The thought of what America would be like/
If the Classics had a wide circulation /
Troubles my sleep
Ezra Pound
Ninguém se move. Passado o vendaval sanguinário da guerra, os lábios separam-se apenas para lançar palavras que entorpecem. Na verdade, a guerra não acabou, pelo contrário, deixou de estar circunscrita aos campos de batalha. Violadas as parcas leis que trajavam o inimigo com dignidade, derramou-se sobre montes e vales, entrou nas casas e nos palácios, misturou-se no sangue como um veneno, desenhou fronteiras entre uma mão e a outra, embaraçou amantes e irmãos. A guerra é um olho impiedoso que nos olha e aniquila o olhar que lhe devolvemos. Hoje, falamos de economia, mas, é guerra o que dizemos. A guerra faz parte integral da estrutura em que vivemos. É o seu motor, a sua medida, o seu futuro. O segredo para uma economia eficiente é a produção de irresponsabilidade. Não conseguimos pensar nos genocídios em curso sem ter em conta esta maléfica máquina de distanciamento, a produção massiva de um olhar vazio sobre o que nos rodeia. Os mortos acumulam-se sem terem atrás de si um deus que lhes estenda a mão.
Christofer Nolan reescreveu a Odisseia como quem traduz o canto de um pássaro para uma raposa. Aquele que era o lugar da manifestação divina, da figura que trazia para o seu centro a dimensão do sagrado, é hoje apenas iluminado pela fogueira da sua destruição. Habitamos entre as sombras e os destroços de um mundo reduzido a território de exploração. O homem dos nossos dias não se ergue contra o seu adversário, pelo contrário, segue-o, ajuda-o nas suas acções mortíferas, é a sua vítima e o seu bastião nas terras onde este não põe o pé. Chama “mal” aos gestos que o vivificam e “bem” àquilo que o mantém numa morte aparente. A aparência, lugar onde tudo conflui, seja a mais nobre estranheza ou o hábito mais corriqueiro, torna-se neutra aos olhos entediados. A indiferença precede o aparecimento de cada coisa, e a inteireza do que existe perde o fulgor. Descolada do corpo com o afiado bisturi do ressentimento, a alma desaparece como um suspiro aborrecido. Da aparência como lugar da aparição, fica apenas o frágil entender qualquer coisa de outra coisa qualquer.
Nolan, como bom rapsodo que é, tece o seu tapete com mestria e toca-nos como uma lira. A primeira frase a surgir no ecrã é: “num tempo de aparente magia.” As possibilidades de leitura são muitas, nenhuma delas é inconsequente. Por um lado, parece referir-se à sua própria arte, sendo um mestre do trabalho de montagem e escrita para o ecrã, distorcendo o tempo, evocando impossibilidades e transcendendo as leis do espaço e do tempo, ao ponto de parecer sobrenatural. Por outro lado, “num tempo de aparente magia” pode dirigir-se à nossa incapacidade de acolher o divino como real, deixando “aparecer” a hipótese da relação do homem com os deuses como imaginária. O espectador desta “Odisseia” não é o grego que vivia nas metamorfoses do divino, e, por isso mesmo, não precisava de acreditar ou duvidar dele porque nascia e morria através das “potências demoníacas” que governavam o mundo e o curso das coisas. O espectador de Nolan é aquele que, como escreveu Nietzsche, à custa de sofrimentos que o tornaram frio e insensível, chegou à convicção de que os acontecimentos do mundo não têm nada de divino, e, para além disso, vive encurralado numa ficção que o escraviza, numa história que o empobrece e diminui. “Num tempo de aparente magia” pode ainda significar um tempo em que a magia aparece, não como uma força obscura que intervém no real, mas, como a manifestação, a figuração dessa realidade.
Para um espectador de sentidos sobrecarregados, ansioso, cansado, talvez o cinema seja o último lugar onde uma história pode momentaneamente dar forma à realidade. Não para que se viva individualmente, no gozo da reflexão solitária, mas, pelo contrário, numa articulação de uma experiência viva, o faça sair da esterilização impotente da comunicação e se encontre num mundo comum, onde a dor, a ilusão e o desejo se transmitem ao próximo. O mito faz de nós uma espécie de ventríloquos que animam as coisas, o mundo mudo ganha voz, o lugar que habitamos pode ser ingerido pelo espírito, partilhado como uma refeição.
Uma civilização à beira do colapso, ou já colapsada - de que servem as grandes construções se as pessoas não se lembrarem do seu significado. - diz Penélope no início do filme. A Odisseia arranca encalhada num lamaçal de frustração, numa paralisia, como se os três personagens principais estivessem suspensos, caídos fora do tempo. Penélope e Telémaco fechados no palácio a entreter a perversão dos pretendentes há anos, Odisseu, na ilha de Calipso, a comer flor de lótus, numa cura de sono de um passado violento. Da civilização colapsada ninguém parece saber nada, apenas uma ameaça deixa os espíritos circunspectos. Odisseu devora o lótus diariamente, entregando-se à repetição do prazer, do esquecimento. O gozo não quer herdeiros, quer-se apenas a si mesmo, quer tudo igual eternamente. Nolan coloca o lótus na ilha de Calipso, provocando uma contração de sentidos e uma aproximação instantânea da nossa compreensão. Dirige-se a nós, porque as questões que coloca a Homero são as do nosso tempo, e a cada época o mito responde de modo diverso. Para isto dedica-se a um trabalho minucioso de equilíbrio, onde a escala desmesurada de uma batalha, do confronto com um monstro, é sempre colocada em paralelo com a dimensão humana, com os movimentos íntimos dos personagens.
No filme é Calipso quem ajuda e conduz Odisseu à lembrança. Quem o alerta para os gestos que faz inconscientemente. Aliás, todos os deuses aparecem como aqueles que nos questionam, que exigem outra interpretação, mesmo quando são apenas assombrações do espírito atormentado. E, se algum herói tem o espírito atormentado é Odisseu, “algea on kata thumon”, o homem da angústia, chama-lhe Homero. O que sofre e causa sofrimento aos adversários. O temível. Não se trata de um viajante, mas de um errante, nos vários sentidos da palavra. Para Nolan de um modo muito claro, aquele cujos erros e arrogância vão despoletar um encadeamento de efeitos imparáveis. De um modo diverso de Homero. Neste, não há sujeito, mas um homem que se estabelece pela relação com o que o rodeia, seja através da busca da glória, da honra, ou de um desejo insaciável que o leva ao conflito com os deuses. O “herói” de Nolan está noutra relação com a angústia. "O tempo não tem existência concreta sem a inquietude." escreveu Kierkegaard, esta relação do tempo com a consciência coloca-nos numa relação íntima com Odisseu. Passados sete anos, como se fossem dias, a fazer gestos que não compreende, numa fuga de si mesmo, será preciso inverter o papel de Calipso. Esta, já não é a que esconde, mas aquela que questiona, até que Odisseu traga a sua angústia à flor da pele.
Nolan leva a cabo um trabalho de desencantamento de Homero, ou, mais precisamente, da leitura fantasiosa a que a modernidade frequentemente reduziu a mitologia. Ao reinscrever o inexplicável na personificação das consequências da acção humana, devolve-nos uma possibilidade de relação com o divino, não através de um espetáculo do excesso, povoado por entidades omnipotentes cuja incompreensibilidade apenas suscita assombro ou temor, mas, dando-nos uma gramática para aquilo que, na experiência humana, resiste à explicação. Assim, Atena manifesta-se como a rapariga decapitada cuja presença acompanha o herói e não como a epifania terrível de uma deusa guerreira. Deixa de ser uma aparição sobrenatural, para ser a forma visível das suas dúvidas e inquietações. O divino deixa de habitar um além inacessível, que já não era o lugar dos deuses gregos, para se revelar no lugar onde o homem se descobre incapaz de fugir às consequências dos seus próprios actos. Não porque não haja mundo para além de si, pelo contrário, é neste lugar que experienciamos o abandono e o questionamento. O mundo é o lugar decisivo de todo o sagrado possível. A relação que temos com o seu aparecer, as leis que estabelecemos no seu confronto são o que nos delimitam a figura do humano.
Reconhecer em alguém os olhos de Atenas tanto pode querer dizer que os deuses nos observam, como pode querer dizer que devemos reconhecer o divino no nosso semelhante. A Odisseia de Nolan está constantemente a lembrar-nos da "Lei de Zeus", que devemos acolher o estrangeiro com bondade porque pode ser um deus disfarçado. Esta lei é o cerne da civilização. Esta civilização colapsou. O brilhante truque de Odisseu, que levou à victória sobre Tróia, foi a mais profunda violação da "lei de Zeus", e marca o fim daquela era. O cavalo, que para Homero tinha o epíteto de “o de grande coração”, o mais nobre dos animais, serve para a mais vil das traições. Os animais, por mais pequena que seja a sua aparição, dizem sempre algo essencial da experiência humana. Lembremo-nos que Argos, símbolo do mais fiel amor, foi atirado para a estrumeira no início do filme. «Ao queimar Tróia, queimámos o mundo e o nosso próprio lar.»