Já passaram 16 anos desde a sua morte. No entanto, o seu nome continua a ecoar pelo mundo inteiro, quer pela carreira inigualável que construiu – as suas músicas continuam a fazer parte da vida de milhões de pessoas –, quer pelos escândalos nos quais esteve envolvido (que não são poucos), e que ainda hoje fazem derramar muita tinta.
Recentemente foi divulgado o primeiro trailer oficial para Michael, biopic focada na vida e obra daquele que ainda hoje é considerado o Rei da Pop. O filme, realizado por Antoine Fuqua, e que conta com Jaafar Jackson, sobrinho do artista, no papel principal, trará uma representação da vida e legado do cantor, traçando a sua jornada desde a descoberta do seu talento até se tornar o artista visionário, cuja ambição criativa alimentou uma busca incansável para se tornar o maior artista do mundo. A longa-metragem vai estrear no dia 23 de abril, mas antes disso, o documentário The Trial, do Channel 4 - que estreou no dia 4 de fevereiro - revela imagens, gravações de áudio e depoimentos de pessoas próximas a Jackson e da polícia, nunca antes vistas e ouvidas.
O fascínio por crianças
O New York Post adianta que os áudios foram gravados em 1999, durante conversas privadas entre o cantor e o rabino Shmuley Boteach, considerado o conselheiro espiritual de Michael Jackson, e permitem ouvi-lo falar de forma direta sobre «emoções, relações pessoais e a sua ligação às crianças». O produtor executivo do documentário – que conta com quatro episódios –, sublinhou que «as gravações inéditas oferecem uma janela excecional e privilegiada para a psique e a alma de Michael Jackson». Tom Anstiss descreve-as como «emotivas e muito reais», com momentos em que o artista surge «à beira das lágrimas». Numa das mais perturbadoras, o artista afirma: «Se me dissesses agora mesmo que nunca poderia voltar a ver uma criança, suicidava-me». Noutro excerto ouvimo-lo dizer que «os meninos» só querem tocá-lo e abraçá-lo e que acabam «por se apaixonar» pela sua personalidade.
Recorde-se que, apesar de nunca ter sido condenado, este foi acusado várias vezes de abuso sexual de menores ao longo da vida. The Trial revisita, por exemplo, o julgamento de 2005, realizado na Califórnia, em que o músico foi acusado de abusos sexuais a Gavin Arvizo, na altura com apenas 13 anos. Em tribunal, ele e o irmão relataram que o cantor lhes terá dado álcool, mostrado pornografia e feito insinuações sexuais na propriedade de Neverland. Jackson acabaria absolvido de todas as acusações nesse mesmo verão. Numa entrevista concedida em março desse mesmo ano, garantiu que as acusações representavam «o ponto mais baixo da sua vida» e que haviam sido feitas como parte de um «plano elaborado para destruí-lo». «Sou completamente, completamente inocente», frisou.
Uma fonte que ouviu as gravações afirmou ao mesmo jornal que «há algo extremamente invulgar e arrepiante no fascínio de Michael Jackson por crianças, especialmente por aquelas que não são suas». Para si, ouvir o cantor falar desta forma «levanta muitas questões sobre a sua saúde mental, o seu ensamento e, infelizmente, as suas intenções». «Essas são frases muito desconfortáveis de se ouvir de um homem solteiro na casa dos 40 anos», defendeu. «Também existem imagens, que foram encontradas, de como Michael cuidou de Gavin quando ele lutava contra o cancro na infância. Muitos médicos achavam que o diagnóstico era terminal, mas Michael nunca perdeu a esperança. Ele dizia que Gavin era um anjo para ele. As possíveis interpretações dessas imagens são fascinantes», acrescentou a mesma fonte. O documentário apresenta ainda arquivos inéditos e conversas com figuras que nunca tinham falado publicamente.
As acusações contra o astro
O verniz estalou em 1993, quando Evan Chandler, um dentista e argumentista de Los Angeles, acusou o cantor de abusar sexualmente de Jordan Chandler, o seu filho de 13 anos. Segundo o Consequence of Sound, nesse ano, depois de ter tido um problema com o carro, o astro do pop americano recorreu aos serviços de uma oficina que pertencia a um homem chamado David Schwartz. Feliz por ter conhecido o cantor, o proprietário ligou para a sua esposa, June Chandler-Schwartz, para que ela também tivesse essa oportunidade. A mulher acabou por levar o seu filho Jordan – do seu primeiro casamento –, e Michael Jackson acabou por criar uma relação com a família, em particular com a criança. No princípio, o pai biológico incentivou a amizade. Com o passar do tempo, foi notando que alguma coisa estranha estava a acontecer, até que o filho acabou mesmo por revelar que estava a ser abusado sexualmente pela estrela. Uma investigação foi iniciada. Porém, nada aconteceu. Até porque a família se tinha tornado bastante próxima de Jackson tendo viajado com ele e passado algumas temporadas em Neverland. Muitos acreditavam que as acusações tinham um único objetivo: extorquir-lhe dinheiro. A investigação não encontrou evidências físicas contra Jackson e a família e o artista chegaram a um acordo em 1994.
Depois das acusações de Gavin Arvizo – em 2003 –, Martin Bashir, jornalista da BBC, decidiu fazer um documentário sobre o artista - Living with Michael Jackson. A ideia era mostrar o Michael Jackson real, longe dos palcos. Afetado profissionalmente e emocionalmente por todas as polémicas - o artista esteve algum tempo longe dos holofotes -, o próprio cantor aceitou e colaborou na produção, acreditando que ia melhorar a sua imagem. No entanto, as suas declarações sobre a relação que mantinha com crianças, chocou ainda mais o mundo. , Num dos momentos mais marcantes do documentário, diz: «Dormir na mesma cama com uma criança é uma coisa linda».
Na altura do julgamento, Jason Francia, filho da governanta de Neverland, que passou bastante tempo com Michael quando dos sete aos 10 anos, veio a público acusar o cantor de abuso tendo chegado a servir de testemunha de Gavin Arvizo. Segundo o próprio, Michael Jackson tocava-lhe nos genitais de forma «brincalhona», enquanto lhe fazia cócegas. Enquanto o fazia, ria-se e fazia parecer algo leve.
É importante referir que, apesar da estrela ter sido absolvida nas investigações realizadas em 2003, as autoridades descobriram uma coleção bizarra de pornografia, com homens e mulheres em cenas de bondage, imagens eróticas de homens jovens e adolescentes e ainda cenas de sadomasoquismo. De acordo com o relatório da polícia, existiam pelo menos sete coleções encontradas no quarto e na sua casa de banho privada que mostravam rapazes em idade adolescente, e mesmo mais novos, completamente despidos ou parcialmente, bem como fotografias Polaroid de dois jovens, um deles com um robe de quarto e outro de tronco nu, na sua casa em Santa Bárbara. Para além destas imagens, foram encontradas mais de outros dois rapazes, também de tronco nu, em poses provocativas ao lado de Michael Jackson.
Ao Radar Online, Ron Zonen, promotor público do distrito de Santa Bárbara, que fez parte da equipa de acusação num dos processos de abuso sexual contra o cantor, disse que estas imagens e vídeos tinham um propósito claro: «Muitas destas coisas são usadas para tornar as crianças menos sensíveis, e Michael Jackson chegou a admitir ter levado crianças atrás de crianças para a sua cama por longos períodos de tempo. Identificámos cinco rapazes, e todos eles o acusaram de abuso sexual. Na minha cabeça, não há qualquer dúvida de que ele seja culpado de abuso sexual infantil».
O documentário que dividiu o mundo
Em 2019, Leaving Neverland, emitido pela HBO e distinguido com um Emmy, reuniu os testemunhos de Wade Robson e James Safechuck, que, entre 2013 e 2014, também acusaram o cantor de abusos sexuais alegadamente ocorridos na década de 90, quando eram menores. Anteriormente os dois homens haviam testemunhado a favor do Rei do Pop, o que acabou por levantar várias interrogações sobre as acusações.
Ao longo das quatro horas do documentário, podemos ver testemunhos inéditos de duas das alegadas vítimas, das suas mães e familiares próximos, bem como gravações e cartas do próprio cantor, destinadas aos dois homens. «O Michael Jackson abusou de nós centenas de vezes», garantem. De acordo com a BBC, tanto Robson quanto Safechuck tinham 10 anos quando conheceram o cantor e as famílias tornaram-se bastante próximas de Jackson.
Robson contou ter conhecido Michael aos cinco anos, após ganhar um concurso de dança na Austrália - o prémio, segundo o jornal britânico The Guardian, era participar num espetáculo do artista. E assim começou «uma amizade». Segundo o jornal americano The New York Times, ele, a sua irmã e a mãe, Joy, acabaram mesmo por se mudar para Los Angeles, deixando o patriarca da família na Austrália, acreditando na promessa de Michael Jackson de transformar Robson numa estrela. Numa entrevista ao programa da BBC, Robson afirmou que o cantor começou a abusar dele quando tinha sete anos. «Todas as vezes que eu estava com ele, todas as noites que eu passava com ele, ele abusava de mim», disse. «Acariciava-me o corpo inteiro», detalhou, acrescentando que também foi obrigado a vê-lo praticar sexo. Segundo o homem, Jackson tentou violá-lo quando tinha 14 anos. «Esse foi um dos últimos incidentes sexuais que tivemos», contou.
Robson revelou ainda à BBC que Jackson fez com que ele acreditasse que ambos se amavam. «É assim que demonstramos o nosso amor», dizia-lhe. «E logo depois, avisava: ‘Se alguém descobrir o que estamos a fazer, vamos passar o resto das nossas vidas na cadeia e as nossas vidas serão destruídas’». Na altura, tinha medo de ser afastado do seu ídolo. «A ideia de ficar longe de Michael, deste homem, desta figura de outro mundo, que para mim era um Deus e se tornou meu melhor amigo... Jamais faria algo que nos pudesse separar», admitiu. «Ele disse que eu era o seu melhor amigo e a única pessoa com quem havia praticado esses atos sexuais. (...) ‘De todas as crianças do mundo, fui a escolhida, pensei’», relatou ainda. À BBC, Robson descreveu Jackson como um «mestre da manipulação».
Já James Safechuck, afirmou à mesma publicação ter conhecido Jackson aos dez anos, quando foi selecionado para contracenar com o artista numa publicidade da Pepsi. E, segundo o mesmo, dos 10 aos 14 anos, foi abusado por ele. Primeiro, descreveu, Michael Jackson ensinou-o a masturbar-se: «Depois veio o beijo de língua. Ele disse-me que era eu que o estava a ensinar a beijar», afirmou Safechuck. A isso seguiram-se outras formas de abuso, incluindo sexo oral. «Enquanto tu estás a ser abusado, parte de ti está a morrer», lamentou. No documentário, Safechuck descreve ainda todos os lugares da propriedade em que foi abusado, dando exemplo de um quarto com portas e campainhas para alertar caso alguém se aproximasse.
Michael Jackson morreu em 2009, aos 50 anos, do que as autoridades descreveram como «intoxicação aguda» pelo potente anestésico propofol. O seu médico pessoal, Conrad Murray, foi condenado por receitar ao cantor uma dose fatal enquanto este se preparava para uma série de espetáculos. Murray foi considerado culpado de homicídio culposo e cumpriu quase dois anos de prisão.