De acordo com o Relógio do Juízo Final [uma iniciativa do Painel de Ciência e Segurança do Bulletin of the Atomic Scientists], faltam neste momento apenas 85 segundos para a meia-noite [que representa o fim do mundo]. A destruição total está iminente?
Gosto da ideia do Relógio do Juízo Final. É uma iniciativa bem-intencionada e uma ótima forma de explicar este tipo de coisas. Fico de pé atrás em relação a alguns pormenores. Parece-me que, mais do que tratar-se de uma avaliação objectiva das ameaças que enfrentamos, serve para medir a ansiedade dos liberais no mundo ocidental. O que não significa que as coisas não estejam muito feias atualmente. Estão. Mas lembro-me sempre que o Relógio do Juízo Final ignorou completamente a Crise dos Mísseis de Cuba - não mudou um segundo, e foi possivelmente a situação em que o planeta esteve mais perto da destruição total de um dia para o outro.
Não o considera um indicador confiável, portanto?
É uma ideia simpática, mas não costumo levá-lo muito a sério. Algumas ameaças são muito más, mas aquilo que fizermos ou não fizermos agora não vai necessariamente ter consequências imediatas. Por exemplo, recuar nas medidas contra as alterações climáticas não vai ter efeitos negativos sobre nós agora, vai ter efeitos negativos daqui a 20, 30 anos. É verdade que já estamos a ver alguns efeitos das alterações climáticas, mas qualquer mudança que façamos nas nossas políticas vai refletir-se no prazo de décadas, no mínimo. Olhamos para algumas das coisas que a administração Trump está a fazer e possivelmente a mais perigosa é este ataque à ciência da virologia e da imunologia. O corte de verbas e o bloqueio de quaisquer esforços para detetar a próxima pandemia, o bloqueio de novas vacinas... estas são as coisas que têm o potencial de ser incrivelmente destrutivas se tivermos azar.
Mas não no imediato.
Esperemos que não. Mas pode acontecer um morcego infetar um cão-guaxinim que, por sua vez, está a infetar um agricultor algures na China neste preciso momento. E só saberemos quando for tarde de mais. A questão é que muitas das ameaças que enfrentamos agora não se enquadram no modelo do Relógio do Juízo Final, não se enquadram no modelo da paranoia nuclear, em que um louco carrega num botão e desaparecemos todos. Essa ameaça existe. O mundo parece estar ansioso por voltar à guerra, o que é muito mau. Mas temos uma guerra declarada na Europa há vários anos, em que a ameaça de guerra nuclear tem sido repetidamente referida, e nunca se concretizou. Talvez isto seja um indicador de que mesmo o louco com o dedo no botão ainda tem alguma cautela em dar esse passo. Digamos que há poucas coisas animadoras na situação atual, mas nem tudo aponta para o fim do mundo iminente. Acho que temos de estar despertos é para o risco de um apocalipse lento. E a questão é que a forma de evitar estes apocalipses não é o tipo de coisa que se faz quando estamos em pânico. Na verdade, a esperança é uma componente essencial para afastar as piores ameaças que enfrentamos hoje.
Acabo de ver nas notícias que o tratado entre a Rússia e a América que limita o número de ogivas e armas nucleares caducou recentemente. O que restaria do planeta depois de um conflito nuclear?
Não sobraria muito, é verdade. Mais uma vez temos a importância da esperança e de percebermos que podemos afastar estes riscos. No auge da Guerra Fria, nos anos 70 e 80, havia armas nucleares suficientes para destruir o mundo várias vezes.
E hoje?
Os passos para o desarmamento nuclear que houve desde então não eliminaram as armas nucleares, como bem sabemos, mas reduziram significativamente o número de ogivas. Hoje já não existem armas nucleares suficientes para destruir a Terra só com os bombardeamentos. Não há sequer ogivas suficientes para destruir todas as cidades do mundo. Claro que se houvesse um conflito nuclear seria terrível, chocante, seria o pior dia da história da humanidade de longe. Mas a humanidade ainda lá estaria no final. E com algum grau de civilização. Não estou a dizer ‘não se preocupem com a guerra nuclear’. Se entrássemos numa guerra nuclear, milhões morreriam instantaneamente. Dependendo exatamente de como e onde as bombas caíssem, é possível que muitos mais milhões morressem de doenças causadas pela radiação. O que não sabemos sobre o cenário apocalíptico é se produziria um inverno nuclear. Se todo o fumo e fuligem dos incêndios subiria ou não para a atmosfera, bloqueando a luz solar. Nesse caso, congelaríamos, morreríamos de fome e a agricultura global entraria em colapso.
Não existe consenso acerca disso, pois não?
O problema é que ninguém sabe.
E esperamos continuar na ignorância…
Exato. É o tipo de experiência que não podemos nem queremos fazer. Espero que nunca descubramos o que realmente aconteceria numa situação dessas. Portanto temos esta grande incógnita, em que simplesmente não podemos dizer com certeza exatamente quão má seria uma guerra nuclear. Sabemos que seria muito má, por isso não queremos experimentar.
Em todo o caso não deveria levar à extinção da humanidade.
Provavelmente não. Grandes partes da sociedade humana e da civilização sofreriam um impacto tremendo, mas provavelmente não estamos a falar de extinção nem, provavelmente, de voltar à Idade da Pedra ou algo do género. Como disse, continuaria a haver cidades de pé ou intactas, independentemente de conseguirem ou não sobreviver sozinhas durante muito tempo. A não ser, como disse, que se concretize o pior cenário possível, do inverno nuclear, o que me parece improvável, mas não podemos descartar por completo. Em resumo: não seríamos apagados do mapa de um dia para o outro. Essa possibilidade já não existe. Sei que não serve de grande consolo, mas ainda há uma réstia de esperança.
Embora associemos o apocalipse à Bíblia, as suas origens parecem ser anteriores. Qual é o relato mais antigo de um evento cataclísmico que nos chegou? O do zoroastrismo?
Sim. E isso é um pouco estranho. A noção do fim do mundo parece-nos tão familiar que faz alguma confusão pensar que houve um tempo em que ainda não existia. Tanto quanto sabemos, Zoroastro está na origem dessa ideia, provavelmente há cerca de 3000 anos, embora haja muita incerteza em relação às datas. Se algumas datas forem um pouco diferentes, talvez o Judaísmo tenha chegado lá um pouco mais cedo, ou talvez o Hinduísmo, mas tudo isto é muito, muito incerto. Seja como for, algures entre há 3.000 e 2.500 anos surgiu a ideia de que um dia tudo isto deixará de existir e, muito importante, de que quando isso acontecer seremos julgados. A componente moral, o Dia do Juízo Final, é uma parte realmente fundamental da história. Tal como o céu e o inferno, é uma forma de dizer: ‘Não penses que pode escapar impune de certas coisas. Não tentes quebrar as regras, porque chegará o dia em que vais ser descoberto’. É uma história convincente que ressoa muito profundamente nas nossas mentes. E tem poder sobre nós: pode inspirar mudanças sociais, revoluções, guerras, pode inspirar as pessoas a renunciarem completamente às suas vidas. E não perdeu a sua força, apesar de terem passado cerca de 3000 anos sem que isso realmente acontecesse. [risos] Apesar de todos dizerem constantemente: ‘Vai acontecer a qualquer momento’. E ainda não aconteceu.
Salienta que apocalipse é uma palavra de origem grega que significa ‘revelação’. Parece interessante que, em termos religiosos, a destruição do mundo físico e a iluminação de cada indivíduo estejam tão intimamente ligadas.
Em certa medida, a ideia do apocalipse sempre teve que ver com descoberta. Trata-se de desvendar qual é o plano, a estrutura do mundo. A sensação de que estamos finalmente a contemplar a verdade. É interessante porque dá um sentido à história, em que estamos a ir do princípio para o fim. Existe uma estrutura clara e uma espécie de marcos ao longo do caminho que nos permitem ver em que ponto estamos da viagem. Por causa disso, tem sido um estímulo muito importante para a investigação histórica, mas também científica. Quando a ciência e a religião ainda estavam interligadas, foi a promessa do apocalipse, de que existe uma estrutura e um plano para o universo, que levou os homens a fazerem o tipo de investigações sistemáticas que hoje conhecemos como ciência. Faziam-no na tentativa de descobrir quando o mundo acabaria. E é engraçado que muitas das técnicas usadas para tentar explicar o apocalipse religioso sejam agora usadas para falar de apocalipses não religiosos - para falar de alterações climáticas, para falar de pandemias, para nos dizer o que acontecerá exatamente se uma bomba nuclear nos cair em casa. O apocalipse sempre foi, e continua a ser, vendido aos seus crentes como a descoberta de uma verdade maior.
Esta ideia do fim do mundo também tem sido frequentemente utilizada por quem está no poder como forma de manter a população sob controlo.
Funciona como um ótimo motivador. Muito, muito em breve vamos ser julgados, portanto temos de estar do lado certo. Não se pode pensar ‘vou só fazer uns disparates durante umas décadas, depois confesso-me e ponho a minha vida em ordem’. O apocalipse torna tudo urgente e absoluto. Não há meio-termo, não há área cinzenta. Ou estás do lado certo ou do lado errado. E tens de escolher. Penso que é por isso que líderes políticos, líderes religiosos, qualquer pessoa que quisesse influenciar o rumo do mundo considerou esta história tão útil. É uma situação de ‘ou estás connosco ou estás contra nós’. Não há como ficar de fora. E, se estás do lado certo, se fazes parte dos bons - e toda a gente está convencida disso -, significa que os teus adversários têm de ser o mal, o anticristo. É uma forma usada por líderes de todos os tipos para exercerem controlo sobre a população. Mas claro que há o outro lado. Por ser tão polarizador, tão absoluto, tão radical, o apocalipse torna-se muito difícil de controlar. É um bocadinho como quando os políticos se aproveitam das teorias da conspiração. Claro que eles próprios não acreditam nelas. Mas pensam: ‘É uma forma fácil de conquistar eleitores que se deixam enganar facilmente’. Só que não se pode brincar ao faz de conta para sempre. Só funciona durante um período de tempo muito curto. Ninguém consegue controlar estas coisas. E depois pode sempre haver alguém mais extremista do que nós, alguém cuja interpretação dos preceitos religiosos seja mais fundamentalista. Neste livro falo sobre a Guerra Civil Inglesa [1642-1651, levou à decapitação do Rei Carlos I]. A crença de que o apocalipse estava iminente foi uma grande força motriz por trás de muitos dos parlamentares que queriam derrubar a monarquia. Só que houve um pormenor: ganharam. E assim que se viram ao comando do país, já não estavam tão entusiasmados com a ideia de que o mundo ia acabar muito em breve. Quando se governa um país, tem que se pensar no dia de amanhã. Mas aí já havia largos grupos que continuavam a acreditar no apocalipse e que disseram: ‘Pensávamos que vocês estavam do lado certo, mas agora falam em governar o país?!’. Grupos como a seita dos Homens da Quinta Monarquia, que mantinham a chama do apocalipse acesa e de repente se rebelaram contra aqueles ao lado de quem ainda um ou dois anos antes tinham estado a combater. Muitos líderes políticos e religiosos ao longo da história tentaram explorar o apocalipse para conquistar o poder, o que não se revelou uma tática tão inteligente quanto isso, porque de um momento para o outro tinham contra eles uma multidão convencida de que estava em jogo a salvação da humanidade.
Lembro-me bem da chegada do ano 2000 e do bug informático que nunca chegou a acontecer. Não me lembro tão bem de como foi a chegada do ano 1000, na Idade Média, mas todos lemos qualquer coisa sobre o pânico da viragem do primeiro milénio. Há datas específicas que provocam esta mistura de euforia e ansiedade?
Precisamos de encontrar uma estrutura para o mundo. Há datas que por alguma razão parecem ter um significado especial e muitas pessoas concentram-se nisso. O ano de 1666, por exemplo, foi de enorme expectativa apocalíptica, porque contém em si o número 666.
O número da Besta.
Logo é aí que o apocalipse vai acontecer. Certas datas têm um significado especial. Quanto ao ano 1000, se foi de facto marcado ou não por uma grande onda de frenesim apocalíptico é algo muito incerto. Há razões que nos levam a pensar que talvez não, porque muitas pessoas nem sequer se regiam por este calendário na altura, portanto não podiam fazer ideia de que estava a chegar o ano 1000. E não há muitos registos escritos sobre isso. Os historiadores passaram muito tempo a dizer que sim, houve um frenesim apocalíptico por volta do ano 1000. Depois vieram outros historiadores e disseram: ‘Não, não houve’. E agora temos de novo alguns historiadores a dizer: ‘Talvez tenha havido’.
Em que ficamos?
A história é muito complicada e confusa, e ninguém sabe exatamente o que se passou. O facto é que gostamos de atribuir significado às coisas. O milénio seria um exemplo evidente disso. Depois, em 2012, surgiu a ideia de que seria, não exatamente o milénio, mas uma mudança do calendário maia, algo em grande em que os próprios maias não acreditavam - foi tudo inventado, com base numa interpretação errada dos antigos textos maias. É mais um daqueles casos em que algumas pessoas acham que possuem um conhecimento oculto, que todos os outros ignoram. De x em x anos, ao longo dos últimos milénios, alguém, algures, andava a dizer: ‘Vem aí o apocalipse’. Não precisa de ser num ano ‘redondo’, mas ajuda.
Fiquei surpreendido ao ver que essas paranoias também aconteceram no século XIX, um século de grande progresso científico e material, e mesmo em 1910, com o cometa Halley, houve muitos profetas do apocalipse. O ser humano necessita de adrenalina e emoção quando se sente muito seguro e confortável?
Acho que é mesmo isso. Acabamos por nos aborrecer, não é? Precisamos de um pouco de emoção nas nossas vidas. E vamos à procura dela. Pode ser o apocalipse, podem ser teorias da conspiração, pode ser uma ideologia política, pode ser envolvermo-nos demasiado com um clube de futebol. Mas precisamos de algo nas nossas vidas que não seja apenas trabalhar, comer e dormir. Precisamos de histórias que nos motivem. Viramo-nos para o apocalipse em tempos difíceis, sem dúvida. Muitos dos principais movimentos apocalípticos da história surgiram após desastres naturais ou crises políticas. Geralmente estão ligados a algo de mau que se passa no mundo. Mas também vemos o oposto disto: por vezes, quando as coisas parecem estar a correr perfeitamente bem, as pessoas voltam-se para o apocalipse porque sentem que precisam de dar significado às suas vidas. Quando tudo corre muito bem, pode ser difícil encontrar esse significado, uma vez que não há grandes dificuldades a ocupar-nos a mente. O século XIX, especialmente nos Estados Unidos, foi uma época de revivalismo religioso e de movimentos apocalípticos maciços, sendo o mais famoso o de William Miller e dos milleritas, que levou à Grande Decepção em 1844, quando dezenas de milhares de pessoas, principalmente no nordeste dos Estados Unidos, esperavam ser levadas para o céu. Como isso não aconteceu, tornaram-se motivo de chacota. Até os miúdos gozavam com eles na rua. Outro aspeto disto é que o apocalipse é muitas vezes a forma como entendemos a mudança no mundo. E essa foi uma época de mudanças incríveis. A industrialização estava a arrancar em força. Imagine que tinha 44 anos em 1844. O mundo em que vivia - com o aparecimento de comboios a vapor e cada vez mais fábricas a deitar fumo - era radicalmente diferente do mundo de apenas quatro décadas antes, quando era criança, que era predominantemente agrícola, em que as pessoas viviam de um modo que não era assim tão diferente de há 200 anos. Foi um período de mudanças drásticas a nível tecnológico e social. Em simultâneo, não podemos esquecer que os Estados Unidos tinham sido fundados apenas cerca de 60 anos antes. Havia grandes movimentos reformistas e a abolição da escravatura era, obviamente, uma grande questão política, talvez a principal. Discutia-se a necessidade de assistência social para os pobres. Um lado que poderíamos considerar muito progressista e liberal convivia com outro bastante conservador em termos sociais. Em todo o caso, havia uma espécie de entusiasmo incrível pela ideia de que se podia mudar a sociedade. E o apocalipse é, frequentemente, uma forma de dramatizarmos as nossas esperanças e medos sobre as mudanças no mundo que nos rodeia. Em vez de darmos cabo da cabeça a tentar perceber as mudanças complexas e confusas que estão a acontecer, imaginamos que o mundo está a acabar. Vemos muito isso: as pessoas recorrem ao apocalipse quando vivem num mundo que está a mudar muito e muito rapidamente. Tendo em conta o mundo em que vivemos hoje, não me surpreende que muitas pessoas estejam a pensar novamente no apocalipse, porque é uma forma de processarmos as nossas esperanças e medos em relação à mudança. A questão é que o mundo está sempre a acabar. Há um mundo antigo que está sempre a desaparecer no passado, e um mundo novo que está sempre a nascer.
Muitas pessoas estão preocupadas com a inteligência artificial. E o facto é que já existem até soldados robôs. Lembramo-nos de 2001: Odisseia no Espaço, quando o computador começa a revoltar-se contra a tripulação da nave. Vê a IA como uma ameaça para a humanidade?
Não neste momento, ainda que já haja coisas muito impressionantes em andamento. Há uma parte da IA de que eu não gosto. Estou muito irritado, por exemplo, por terem roubado os meus livros para a treinar. E não só os meus livros, mas os livros de toda a gente. Gostava que me pagassem. [risos] Mas não acho que a geração atual de grandes modelos de linguagem, este tipo de IA, constitua uma ameaça. A não ser que façamos alguma coisa incrivelmente estúpida.
Como por exemplo?
Como colocar o ChatGPT ao comando da defesa nuclear. Isso sim, poderia ser um problema. Mas, como está, é muito porreiro. Sempre quis poder conversar com o meu computador. É um truque engraçado. A taxa de mudança é alucinante mas acho que provavelmente existe um limite para o aperfeiçoamento destas ferramentas e para a forma como as vamos utilizar. Por enquanto são úteis apenas para tarefas bastante limitadas. Não tem nada a ver com os cenários de ficção científica do Exterminador Implacável ou 2001: Odisseia no Espaço, em que se coloca uma IA a comandar tudo e ela enlouquece e mata-nos. Espero que tão cedo não coloquemos a IA ao comando de nada de importante. Não é fiável, está sempre a alucinar. O que nos reserva para o futuro? Até onde poderá ir? Não sei. Mas penso que há algo na forma como pensamos sobre a IA que reflete a nossa visão da natureza humana. Muitos dos cenários apocalípticos da IA são do género: ‘Se eu fosse eu a mandar no mundo, exterminava toda a gente!’.
Livros como A Terra Inabitável, de David Wallace-Wells, parecem-se muito com o enredo de um filme-catástrofe. Reconhece que pode haver algum exagero entre aqueles que apregoam o apocalipse climático?
É verdade que uma minoria de pessoas do movimento ambientalista exagera os efeitos das alterações climáticas. As coisas podem ficar bastante más, mas não existe um cenário realista em que o planeta se torne inabitável ou em que a civilização entre em colapso. Talvez seja uma reação compreensível a um mundo em que os efeitos muito reais das alterações climáticas não foram suficientes para suscitar a resposta política que se exige - mas este tipo de exagero pode ser perigoso. Não apenas porque reduz a credibilidade do movimento ambientalista no seu todo, mas porque conduz ao desespero. Que é a pior mentalidade possível para o tipo de esforço sustentado e pragmático que precisamos para realmente combater as alterações climáticas. Os movimentos apocalípticos sempre foram dramatizações extremas dos nossos medos: nunca basta que algo seja realmente mau, tem de ser o fim do mundo. Mas não precisamos de exagerar a esse ponto. Como diz o cientista climático Michael E. Mann: ‘A verdade já é suficientemente má’.
Vários historiadores notaram que em 1914 os europeus caminharam como sonâmbulos para o abismo da Grande Guerra. Vê a possibilidade de, quando o fim do mundo realmente chegar, as pessoas estarem distraídas com outra coisa qualquer e talvez nem se aperceberem?
Acho que quase de certeza estaremos distraídos! Somos uma espécie que se distrai com muita facilidade. E contamos a nós próprios tantas histórias diferentes sobre como o mundo vai acabar, que será difícil identificar a verdadeira. Podíamos estar no meio de um apocalipse zombie e ainda haveria alguém a dizer ‘a verdadeira ameaça à civilização é o feminismo’.
Verifica-se uma tendência recente entre os super-ricos de construir bunkers de luxo. Acha que eles sabem algo que nós não sabemos?
Admito que isso costumava preocupar-me - se todos estes multimilionários estão a preparar-se para o apocalipse, é porque devem saber que algo de muito mau está para vir. Mas os últimos anos fizeram-me preocupar muito menos, porque se há uma coisa que aprendemos é que essas pessoas não são mais inteligentes nem estão mais bem informadas do que nós. Muitas delas são bastante estúpidas, na verdade, e obtêm todas as suas informações no Twitter e em podcasts idiotas. Seja como for, não é um comportamento raro entre os super-ricos - sempre aconteceu que quanto mais dinheiro alguém tem, mais paranóico fica com a possibilidade de lho tirararem. E parece-me revelador que muitos destes bunkers apocalípticos dos oligarcas não sejam abrigos sustentáveis, mas sim fortalezas construídas para manter os pobres à distância.