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Quando as bolinhas da sorte colocaram o estreante Bodo/Glimt no caminho do Sporting, muitos adeptos respiraram de alívio, já que a outra hipótese era o Real Madrid. Puro engano! Do norte da Europa veio uma onda de choque que gelou as expetativas sportinguistas com a derrota (0-3) frente ao vice-campeão norueguês na primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Na terça-feira (17h45), o Sporting vai ter de jogar muito mais e melhor para dar a volta à eliminatória.
A fria cidade de Bodo tem cerca de 50.000 habitantes – conseguiam encher o Estádio José Alvalade… – que andam orgulhosos e felizes com os feitos desportivos do seu clube. Tem uma população determinada e criativa que, em dia de jogo, enche a cidade de bandeiras amarelas, a cor do Bodo/Glimt. Praticamente todas as pessoas, de avós a netos, vestem-se de amarelo e nas escolas celebra-se o dia com cânticos do clube. Há, verdadeiramente, uma ‘febre amarela’ nesta pequena cidade localizada 80 quilómetros acima do Círculo Polar Ártico.
A equipa joga no pequeno Aspmyra Stadion, com capacidade para 8.270 espectadores. São poucos, mas criam uma atmosfera única na Noruega. Ao contrário do que acontece na maioria dos países europeus, o campeonato disputa-se entre março e novembro devido às condições climáticas adversas e todas as equipas jogam em campos de relva artificial. Os desconhecidos jogadores do Bodo/Glimt (glimt significa raio) transformaram o clube numa estrela do futebol europeu. Depois de terem eliminado o Inter Milão – a Opta dava 0,3% de hipótese de qualificação –, os noruegueses sabiam quem iam defrontar: o Sporting ou Manchester City. O sorteio fez a vontade ao capitão Patrick Berg. «Prefiro jogar com novas equipas. É sempre divertido ter desafios diferentes. O Sporting é uma equipa com uma rica história e que admiro muito», disse.
A história não ganha jogos, mas é um indicador a ter em conta. Desde 2020, o Bodo/Glimt realizou 44 jogos europeus em casa e venceu 33 (75%), o que deixava antever dificuldades para o Sporting, como veio a verificar-se. A equipa nórdica esteve sempre em alta rotação, realizou transições rápidas, pressionou muito, teve eficácia no passe e dominou grande parte dos momentos do jogo. Além disso, os seus jogadores revelaram uma capacidade física impressionante e ganharam quase todos os duelos físicos. O treinador do Bodo/Glimt foi mais esperto e competente em todos os sentidos.
Já o Sporting esteve adormecido e revelou uma confrangedora falta de atitude. Os dados da GoalPoint dizem que não teve qualquer situação flagrante de golo! Sofreu uma derrota pesada por ‘falta’ de comparência e não por causa do piso sintético. Apesar disso, o treinador Rui Borges mantém a confiança na passagem aos quartos de final: «Vai ser difícil, mas não impossível». Sobre o jogo, admitiu falhas: «Tivemos algumas dificuldades com as marcações e devíamos ter tido outra atitude competitiva e maior disponibilidade para jogar e correr, o que não aconteceu. Não conseguimos acompanhar a intensidade do Bodo/Glimt e isso é responsabilidade do treinador. Este resultado serve de lição para todos».
De salientar que o Sporting não foi a primeira equipa portuguesa a passar por dificuldades. Na temporada passada, o Bodo/Glimt derrotou o FC Porto (3-2) e foi a Braga vencer (2-1) em jogos da Liga Europa. Em 2021, tinha goleado (6-1) a Roma de Mourinho na Liga Conferência. Os mais atentos ao futebol europeu sabem o risco que correm ao passar o Círculo Polar Ártico.
O segredo do sucesso
O Bodo/Glimt foi fundado em 1916 e dedica-se exclusivamente ao futebol, mas até final da década de 60 também tinha esqui no programa de atividades. As equipas do norte, onde estavam os rapazes das camisolas amarelas, só começaram a disputar o campeonato nacional a partir de 1972 por «incapacidade de medir forças com as equipas do sul», diziam os responsáveis pelo futebol norueguês. Chegou à primeira liga em 1977, mas estreou-se na Europa um ano antes, já que ao vencer a Taça na Noruega ganhou o direito a participar na Recopa, em 1976/77, onde foi eliminado pelo Nápoles. Viveu uma fase atribulada entre 1980 e 2017. Desceu por quatro vezes à segunda divisão e esteve à beira da falência em 2016, foi salvo graças às contribuições de uma comunidade piscatória local. A partir de 2018 estabilizou, venceu quatro campeonatos e foi três vezes vice-campeão nos últimos oito anos. Ganhou ainda uma Taça da Noruega e nove Taças do Norte da Noruega. Na temporada passada chegou às meias finais da Liga Europa, tendo sido eliminado pelo Tottenham, que ganhou a competição.
O orgulho nórdico do Bodo/Glimt superou barreiras e envergonhou os grandes da Europa. Numa altura em que o campeonato estava parado devido ao inverno, derrotou o Manchester City (3-1), foi a Madrid vencer o Atlético (2-1) e eliminou o vice-campeão europeu Inter Milão, com a particularidade de ter ganho os dois jogos (3-1 e 2-1). Está pela primeira vez nos oitavos de final da Liga dos Campeões e igualou o feito do Ajax de Johan Cruyff, que, em 1971/72, foi o primeiro clube de uma liga menor a ganhar quatro jogos consecutivos a adversários das cinco principais ligas europeias.
O sucesso desportivo explica-se por uma receita local: 23 dos 28 jogadores do plantel são noruegueses e muitos nasceram nesta cidade portuária e fizeram a formação no clube. Dos cinco estrangeiros, apenas um não é nórdico (quatro dinamarqueses e um russo). Não tem grandes investidores, leia-se multinacionais a patrocinar, e gastou apenas seis milhões de euros a contratar jogadores esta época. Numa competição dominada por uma aristocracia financeira, que torna quase impossível as epopeias dos pequenos, o Bodo/Glimt é o clube mais disruptivo do futebol europeu.
Ocupa atualmente o 34.º posto no ranking UEFA e tem um plantel avaliado em 57,1 milhões de euros, segundo o Transfermarkt. Os dois jogadores mais bem pagos recebem oito milhões de euros por época, mas há também quem receba 250 mil euros. O Inter Milão tem um valor de mercado de 666 milhões de euros (11 vezes mais) e 17 das suas estrelas valem mais de 10 milhões de euros... e foi o que se viu.
O grande responsável pelo espetacular desempenho europeu é o treinador Kjetil Knutsen. Este antigo professor do ensino secundário chegou ao clube há oito anos e tem como referência Jürgen Klopp, ex-treinador do Liverpool. Fez uma autêntica revolução na mentalidade e no estilo de jogo, que passou a ser mais intenso e ofensivo. Levou o Bodo/Glimt à primeira divisão e foi campeão da Noruega quatro vezes.
Os adeptos têm uma forma muito peculiar de apoiar a sua equipa: levar escovas de dentes gigantes. A origem desta manifestação reporta a década de 70, quando o líder da claque pediu algo que servisse de batuta e deram-lhe uma escova de dentes amarela, que passou a ser o símbolo do clube. Durante alguns anos, até o capitão da equipa adversária recebia uma escova de dentes normal antes do jogo começar. O Bodo/Glimt é, sem dúvida, um clube diferente, com um estado de espírito coletivo, muito típico da sociedade escandinava.
Nos outros jogos da primeira mão dos oitavos de final registaram-se os seguintes resultados:
Newcastle 1 – Barcelona 1;
Atalanta 1 – Bayern 6;
Galatasaray 1 – Liverpool 0;
Atlético Madrid 5 – Tottenham 2;
PSG 5 – Chelsea 2;
Real Madrid 3 – Manchester City 0
e Bayer Leverkusen 1 – Arsenal 1.