terça-feira, 08 set. 2026

A Quinta de Pogacar

Tadej Pogacar está habituado a deixar o resto do mundo para trás e a triunfar nas maiores clássicas do ciclismo. A quinta vitória na Volta a França tornou normal aquilo que é extraordinário.
A Quinta de Pogacar

A Volta a França é o auge do ciclismo profissional, que cria super-heróis e cativa milhões de pessoas. Há mais de um século que os melhores ciclistas do mundo desfilam pelas pitorescas estradas francesas e trepam extenuantes montanhas antes de chegar ao paraíso dos Champs-Élysées, em Paris. De entre todos, há um nome que se destaca: Tadej Pogacar. Com o quinto triunfo, igualou os grandes nomes do ciclismo mundial Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain. Há, contudo, uma pequena diferença: Tadej Pogacar ganhou pela primeira vez aos 20 anos, enquanto os outros tinham mais de 23.

«Foi um dia excecional, com um ambiente incrível. Estou feliz por ter vencido pela quinta vez», afirmou depois de concluir a prova a uma média recorde de 43,2 km/h. «Cada uma das minhas cinco voltas conta uma história diferente e suscita emoções diferentes. Além disso, participei sete vezes e subi sempre ao pódio. Cinco vitórias são algo que provavelmente nem sequer escreveria num livro de histórias. Quero aproveitar este momento, sem pensar na história, nos recordes ou em qualquer outra coisa», disse o esloveno, enquanto a família fazia a festa.

O registo do bicampeão do mundo na Volta à França é verdadeiramente impressionante; dos 16.911 quilómetros percorridos nas cinco vitórias, Tadej Pogacar percorreu 9.496 quilómetros com a camisola de líder, ou seja, 56,1 % da distância, e venceu 26 etapas. O ciclista da UAE Emirates-XRG, de 27 anos, explicou a razão do sucesso: «Há muitos fatores, mas o mais importante é gostar do que se faz e ter à nossa volta pessoas em quem confiamos, que nos apoiam quando estamos no nosso pior momento. Dessa forma, podemos crescer e perseguir os nossos sonhos», disse o penta-vencedor da Volta a França, que não baixa o ritmo. «Tento sempre ter objetivos. Depois disto, terei de encontrar novos», avisou. Depois de vencer em 2020, 2021, 2024, 2025 e 2026, não é difícil perceber que regressará no próximo ano para conquistar a sexta vitória. Colecionar triunfos na mais dura prova do ciclismo mundial só está ao alcance dos superdotados. «É preciso sofrer e passar por muito para estar nesta corrida. Enfrenta-se os maiores rivais e todos estão aqui para dar o melhor», reconheceu.

Tadej Pogacar tem um talento excecional e parece não ter limites, não sofre quedas e não tem problemas físicos, ou seja, tem tudo para liderar o pelotão nos próximos três ou quatro anos. É muito provável que chegue às míticas sete vitórias de Lance Armstrong, cujo nome foi, posteriormente, riscado do palmarés devido a casos de doping. A aparente facilidade com que dominou a prova levantou algumas dúvidas e o esloveno teve de fazer um teste antidoping às cinco da manhã. «Antes das etapas de montanha mais importantes somos submetidos a controlos muito rigorosos, aconteceu quatro ou cinco vezes nas sete edições em que participei. Eles estão a fazer o seu trabalho. Quando ouço bater à porta, a primeira coisa que me vem à cabeça é que se trata de um controlo antidoping. Tornou-se tão comum para mim como ir às compras ao supermercado», gracejou.

Do futebol para o ciclismo

O seu interesse pelo desporto surgiu muito cedo. Começou a jogar futebol com sete anos no NK Komenda, mas o seu irmão desviou-o para o clube de ciclismo Rog Ljubljana quando tinha 9. Aos 10 ganhou a sua primeira corrida. O quinto triunfo de Tadej Pogacar na Volta a França veio confirmar a ideia deixada em 2019 quando terminou a Volta a Espanha - a sua primeira grande prova - no terceiro lugar. Depois, foi sempre a subir até se tornar o melhor ciclista da atualidade. É implacável com os adversários quando ataca, calculista a gerir a vantagem e solidário com colegas, como se viu nesta edição ao neutralizar as tentativas de Paul Seixas e ajudar Isaac del Toro a garantir o terceiro lugar. A imagem dos dois a chegar de mãos dadas a Alpe d’Huez é reveladora do espírito de missão do esloveno. «Arrepios na pele. Vou-me lembrar desse momento para sempre. Ter o Isaac no pódio é uma conquista indescritível e algo que ninguém poderia imaginar no início», frisou. Del Toro foi o companheiro que protegeu o líder durante três semanas e é visto como o futuro protagonista da UAE Emirates-XRG, também pelo próprio Tadej Pogacar: «Não vou competir por muito mais tempo e ele tem um potencial e um talento incríveis para ser o meu sucessor».