quinta-feira, 05 mar. 2026

Doping: À caça do verme

Uma substância com propriedades terapêuticas caiu nas mãos  erradas e abre uma nova frente na luta contra o doping no desporto.  A medicina moderna e a procura pelas melhores performances voltam a desafiar-se numa corrida contra o tempo.
Doping: À caça do verme

Na Conferência Mundial sobre Doping no Desporto, realizada na Coreia do Sul, vários cientistas mostraram-se preocupados com o aparecimento de um novo tipo de doping, silencioso, eficaz e preocupante, que tem por base a substância M101. Não é uma hormona sintética, nem uma variante clássica do doping sanguíneo, mas sim uma hemoglobina de origem marinha, que tem uma invulgar capacidade de transportar oxigénio e melhorar o rendimento físico sem ser descoberta…

O nome comercial é HemO2life e foi desenvolvida pela empresa francesa Hemarina para fins médicos, tais como: preservação de órgãos para transplante, cicatrização de feridas e queimaduras e transfusões de sangue. Esta substância é um transportador de oxigénio derivado da hemoglobina da Arenicola marina, uma minhoca marinha muito comum na costa da Bretanha (França), que transporta até dez vezes mais oxigénio do que a hemoglobina humana, atravessando o sangue humano sem deixar marcas, sem alterar parâmetros laboratoriais e sem despertar suspeitas. Durante anos, foi apresentado como um medicamento promissor. O problema surge quando essa inovação ultrapassa o uso clínico controlado e entra no campo do rendimento desportivo. As suas características são, na verdade, muito interessantes, pois transporta 40 vezes mais oxigénio do que a hemoglobina humana, tem propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas e antioxidantes, é extremamente eficaz numa ampla faixa de temperatura (entre 4 e 40 graus centígrados) e não tem efeitos secundários. As experiências em animais deram resultados tão impressionantes quanto perturbadores. Foram injetadas pequenas doses de hemoglobina congelada extraída da Arenicola marina em hamsters, ironicamente batizados de ‘Lance A, Lance B…’ em referência a Lance Armstrong, e os resultados foram contundentes: os animais multiplicaram por dez a sua capacidade de transporte de oxigénio, a hipoxia desapareceu e a resistência aumentou, ou seja, transformaram-se em roedores imbatíveis. Além disso, revelaram um sistema imunitário reforçado e não apresentaram efeitos secundários.

Inovação perigosa

Esta substância devia ter uma aplicação estritamente médica, mas a sua utilização atravessou uma linha perigosa e alguns laboratórios na China e Bielorrússia estão a desenvolvê-la como agente dopante. Sabe-se também que o mercado negro está ativo e que há grande procura pela M101. Vários atletas admitiram ter usado esta substância para melhorar o seu rendimento, o que está a preocupar a Agência Mundial Antidopagem (WADA).

A manipulação do sangue e dos seus componentes e as transfusões sanguíneas são proibidas no desporto, mas existe outra forma de adulterar a verdade desportiva através de transportadores de oxigénio à base de hemoglobina. Essa prática é usada em modalidades de endurance, como o atletismo de longa distância, o ciclismo, o triatlo e as corridas de montanhas, onde o desempenho atlético depende da capacidade de fornecimento de oxigénio. Ou seja, esses transportadores de oxigénio são potenciais agentes dopantes que têm um enorme impacto no desempenho desportivo.

É precisamente isso que acontece com a M101, que atua como transportador de oxigénio para os músculos e outros órgãos e melhora o rendimento, a resistência aeróbica e retarda o aparecimento da fadiga, sem os efeitos colaterais de outras substâncias, como a eritropoietina (EPO). Segundo especialistas em doping, esta substância circula no plasma sanguíneo sem modificar os parâmetros clássicos como o hematócrito, os reticulócitos ou a ferritina, isto é, sem alterar os marcadores sanguíneos o que torna o passaporte biológico (a principal ferramenta no combate ao consumo de doping) totalmente ineficaz. Para tornar ainda mais complexa a situação, a M101 tem uma rápida degradação - a sua vida é de apenas algumas horas - pelo que o processo de recolha do sangue e a chegada ao laboratório para preservação tem de ser muito célere.

Perante este cenário, a WADA já emitiu alertas e está a intensificar esforços para ampliar a análise de amostras de sangue, que poderão ser congeladas e armazenadas até 10 anos. Essa medida vai permitir a reanálise futura com tecnologias mais avançadas, aumentando as chances de detetar o uso de M101. Nos Jogos Olímpicos de inverno Milão Cortina 2026, que se realizam entre 6 e 22 de fevereiro, foi criado um novo protocolo de deteção e as amostras de sangue são levadas, em apenas meio dia, para os laboratórios em Roma, Lausanne e Colónia, que têm capacidade para detetar hemoglobina não humana.

O doping sempre foi num problema muito complexo na alta competição e esta nova substância é uma séria ameaça à verdade desportiva. A narrativa da emoção e dos atletas que conseguem feitos extraordinários perde algum sentido, mas isso não é de agora.

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