Fernando Mamede, o alentejano mais rápido do mundo

Fernando Mamede terminou a corrida da vida aos 74 anos. Teve um percurso notável e tornou-se uma referência do atletismo português. Só faltou a merecida medalha olímpica.
Fernando Mamede, o alentejano mais rápido do mundo

Fernando Eugénio Pacheco Mamede nasceu em Beja, a 1 de novembro de 1951, e faleceu na passada terça-feira, dia 27, na sequência de um problema cardíaco. Foi um dos melhores atletas portugueses nas corridas de pista, estrada e corta-mato, como comprovam os 27 recordes nacionais, três europeus e um mundial. Desde muito jovem que tinha a paixão pelo desporto. Jogou futebol com uma bola de trapos, imaginou jogos de hóquei, mas sem patins, e corria muito. O seu grande sonho era ser futebolista do Sporting, mas acabou ser uma referência dos leões no atletismo. Começou por fazer desporto escolar com 13 anos e treinava duas vezes por dia: de manhã corria, à tarde jogava futebol. Quatro anos mais tarde venceu os atletas federados do Sporting nos 1.000 metros em pista, no Estádio Nacional, e fez saber que gostaria de ir para o clube. No dia seguinte, um responsável da secção de atletismo do Sporting entregou-lhe a ficha de inscrição. Foi o único clube que representou ao longo da carreira, que terminou em 1990. Aos 18 anos veio para Lisboa e fixou-se definitivamente no atletismo. Durante anos foi um símbolo do Sporting, mas também de Portugal, como demonstram os recordes nacionais nas corridas de velocidade, meio fundo, fundo e corta-mato. Tinha uma ponta final poderosa e era praticamente imbatível na meia distância. Esteve três anos sem perder qualquer corrida de 10.000 metros em competições internacionais. Participou nos jogos olímpicos de Munique (1972), Montreal (1976) e Los Angeles (1984) e ganhou a medalha de bronze no Mundial de corta-mato, em Espanha (1981). Além disso, foi uma vez campeão nacional de juniores, 11 vezes campeão nacional de pista, seis vezes campeão nacional de corta-mato e ajudou o Sporting a conquistar nove taças dos campeões europeus de corta-mato.

Durante anos manteve uma luta entre corpo e mente. A expectativa criada com os resultados nos treinos e nos meetings internacionais foram um peso demasiado grande para o atleta, que não conseguia lidar com a pressão e acabava por falhar nas grandes competições. Os pensamentos negativos sobrepunham-se e chegou a ‘desligar’ nas eliminatórias para não ter de disputar a final no dia seguinte. Tinha medo de estar na frente e de vencer. Nessa altura, não existia acompanhamento psicológico dos atletas de alta competição. Se alguém se queixava era visto como maluquinho e era diminuído pelos colegas, só que Fernando Mamede precisava da ajuda que não veio. Já depois de ter deixado a competição teve vários quadros depressivos, que duraram anos, ao ponto de não sair de casa.

Rivais para a vida

Fernando Mamede e Carlos Lopes eram os melhores fundistas portugueses no início da década de 80. Os especialistas diziam que, do ponto de vista físico, Mamede era melhor do que Lopes, mas era frágil a nível psicológico. Nos meetings internacionais ganhou várias vezes ao rival, mas nos campeonatos do mundo e jogos olímpicos falhou sempre. A rivalidade era grande e chegou a haver momentos de tensão. Mamede confidenciou mais tarde que, enquanto fez os 800 e 1.500 metros eram amigos, quando passou para os 5.000 e 10.000 metros (as disciplinas preferidas de Lopes) deixaram de o ser. No meeting de Estocolmo, em 1984, travaram um duelo épico, que ficou gravado na história do atletismo português. Fernando Mamede, com 32 anos, venceu e estabeleceu um novo recorde mundial dos 10.000 metros, que se manteve durante cinco anos. Carlos Lopes reconheceu: «Mamede era mais rápido na ponta final, mas cada um lutava com as armas que tinha. Fomos colegas e fizemos coisas extraordinárias. É um ícone do desporto, às vezes mal compreendido».