quarta-feira, 13 mai. 2026

Uma gaivota familiar

Uma gaivota familiar

O elenco de personagens é indicativo de um ar de família com os jugos aristocráticos de amores proibidos e de relações familiares (f)alhadas, em ambiente paroquial. Uma jovem ingénua que procura a fama, um jovem artista incompreendido, um escritor consagrado neurótico e inseguro, um caseiro mal-disposto, uma mãe envelhecida e cínica, uma criada amorosa, um professor simplório, uma jovem torturada, um médico dandy.

A gaivota está ali por engano, e esse é o elemento mais conseguido. Inesperado, põe em causa a paz dos cemitérios, e instabiliza o hábito das famílias rococó. De um certo ponto de vista, o único que sucede é o adolescente revolto que acredita na emoção e na possibilidade de criação original, contra as formas de ornamentação barroca, como uma gaivota no meio da tundra.

Essa criança furiosa cresceu na sombra da mãe, uma actriz decadente que vive de sucessos comerciais e do culto das aparências. O progresso da peça é o da crise entre mãe e filho, sobre o dilema entre a procura do sucesso e a procura do estilo. Resultaram pueris as primeiras cenas, e tensas as cenas finais, quando Rita Rocha Silva levanta um voo memorável enquanto Nina perturbada. Receio que as adições do encenador Diogo Infante, de teor actualista e de sinal político, com inclinação moralizadora, tenham minorado o efeito sugestivo do texto. Compreende-se a intenção de comic relief numa peça incipientemente expressiva; não obstante, o resultado é desajustado.

Conforme disse a crítica sobre a primeira encenação do texto de Tchekhov (1860-1904), representada durante quatro horas e meia no fim do séc. XIX, sente-se que a narrativa é magra. Falta-lhe corpo para sustentar o final. Assim, talvez justificasse mais minutos de espectáculo. Agradou aos jovens artistas e aos velhos actores, devido às falas sobre arte. Segundo palavras do encenador, interessou particularmente o problema do mérito: “o talento já não é suficiente”.

Supõe-se que o talento é, especificamente nos dias de hoje, menos importante do que deveria: por causa das claques, da opinião pública, da auto-promoção. Embora haja nisso uma sensação de verosimilhança, é difícil de entender o que verdadeiramente se afirma. Resta o estado de alma de quem o diz numa forma castiça de auto-promoção. Regressando ao que se viu, a peça resultou morna e leve, em vez de profunda e sublime.