A Federação Portuguesa de Futebol condenou Filipe Pereira (conhecido por Filipe Linz), treinador da equipa feminina da II Divisão de futebol do Guia FC, em Albufeira, por assédio sexual e comportamentos discriminatórios contra cinco jogadoras da equipa algarvia. O treinador, de 40 anos, fica agora suspenso por 12 meses e 15 dias, além de ficar obrigado ao pagamento de duas multas num valor total de 918 euros, de acordo com a punição aplicada pelo Conselho de Disciplina.
"[O treinador] desviando-se das suas funções e obrigações, procurou, sistematicamente, enveredar, segundo provado, por comportamentos indesejados de caráter sexual, aproveitando a sua posição hierárquica para importunar as jogadoras e bulir com a sua liberdade e auto-determinação sexual”, pode ler-se no acórdão de mais de 200 páginas divulgado esta semana pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.
Também o clube foi punido pela FPF por não ter investigado nem agido perante as denúncias, ficando obrigado a dois jogos à porta fechada e a 2040 euros de multa. Além disso, o presidente e a vice-presidente, Alexandre Santos e Sandra Santos, ficam suspensos por um e dois meses, respetivamente, por manifestarem "atitude passiva na repressão de condutas de natureza sexual indesejadas pelas vítimas".
As provas transcritas
O acórdão de mais de 200 páginas transcreve situações relatadas pelas vítimas, não identificadas, bem como mensagens trocadas entre o treinador e as jogadoras entre 2021 e 2025.
FIlipe Pereira exigiu a uma delas que se pesasse à sua frente, sugerindo que começasse a "treinar a jejum" para cumprir o "peso exigido" e ser convocada para os jogos seguintes. Esta, quando perguntou ao treinador o porquê de este não a escolher para jogar, ouviu que era por ser "da noite" (a jogadora era acordeonista de profissão). "Com esse peso todo, ela pode sozinha com a baliza", chegou a dizer-lhe.
O treinador usou ainda expressões como "gatinha" ou "gostosa como a mãe" para se referir a uma jogadora durante os treinos.
Quando as jogadoras informavam que não podiam comparecer aos treinos, o treinador incomodava-as: a uma delas, que faltou por ter uma reunião de trabalho seguida do jantar de natal da empresa, Filipe respondeu "Hoje que ias tomar banho comigo é que não vais?". À mesma, que chegou a elogiar a beleza do filho do treinador, este respondeu "se quiseres, faço-te um filho igual". Ainda à mesma jogadora, depois de ter dito que tinha sonhado com ela, sugeriu que ela criasse uma conta de OnlyFans (plataforma de subscrição online que permite a venda de fotos, vídeos e transmissões ao vivo, muitas vezes usada para fins sexuais). "Faz uma conta de OnlyFans, sempre é melhor que ir para a rotunda", disse-lhe, acrescentando: "Eu subscrevia".
A outra jogadora, que informou também a não comparência no treino, Filipe, de 40 anos, escreveu-lhe uma lista de opções: “A) falta de material; B) reguada na mão; C) palmada no rabo." A jogadora "escolheu" a primeira hipótese, tendo recebido um "wrong" (errado, em português) como resposta.
Durante os treinos, os comentários não cessavam. Uma das jogadoras, que sofria de asma, chegou a sentir falta de ar enquanto corria. Quando parou e agarrou o peito com a aflição, ouviu: “Dói-te o quê? As maminhas?“.
O acórdão refere ainda situações dadas como não provadas, incluindo que o treinador tenha dado uma "palmada de mão aberta nas nádegas" de uma jogadora numa paragem de equipa numa área de serviço.
Atenuantes e o clube que ignorou as denúncias
A pena de Filipe Linz foi atenuada para metade do previsto nestes casos por este não ter "averbadas no seu cadastro a prática de quaisquer infrações disciplinares“ durante as três épocas que exerceu. Além disso, o acórdão refere que Filipe “assumiu espontaneamente muitos dos factos acusados“ e “reconheceu a natureza imprópria e inadequada da sua relação com as jogadoras“.
O Conselho de Disciplina acusa o clube de ter desvalorizado e "desmerecido os relatos que lhes chegaram". Falam ainda em "ambiente hostil e desfavorável à denúncia", acrescentando que “se demitiu de conduzir uma averiguação imparcial dos relatos, dando total crédito à versão do treinador“.
O acórdão refere ainda a atitude dos dirigentes perante a visualização das provas, explicando que o clube "desvalorizou e minimizou" as denúncias, “procurando em cada passo desculpar e contextualizar as condutas“ do treinador.
O sinal que os dirigentes do Guia FC deram, lê-se ainda, ao serem confrontados, por exemplo, com as “mensagens impróprias“ enviadas por Filipe Linz a algumas jogadoras, com “palavras e intenções que ultrapassavam a relação treinador/jogadora“, foi “de sentido contrário ao que se impunha“, porque “desvalorizou e minimizou“ as denúncias, “procurando em cada passo desculpar e contextualizar as condutas“ de Filipe Linz.
"Importa reafirmar perante o arguido Guia FC e perante todos os outros clubes e sociedades desportivas a sua especial responsabilidade (...) em zelarem para que os agentes desportivos realmente respeitam a cada momento tais valores, atuando de forma diligente, adequada, efetiva e consequente quando assim não seja", pode ler-se no acórdão. O Conselho de Disciplina considera que o clube falhou com essa responsabilidade.
A reação do treinador
Filipe Pereira reagiu ao processo nas suas redes sociais. "O processo em causa baseia-se em SMS descontextualizadas e numa interpretação de factos que não corresponde à realidade", começa por dizer.
Segundo o treinador, manteve uma relação de "proximidade e amizade" com uma das jogadoras durante cinco anos, alegando que várias mensagens, agora usadas como prova, foram enviadas nessa altura. Sugere ainda que foi essa jogadora que influenciou as colegas, "na tentativa de construir uma narrativa que não reflete aquilo que realmente aconteceu".
Acrescenta que o clube já apresentou provas que contrariam a versão apresentada pelas jogadoras. "Tenho total confiança de que a justiça analisará toda a prova com o rigor e a imparcialidade necessários para que a verdade venha ao de cima", termina.