Futsal. A história em três atos

Portugal vai à procura do terceiro título europeu consecutivo, o que seria um feito histórico e reforçava o estatuto de potência mundial no futsal. Existe uma confiança inabalável na seleção nacional e uma enorme pressão sobre os adversários.
Futsal. A história em três atos

O Campeonato da Europa de futsal reúne as 16 melhores seleções do velho continente e tem tudo para ser um torneio emocionante e espetacular. A velocidade, as fintas constantes e os golos espetaculares tornam este jogo bastante apelativo. Importa recordar que o futsal ganhou maior espetacularidade e visibilidade com o ‘Mágico’ Ricardinho, o internacional português criou jogadas e marcou golos nunca antes vistos numa quadra.

A competição deveria realizar-se na Letónia e Lituânia, países com larga experiência organizativa (a Lituânia recebeu o Campeonato do Mundo de 2021), infraestruturas modernas e uma forte paixão pelo futsal. Contudo, o apuramento da Bielorrússia provocou uma crise geopolítica, já que os países organizadores se recusaram a acolher a Bielorrússia devido ao seu envolvimento na invasão da Ucrânia. A UEFA resolveu o problema alargando a organização à Eslovénia, onde vai jogar a seleção bielorrussa. 

As seleções participantes estão dividas em quatro grupos de quatro equipas cada, com os dois primeiros de cada grupo a avançarem para a fase a eliminar. 

A seleção nacional quer apagar a má imagem deixada no Mundial 2024, onde foi eliminada de forma surpreendente pelo Cazaquistão nos oitavos de final, e só pensa estar na final de Ljubljana (Eslovénia), dia 7 de fevereiro. De referir que a escolha dos recintos foi feita com especial atenção. O futsal é um desporto onde a proximidade do público e a acústica concebida para dar a máxima ressonância criam um ambiente explosivo e cada jogo é uma ‘batalha’ intensa. 

Recuperar o estatuto

Portugal lidera o ranking mundial FIFA e integra o grupo D. O primeiro jogo é contra a Itália, segue-se a Hungria, e termina a primeira fase contra a Polónia (dia 29, às 19h30). A equipa das quinas busca o inédito tricampeonato e, para isso, aposta num estilo de jogo com muita posse de bola (70 a 75% em média), criação de superioridade numérica através de movimentos laterais, transições rápidas (em menos de 3 segundos) e utilização intensiva do guarda-redes como líbero, o facto de sair muitas vezes da sua área para dar apoio aos colegas desestabiliza a equipa adversária. 

A Itália foi campeã europeia duas vezes (1996 e 2003) e ocupa o 12.º ranking FIFA. O primeiro jogo vai ser determinante para decidir a classificação do grupo. É um adversário temível, que joga um futsal pragmático, com contra-ataques devastadores e grande solidez defensiva. O histórico é penalizador para as cores nacionais: 21 jogos, quatro vitórias, sete empates e dez derrotas. O jogo seguinte com a Hungria (30.º do ranking FIFA) deixa a equipa portuguesa mais confortável, dos 11 jogos disputados ganhou nove e perdeu dois, o mesmo acontece com a Polónia (37.º do ranking FIFA), com 14 vitórias, um empate e uma derrota. Se Portugal vencer o grupo D, defronta nos quartos de final o segundo classificado do grupo C, se ficar em segundo vai defrontar o vencedor do grupo C (ver quadro). Todos os jogos são realizados em Ljubljana, na Eslovénia, o que é uma vantagem, já que evita as deslocações invernais, que condicionam a recuperação, a aclimatação e as performances dos jogadores.

Durante 20 anos, a Espanha dominou o futsal e foi sete vezes campeã europeia. O seu reinado terminou com o aparecimento do dream team de Portugal, que conquistou quatro importantes títulos: Euro 2018, Mundial 2021, Euro 2022 e Finalíssima 2022. Mais, Portugal fez algo que a Espanha nunca conseguiu: vencer duas vezes seguidas o Europeu, sem empatar ou perder qualquer jogo. O registo é ainda mais impressionante se tivermos em conta que Portugal esteve oito anos e 48 jogos sem perder em competições oficiais.

A seleção espanhola é a principal adversária no Euro 2026. Ocupa o 2.º lugar no ranking mundial e tem jogadores muito técnicos, rápidos e inteligentes. Baseia a sua tática na posse de bola e na criação de superioridade numérica através de movimentos coletivos. Mas há outros outsiders em ascensão, caso da França, que surpreendeu com o quarto lugar no Mundial de 2024. A nova superpotência do futsal europeu é 4.ª no ranking FIFA e tem um estilo de jogo que combina posse de bola curta, com fluidez tática e enorme pressão sobre os adversários. Outra seleção a seguir com a atenção é a Ucrânia, 21.ª no ranking mundial, e medalha de bronze no Mundial de 2024. Joga sempre em pressão alta e tem jogadores com muita técnica. 

Os especialistas consideram que este Europeu pode ditar o fim do mito de que quem tem a bola ganha. As equipas que apostarem na transição rápida e na capacidade de projetarem três jogadores na frente em menos de dois segundos, após uma recuperação de bola, estão mais perto de vencer, da mesma forma que a utilização do guarda-redes como quinto jogador de campo pode ser determinante.

Os melhores nacionais

É a 11.ª participação de Portugal num Europeu de futsal. «O passado é espetacular, mas não nos traz qualquer vantagem para a competição que vamos disputar», lembrou o selecionador Jorge Braz. A lista de 14 convocados alia experiência e juventude. De salientar as estreias na fase final de uma grande competição de Bernardo Paçó, Diogo Santos e Rúben Góis, jogadores que trazem sangue novo à seleção. Em contrapartida, há a registar duas ausências importantes: Zicky Té, devido a lesão, e João Matos. Pany Varela, Pauleta e Lúcio Rocha, eleito o melhor jogador jovem no Mundial de 2023, são alguns dos jogadores mais influentes de Portugal e que podem fazer a diferença. 

«É a primeira vez que deixo quase uma equipa de fora, mas devemos olhar para isto de forma positiva. Os jogadores experientes são muito importantes. Depois, a irreverência do Kutchy, Lúcio e Diogo é fantástica. Estes são os melhores jogadores que temos em função dos diferentes momentos e das dificuldades que vamos encontrar», explicou Jorge Braz, que concluiu: «A mistura de gerações já aconteceu em outras competições. Se Portugal quer continuar a estar no topo, de forma sustentada e contínua, temos de olhar para os mais novos».

Em relação aos adversários da primeira fase, o selecionador afirmou: «É um grupo interessante. A Itália tem uma equipa extremamente experiente e qualificou-se de forma sensacional no playoff ao eliminar o Cazaquistão. Tem jogadores experientes, que jogaram em Portugal, e sabem muito bem competir a este nível. O novo selecionador criou uma seleção competitiva, manhosa, que sabe gerir os momentos do jogo. É um adversário interessante para iniciarmos. A Hungria é muito organizada e sabe muito bem o que fazer em todos os momentos. A Polónia é das seleções europeias que tem crescido mais, fez uma Taça das Nações fabulosa. São equipas que nos vão criar imensos problemas, mas o grupo é para vencer. Queremos estar na final e esta equipa dá-me essa garantia. Do outro lado, estão muito mais preocupados».