Quando o árbitro apitou para o fim do histórico empate entre Cabo Verde e Espanha no Mundial de 2026, as câmaras procuraram imediatamente um homem. Curvado junto à baliza, em lágrimas, estava Vozinha, o guarda-redes que protagonizou uma das exibições mais marcantes da competição e que permitiu ao seu país conquistar um resultado que poucos julgavam possível.
A imagem correu o mundo. Aos 40 anos, Vozinha foi eleito o melhor jogador em campo depois de travar sucessivamente os ataques da seleção espanhola, realizando sete defesas e garantindo um empate sem golos no primeiro jogo de sempre de Cabo Verde num Campeonato do Mundo.
Em declarações ao The Guardian, o jogador descreveu o jogo como um momento pelo qual esperou "a vida toda" e disse que gostaria de ter partilhado o momento com os avós, que já faleceram, e com a sua mãe que não conseguiu estar presente.
"Chorei porque cresci com os meus avós e, infelizmente, eles não estavam cá; faleceram há alguns anos”, disse. “Eles eram tudo para mim, para a minha vida. Também chorei porque a minha mãe não conseguiu vir por causa do visto. Devido ao dinheiro que tivemos de pagar pelo visto, não conseguimos [retirá-lo] a tempo. Gostava que ela estivesse aqui, mas também estou muito feliz."
“Trabalhei toda a minha vida para este momento. Tenho 40 anos. Comecei a jogar futebol profissionalmente aos 25, em 2012. Pensei em desistir, mas continuei por causa deste sonho. Isto é para todos. Fui eleito o melhor em campo, mas isto é para todos os meus colegas de equipa, porque sem eles nada seria possível.", disse o jogador.
Mas a história de Vozinha começou muito longe dos grandes estádios...
De Mindelo para o mundo
Conhecido como Vozinha, Josimar José Évora Dias, nasceu a 3 de junho de 1986, na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. O nome Vozinha deve-se aos seus avós, com quem passou toda a infância. O pai estava no serviço militar e a mãe tinha de trabalhar para sustentar a família.
Cresceu num arquipélago apaixonado por futebol, onde os sonhos de muitos jovens esbarram frequentemente nas limitações geográficas e económicas de um pequeno país insular.
A carreira profissional levou-o a Angola, Chipre, Moldávia, jogou pelo Gil Vicente na época 2016/2017, foi até à Eslováquia e em 2024 regressou ao futebol português para representar o Desportivo de Chaves.
O símbolo de uma geração
Pela seleção cabo-verdiana estreou-se em 2012 e rapidamente se tornou uma referência dos "Tubarões Azuis".
Participou em várias edições da Taça das Nações Africanas e tornou-se uma das figuras mais influentes de uma geração que ajudou a consolidar Cabo Verde entre as seleções mais competitivas do continente africano.
Durante anos alimentou um sonho que parecia quase impossível: ver Cabo Verde disputar um Campeonato do Mundo, que foi garantido em outubro de 2025 após vencerem Eswatini por 3-0.
Muito mais do que um guarda-redes
Aos 40 anos, quando muitos jogadores já terminaram a carreira, Vozinha tornou-se um fenómeno global. O jogo frente a Espanha fez disparar a sua popularidade nas redes sociais e transformou-o numa das figuras mais admiradas.
Mas o impacto da sua história vai além do futebol. Para todos aqueles que sonham, mas enfrentam dificuldades para alcançar os seus objetivos, Vozinha representa a perseverança de um pequeno país que nunca deixou de acreditar. Um guarda-redes que passou a carreira longe dos grandes palcos e que, quando finalmente chegou ao maior deles todos, respondeu com a exibição da sua vida.
Vozinha não se tornou apenas o herói de um jogo. Tornou-se um símbolo de Cabo Verde.