1957-2026 . Com Dilbert, a tira satírica sobre a vida de escritório, Adams fez milhões rir das chefias
Num mundo de heróis do trabalho, o que continua a ser preciso é um espigão para furar toda essa épica ordinária. Há que providenciar um derrame da retórica, fazê-la desinchar, e rir daquela empáfia das brigadas das metas trimestrais, o pelotão das folhas de cálculo, os gurus dos humores financeiros, furar-lhes a bolha, rebentar o balão. Aliviar-se, e aos outros, da importância que se dá a esse ridículo campo de trincheiras, tantas vezes dividido em cubículos uniformes num labirinto onde gerações perderam os melhores anos das suas vidas. Foi enquanto quadro intermédio num banco e numa empresa de telecomunicações que Scott Adams se forneceu do material para criar a tira cómica ‘Dilbert’, uma sátira diária da vida corporativa que se tornou um fenómeno em todo o mundo, chegando a ser publicada em mais de dois mil jornais, rivalizando em popularidade com os Peanuts de Charles M. Schulz e o Garfield de Jim Davis.
Adams morreu na terça-feira, na sua casa em Pleasanton, Califórnia, na área da Baía de São Francisco. Tinha 68 anos. A sua ex-mulher, Shelly Adams, confirmou a morte, dizendo que ele se encontrava a receber cuidados paliativos. Em maio, o cartoonista revelou que sofria de um cancro da próstata agressivo e que provavelmente teria apenas mais alguns meses de vida. A mulher confirmou a notícia numa transmissão ao vivo em que leu um comunicado escrito pelo próprio. «Tive uma vida fantástica», dizia. «Dei-lhe tudo o que tinha.»
Ao longo de mais de três décadas, aquela tira serviu como boletim para a indigestão de milhões de empregados de escritório com os tantos sapos e as absurdidades que se veem forçados a engolir nesses limbos do mundo corporativo, glosando e ridicularizando os tropos da gestão do pessoal. A personagem-título era um engenheiro frustrado, confinado a um cubículo numa empresa de alta tecnologia, cujo animal de estimação inteligente e antropomórfico, Dogbert, sonhava com a dominação do mundo. Entre as outras personagens contavam-se os colegas de Dilbert – Alice, Asok e Wally –, o inepto Chefe de Cabelo Espigado, e Catbert, o gato de pelagem vermelho-fogo e malévolo diretor dos recursos humanos.
Capitalizando o êxito de Dilbert, Adams lançou manuais de gestão satíricos, a começar por The Dilbert Principle (1996), onde, inspirado pelo ‘princípio de Peter’, que diz que os empregados de uma organização tendem a ascender na hierarquia até atingirem o seu nível máximo de incompetência, argumentava que «os trabalhadores mais ineficientes são sistematicamente transferidos para o posto onde fazem menos danos: a gestão». Denunciando a vacuidade e a bajulação como vias de ascensão, Adams via no caos do escritório e na crítica às chefias uma possível força correctiva. «Várias pessoas me disseram: ‘O meu chefe veio com mais uma daquelas conversas ridículas: paleio de gestão vazio, palavras da moda... Mas de repente parou e disse: ‘Isto parece saído de uma tira do Dilbert’, e depois voltou a falar inglês’».
Infelizmente, não demorou muito para que o mundo corporativo desse a volta por cima, e, às tantas, empresas como a Xerox incorporaram a personagem na sua comunicação interna e nos seus programas de formação, havendo críticos para quem o sarcasmo da tira tinha pouco de subversivo, acabando por fazer o jogo das chefias. De acordo com o autor e ativista de esquerda Norman Solomon, que dedicou um livro a esta tira, «Dilbert não sugere que façamos mais do que revirar os olhos, retorquir com a acidez possível e continuar a arder em lume brando, evitando questões mais profundas sobre o poder das empresas na nossa sociedade». A tira que chegou a ser adaptada a série televisiva de animação, vendo-se cancelada depois de duas temporadas, depressa originou uma linha de merchandising, com bonecos de peluche, jogos de computador e até o Dilberito, um burrito vegetariano congelado que viria a revelar-se um flop e a ser retirado dos supermercados ao fim de uns anos. Dilbert foi ainda a estrela de uma campanha publicitária de 30 milhões de dólares para a Office Depot, em 1997. Mas o pior foi a forma como o sucesso subiu à cabeça de Scott Adams, que, depois de uma série de intervenções racistas e misóginas no seu podcast, ‘Real Coffee With Scott Adams’, se viu cancelado pela dinâmica woke, com a larga maioria dos jornais que publicavam a tira a deixarem-na cair, e depois até a sua editora, a gigante Penguin Random House, cortou laços com ele. Adams reconheceu que perdera a maioria das suas receitas, e que além disso a sua reputação ficara destruída. Ainda procurou defender-se alegando que não era racista, que se tinha limitado a recorrer à hipérbole para exprimir as suas opiniões. Isto viria a obrigá-lo a reinventar-se como provocador digital muito à vontade na boçal ‘mediasfera’ de ultra-direita da era Donald Trump, e com os seus comentários sobre raça, política e identidade provou que, o que dissera antes não fora um mero deslize.
Scott Adams acabou os seus dias convencido de que iria passar à posteridade não graças a Dilbert mas a duas noveletas mal enjorcadas, God’s Debris (2001) e a sequela The Religion War (2004), sendo que a ação desta última decorre em 2040 e gira em torno de um conflito civilizacional entre o Ocidente e uma sociedade fundamentalista muçulmana do Médio Oriente.