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Carlos Barros fez parte da família Peugeot durante mais de duas décadas. Esteve envolvido no desenvolvimento do 205 T16, que foi bicampeão do mundo de ralis de grupo B, teve igualmente um papel ativo no 405 T16, que venceu o Paris-Dakar e a louca rampa Pikes Peak, e trabalhou com alguns dos melhores pilotos do mundo. Depois de terminada a passagem pelo Mundial de resistência, teve excelentes oportunidades de trabalho, que eram o sonho de muitos, mas que recusou por uma razão mais forte: «Fui convidado pelo Jean Todt para trabalhar na Ferrari e pela equipa Sauber de Fórmula 1, mas tive de dizer que não por questões familiares». Foi ainda diretor desportivo da Peugeot Sport Portugal, uma das equipas de ralis mais bem-sucedidas a nacional e internacional. Atualmente, faz parte da equipa de inspetores da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) no Mundial de Endurance (WEC), e foi durante as 24 Horas de Le Mans que falámos com este ‘mago’ das corridas.
Carlos Barros era o responsável máximo pelo Peugeot 905 que venceu as 24 Horas de Le Mans em 1992, um marco importante na sua carreira, como nos contou. «Fiquei muito feliz com a vitória do meu carro. É uma sensação única. Para alguém como eu que sempre esteve ligado ao desporto automóvel, são memórias que nunca se vão apagar», disse com natural satisfação. Passados 34 anos, recordou como tudo aconteceu. «No final da década de 1980, começámos a trabalhar no 905. O motor V10 atmosférico foi desenvolvido de acordo com o regulamento da altura e, curiosamente, no final do projeto, em 1993, foi utilizado nos Fórmula 1 da McLaren e da Jordan».
Participar nas 24 Horas de Le Mans é o sonho de quem gosta de corridas e para os construtores vencer esta prova é mais prestigiante do que ganhar o campeonato. «O trabalho de preparação e desenvolvimento é extremamente importante e a primeira regra é não ter problemas mecânicos e não cometer erros na box. Na primeira participação tivemos alguns problemas com as caixas de velocidades. A intensidade e a adrenalina era tanta que não dormi durante a noite», disse. Carlos Barros falou de dois momentos especiais: «Em 1992, conquistámos o título de construtores e vencemos as 24 Horas de Le Mans. No ano seguinte, conseguimos o feito extraordinário de colocar três carros no pódio. Não foi o meu carro que ganhou, mas fiquei muito satisfeito pela vitória da Peugeot», salientou.
Ao olhar para os carros atuais, fez uma analogia curiosa. «Os carros do meu tempo eram mais simples, os atuais Hypercar têm bastante eletrónica e são mais fáceis de conduzir. O 905 era um carro extraordinário, penso que ainda hoje fazia bons tempos em Le Mans, mas os pilotos tinham de se esforçar mais». A relação entre o piloto e a box durante a corrida também mudou muito: «Atualmente, o piloto quase não diz nada. Graças aos computadores, os engenheiros têm toda a informação e sabem o que se passa com o carro a todo o momento, antes só havia a telemetria e muita comunicação». Em termos de condução, há grandes diferenças entre os Sport Protótipos dos anos 90 e os atuais Hypercars. «Os carros antigos eram puros e duros e mais difíceis de conduzir, os atuais Hypercars até têm ar condicionado», gracejou.
Quando lhe perguntámos qual dos dois Mundiais (resistência ou ralis) gosta mais, a resposta foi rápida: «Gosto mais de ralis. É uma disciplina espetacular, um piloto de ralis tem muito mérito. Primeiro tem de acreditar no navegador, depois tem de se adaptar às condições do terreno, que estão constantemente a mudar», e voltando ao passado, salientou: «Os carros de grupo B não faziam sentindo. Era demasiada potência e teve consequências trágicas».
Carlos Barros trabalhou com vários campeões do mundo, caso de Ari Vatanen, Juha Kankkunen e Timo Salonen, mas também com Michele Mouton e Bruno Saby. «É difícil dizer qual era o melhor. O Vatanen era um pouco estranho, às vezes falava com o carro e dizia que ia ganhar. Era um excelente piloto, o problema é que não sabia gerir o andamento e acabava por sair de estrada. O Salonen não era bom a afinar o carro, mas conseguia ser muito rápido, com a particularidade de acender um cigarro logo que terminava um troço. Tive de lhe dizer para ter cuidado porque os cigarros iam parar às entradas de ar para o motor».