Colocam-se duas embarcações longas e estreitas, com nove pessoas a bordo (oito remadores e um timoneiro), a competir no rio Tamisa e está criado um dos eventos desportivos mais famosos do mundo. A beleza desta regata organizada pela The Boat Race Company Limited está na sua simplicidade e na histórica rivalidade entre Oxford, a universidade de língua inglesa mais antiga do mundo e onde foram filmadas algumas cenas da saga Harry Potter, e Cambridge, a segunda mais antiga do mundo. A Boat Race 2026 masculina e feminina realiza-se este sábado num percurso desafiante em S com 4,2 milhas (6,8 km), entre os bairros londrinos de Putney e Mortlake.
Desde a primeira edição que existe uma enorme rivalidade entre as duas instituições de ensino superior, não faltando sequer manobras ousadas na procura incessante da linha ideal no meio do rio. Até ao momento foram disputadas 170 edições de uma regata amadora, que simboliza o desafio atlético, o sacrifício pessoal e o espírito de equipa. Cambridge lidera com 88 vitórias contra as 81 de Oxford e há um empate… Cambridge detém também o recorde da prova mais rápida, com 16 minutos e 19 segundos, que deu a vitória em 1998.
A Boat Race é uma prova que apaixona as pessoas, a maioria não se interessa pelo remo, só veem o lado tradicional e a grande rivalidade entre as duas universidades. A edição do ano passado teve cerca de 250 mil pessoas a assistir nas margens do Tamisa e uma audiência superior a 100 milhões de telespetadores em todo o mundo. Além disso, gerou um impacto económico para a economia local de 15 milhões de libras (17,3 milhões de euros). É um dia em cheio para os pubs e restaurantes e para as bandas musicais que criam um ambiente de festival à volta da prova.
Os musculados estudantes universitários utilizam barcos de 19 metros de comprimento e 95 quilos de peso feitos em fibra de carbono, que custam cerca de 60 mil euros. O design muito apurado minimiza o atrito com a água e torna-os bastante velozes. As embarcações respeitam as normas da British Rowing Row Safe e não podem ter qualquer mecanismo de remo deslizante ou oscilante.
Embora não sejam profissionais, os remadores levam a preparação física muito a sério. O plano de treino é extremamente exigente; são 1.200 horas de treino, sete dias por semana, durante seis meses… antes de irem para as aulas.
As condições de participação são também muito rigorosas e houve momentos de tensão entre as duas universidades devido aos critérios de elegibilidade. Cambridge contestou a participação de três remadores da equipa rival dizendo que não podiam participar porque estavam a frequentar um curso de pós-graduação, ao que Oxford justificou que era apenas uma certificação. Mais tarde, três remadores de Cambridge, incluindo Matt Heywood, medalha de prata do Campeonato Mundo, ficaram de fora depois de Oxford ter contestado a sua elegibilidade.
A regata tem dez regras e é arbitrada por um juiz escolhido pelos presidentes dos clubes de remo universitários. O árbitro a gritar para avisar os participantes faz parte da tradição. No plano desportivo, Cambridge dominou as últimas edições e espera-se uma resposta convincente de Oxford, que não vence a regata masculina desde 2022 e a seca de vitórias da equipa feminina remonta a 2016. As duas universidades têm naturalmente apoiantes, que ficam em margens opostas. O grupo de Cambridge reúne-se na Wentworth House, enquanto os apoiantes de Oxford concentram-se na Linton House.
Ao contrário de outros eventos desportivos de grande visibilidade, não é atribuído qualquer prémio monetário à equipa vencedora. A tripulação recebe medalhas e o Aberdeen Quaich, um pequeno troféu de prata com o mapa do percurso no seu interior. A maior recompensa que têm é verem os seus nomes gravados nas paredes do Club House das respetivas universidades e na história da Boat Race. A festa acaba (quase) sempre com um mergulho no rio Tamisa dos vencedores. Só que nos dois últimos anos isso não aconteceu devido aos níveis elevados da bactéria e. coli na água.
Desafio histórico
A 10 de fevereiro de 1829, o Cambridge University Boat Club enviou a seguinte missiva para Oxford: «A Universidade de Cambridge desafia, por este meio, a Universidade de Oxford para uma regata em Londres ou nas proximidades, cada uma num barco de oito remos, durante as férias da Páscoa seguintes». Foi um desafio arriscado, já que o remo de oito era popular na Universidade de Oxford.
O desafio foi aceite e a primeira regata realizou-se no rio Tamisa, em junho de 1829, com vitória de Oxford e mais de 20 mil pessoas a assistir ao longo das 2,2 milhas (3,6 km), entre Hambleden Lock e Henley Bridge. A imprensa descreveu os dois barcos como «muito bonitos e construídos com um estilo de acabamento superior». O início da corrida foi atribulado, o barco de Oxford aproximou-se demasiado do barco de Cambridge, forçando-o a remar junto da margem, o que motivou reclamações da tripulação de Cambridge, que insistiu para que a corrida fosse reiniciada. Oxford aceitou e houve uma segunda partida. As duas embarcações andaram muito tempo lado a lado, quando apanharam a corrente mais forte os jovens de Oxford mostraram a sua força e ganharam facilmente a prova. O jornalista do The Morning Post escreveu de forma prosaica: «As tripulações empregaram a força dos seus braços com excelente estilo».
O vencedor recebeu um prémio de 500 guinéus (um guinéu equivalia a 1 libra), moeda em ouro da Guiné usada nas corridas de cavalos, que serviu também para premiar os vencedores da Boat Race. O perdedor voltou a desafiar Oxford e a prova manteve-se até aos dias de hoje. Realizou-se de forma intermitente até 1856, a partir daí tornou-se um evento anual, interrompido apenas pela Primeira e Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, pela pandemia de covid-19.
A competição está repleta de controvérsias, colisões e até naufrágios. A edição de 1877 teve dois vencedores! Os últimos 100 metros foram emocionantes e as duas equipas alegaram ter ganho, mas o juiz da regata, John Phelps, considerou que as proas dos barcos tinham chegado ao mesmo tempo. Uma decisão controversa, pois, segundo relatos de época, o árbitro tinha mais de 70 anos e graves problemas de visão. Em 1912, a regata realizou-se em condições meteorológicas adversas e as duas embarcações afundaram-se. A prova recomeçou no dia seguinte com vitória de Oxford. Na edição de 1925, o barco de Oxford ficou inundado e acabou por se afundar dando a vitória a Cambridge. Anos mais tarde, em 1978, Cambridge foi vítima da forte corrente e do vento contrário e o barco afundou-se e a vitória foi para Oxford.
Em 1981, os espíritos mais conservadores ficaram chocados quando Oxford escolheu Sue Brown, estudante de bioquímica, para o cargo de timoneira. «Existe uma prova reservada às mulheres. Por que tem de vir perturbar a nossa?». questionaram. Foi a primeira mulher a participar na regata masculina e ganhou. «Todos me pediam para desistir. Um jornalista chegou a perguntar-me se tencionava maquilhar-me», contou.
A Boat Race feminina realizou-se pela primeira vez em 1927 – 50 anos antes da introdução do remo feminino nos jogos olímpicos – e foi ganha por Cambridge. O jornal Sheffield Independent escreveu que: «As raparigas de Cambridge foram exortadas a remar como o diabo. Depois de tudo ter acabado, pediram cigarros em voz alta». Também aqui Cambridge leva vantagem, com 49 vitórias, contra 30 de Oxford.