terça-feira, 18 ago. 2026

FIFA recua na abertura a investidores privados após ameaça de boicote liderada pela UEFA

A FIFA desistiu do polémico plano para abrir parte do seu negócio a investidores privados, depois da forte oposição da UEFA e de outras confederações. Gianni Infantino admite que a proposta gerou divisões e garante que não avançará
FIFA recua na abertura a investidores privados após ameaça de boicote liderada pela UEFA

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, anunciou este sábado que o organismo desistiu do projeto de abrir parte das suas atividades comerciais a investidores privados, cedendo à forte contestação das principais confederações mundiais e ao risco de um boicote às competições internacionais.

Num comunicado, o líder da FIFA reconheceu que a proposta acabou por dividir o futebol mundial e deixou de cumprir o objetivo de fortalecer a organização.

"Depois de ter ouvido atentamente todos os pontos de vista, tornou-se claro que o projeto criou divisões e já não serve o objetivo inicial", afirmou Gianni Infantino.

"O nosso objetivo sempre foi, e sempre será, unir e progredir. A proposta não será, portanto, aceite", acrescentou.

Pressão da UEFA travou plano da FIFA

O projeto, apresentado esta semana, previa a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma nova empresa destinada a gerir os negócios comerciais e os eventos da FIFA, aberta à entrada de investidores privados.

A intenção era captar até 4,2 mil milhões de dólares através da venda de uma participação minoritária, até 20%, permitindo elevar para cerca de 10 mil milhões de dólares o financiamento destinado ao desenvolvimento do futebol entre 2027 e 2030.

Contudo, a proposta desencadeou uma forte contestação, sobretudo da UEFA, que reúne 55 federações europeias.

Na quinta-feira, a confederação europeia ameaçou, por unanimidade, não participar nas futuras competições organizadas pela FIFA, incluindo o Campeonato do Mundo, caso o projeto avançasse.

Também a CONCACAF, que representa as federações da América do Norte, Central e Caraíbas, rejeitou formalmente a iniciativa, posição seguida pela Confederação Asiática de Futebol (AFC), que considerou não existir o consenso necessário para prosseguir.

Já a CONMEBOL, da América do Sul, pediu esclarecimentos adicionais, defendendo que o futebol deve permanecer acima de qualquer outro interesse, enquanto as confederações africana e da Oceânia adotaram uma posição mais prudente, apelando apenas à análise detalhada da proposta.

Receios de mercantilização e conflitos de interesses

Desde a apresentação do plano, dirigentes desportivos e várias federações manifestaram preocupação com uma eventual mercantilização do futebol e levantaram dúvidas sobre potenciais conflitos de interesses.

Entre os potenciais investidores apontados estava o fundo Thrive Eternal, criado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do Presidente norte-americano Donald Trump.

A eventual participação deste fundo alimentou críticas devido à proximidade demonstrada por Gianni Infantino em relação à administração norte-americana durante o Mundial de 2026.

Se o projeto tivesse sido aprovado, cada uma das 211 federações nacionais filiadas na FIFA poderia receber um pagamento extraordinário de 20 milhões de dólares no início de 2027, além de ver aumentar significativamente as verbas atribuídas no ciclo seguinte de financiamento.

Infantino procura recuperar unidade

A decisão representa um recuo significativo para Gianni Infantino, que enfrenta um momento de maior pressão interna, agravado pela recente saída do seu principal conselheiro, Carlos Cordeiro.

No comunicado, o presidente da FIFA afirmou que pretende agora reunir as diferentes confederações e federações para reconstruir o consenso em torno do futuro do futebol mundial.

Segundo Infantino, o objetivo continua a ser aumentar o investimento no desenvolvimento do futebol, especialmente nos países que mais necessitam de apoio, mas através de soluções que reúnam um amplo consenso entre todos os membros da organização.