terça-feira, 21 jul. 2026

Imortais: 20 anos depois da estreia, Ronaldo e Messi preparam-se para disputar o último Mundial

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi foram os melhores jogadores da sua geração e despedem-se dos grandes palcos internacionais no Mundial 2026. Esta longevidade sem precedentes é apenas mais um exemplo da forma como mudaram o futebol moderno.
Imortais: 20 anos depois da estreia, Ronaldo e Messi preparam-se para disputar o último Mundial

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi disputaram o primeiro Campeonato do Mundo na Alemanha, em 2006. Os dois tiveram a capacidade de se reinventar e, passados 20 anos, vão estar presentes no Mundial da América do Norte para fechar um ciclo. Durante duas décadas criaram jogadas de autor fabulosas e marcaram golos que entram no domínio do sobrenatural e levaram os adeptos à loucura. Sem ponta de exagero, podemos dizer que reescreveram o manual do futebol moderno. Foram distinguidos por 13 vezes como o melhor jogador do mundo (oito para Messi e cinco para Ronaldo), conquistaram 81 troféus coletivos (46 para Messi e 35 para Ronaldo) e são os únicos jogadores a ultrapassar os 800 golos em jogos oficiais (973 para Ronaldo e 910 para Messi). 

Resistiram ao passar dos anos e, apesar da forma física não ser a mesma, continuam a jogar ao mais alto nível e vão participar no sexto Mundial consecutivo. Curiosamente, há a possibilidade de se encontrarem nos quartos de final, em Kansas City, dia 12 de julho, basta que Portugal e Argentina ganhem os seus grupos e avancem duas eliminatórias. O resultado de um eventual duelo entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi acabaria com todos os debates sobre quem é o Greatest Of All Time (GOAT) no futebol. Se o critério for os golos e a longevidade, Ronaldo leva vantagem, se for os troféus conquistados, a supremacia é de Messi. A única verdade que existe é que fizeram do futebol uma forma de arte com jogadas e golos de grande beleza.

A sua longevidade explica-se por uma preparação física rigorosa, nutrição cuidada, elevado profissionalismo e competitividade intensa – são obcecados pelos detalhes.

Acabaram por se influenciar mutuamente e, consequência disso, influenciaram também o futebol moderno e a forma como vemos o jogo. São jogadores fisicamente muito diferentes, com uma forma de jogar distinta e com personalidades completamente opostas. 

Cristiano Ronaldo é um dos melhores atletas da história do desporto, e não apenas do futebol, é extrovertido e temperamental, lida mal com o insucesso. É poderoso em termos físicos e não tem rivais nos remates de longe, nos livres diretos e no jogo de cabeça, o seu instinto matador é um ‘quebra-cabeça’ para os defesas.

Lionel Messi é mais fraco fisicamente – aos nove anos foi-lhe diagnosticado um problema de saúde e teve de se submeter a tratamento para compensar a deficiência de produção hormonal – e tinha o nome de Pulga devido à sua baixa estatura. Continua a ter um drible devastador e uma qualidade de passe e visão de jogo acima da média. Alia estética com eficácia, além disso tem um caráter sossegado e reservado, é o jogador ‘querido’ do establishment. 

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi vão disputar o seu último campeonato do mundo com o objetivo de ganhar e bater novos recordes. O primeiro será batido no momento em que pisarem o relvado e participarem pela sexta vez no maior evento desportivo do planeta. Lionel Messi chega a este Mundial como campeão do mundo, mas também como recordista, com 26 jogos em fases finais, onde marcou 13 golos, números que espera aumentar este ano. O capitão da seleção nacional tem um registo mais modesto de apenas oito golos em 22 jogos e nunca marcou na fase a eliminar. Se chegar à final, Lionel Messi iguala o brasileiro Cafu, que disputou três finais consecutivas, entre 1994 e 2002.

A longevidade de Cristiano Ronaldo pode permitir-lhe estabelecer alguns recordes relacionados com a idade. Não é o jogador mais velho de sempre a disputar um Mundial, mas pode ser o jogador mais velho de sempre numa final. Se Portugal chegar ao jogo decisivo, Ronaldo terá 41 anos e 164 dias. CR7 marcou por oito vezes em fases finais e está apenas a um golo de igualar Eusébio – o Pantera Negra marcou nove golos no Mundial de 1966 –, sendo esse o único recorde que lhe falta a nível de seleção.

Hoje em dia, existe uma relação cordial entre os dois jogadores, muito diferente da tremenda rivalidade que existiu durante nove épocas, quando representavam Real Madrid e Barcelona. Foi uma das maiores rivalidades do desporto mundial, que atingiu níveis doentios, alimentada pela comunicação social espanhola e por uma legião de fãs das redes sociais. 

Cristiano Ronaldo afirmou: «Temos de olhar para esta rivalidade com um espírito positivo, porque é uma coisa boa». 

A presença de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi em ligas secundárias (Arábia Saudita e Estados Unidos) atenuou esse fogo competitivo, como reconheceu CR7: «A rivalidade já não existe» «Foi bom, os espetadores gostaram. Partilhámos o palco durante 15 anos e acabámos por ser, não digo amigos, mas somos colegas de profissão e respeitamo-nos mutuamente. Ele segue o seu caminho, eu sigo o meu. Ele tem-se saído bem. O que importa é que o legado continue. Quem gosta de Cristiano Ronaldo não tem de odiar Messi», afirmou o internacional português. 

O campeão do mundo retribuiu a atenção, dizendo: «Tenho um enorme respeito e admiração pelo Cristiano, bem como pela carreira que teve e continua a ter, pois mantém-se sempre ao mais alto nível. É um jogador fenomenal, com muitas qualidades. É um dos melhores do mundo, e todos sabem disso».

Referências mundiais 

Arsène Wenger, ex-treinador e atual responsável da FIFA para o desenvolvimento do futebol, sintetizou de uma forma feliz aquilo que Cristiano Ronaldo e Lionel Messi representam na história do futebol. «Quando já não estiverem em campo, percebemos aquilo que nos deram. Não faço uma hierarquia porque são jogadores diferentes e dois excecionais futebolistas, que durante muitos anos mostraram ao mundo o quão grande pode ser o futebol», afirmou. Na verdade, foram raras as ocasiões em que dois GOATs tiveram a oportunidade de se defrontar. Di Stefano não teve rivais na década de 1950, Pelé e Eusébio defrontaram-se apenas seis vezes entre jogos de clubes (Santos e Benfica) e seleções, e Zidane e Ronaldo, o Fenómeno, foram colegas no Real Madrid e defrontaram-se apenas três vezes nas seleções. Somos privilegiados por poder assistir durante tantos anos a momentos de pura magia nos relvados. 

Os dois jogadores foram determinantes nas conquistas das suas seleções. Representar o país é uma motivação e uma oportunidade para reforçar o seu legado no futebol. Tirando os dribles, as assistências e os penáltis convertidos, Lionel Messi fica atrás do seu grande rival nos outros aspetos do jogo em termos de seleção. 

Cristiano Ronaldo sagrou-se recentemente campeão da Arábia Saudita e só pensa em conquistar o único título que lhe falta… e Lionel Messi já ganhou em 2022. A presença de CR7 no balneário é fundamental, resta saber em dentro de campo pode fazer a diferença como fazia há alguns anos. Em diversas ocasiões, jogadores importantes como Bruno Fernandes e Bernardo Silva estiveram mais soltos e imprevisíveis quando o capitão não estava em campo e até Gonçalo Ramos mostrou a sua veia goleadora. O selecionador nacional, Roberto Martínez, já fez saber que o capitão é intocável, mas do lado argentino acontece o mesmo. «Todas as decisões passam por Messi», afirmou recentemente o selecionador argentino, Lionel Scaloni. 

Os deuses do futebol não podem ficar de fora… é blasfémia.