A cidade de Veneza, espécie de cápsula do tempo no que à arquitetura e ao urbanismo diz respeito, transforma-se até novembro na capital mundial da arte contemporânea.
Mas para já, mais do que pelas obras apresentadas, a 61.ª Bienal está a ser marcada por protestos: de um lado, ativistas pró-Palestina exigem o boicote a Israel; do outro lado, o grupo ucraniano FEMEN indigna-se com a participação da Rússia no certame, algo que não acontecia desde a invasão da Ucrânia em 2022.
O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, já respondeu: «A Bienal não é um tribunal, é um jardim de paz», declarou na conferência de imprensa de apresentação. «Este mundo que nasceu da Revolução Francesa, do Iluminismo e do secularismo foi virado do avesso e transformado no seu exato oposto: um laboratório de intolerância, exigências de censura, encerramento e exclusão».
Falando de arte, no pavilhão chinês há robots que desenham ideogramas; no pavilhão da Argentina há uma instalação feita com sal e pó de carvão; o artista sérvio Pregrag Dakovic criou uma impactante instalação que explora a memória e a deslocação com malas e fotografias antigas; no Arsenale, os visitantes podem ver esculturas de Nick Cave. Quanto à representação portuguesa, ficou a cargo de Alexandre Estrela, que descreveu assim a sua intervenção à revista Umbigo: «O que tentei fazer em RedSkyFalls foi animar uma série de desenhos a partir de movimento animal registado em estudos de neurociências do comportamento. Os desenhos são esqueletos semi-abstractos e tornam-se concretos e quase vivos quando lhes é imputado o movimento de outras espécies, reagindo como animais aos abalos terrestres, pressentindo-os».
A Bienal também se serve fora de portas, de que é exemplo Il Gesto (na foto), do artista francês JR, uma imagem colocada na fachada do Ca’ da Mosto que se inspira na tela As Bodas de Caná, de Veronese, originalmente pintada para o mosteiro de San Giorgio Maggiore, em Veneza, saqueada por Napoleão e levada para o Louvre em 1797.