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O avançado espanhol do Celta de Vigo, Borja Iglesias, voltou a demarcar a sua posição como ativista contra a homofobia. Desta vez, numa entrevista ao meio de comunicação francês L'Équipe, explicou como lida com os insultos de que é alvo.
“No início, os insultos afetaram-me; tomei-os como algo pessoal. Mas, depois de refletir, vejo de outra forma. Chamarem-me 'maricas' não me parece um insulto. Quando alguém diz isso, acredito que seria muito mais feliz a ser 'maricas' do que eles, cheios de ódio, sem nada melhor para fazer do que lançar insultos no final de um jogo", explicou, lamentando ainda que existam pessoas homossexuais com "medo" de se assumir por "este tipo de reações". "Não poder ser quem és e amar quem quiseres é inaceitável", acrescenta.
A homossexualidade como um "tabu" no futebol
Borja Iglesias tem uma perspetiva pessimista relativamente à possibilidade de futebolistas homossexuais se assumirem sem problemas, dizendo que esse dia "ainda está longe". “Entristece-me que ainda pareça impossível que jogadores assumidos possam revelar-se. Devem sentir, e compreendo perfeitamente, que se falassem perderiam tudo o que conquistaram. Espero que possamos criar um ambiente suficientemente saudável onde todos possam fazer o que quiserem sem que ninguém julgue o seu trabalho por isso. Acredito que estamos mais perto do que nunca desse momento, mas infelizmente ainda estamos longe. Em vinte anos no mundo do futebol, nenhum colega me contou algo assim, e isso leva-me a refletir", revela.
O avançado do clube espanhol recorda ainda o papel de outros futebolistas que "desafiaram as normas". "Jogadores como David Beckham ou Guti propuseram visuais e um modelo de masculinidade diferentes. Eles mudaram a imagem do futebol e ajudaram-nos a ser mais livres", afirmou.
O episódio das unhas pintadas
"Panda", como é conhecido, recebeu o apoio dos adeptos após estes aparecerem num jogo do Betis, a sua equipa na altura, com as unhas pintadas, símbolo característico do espanhol. Borja explicou como tudo começou: "Durante o confinamento, com a minha ex-namorada, em casa, tinha medo do que iam dizer. Pouco depois, o movimento Black Lives Matter impactou-me bastante. Por isso, pintei as unhas de preto para dar visibilidade a esta causa e combater atitudes racistas em Espanha." "Pintar as unhas dá-me a sensação de poder expressar algo, como um corte de cabelo ou uma tatuagem. Não faço sempre; depende do meu estado de espírito. Às vezes uso cores ou padrões diferentes", afirma.
Os adeptos tomaram esta iniciativa após o espanhol ter sido novamente alvo de críticas homofóbicas nas redes sociais após um jogo contra o Sevilha.
A luta contra a "masculinidade tóxica" no futebol
Um dos acontecimentos que mais marcou Borja Iglesias está relacionado com o futebol feminino espanhol quando, em 2023, Luis Rubiales, então presidente da Federação espanhola, beijou à força a jogadora Jennifer Hermoso. Após o anúncio da não demissão do presidente na altura, Borja informou que se retiraria da seleção espanhola se o caso não fosse tratado "com justiça". Após Rubiales ter sido despedido, "Panda" voltou a ser convocado e poderá agora vir a disputar o Mundial de Futebol.
Além disso, Iglesias tem-se manifestado sobre a questão salarial no futebol feminino, como uma espécie de "exemplo para os homens", explicando que o objetivo não é "retirar dinheiro aos homens". "Dei-me conta de que os meus colegas de equipa tinham medo de ser menos bem pagos se as futebolistas o fossem mais. Mas não se tratava disso! O futebol feminino precisa de obter mais dinheiro para desenvolver a sua formação e infraestruturas", defendeu. Explicou ainda que o aumento salarial das jogadoras iria tarzer uma maior atratividade do desporto.
"Sinto a pressão de ser uma espécie de justiceiro"
Na entrevista, enquanto lamentava a impossibilidade dos futebolistas "serem quem querem ser", recordou o caso do australiano Josh Cavallo. O jogador tem-se queixado nos últimos de várias situações de homofobia.
"Panda" reconhece que escolher posicionar-se nestas lutas ativistas lhe traz uma nova responsabilidade além de jogador de futebol. "Hoje, sinto a pressão de ter de ser uma espécie de justiceiro", revelou.