sexta-feira, 13 mar. 2026

Um pequeno pé que rendeu milhões

Desenho preparatório de Miguel Ângelo para a Capela Sistina esteve mais de dois séculos em mãos privadas e tornou-se um fenómeno em leilão ao atingir 27,2 milhões de dólares
Um pequeno pé que rendeu milhões

Um esquisso raro com lugar na história

É um simples esquisso de um pé, feito a giz encarnado sobre papel, e mede uns meros 13 por 11 centímetros. Mas este pé possui um currículo impressionante. Saído da pena de Miguel Ângelo Buonarroti, trata-se de um desenho preparatório para a figura da Sibila Líbia do teto da Capela Sistina.

Dos milhares de desenhos que o mestre do Renascimento produziu, chegaram até nós aproximadamente 600 folhas. Meia centena consiste em estudos para a Capela Sistina, que o artista pintou a contragosto, entre 1508 e 1512, por encomenda do Papa Júlio II. Nenhum desses 50 estudos alguma vez foi levado a leilão. Acresce que existem, no total, apenas dez desenhos de Miguel Ângelo ainda em mãos privadas.

Uma descoberta improvável

A descoberta surgiu da forma mais inesperada, quando o seu proprietário enviou uma foto do pequeno desenho para avaliação numa leiloeira online, sem fazer ideia do seu real valor. Seguiu-se um trabalho detetive que se prolongou por meses para confirmar a autoria.

O nome de Miguel Ângelo aparece num canto do desenho, tal como numa obra que pertence ao Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque. O nome do vendedor não foi revelado, mas sabe-se que o estudo se encontrava na sua família há mais de 200 anos, tendo sido adquirido no século XVIII por Armand François Louis de Mestral de Saint-Saphorin, um diplomata suíço que viajou pela Europa ao serviço do Rei da Dinamarca.

Licitação intensa e recordes em Nova Iorque

Ao fim de uma licitação que se prolongou por 45 minutos, a obra acabou por ser arrematada por 27,2 milhões de dólares, perto de 23 milhões de euros. «Tivemos vários licitantes presentes na sala, por telefone e online, porque esta seria, provavelmente, a única hipótese que um colecionador teria de adquirir um estudo daquela que é, possivelmente, a maior obra de arte alguma vez feita», congratulou-se Andrew Fletcher, da Christie’s, responsável por colocar a oferta vencedora.

Este é um recorde para uma obra de Miguel Ângelo, mas não foi o único da semana. Na noite anterior, em Nova Iorque, um Auto-Retrato como Santa Catarina, de Artemisia Gentileschi, foi vendido por perto de cinco milhões de euros, estabelecendo igualmente um recorde para a celebrada pintora italiana.