terça-feira, 21 jul. 2026

Rita Marnoto: "Falta-nos a combatividade e a clarividência de Camões"

Nomeada em 2021 comissária-geral das comemorações do V centenário do Nascimento de Camões, acabou afastada do lugar. Ficou ‘desapontada’, mas não guarda qualquer mágoa. Até porque pôde continuar a dedicar-se àquilo que mais gosta de fazer: estudar e ensinar Camões.
Rita Marnoto: "Falta-nos a combatividade e a clarividência de Camões"

Destacada camonista, nascida em Ílhavo, é professora catedrática da Universidade de Coimbra. No seu trabalho de investigação, acolheu as artes do prelo e não se dispensou de um ‘estágio’ na velha Tipografia Damasceno, em Coimbra, uma das raras tipografias onde continua a ser possível fazer composição com os tipos móveis de Gutenberg, tirados com uma pinça da caixinha, um a um.

É vice-presidente do Centre International d’Études Portugaises de Genève, onde trabalham reputadíssimos filólogos e especialistas de crítica textual como a dupla Maurizio Perugi e Barbara Spaggiari. Fundado em 2017, este Centro pôs mãos a uma tarefa de vulto: a edição crítica da obra de Camões, que agora começa a ser traduzida e publicada pela Imprensa Nacional. Sonetos, o primeiro de oito volumes, ainda cheira a tinta fresca. 

Ao Prémio FLUC Publicações Internacionais 2022, referente à edição em língua italiana d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, junta agora Rita Marnoto o Prémio FLUC Ensino, que dedica aos seus alunos, pondo a tónica na relevância social e cívica do papel que cabe ao professor.

Entre a nossa última conversa e esta distam exactos três anos. Pelo caminho, ficou o lugar de comissária-geral para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Camões. Gostaria de ter prosseguido ao leme das Comemorações?

Foi com algum desapontamento que fui compelida a deixar o lugar de comissária, porque havia um plano com uma certa dimensão que eu teria gostado de desenvolver, mas devido a circunstâncias que me são exteriores não foi possível continuar esse trabalho. Estudo Camões há muitos anos e, portanto, é isso que tenho continuado a fazer, é isso que me interessa e é a isso que me tenho vindo a dedicar.

Guarda alguma mágoa desse passado recente? É um pretérito arrumado, perfeitamente acomodado, ou um pretérito imperfeito?

Não, absolutamente. Retomei o trabalho que fiz e estou muito satisfeita com esses resultados. O lugar que deixou de ser meu foi o de comissária. O de estudiosa de Camões continuou a ser meu, não houve interrupção – e com formas de posicionamento científico e cultural que sempre foi o meu: desde a ida às escolas a grandes academias, a uma universidade da Ivy League...

Terá entretanto acompanhado o desenrolar do programa oficial das Comemorações que agora terminam. O que lhe pareceu? Os Portugueses estão agora mais próximos do maior poeta de língua portuguesa?

Pelo que pude observar, parece-me que o programa incidiu sobretudo sobre acontecimentos académicos. E seria desejável alcançar outro tipo de destinatários, chegar às comunidades. E que houvesse repercussões na esfera pública, contando obviamente com iniciativas privadas, aqui e além. Penso na transversalidade da cultura, no facto de se poderem abranger tipos de público diferentes, dinamizando osmoses entre formas de saber. Camões é um poeta celebrado no 10 de junho, é um poeta de todos os Portugueses.

Quer concretizar?

Antes de mais, teria sido vantajoso a criação de uma equipa de programadores que dinamizasse campos como a música, com programas para as filarmónicas, a organização de grandes concertos de canções com letras de Camões, a disponibilização de palestrantes, académicos e não académicos, diseurs, poetas, que pudessem circular pelo país, aproximando amplamente o poeta dos Portugueses. No domínio do cinema, creio que um concurso para o guião de um filme sobre Camões teria sido uma boa oportunidade, assim como um programa para os teatros nacionais, e incentivos para as restantes companhias, é claro.

Para um número significativo de Portugueses, Camões pode ser tão-só aquele a quem falta um olho. A relação com a figura humana do poeta, o seu percurso, e sobretudo com a sua obra está longe de ser uma relação familiar.

Poderemos perguntar-nos: da obra de Camões, dos versos que Camões escreveu, o que é que os Portugueses conhecem? Podemos evocar, por exemplo, José Mário Branco, que passou para música o soneto ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, dando assim a conhecer Camões a um público vastíssimo. Portugal tem um poeta de uma grandeza extraordinária mas essa grandeza tem de ter ecos transversais. Se não, por vezes, corre-se o risco de se esquecer a dimensão de Camões e de o tornar um poeta mais pequeno. É necessária uma divulgação ampla.

Como se Camões durante o período em que duraram estas Comemorações não tivesse saído do gabinete do letrado ou dos habituais salões?

Pela minha parte, eu queria estar centrada em Camões e continuei, retomando o meu trabalho de investigação, o meu estudo, toda a minha actividade camoniana.

Essa actividade continuou a incluir também visitas a escolas para as quais ia sendo solicitada?

Sim, tive muitos convites. As escolas oferecem-nos uma oportunidade fantástica para ensinar Camões, dando-o a conhecer a jovens desde tenra idade. Camões começa-se a estudar até bastante cedo. No entanto, também aí, precisamos muito de renovar as formas de ensinar Camões e corresponder ao esforço de professores que neste país se interessam pelo ensino de Camões. E estes precisam de materiais didácticos adequados, que os orientem, que os guiem, de tal modo que depois os próprios professores, cada um deles, com a sua experiência de ensino, com o seu empenho pudesse adaptar esse quadro geral à didáctica da sala de aula.

Como vencer uma certa renitência, por vezes um tanto enfadada, senão mesmo a confessada sensação do ‘intragável’ de que tantos jovens se queixam?

Num poeta como Camões, o ponto de partida para uma didáctica é o texto. E todo o trabalho tem de ser feito a partir desse texto. Por um lado, precisamos de textos bem editados de Camões, de textos devidamente actualizados para as escolas. Essa actualização tem de ser feita a partir de textos editados criticamente e depois refeitos em versões actualizadas fiéis ao original. E a partir desses textos, há muito trabalho a desenvolver com metodologias apropriadas, com recurso a outras artes para além da literatura, com indicações sobre contexto histórico, tornando esses textos motivadores para os alunos. De toda a forma, evitando a banalização. A banalização tem riscos de poder ser muito destrutiva para Camões. É por isso que digo que a base é o texto de Camões.

Organizou, com Eduardo Cintra Torres, o ciclo ‘Camões Hoje’. ‘Camões, poeta e viajante’ foi o título da sua conferência. O facto de o poeta ter estado no estreito de Ormuz aproxima-o de nós?

Quando se fala de Camões poeta e viajante, aí está mais um dos grandes factores de grandeza de Camões do qual venho a falar há vários anos. Não houve outro grande poeta do tempo de Camões que aliasse a erudição extraordinária que Camões tinha ao conhecimento do mundo que também tinha. Camões percorreu a costa ocidental de África, a costa oriental; na sua viagem de regresso estanciou cerca de um ano em Moçambique, foi até à Índia, foi até ao estreito de Ormuz, esteve no mar de Java. É uma experiência extraordinária. Chamar aqui a questão de Ormuz faz-nos ver a contemporaneidade de Camões. O contemporâneo vive de um paradoxo e de um anacronismo, o que nos toca porque não está adequado às pretensões do nosso tempo, como se fosse deslocado. Este Camões que esteve em Ormuz é transportado para o nosso tempo e é isso que nos surpreende, que nos torna capazes de compreender melhor o nosso tempo através dessas interrogações, reflectindo sobre o que é Ormuz no contexto internacional da actualidade e o que era Ormuz no contexto de Camões e na sua vivência pessoal. Isto mostra-nos a oportunidade de, através de Camões, reflectirmos acerca do diálogo com o tempo, mas sem nostalgia do tempo que passou, associando esta adesão a um distanciamento. E esta poderá ser também, em meu entender, uma excelente chave de leitura para toda a poesia de Camões, até para a questão do ensino.

Como se do século XVI Camões convocasse o nosso tempo?

Sim, quando nos faz ver este deslocamento entre o tempo dele e o nosso para nos fazer reflectir sobre nós, o que somos, como nos relacionamos com o mundo, com os outros. Quando, pela primeira vez, a Europa se ligou a todo o território do Oriente e estabeleceu ligações directas com o Oriente, sem os intermediários, quando se tratava de vias terrestres e de contacto directo, Camões estava lá. E nos nossos dias o que se passa nas relações com Ormuz e com o Oriente? O diálogo dos nossos tempos será bastante mais difícil.

Apetece dizer o mesmo que Camões, dando conta das primeiras dificuldades do encontro com o outro, disse, pela boca de Vasco da Gama, no Canto V: «Nem ele entende a nós, nem nós a ele». É também um problema de incomunicabilidade. Não há como reatar a fala?

Exactamente. Como é que depois de relações de séculos com todas estas zonas chegámos ao panorama e ao cenário que hoje temos?

É justamente a pergunta. Como foi que chegámos aqui?

Chegámos aqui por muitos motivos, mas falando em termos simbólicos e através da poesia, porque tivemos poucos poetas que, como Camões, levassem a Bárbora escrava, que fossem capazes de superar conotados sociais ( Bárbora era uma escrava), conotados de cor de pele ( Bárbora era negra) e fossem capazes de reconhecer o outro, como tal, despidos de preconceitos, os quais Camões soube pôr de parte, usando a poesia para isso. Camões foi muito avançado para o seu tempo.

Mesmo quando pensamos naquele famoso soneto sobre a mudança, que há pouco referia. Como se Camões, do seu tempo, nos dissesse que a única coisa que podemos ter por certa é a própria mudança. Passamos a vida a lamentar-nos pelo facto de as coisas já não serem o que eram. Falta-nos abertura? Capacidade de encaixe?

Falta-nos a combatividade e a clarividência que Camões tinha acerca de todas estas questões. Vejamos que o tempo do Renascimento, o tempo em que Camões viveu, era um tempo de grande crise em virtude das mudanças absolutas que se processaram. Um mundo intensamente imbuído pelo catolicismo da igreja romana foi plasmado por uma cultura pagã, dos deuses da Antiguidade. O certo é que nas mentalidades, na literatura, estes dois planos conviviam. Portugal, nesse sentido, foi uma plataforma avançada dessa crise que desmontou e renovou ideias vigentes até tempos muito recentes. Cada embarcação que chegava a Lisboa dava notícia de novos povos, novas terras, novos continentes a serem desbravados, novas formas de vida, novos animais, novas plantas, novas mercadorias, o que reformulava completamente o trânsito entre mercados – de bens e infelizmente de pessoas. Tudo isso mudou de um dia para o outro a visão do mundo. Camões traça-nos um retrato vivo dessas mudanças. Acho que Camões estava muito próximo do pensamento de um neo-platónico italiano como Pico della Mirandola, que escreveu uma oração sobre a dignidade do homem. Diz que o homem está no meio do mundo e explica porquê: porque Deus lhe deu a liberdade mas também a responsabilidade de actuar. E de actuar perante o outro, através de escolhas que são inerentes ao homem. Esta é uma forma de valorizar a vida activa. O homem tem aquilo que faz. E Camões tem tantas realizações.

E ainda assim foi um eterno insatisfeito... 

Isto não significa que o homem possa escapar à insatisfação. Camões era um insatisfeito em virtude do ambiente cultural, em virtude do seu temperamento, mas particularmente na forma como soube transmitir através da língua portuguesa e da poesia essa insatisfação que nunca denega os problemas que se lhe colocam em nome de uma responsabilidade do homem perante aquilo que tem. A edição crítica de Camões contribuiu também, como já o disse Helder Macedo, para uma nova interpretação da poesia de Camões. E o próprio facto de que não possamos dar como garantida a autoria camoniana das redondilhas ‘Sôbolos rios’ (2.ª parte, mais precisamente a partir do verso 200) vai precisamente no sentido dessa nova leitura da poesia de Camões como um combatente insatisfeito que nunca desiste de se confrontar com o mundo, sempre em nome dos mais altos valores cívicos, sociais do seu mundo. Dentro de uma perfeita ortodoxia religiosa, entende que o homem, o que faz à face da terra, se deve às suas escolhas e à liberdade que Deus lhe concede mas que só depois da morte se poderá unir a Deus. Enquanto estiver à face da terra é através da acção que tem de lutar por um mundo melhor. E aqui descobre-se um Camões muito crítico do seu mundo.

Isso colide abertamente com a segunda parte das Redondilhas, na qual Camões nos surge como um desistente.

De certa forma, na segunda parte, como disse Helder Macedo, temos um Camões suicida. A edição crítica que já saiu em Genève, e que agora irá ser publicada em Portugal, traz avanços críticos, que são fiáveis porque assentam numa base metodológica que nunca foi aplicada aos textos de Camões. E ciência é ciência. Sabemos que não há ciência absolutamente objectiva, seria uma utopia. Mas este nível de objectividade metodológica nunca tinha sido aplicado a Camões.

E porquê?

Portugal tem grandes vazios no âmbito da crítica textual. Tivemos uma grande especialista de crítica textual, Carolina Michaëlis de Vasconcelos que, não por acaso, fez a sua formação na Alemanha, mas que infelizmente não deixou escola em Portugal. Depois disso, não tem havido um investimento na aplicação de uma metodologia crítica textual dos nossos dias actualizada aos textos de Camões.

A identidade portuguesa, os modos nossos de sermos (e de não conseguirmos ser, como dizia Eduardo Lourenço) tem um papel a jogar nesse vazio?

É provável. E terá que ver também com a forma muito emotiva como se lê Camões. Algumas das mais acirradas polémicas da crítica literária portuguesa desenrolaram-se em torno de Camões. Há aqui um vírus infiltrado. Se as energias que foram investidas nas polémicas sobre Camões tivessem sido investidas em edições críticas de Camões, que belíssimas edições críticas teríamos [risos]. Quando se fala de Camões, há sempre esta tendência de resvalar para o emotivo e deixar de lado o racional.

Mas houve bons propósitos, tentativas... 

Houve uma única tentativa de edição crítica da lírica camoniana, que foi a de Leodegário de Azevedo Filho, que se iniciou na década de 1980; esses volumes começaram a ser publicados pela Imprensa Nacional, mas a edição infelizmente nunca foi completada, e os critérios então usados estão hoje superados. As questões prolongam-se e era necessário retomar este trabalho de edição. A partir de 2010, organizei um projecto para a Fundação para a Ciência e a Tecnologia para o comentário a Camões. Saíram quatro volumes desse Comentário. E é de certa forma sintomático a forma como as coisas de desenrolaram. Era uma equipa que integrava portugueses, mas também estudiosos do Brasil, Espanha, Itália, Suíça. Em regime de seminário, reuníamos à volta de uma mesa, pegávamos num poema de Camões e partíamos para a análise, aprofundávamo-lo. Uma das questões que começamos por colocar foi: qual a edição a utilizar? Os membros não ficaram muito convencidos mas usámos a edição de Costa Pimpão. Quando começámos a fazer a análise, verificámos que nem esta edição era satisfatória nem havia outras satisfatórias. Havia erros, coisas que não faziam sentido.

Quer dar um exemplo?

Numa ode fantástica de Camões, sobre a primavera, que começa «Fogem as neves frias», segundo a edição de Costa Pimpão, Camões refere o vento ‘branco’; para um comentador, foi preciso fazer piruetas para explicar como é que na primavera havia um vento branco, com cor. Era um erro. Tratava-se de um vento brando, faz todo o sentido. Este é um exemplo de como não tínhamos edições fiáveis de Luís de Camões. 

E são erros de grande circulação que facilmente se introduzem no perímetro escolar.

Erros que chegam às escolas, sim, através dos manuais e que por vezes dificultam imenso a compreensão do texto. Camões é um mestre de língua. Através dele pode-se ensinar à nossa juventude a correcção da língua portuguesa, a sua musicalidade, os valores e a beleza estética, mas há essa tal tarefa de mediação que é fundamental para o futuro. Camões desenvolveu um papel importantíssimo na evolução da língua portuguesa, por exemplo no domínio da sintaxe. Isso conduz-nos àquele célebre mito de que todos temos de estudar Camões a dividir orações. É um mito muito circulado e muito redutor. Agora, num ensino calibrado de Camões aprendem-se implicitamente lições de sintaxe e a sintaxe é uma das partes mais racionais da língua.

E também uma das mais mal tratadas, não é assim?

Sim. E a verdade é que a sintaxe nos ensina a organizar o pensamento. Num raciocínio, ensina-nos a organizar o principio, o meio, o fim. É um instrumento fundamental da nossa leitura do mundo. E também para quem pretenda fazer uma formação em Economia, em Direito... E o grande impulso da sintaxe portuguesa foi dado por Camões.

Entretanto, a IN-CM, acaba de publicar a tradução do primeiro volume da edição crítica da Obra camoniana, os Sonetos. São alguns aqueles que julgávamos pertencer a Camões e, afinal, bem enganados estávamos...

O volume dos Sonetos é composto por 139 sonetos de autoria garantida de Camões e 24, possivelmente, serão de Camões; significa isto que estes só são atestados por uma fonte e, por isso, poderão ser de Camões. Ou não. Camões, em vida, publicou três poemas em livros de outros autores – e, claro, Os Lusíadas. As edições das suas Rimas saíram já depois da sua morte, uma em 1595, outra em 1598. Como mostrou que era de facto um poeta extraordinário, os editores tenderam a atribuir a Camões o que ia aparecendo, apresentando novas edições com novos poemas e tornando também o seu produto mais atractivo...

O que traz desafios aos investigadores. Matéria de sobra para embaraçar várias cabeças, certo?

Aqui colocam-se duas grandes questões. Uma é a de se saber quais são os poemas líricos que são de Camões e os que não são. E a segunda questão é saber qual é a versão do texto mais próxima da vontade de Camões, porque os editores, ao longo do tempo, foram retocando os poemas, o que é uma coisa que hoje quase até nos faz rir. Chegavam a ‘aperfeiçoar’ os poemas de Camões, por exemplo, a mudar as palavras em posição de final de verso porque não gostavam daquele som ou mudar o regime de acentos do verso porque achavam que aquela métrica já estava ultrapassada, não soava bem, era preciso pôr ali algo que soasse melhor ao ouvido. Jorge de Sena tem uma expressão muito interessante e aguda a esse propósito, quando diz que as edições de Camões são feitas através do ‘achismo’. O critério seria... ‘eu acho que isto é, ou acho que isto não é de Camões’.

Vasco Graça Moura, também ele um reputado camonista, cunhou com ironia a camoniana guinada no estômago: «dá cá uma guinada tão especial que só pode ser dele», lê-se num poema de O Concerto Campestre. Neste domínio, não há lugar para a emoção?

De todo. O trabalho de edição crítica deve, tanto quanto possível, pôr de lado as emoções. Já há demasiada emoção na forma como os textos de Camões têm vindo a ser apresentados até hoje. Essa emoção em nada foi benéfica. Agora, a emoção existe perante os textos de Camões e perante certas descobertas. Até mesmo quando se descobre que há composições atribuídas a Camões que são efectivamente falsos. É o caso da elegia de sexta-feira santa, ‘Divino, almo Pastor, Délio dourado’. Não é de Camões, é um falso. 

Como procedeu este trabalho crítico?

Retomou fontes de transmissão do texto próximas, tanto quanto é possível, do tempo de Camões, quer manuscritas, quer impressas, nomeadamente as primeiras edições de 1595, 1598 e depois ainda as primeiras edições do século seguinte. Há três manuscritos muito importantes que são três testemunhos fundamentais e os mais fiáveis: o Cancioneiro de Luís Franco, um testemunho muito próximo de Camões que terá sido seu companheiro no Oriente; depois, o Cancioneiro de Cristóvão Borges e o Cancioneiro de Juromenha, que tem uma particularidade. As composições estão ordenadas de tal maneira que dão a ideia de constituírem um projeto para edição impressa que nunca foi avante, mas que estava ali, já organizado, para edição. As edições são também tomadas em linha de conta mas sem nunca, à partida, dizer que o manuscrito é mais importante ou que a edição é mais importante. Depende dos casos. Para cada texto é feita a comparação e é através da comparação entre textos que se vê qual a versão que estará mais próxima de Camões. Há textos que são sujeitos a banalizações que Camões não teria feito. São simplificados porque o que Camões escreveu seria muito difícil, logo pratica-se aí uma sintaxe mais rasa.