Sam Neill era o raro exemplo de ator que, na versatilidade que todos lhe reconheciam, permitia aos realizadores levá-lo de um extremo ao outro sem que ele perdesse inteiramente a sua natureza. Estava longe de ser um pedaço de barro à disposição de quem viesse moldá-lo, pois tínhamos nele sempre uma matéria capaz de oferecer alguma resistência ao produto, não embalar na histeria, construir as suas paixões com uma certa frieza. Quando Steven Spielberg recebeu uma nega de Harrison Ford, curou a deceção com um Dr. Alan Grant que, no final de contas, foi bem mais fiel ao perfil de um paleontólogo que prefere a sedimentação de largos períodos temporais, deduzindo o longo ciclo da vida a partir de fósseis a ter de aturar os ímpetos erráticos dos seres vivos, mas que, a troco de financiamento para as suas pesquisas, se vê obrigado a avaliar a ressurreição industrial de espécies extintas há milhões de anos, e tudo com fins de entretenimento, para construir o maior parque temático do mundo. Parece-se cada vez mais com uma elaborada metáfora do próprio destino do cinema: cada vez mais sufocado por tecnologias primeiro deslumbrantes e logo atazanantes, foi perdendo o olhar, a arte de desentranhar um ponto de vista do meio do caos. O papel exigia uma mistura de entusiasmo infantil e assombro, de autoridade e de uma certa irritação prática diante do que só poderia revelar-se um desastre de proporções incontroláveis. Neill é a cobaia perfeita, porque nos faz ver o ridículo das pretensões desses homens que se julgam deuses, mas que falham no principal: uma incapacidade de compreender as grandes escalas, e desde logo um tempo que se mede não em séculos, mas milénios. Ele não transforma Grant num herói convencional, pelo contrário. Há nele essa resistência de um homem arrancado ao seu trabalho, ao seu cuidado e atenção, e empurrado para um sonho desmesurado, perigoso. Ele dá por si, contra a sua vontade, num filme de aventuras.
No mesmo ano, Jane Campion chama-o para interpretar Alisdair Stewart, um colono da Nova Zelândia do século XIX, marido de Ada, a mulher muda interpretada por Holly Hunter em O Piano. Campion precisava de alguém que não esgotasse a personagem naquilo que ela mostrava. A brutalidade de Stewart permanece à vista, mas o desejo, a vergonha e a necessidade de possuir acumulam-se por baixo. Neill tinha a clareza necessária para um cinema dirigido às massas, mas preservava alguma opacidade, permitindo a um realizador não ter de explicar tudo, deixar que o personagem guardasse para si uma margem de irresolução.
Já antes destes filmes que tornaram o seu rosto conhecido da generalidade do público de cinema, passara por uma sucessão de papéis que torna difícil fixá-lo num só registo. Foi Sidney Reilly, o espião cosmopolita de Reilly, Ace of Spies, interpretação que o colocou entre os candidatos a James Bond. Foi o Anticristo em Omen III, o marido de Meryl Streep em A Cry in the Dark (1988), contracenou com Nicole Kidman em Dead Calm (1989), foi o capitão Vasili Borodin em A Caça ao Outubro Vermelho (1990), de John McTiernan, e o tenebroso antagonista de O Enigma do Horizonte (1997). Os críticos do The New York Times elogiaram a sua «brusquidão críptica» na série Alcatraz (2012) e a sua «suavidade avuncular tingida de uma tristeza digna» em The Dish (2000). Em Possessão, de Andrzej Żuławski, Neill é um espião internacional cuja mulher, interpretada por Isabelle Adjani, lhe pede o divórcio. A partir daí, o casamento desfaz-se arrastando a própria realidade consigo. Desejo, repulsa, traição, violência e monstruosidade tornam-se indistinguíveis. Neill chamou ao filme «a coisa mais extrema» que alguma vez fez e disse que só por pouco escapou com a sanidade intacta.
Ao todo, viria a acumular mais 150 participações em produções no cinema e na televisão, seno que no pequeno ecrã teve algum destaque em Peaky Blinders, como Chester Campbell, o inspector de Belfast que chega a Birmingham para lembrar que as forças da lei são sempre a vanguarda do crime.
Neill, que morreu na madrugada de segunda-feira aos 78 anos, revelara numa autobiografia publicada em 2023 (Did I Ever Tell You This?), que lhe fora diagnosticado um linfoma angioimunoblástico de células T em estádio três. Depois de se submeter à quimioterapia, o cancro tinha entrado em remissão e a família anunciou que ele se libertara dele.
«Não tenho medo de morrer», disse ao The Guardian. «Mas irritar-me-ia. Porque gostava mesmo de ter mais uma ou duas décadas, sabe? Construímos todos estes terraços encantadores, temos estas oliveiras e ciprestes, e eu quero estar cá para ver tudo amadurecer. E tenho os meus adoráveis netos. Quero vê-los crescer. Mas quanto à morte? Não quero saber».
Nascido em 1947 em Omagh, na Irlanda do Norte, com o nome de Nigel John Dermot Neill, filho de um oficial do exército britânico, tinha sete anos quando a família se mudou para a Nova Zelândia e no outro lado do mundo encontrou algumas dificuldades para se adaptar. O sotaque inglês demasiado distinto, a gaguez e o nome Nigel tornavam-no uma figura vulnerável no recreio. Aos 12 anos, decidiu passar a chamar-se Sam, nome que foi buscar aos westerns e que lhe pareceu mais fácil de levar pela vida. A mudança acabaria por ser uma espécie de primeiro papel.