Trovante é Portugal em palco

Porque é que esta banda anda há 50 anos a colecionar géneros musicais, multidões e Presidentes da República?
Trovante é Portugal em palco

Em 1999, Jorge Sampaio desafiou-os a juntarem-se para um concerto único no Pavilhão Atlântico. Agora, 27 anos depois, na primeira de duas datas em Lisboa receberam Marcelo Rebelo de Sousa. Na segunda, António José Seguro. O que explica esta atração de Presidentes da República pela banda criada por um grupo de estudantes comunistas no verão de 1976? Por mais méritos desta música, a resposta terá de ir além do gosto de cada titular do cargo. O Trovante – no singular, como os músicos preferem – é o sinónimo sonoro de Portugal. E isso atrai a função presidencial.

António José Seguro, que passou muitas noites no Xafarix, bar do vocalista, próximo da Assembleia, é recebido como ‘amigo’ de longa data por Luís Represas. Considerando o simbolismo, os dias futuros influenciaram ainda mais a escolha do casal presidencial de arrancar o mandato sentado na primeira fila da plateia.

Tudo começou em Sagres, premonitório local de fundação. Trovante é Portugal porque nasceu do mar profundo da música tradicional, ainda a tempo de surfar a onda da música de intervenção. Um dos momentos mágicos do concerto é Chão Nosso, cante alentejano que bombos e tambores desviam a meio para o ambiente das festas e romarias. E é Portugal porque tem povo – no sentido lato, já não apenas o do PREC – no coração.

Naquele cante seminal do primeiro álbum, transpira ao sol um camponês alentejano, tão real como mítico, de mão firme no arado. Em Oração, um pescador ajoelha-se numa capela, em comovente negação do luto por um filho perdido para o mar. A prece é uma das grandes letras de João Monge, músico como os outros, que usa a língua como instrumento.

Há um acaso curioso, como o rio da canção. Com o passar do tempo, o repertório da banda incorporou géneros musicais com um apetite estético devorador, por vezes mal compreendido. Contra o preconceito dos puristas, o Trovante abraçou a pop e os sintetizadores. E assim a sua onda se espalhou, sem excluir um palmo, pelo território todo. Portugal é uma praia virada para o mar.

Os discos de originais são uma pequena História de Portugal pós-Revolução: Chão Nosso (1977), Em Nome da Vida (1979), Baile no Bosque (1981), Cais das Colinas (1983), 84 (1984), Sepes (1986), Terra Firme (1987) e Um Destes Dias (1990). Também eles mostram como o país tombou para o litoral, ficou a arder no Interior e a escaldar nas áreas metropolitanas.

A Esplanada, com letra de João Monge e música de João Gil, retrata a angústia das almas perdidas na grande cidade. Na plateia, quem fechar os olhos, aos primeiros acordes do baixo de Fernando Júdice pode imaginar-se num concerto de Brian Eno, a tocar um poema de Álvaro de Campos. Fizeram os Dias Assim assentaria como uma luva aos Xutos & Pontapés, soa a rock geracional. O Trovante mergulha em muitas linguagens musicais, sem se afogar em nenhuma.

Em palco, o vórtice de estilos e permanente pirueta de instrumentos ressoa a mar tranquilo e chão. Artur Costa, Fernando Júdice, José Martins, João Gil, João Nuno Represas, José Salgueiro, Luís Represas e Manuel Faria nadam felizes. Ouve-se à descarada o prazer deles em voltar a tocar juntos, pelo menos por quatro noites, depois de 15 anos de vida em comum e de um longo divórcio amigável.

A grande novidade é a chegada de Gui Salgueiro, filho do baterista. Toca sete instrumentos. O vibrante duelo de percussões com o pai é o momento mais surpreendente e físico da noite. O comboio do Trovante vem da toada popular e não precisa de linhas de alta velocidade para ir onde quiser.

Trovante é um país de poetas. Entram no alinhamento saborosas quadras de António Aleixo e de Fernando Pessoa. Mário de Sá Carneiro foi à primeira noite em Lisboa, faltou à segunda. Florbela Espanca não tem esse direito: o público exige cantar Perdidamente em coro. Porque existe Trovante, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade e tantos outros poetas não estão apenas prontos a comer nas bibliotecas, mas também a beber dos discos ou plataformas de streaming. As melodias orelhudas do Trovante agarram-se aos poemas até ao caroço. E os poemas rendem-se. Quem consegue ler Fim ou Ser Poeta sem ouvir as canções?

O Trovante, como é próprio dos portugueses, não ficou em Sagres. Antes de nascer, já ouvia música de África, da América Latina, da Galiza, da Irlanda. E cresceu a trocar cartas com músicos africanos e brasileiros, como Filipe Mukenga ou Moraes Moreira. No momento certo, inventou ‘o’ hino de Timor. Andou próximo de um novo hino para Portugal, chamado Terra à Vista. O Presidente acabou de jurar a Constituição da República. Talvez gostasse, mas não vai agora meter-se nesses trabalhos.