terça-feira, 09 jun. 2026

A loucura dos recordes

O Auto Union Type C foi o primeiro grande carro de corrida dos anos 30. Ganhou tudo o que havia para ganhar e estabeleceu um recorde de velocidade ao atingir os 400 km/h… há 90 anos! Era o tempo dos gladiadores do asfalto, capazes de realizar façanhas inacreditáveis. 
A loucura dos recordes

Em junho de 1932, a Audi, a Horchwerke, a DKW e a Wanderer uniram-se para formar a Auto Union AG, cujo emblema de quatro anéis entrelaçados simbolizava a união destas empresas. À época, era o segundo maior fabricante de veículos motorizados (motos e automóveis) da Alemanha. Após receber o apoio do Estado, Hitler queria fazer da Alemanha uma potência mundial no desporto motorizado, a Auto Union criou um departamento de competição, onde foram construídas algumas das máquinas mais avançadas da época e que ficaram na história do desporto automóvel.

Projetado por Ferdinand Porsche, fundador da marca com o mesmo nome, o Type C foi desenvolvido para disputar o campeonato europeu de automobilismo de 1936 e 1937. Tinha chassis tubular em aço, carroçaria em alumínio e um brutal motor de 16 cilindros em V com 6.000 cc, sobrealimentado por um compressor Roots (pressão 0,7 bar), que desenvolvia 520 cv e alcançava os 340 km/h. O enorme ‘poder de fogo’ do motor fazia do Auto Union Type C um dos carros mais rápidos e potentes da época e foi um símbolo do domínio alemão nas pistas no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Em 1937, foi desenvolvida a versão especial Stromlinie, destinada a bater recordes mundiais, que atingiu os 400 km/h! numa autoestrada alemã com Bernd Rosemeyer ao volante. Foi utilizada em testes uma versão ainda mais radical que alcançou os 415 km/h.

O poderoso motor central traseiro estava colocado atrás do piloto e à frente do eixo traseiro e o depósito de combustível foi colocado numa zona específica para melhorar a distribuição de peso. Apesar desses esforços, 60% do peso continuava a recair sobre as rodas traseiras. Esta configuração tornava a condução muito desafiante e a elevada potência provocava a patinagem das rodas traseiras acima dos 160 km/h e uma violenta sobreviragem. O nome flecha de prata deveu-se ao facto de a marca tirar a tinta branca (cor nacional das corridas na Alemanha) à base de chumbo da carroçaria para reduzir o peso e ficou a cor metálica, uma prática que já tinha sido usada pela Mercedes no W25. 

Sem rivais em pista

Bernd Rosemeyer começou por correr em motos, mas foi ao volante do Auto Union que se destacou e venceu muitas corridas com uma condução agressiva e espetacular. Só um piloto fora de série conseguia dominar o Type C, um carro difícil de conduzir pelo comportamento selvagem. Os pilotos sentiam dificuldades com as brutais derrapagens do eixo traseiro e a posição de condução avançada agravava ainda mais a situação. Bernt Rosermeyer venceu as seis corridas disputadas em 1936 e sagrou-se campeão europeu de Grand Prix Racing. No entanto, o mesmo carro que levou Rosemeyer ao estrelato também lhe tirou a vida dois anos depois. Em janeiro de 1938, o piloto tentava bater o recorde do mundo de velocidade na autoestrada entre Frankfurt e Darmstadt quando se despistou a mais de 400 km/h, provavelmente devido a uma forte rajada de vento, foi projetado para fora da estrada e morreu, aos 28 anos. Hans Stuck, companheiro de equipa de Rosemeyer, queria continuar os testes para bater o recorde que tinha sido estabelecido nesse mesmo dia por Rudolf Caracciola (Mercedes W25) com 427 km/h, e vingar a morte do seu amigo. Terminou de forma trágica a louca correria para a glória. Nesse dia, Caracciola saiu em glória, Rosemeyer não regressou a casa. 

O Auto Union Type C participou também no Rali Liège-Roma-Liège, considerada uma das provas mais difíceis do mundo. Os pilotos tinham de manter uma velocidade mínima de 50 km/h ao longo de todo o percurso de 4.000 quilómetros, onde o mais rápido demorava cerca de 100 horas. Os pilotos quase não paravam, exceto para reabastecer. O Type C conquistou inúmeras vitórias entre 1936 e 1938, mas a limitação dos motores a três litros de cilindrada acabou com o seu reinado em 1939.

Os carros de competição da Auto Union Grand Prix apresentavam soluções técnicas inovadoras e conseguiam excelentes desempenhos em competição. Eram máquinas extremamente velozes e com uma engenharia ousada, o que despertou grande interesse das marcas rivais e não só. Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Zwickau, onde eram fabricados os Auto Union, caiu nas mãos dos soviéticos e os 13 carros de corrida foram ‘deportados’ para a ex-URSS, a maioria deles foi entregue a várias fábricas e institutos de investigação. Em 1995, a Audi conseguiu recuperar um exemplar, que está exposto no museu da marca em Ingolstadt (Alemanha).