere o impacto das lesões nas cinco principais ligas europeias e o custo que a ausência prolongada de jogadores teve para os clubes no período compreendido entre 2020/21 e 2024/25. As lesões são uma doença silenciosa que afeta o rendimento dos jogadores e o planeamento das equipas, pelo que este estudo é uma ferramenta que devia fazer pensar as entidades que regulam o futebol (FIFA e UEFA). Os calendários sobrecarregados levaram a um aumento preocupante das lesões, nomeadamente dos atletas mais jovens, que se lesionam quando procuram conquistar o seu espaço no futebol de alta competição. O cansaço acumulado e a impossibilidade de fazerem uma recuperação adequada entre jogos ou entre épocas constitui uma séria ameaça à saúde física, mas também mental, de qualquer jogador.

Nas últimas cinco temporadas registaram-se 22.596 lesões, que tiveram um custo superior a 3,4 mil milhões de euros. O custo das lesões é calculado multiplicando o salário base diário do jogador pelo número de dias em que esteve indisponível. Ao longo deste período registou-se um aumento de 30% na gravidade das lesões. O recorde de dias perdidos por lesão é de 39,4 dias (França) e o menor de 14,2 dias (Inglaterra). Este estudo revela outro dado preocupante: um atleta sofre uma lesão a cada 625 minutos, aproximadamente a cada sete jogos.

O número de lesões atingiu o pico em 2021/22 com 4.981, o que se deveu, em parte, à pandemia da covid-19. Mas, curiosamente, os custos com lesões atingiram o valor mais elevado em 2023/24, com 836,6 milhões de euros, seguido de perto pela temporada 2022/23, com 785,95 milhões de euros. Ao contrário do que muitos treinadores e preparadores físicos temiam, o Campeonato do Mundo de 2022 teve um impacto mínimo no número total de lesões sofridas e a época 2022/23 até foi a que registou menos lesões.

Há dados curiosos comuns às cinco ligas. Foi entre julho e agosto que se observou um aumento do número de jogadores lesionados, o que pode ser atribuído a uma pré-época mal feita. Em consequência disso, sete clubes passaram por uma situação deveras complicada com mais de 100 lesões numa só época.

Alemães lesionam-se mais

Os jogadores do campeonato alemão foram os mais suscetíveis a lesões, registando-se 6.177 casos (27,3% do total) nos últimos cinco anos, com uma média de 1.235 lesões por época, que tiveram um custo total de 579,7 milhões de euros. São valores surpreendentes já que o campeonato alemão é disputado por 18 equipas, tal como o francês, ao passo que os outros campeonatos têm 20 equipas.

A Premier League, considerado o melhor campeonato do mundo, aparece no segundo lugar com 5.367 lesões, tendo atingido o pico nas temporadas 2021/22 e 2023/24. Dito de outra forma, os clubes ingleses pagaram 1.150 milhões de euros em salários a jogadores lesionados, com uma média de 275,8 milhões de euros por época, o que representa 40% dos custos totais no período de cinco anos. Este indicador confirma que o campeonato inglês tem os salários mais altos, o que se reflete num custo médio de 260 mil euros por lesão sofrida, valor muito superior à média europeia dos Big Five que é de 150 mil euros. O Manchester United teve o custo mais elevado de entre todos os 57 clubes, com 179,2 milhões de euros. Só em 2023/24, os red devils pagaram um total de 53,8 milhões de euros em salários a jogadores que estiveram ausentes dos relvados. Fora da Premier League, Bayern Munique, PSG e Real Madrid tiveram custos com lesões superiores a 40 milhões de euros numa só época.

No terceiro lugar surge a liga espanhola com 4.171 lesões e um custo estimado de 600 milhões devido a lesões. Aparece depois o campeonato italiano com 3.967 lesões e um custo de 495,2 milhões de euros e, por fim, a liga francesa que registou 2.914 lesões com um custo avaliado em 391 milhões de euros.

A sobrecarga de treinos e jogos provoca situações de stress, fadiga e um aumento do número de lesões nos atletas mais jovens, o que pode comprometer o seu rendimento e desenvolvimento como futebolistas. De referir que, em 2024/25, os jogadores mais jovens registaram uma lesão a cada 231 minutos! Na época passada, as lesões com maior gravidade aconteceram em jogadores do campeonato francês com menos de 21 anos, que ficaram fora dos relvados, em média, 47 dias, e, na faixa etária entre os 21 e os 25 anos, o período de afastamento foi de 45 dias. Já os jovens avançados do campeonato inglês sofreram uma lesão a cada 120 minutos, ou seja, é praticamente uma lesão a cada jogo e meio. Esta análise mostra também que o tempo de afastamento por lesão na temporada 2024/25 foi substancialmente superior a 2020/21. O aumento mais significativo verificou-se entre os guarda-redes, com mais 9 dias, sendo os avançados a outra posição a registar um aumento superior a cinco dias. Em contrapartida, os defesas laterais são os que têm mais minutos de jogo, mas são os menos propensos a lesões, registando uma diminuição na gravidade das lesões de 4,5 dias.