quarta-feira, 09 set. 2026

Ciclismo. Descida ao inferno

Uma onda de choque atingiu a caravana da Volta a Portugal em bicicleta quando se soube da morte de Finlay Tarling. O jovem de 19 anos colidiu com uma carrinha que nunca deveria ter entrado no percurso. A segurança total, afinal, não existe
Ciclismo. Descida ao inferno

O ciclismo enfrenta um problema crescente: a segurança dos atletas. Os últimos anos foram marcados por acontecimentos trágicos, incluindo três acidentes mortais em prova e quedas graves, que puseram em evidência os perigos deste desporto. Mas o acidente mortal de Finlay Tarling, no decorrer da oitava etapa da 87.ª Volta a Portugal, ultrapassou tudo aquilo que de pior se podia imaginar.

O jovem galês da NSN Development Team seguia na cauda do pelotão quando embateu contra uma carrinha, que não devia estar no percurso, e teve morte imediata. Esta fatalidade causou profundo pesar no mundo do ciclismo e motivou uma forte reação por parte da Associação de Ciclistas Profissionais (CPA), que exige mudanças na gestão do tráfego durante as corridas e nas normas de segurança dos capacetes. Ciclistas e associações profissionais levantam, inclusivamente, a questão sobre se faz sentido realizar provas se não existir máxima segurança.

É certo que houve uma infeliz conjugação de fatores que levou a esta tragédia. No momento do acidente, o pelotão estava partido em três e havia três corredores que tinham ficado para trás, um deles era Finlay Tarling. Depois de solucionado o problema mecânico na sua bicicleta, o jovem lançou-se a toda a velocidade numa descida rápida na tentativa de apanhar o pelotão e sem qualquer carro de apoio por perto. Como o carro de segurança não tinha passado, o ciclista galês julgou que estava seguro. O condutor da carrinha envolvida na tragédia esteve parado num acesso secundário, assistiu à passagem do pelotão e, como não passou mais ninguém nos minutos seguintes, pensou que a prova tinha acabado e entrou no percurso, em sentido contrário. É nessa altura que se dá o acidente no interior de uma curva para a esquerda, que o ciclista tinha cortado – todos os corredores fazem essa manobra para curvarem mais depressa. O condutor foi surpreendido pelo infeliz Finlay Tarling e ficou em estado de choque com o que viu a seguir.

As imagens captadas pouco depois do acidente, onde se vê a bicicleta destruída e a carrinha danificada, são chocantes e incompreensíveis. Carlos Canatário, porta-voz da Guarda Nacional Republicana (GNR), explicou a dinâmica do acidente: «Soltou-se da viatura de apoio numa descida e a GNR não conseguiu acompanhá-lo», disse o militar.

Que segurança?

Qualquer organização tem como prioridade a segurança dos ciclistas e do público. A Volta a Portugal utiliza um bloqueio móvel de estradas. É um sistema que cria uma bolha em torno da corrida, com os veículos da organização e da Polícia a fecharem temporariamente os cruzamentos e os acessos ao percurso com meios humanos e barreiras, o que não aconteceu neste caso. Um carro da GNR anuncia a aproximação da prova e corta o trânsito entre 15 e 30 minutos antes da passagem dos corredores. No fim da caravana, vem o chamado ‘carro vassoura’ e uma viatura da GNR com a indicação ‘Fim de prova’, a partir desse momento as estradas são reabertas gradualmente.

O problema surge quando há ciclistas muito atrasados em relação ao pelotão. Os condutores pensam que depois de passar o grupo da fuga e o pelotão a corrida terminou e entram no percurso, como aconteceu na oitava etapa. Nas etapas de alta montanha nas grandes voltas, a diferença entre a frente da corrida e os mais atrasados pode ser de 45 minutos. No caso do ciclista Finlay Tarling não existe qualquer registo oficial do seu atraso.

Este acidente mostra que é extremamente complicado garantir a segurança total dos ciclistas ao longo de tantos quilómetros de uma etapa, como admitiu o porta-voz da GNR: «É humanamente impossível colocar um militar da Guarda em todos os acessos da prova, pelo que são priorizados os acessos em que é mais provável encontrar-se pessoas e viaturas». Relativamente àquele local em concreto, explicou: «Não estava nenhum militar porque não era um dos locais que tinha sido priorizado na avaliação feita. Era um acesso secundário, deveria possuir apenas sinalética». De salientar que o destacamento da GNR para esta prova era composto por 22 motos e quatro automóveis ligeiros. Ainda assim, as coisas correram mal, pelo que a sinalização também vai ser alvo de investigação.

Se o plano operacional foi bem executado, então, a segurança numa de prova de estrada tem uma área cinzenta muito perigosa. É precisamente aí que surge um dos maiores desafios do ciclismo: transformar temporariamente centenas de quilómetros de estradas públicas numa zona de competição totalmente protegida.

A segurança numa corrida de ciclismo é um processo complexo, onde cada interveniente desempenha um papel específico para proteger os ciclistas, mas não é infalível. O maior perigo vem dos condutores que não respeitam as instruções, não querem esperar e entram no percurso, apesar da proibição formal. Não sabemos o que levou o condutor da carrinha a seguir viagem (desconhecimento? negligência?), mas sabemos que o seu comportamento ceifou a vida a um jovem corredor de 19 anos.

O antigo ciclista Jérôme Pineau, que participou em várias grandes voltas entre 2002 e 2015, fez uma observação pertinente. «Tudo isto deve preocupar as autoridades responsáveis», disse, referindo-se à União Ciclista Internacional (UCI). «Eles têm de implementar processos de aprovação e, se a segurança não estiver garantida, se os organizadores não forem capazes, não deveriam estar autorizados a organizar o evento».

O francês fez essa observação tendo como exemplo a Volta a França, uma prova em linha com fecho total de vias por longos períodos e barreiras extensas, só possível de fazer porque tem um orçamento milionário, ao contrário do que acontece com outras provas.

O problema não é novo. Em 2020, Max Schachmann foi atropelado por um carro que tinha entrado no percurso da Il Lombardia, em Itália. E nos últimos anos houve outras situações perigosas envolvendo veículos alheios à corrida.