Ramón Galarza: 'Com os outros artistas tinha que se fazer tudo à pressa. Com o Zeca havia tempo'

Nunca pensou que seguiria o caminho do pai, o maestro Shegundo Galarza, mas o amor pela música falou mais alto. Tornou-se músico, produtor e compositor. Colaborou com alguns dos maiores nomes da indústria e construiu o seu legado. Hoje, com 68 anos, dedica-se sobretudo àquilo que «vem de dentro». Recentemente, com a sua banda, lançou ‘Sonus’ que nos leva numa grande viagem do sentir.
Ramón Galarza: 'Com os outros artistas tinha que se fazer tudo à pressa. Com o Zeca havia tempo'

É filho do maestro basco Shegundo Galarza. Por isso, acredito que tenha crescido rodeado de música. Quando pensa na infância, a que lugares regressa?

Muito ao ambiente familiar. O meu pai trabalhava muito em casa. Havia um piano acústico e ele estudava todos os dias. Sendo um virtuoso, tinha que praticar, como um atleta tem que treinar. E não só isso… Ele ouvia muita música, comprava muitos discos e habitou-me a ouvir música. Não me obrigava a ouvir, eu ouvia quando gostava, quando me apetecia, ele nunca me impôs nada. E depois, com alguma regularidade, havia o convívio de cantores, artistas que iam lá a casa. O meu pai fazia arranjos para eles ou estavam a preparar um disco… Havia ali um trabalho de pré-produção: a escolha das canções, a escolha dos tons, conversas sobre como é que gostariam que o arranjo fosse feito… Era um movimento de artistas que eu também achava engraçado. Apesar de eu ser pequenino, já havia nomes que ouvia.

 

O que é que se ouvia mais lá em casa?

Um bocadinho de tudo, mas talvez ouvíssemos mais jazz.

E sempre soube que queria seguir os mesmo passos que o seu pai? Não como maestro, mas como músico…

Não, nunca soube! Nunca pensei muito nisso… Acho que foi muito espontâneo.  Comecei a estudar piano. Aliás, quando disse que o meu pai não me impôs nada, não fui correto. Impôs aprender piano. Aos cinco ou seis anos já tinha aulas com um professor particular. Duraram dois ou três anos e depois, não me lembro porquê, deixei de ter aulas com esse senhor e o meu pai tentou substituí-lo. Só que era um péssimo pedagogo! (risos) Para ele era uma seca. Dizia-me: «Agora faz aquela escala!». Eu punha-me a fazer a escala, olhava para ele, e ele já estava a dormir. (risos)

 

Tal como disse, começou pelo piano, mas decidiu que a bateria seria o seu instrumento principal. Porquê? O que é que ela tem de tão especial?

Não sei explicar bem o porquê… Sempre tive uma tendência para tocar bateria. Começou desde os pauzinhos, quando se comia comida chinesa lá em casa. Batia nos pratos com eles! (risos) Toda a gente ficava irritada comigo… Depois comecei a tocar bateria. Foi muito natural. Era o instrumento com que me sentia mais à vontade.

 

Como era a relação com o seu pai? Era muito exigente consigo? Sentia uma responsabilidade acrescida por ser filho de quem era?

Ele tinha alguma exigência comigo, mas acho que foi sempre um pai com uma mente bastante aberta e sempre me ouviu, sempre ouviu as minhas opiniões. Relativamente à responsabilidade… Da parte dele nunca a senti. Antes pelo contrário. Mas quando comecei a integrar o meio da música, senti um bocadinho que havia uma tendência para dizer: «Olha, é o terceiro Galarza! Olha é o filho do Galarza». Isso incomodava-me um bocado, porque eu quando comecei a ser chamado para trabalhar com outros músicos, em outros projetos, gravar principalmente, queria que fosse por mérito meu, não porque ser filho do segundo Galarza. E, quando por vezes ouvia essas bocas, chateava-me. Tocava-me um bocado, mas também vivia bem com isso.

 

Estreou-se como baterista em 1976, com o país a descobrir-se em democracia. Como era fazer música nessa altura? Como era o ambiente musical em Portugal no pós-25 de Abril?

Comecei antes, numa banda de garagem. Havia um percurso natural naquela época… Depois tive a oportunidade de me estrear profissionalmente com o meu pai. Desenrasquei-o numa situação em que ele ficou sem baterista para um evento, no Hotel Ritz. Não me esqueço porque tive que ir comprar um smoking para poder tocar com eles. Portanto, já me tinha estreado. Eu já era fã de alguns músicos, de algumas pouquíssimas bandas que existiam. Como dissemos há bocado, sempre entusiasmei-me pela música. Foi justamente quando se deu o 25 de abril que comecei realmente a integrar-me no meio. Tenho um grande orgulho, uma grande honra, de ter sido convidado para gravar num disco do Zeca Afonso, por exemplo.

 

Então antes disso já tinha gravado alguma coisa... 

Sim! Já tinha feito gravações. E isto porquê? Porque existia um estúdio ali na Rua de Campolide, que era um dos melhores estúdios que havia em Lisboa. Dos poucos e dos melhores estúdios. Houve uma fase em que foi comprado pela Arnaldo Trindade, uma editora que tinha um catálogo muito interessante e muito eclético. Tinham o Zeca Afonso, o Quim Barreiros, o José Cid, o Sérgio Godinho… Havia ali uma mistura não só de estilos musicais, como até de tendências políticas. E a mim ajudou-me muito porque conheci essas pessoas. Acho que esse espaço catapultou-me, de certa forma, para entrar neste mundo de uma forma mais fácil.

 

Tal como disse, foi percussionista no disco ‘Com as minhas tamanquinhas’ do Zeca Afonso... Devem ter sido tempos muito especiais… O que mais recorda do Zeca?

Para já, era uma pessoa muito simpática, muito bem educada, muito querida. Depois, a linguagem que ele usava não era a linguagem a que eu estava habituado. Era mais uma passagem de sentimentos, de imagens. Ele dizia-me assim: ‘Estou a imaginar esta música com determinada imagem e gostava de ter um ambiente deste género!’. Era uma forma de expressão diferente, mas muito interessante. Na altura, ele já tinha nome, já era conceituado… Podia-se permitir dispor de algum tempo de estúdio para poder criar. Isso não acontecia com frequência, porque os artistas trabalhavam estilo taxímetro. Tinha que se fazer tudo muito à pressa. Com ele havia tempo para experimentar. Ele era muito experimentalista também, porque também não se cingia às soluções mais óbvias. Tinha essa preocupação de haver algum ingrediente que diferenciasse daquilo que se fazia.

 

Um ano depois integrou a banda Tempo e, em 1978, colaborou como baterista e compositor no disco de José Cid ‘10.000 anos depois Entre Vénus e Marte’. Também foi um dos membros fundadores da Banda Sonora de Rui Veloso, participando como baterista em álbuns como ‘Ar de Rock’, ‘Um café e um bagaço’, ‘Fora de moda e Rui Veloso’. Nessa altura, que músico era o Ramón?

Eu ouvia muita música. Na altura, era muito influenciado pelo rock sinfónico e o meu sonho era poder tocar numa banda com essas características, ou poder fazer esse tipo de música. O que em Portugal não era nada fácil… Já havia bandas de rock, mas nada que estivesse perto daquilo que eu gostaria de fazer. A sorte que eu tive do José Cid ter tido a ideia de fazer aquele disco… Isso para mim foi daqueles sonhos que se tornam realidade. Foi tudo tão rápido que eu nem tive muito tempo para pensar. Fiquei tão entusiasmado e tão contente de poder ter essa oportunidade, ainda para mais no país em que estava inserido e com a indústria que nos rodeava… Poder trabalhar com músicos mais velhos que eu, como o Zé Nabo, foi de facto uma sorte.  A dada altura disse para mim próprio: «Ramón, és de facto uma pessoa com muita sorte! Tens de saber aproveitar isso!». Passaram tantos anos, já fiz tanta coisa, e retiro daí um ensinamento. Eu tive sorte e agradeço muito as oportunidades que tive durante a vida. Estou mesmo muito agradecido por isso. Estive no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. Acho que também tive algum mérito em saber aproveitar essas oportunidades.

 

Mas como é que se via na altura?

Via-me como um miúdo entusiasmadíssimo. A decisão de seguir a minha vida profissionalmente como músico não foi difícil, mas passou por uma conversa com o meu pai. Eu já tocava com ele, já fazia uns gigs, estava a acabar o liceu e ele disse-me: «Oh Ramón, acho que tens muito talento, mas sabes que a vida na música não é fácil. Portanto, pensa lá bem. Se calhar, aconselhava-te a teres uma alternativa».

Eu dei-lhe ouvidos. Gostava de desenho e fui para Belas Artes tirar Arquitetura. Não passei do primeiro ano! (risos) Já tocava e o meu entusiasmo e vontade superaram tudo isso. A partir daí, tanto o meu pai como a minha mãe sempre me apoiaram. Foram uns companheiros muito importantes.

Em 1981, assumiu o papel de diretor musical e baterista do programa de televisão ‘O Tal Canal’, do Herman José e da ‘Rua Sésamo’. Acredito que se tenha divertido muito. Quais são as principais diferenças entre produzir para televisão e produzir um álbum?

Produzir para a televisão e, em casos como a Rua Sésamo que era um projeto que envolveu imenso trabalho, obriga-nos a ser mais rápidos. Há muito trabalho, é tudo para ontem…Tinha que se trabalhar com muita velocidade e com um rigor que não é tão exigente como quando se grava um disco. Por exemplo, para a Rua Sésamo, diziam-me: «Olha, estamos aflitos, é preciso uma música para amanhã, mandamos-te o filme agora!». Um disco é mais pensado, tem o processo de pré-produção que é importante, a escolha do reportório que, muitas vezes, eram as editoras que já faziam esse trabalho, que já passavam o projeto e diziam: «Olha, são estas as músicas, tens X para gastar, é preciso entregar este master dia X». Aí é um processo mais lento, mais criterioso.

 

E como foi trabalhar com o Herman?

Foi muito divertido, como deve calcular… Também foi uma grande oportunidade para todos os que colaboraram… Viver algo que nunca tinha acontecido… O ambiente era mesmo muito bom. E o Herman é, de facto, uma pessoa muito divertida. Acho que ele até é mais divertido nos bastidores do que quando está em cena (não pondo em causa  a sua grande qualidade como artista, claro). Ele também estava muito entusiasmado, e foi uma aposta que, se não corresse bem, podia ser mau para ele. Felizmente acertou em cheio e criou-se um ambiente que acho que ajudou muito.

 

A partir de 1983, direcionou o seu foco para a produção musical, começando a participar em inúmeros projetos de gravação em diversos géneros, incluindo música ligeira, música popular, pop-rock, rock e jazz. São estilos muito diferentes… Como adapta a sua abordagem a estilos tão distintos?

Primeiro, eu decidi ser profissional, investir numa empresa, em meios, porque precisava de trabalhar. Tenho que assumir isso! Claro que algumas vezes também aceitei trabalhos porque efetivamente precisava de trabalhar. Depois, acho que tenho um gosto musical muito abrangente. Não sou fixado num género de música. Ouço um bocado de tudo e, posso não ser um expert em todas as áreas, mas acho que tenho algum conhecimento. Tanto gosto de uma música pop, como gosto de um tema de jazz, como gosto de uma ópera. Acho que já tinha alguma preparação em termos de cultura musical que me permitia poder fazer isso com algum conhecimento. Considero que também era bom para mudar um bocadinho o estilo, não cair naqueles vícios que às vezes vamos adquirindo de fazer sempre a mesma coisa.

 

Atualmente é no jazz que se encontra mais?

Hoje em dia sim, apesar de não ser um músico de jazz. Acho que a minha tendência como compositor - que é uma atividade a que tenho estado a dedicar-me mais nesta última década -, é mais virada para aí, e é aquilo que me dá mais satisfação como artista.

 

E porque é que tomou a decisão de ser produtor e compositor?

Eu sempre tive uma paixão pela gravação e pelos estúdios. Quando era miúdo ia sempre com o meu pai. Preferia ir com ele do que ir jogar à bola com os meus amigos. Além da música, também sempre tive um fascínio pela parte técnica, sempre me interessei pelas mesas de mistura, pelos microfones, pelos gravadores… Portanto, isso foi fácil de juntar.

 

Perde-se a conta aos nomes com os quais trabalhou… Carlos Paião, Marco Paulo, Beto, Rita Guerra, Adelaide Ferreira, Dulce Pontes, Xutos & Pontapés, Tozé Brito. Todos eles o fizeram, de alguma maneira, descobrir coisas novas sobre si e o seu trabalho?

Acho que sim. Eu aprendi coisas em todos os trabalhos que realizei, quer musicalmente, quer nas relações humanas, quer tecnicamente. Houve sempre alguma coisa, porque eu também sempre tentei ver o lado positivo das coisas.

 

Há algum artista ou trabalho que mais o tenha marcado?

O Zeca Afonso pela importância que teve e pelo tempo em que isso aconteceu; o disco 10.000 anos depois Entre Vénus e Marte, com o José Cid foi a realização de um sonho, e o disco Ar de Rock, com o Rui Veloso. Foi um disco que abriu muitas portas para mudar a mentalidade da indústria da música em Portugal… Teve sucesso comercial, e isso fez com que as editoras acordassem. Estavam um bocadinho acomodadas a um estilo de música que não passava daquilo e não arriscavam em coisas novas. Nós que ouvíamos a música que se fazia lá fora, tínhamos aquela frustração de não poder fazer isso. Esse sucesso comercial do Rui permitiu que as editoras abrissem o leque de escolha e de apostas. Depois vimos a parafernália de bandas boas que nasceram a partir daí.

 

Foi júri na ‘Chuva de Estrelas’ e nos ‘Ídolos’. Como foram essas experiências? Deve ser muito desafiante avaliar alguém…

É um bocadinho ingrato porque também depende do feitio de cada um. Eu estou longe de pensar que sou dono da razão e que o meu gosto prevalece. Tento ser uma pessoa educada e respeitadora. Quando se está a ouvir alguém que está um bocadinho fora do baralho ou que não serve muito para aquilo, é delicado dizer isso sem ser agressivo ou sem traumatizar… Mas repare… É televisão. Televisão é espetáculo e, muitas vezes, querem sangue e controvérsia. Nessa altura achei que fazia sentido participar, até porque já tinha alguma experiência no meio. Gostei, mas não é uma coisa que me tenha marcado no sentido de querer apostar em continuar.

Em 2009, decidiu começar uma carreira a solo. Há muito tempo que tinha essa vontade? O que o motivou a lançar o seu primeiro álbum a solo?

Não vivia obcecado com isso de forma alguma, mas sempre compus, sempre tive ideias, sempre quis fazer alguma coisa minha. Coincidiu ser nessa altura, mas mesmo a partir daí continuei a trabalhar para outras pessoas e a fazer outros trabalhos.

 

Numa outra entrevista disse que começou a pensar de uma maneira um bocadinho mais «egoísta».

Lembro-me de ter dito isso… Que nesta última década talvez esteja a pensar mais em mim, e a dedicar-me mais àquilo que me apetece fazer. Tenho recusado alguns trabalhos também. Já não vou para o novo e já não tenho tantas ofertas de trabalho como tinha, porque é a lei natural da vida… Não tenho qualquer problema com ela! Aceito isso com toda a naturalidade, mas também tenho mais tempo.

Como descreveria a sua identidade musical enquanto artista?

Acho que sou eclético! Continuo a ser muito eclético!

 

Em 2018 decidiu criar a Ramón Galarza Band. Qual foi a intenção?

Partiu do meu amigo, o baixista da banda. Ouvindo os temas que eu tinha incentivou-me e motivou-me. Decidimos então criar a banda e foi ele que escolheu os outros músicos. É uma das coisas que eu lhe agradeço muito, porque de facto conseguimos reunir um leque de músicos muito bons e daí resultou também uma grande amizade. Damo-nos todos muito bem, divertimo-nos muito. Fazemos isto por prazer e não por vantagens financeiras.

 

Trabalha de uma forma muito diferente? Tal como já referiu, também começou numa banda… Já passaram muitos anos.

É diferente… Isto é um projeto meu. Os temas que nós temos são todos meus. Não sou ditador, mas de facto tenho que assumir que a minha marca está lá sempre. Não impondo nada! Eles dão ideias, mas é uma coisa que transmite mais aquilo que está dentro de mim.

 

‘Sonus’ é o vosso terceiro disco. No que é que ele se distingue dos outros?

Talvez nos discos anteriores haja temas em que eu quis ser um bocadinho mais espetacular, exibir as minhas potencialidades como compositor, complicar um bocadinho. Queria mostrar um bocadinho mais de virtuosismo em certos aspetos. Aqui tentei ser mais simples, ser mais tranquilo. Acho que as pessoas também gostam de coisas um bocadinho mais soft. Não é que o disco seja todo soft! (risos) Talvez também se distinga pela simplicidade. Reconheço que tenho um bocadinho de tendência para exagerar na instrumentação e, neste caso, simplifiquei um bocadinho mais. Houve mais cuidado na mistura… Foi feito com mais calma.

 

Existe algum fio condutor no disco? As músicas casam todas muito bem umas com as outras…

Foi casualidade… Fiz o alinhamento do disco, mas juro que não pensei nisso quando escolhi as músicas. Aconteceu espontaneamente! (risos)

 

E como é que se escolhe os nomes para músicas sem letra?

(risos) Isso é uma boa pergunta! Tem de se dar um nome, não é? Muitas vezes costumo estar a trabalhar e, como agora, tenho a televisão aqui à frente ligada. Passa uma imagem, uma frase e eu fixo. Ou há um sentimento… Muitas vezes não é o conteúdo da música que me sugere o título. Às vezes eu dou o nome quando estou a começar a fazer a música. Logo no primeiro momento há uma imagem qualquer que se cruza na minha vida - uma notícia, uma pessoa que passa na rua, um avião que sobrevoa, o carro de bombeiros, a ressaca que tive no dia anterior. Não acho que seja demasiado importante. Os meus discos não são conceptuais, o tal fio condutor, haver uma história…

 

A interpretação da arte quer-se quase sempre livre... Mas quando fazemos nascer uma música, preocupamo-nos com as sensações que queremos passar a quem nos ouve?

Sim, acho que sim. Seja o ritmo, uma sequência harmónica que seja agradável, que possa ser agradável para alguém. De certeza que tem uma música que a marcou por alguma razão. Há sempre uma música que nos acompanha em situações da nossa vida… Tenho a certeza que os compositores dessas músicas, quando as fizeram, não estavam a contar que isso nos acontecesse nesses momentos… Mas nós sabemos adaptar essas músicas às nossas vidas, porque nos transmitem alguma coisa…

 

Considera a sua música elitista?

Sim! Não é essa a minha intenção, mas é aquilo que me saí! (risos)

 

Atravessou cinco décadas da nossa música como poucos conseguiram. Sente que a sua forma de fazer e apreciar música tem mudado muito com o passar do tempo?

Sim! A experiência ensina-nos muita coisa. Acho que com a idade que tenho, com o percurso, com a experiência adquirida, fizeram-me filtrar e ver as coisas de outra maneira..  Houve épocas na minha vida em que eu só ouvia a bateria, outras em que estava mais focado nas letras, por exemplo. Hoje em dia acho que consigo filtrar muito melhor a audição de uma música vendo os vários aspetos que me interessam: se o som está bom, se a voz é boa, se está desafinado, se a letra encaixa bem… Não estar focado em só uma das partes. Consigo ouvir mais o todo!

 

Como é que olha para a indústria atualmente?

Acho que estamos a viver um período de grande confusão. Isto vai ter de assentar de alguma maneira, porque o futuro dos músicos, para mim, não será nada fácil. A venda de discos acabou… Agora são as plataformas digitais que fazem chegar a música às pessoas e, a remuneração, é quase irrisória. 

 

Há pouco tempo o Salvador Sobral retirou as suas músicas do Spotify precisamente por causa disso…

Exatamente! A indústria vai mesmo ter de se adaptar. Os artistas vão ter de se começar a unir de uma forma mais poderosa para tentar alterar um bocadinho isto, para que se faça um bocadinho mais de justiça. Ok, eles têm a tecnologia toda e que funciona lindamente, mas os conteúdos somos nós que os fazemos. Depois temos esta introdução da inteligência artificial…

 

Qual é a sua opinião sobre isso? 

Estou a entrar nisso lentamente. Tenho estado a explorar as suas possibilidades e é assustador. Sendo mais específico, uma música de 20 segundos para um anúncio. A pessoa da agência sabe o que quer, tem uma ideia na cabeça. Transmite ao produtor ou à pessoa que encomenda essa música, essa ideia. Depois resulta ou não. Hoje em dia basta saber pedir à máquina e, em menos de um minuto, tem uma música com uma qualidade extraordinária. Aliás, ela faz logo várias versões. É super rápido. Depois tem a possibilidade técnica de pegar naquilo - que vem tudo separado em termos de áudios -, e editar. Isto vem alterar completamente o funcionamento das coisas.

 

É assustador?

Sim, mas ao mesmo tempo vejo com alegria porque há coisas que me vão dar muito menos trabalho. (risos) Imagine, se calhar às vezes estava a fazer um arranjo, a tocar uma melodia e enganava-me. Tinha de voltar para trás. Hoje em dia ponho o playback a tocar, canto a melodia e ele regista-me a melodia. Escolho o instrumento que quero e está feito. Isto vem alterar completamente os nossos métodos de trabalho. Em termos de direitos de autor, ainda é uma grande confusão… Também ainda não entrei em profundidade no tema. Talvez por estar com medo.

 

Depois de décadas de carreira, o que o continua a entusiasmar na música?

O prazer que eu tenho de vir para o estúdio. Fazer música, ouvir música. É a minha praia.

 

Como gostaria que o seu contributo para a música portuguesa fosse lembrado?

Alguém que adora Portugal. Que adora viver aqui, que adora os portugueses. Sinto-me muito feliz neste país. Espero ter contribuído com os trabalhos em que colaborei para alegrar a vida das pessoas.

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