quarta-feira, 13 mai. 2026

Projeto Global. Um filme sobre o erro e a dúvida 

O novo filme de Ivo Ferreira estreia no dia 23 de abril nas salas portuguesas e revisita a tensão política dos anos 80 em Lisboa, dando a conhecer a ação armada das Forças Populares 25 de Abril (FP-25). 
Projeto Global. Um filme sobre o erro e a dúvida 

Há quem diga que pode vir a ser um dos melhores filmes portugueses de 2026. Conjuga tensão narrativa, ação, amor, densidade política e mete o dedo na ferida de um conturbado período que, até agora, parecia demasiado desarrumado. Grita liberdade, mas não pretende que escolhamos lados. Projecto Global, o novo filme de Ivo Ferreira – que estreia dia 23 de abril nos cinemas portugueses –, centra-se na atuação do grupo terrorista de extrema-esquerda conhecido como FP-25 que, entre 1980 e 1986, foi responsável por múltiplos atentados, assaltos e mortes em nome de uma causa reivindicada como «urgente». A obra decorre precisamente no início dos anos 80. Na ficção, construída a partir de uma investigação histórica da época, «Rosa, Jaime e os seus camaradas desse grupo armado, deslizam para uma espiral armada onde a moral se desfaz, a lealdade vacila e cada passo abre um abismo mais profundo», diz a sinopse. «Afastados de si próprios e com os sonhos de outrora em ruínas, já não reconhecem o país que atravessam, e ainda menos as pessoas que se tornaram», adianta. Produzido pela O Som e a Fúria, o filme é interpretado por Jani Zhao, Rodrigo Tomás, José Pimentão, Gonçalo Waddington, Isac Graça, João Catarré, Ivo Canelas, Hugo Bentes, Isabél Zuaa, João Pedro Mamede, Pedro Marujo, João Estima, Adriano Luz, Ana Tang, Lee Zhao Ferreira, Alyne Fernandes, David Pereira Bastos e Gonçalo Cabral.

Um baú desarrumado

«Parece-me que a recente história contemporânea foca-se muito no Estado Novo, na ditadura e no 25 de Abril. E parece que a partir daí não aconteceu mais nada, que foi tudo por uma revolução dos cravos, sem sangue… Claro que sim! Mas a história não acabou aí, e a prova disso são estas Forças Populares do 25 de Abril, esta organização armada clandestina que existiu com uma grande força, com uma grande energia, com uma grande atitude perante o seu descontentamento, vontade de agir pelas suas próprias mãos, mas que acabou por descambar», reflete Jani Zhao, sentada na esplanada da Cinemateca Portuguesa. «Eles passaram a ser questionados, excluídos e atacados pela própria massa que pretendiam libertar», reforça. Segundo a atriz, este projeto foi como «desenterrar um baú cheio de coisas, tendo a chave, mas não sabendo bem se se quer abrir ou não». «Depois abres o baú e as coisas que estão lá dentro não são assim muito simples… Está tudo desarrumado, com marcas do tempo, tudo muito confuso. Começas a ligar os pontos… Essa pesquisa foi toda muito interessante e foi necessária uma grande entrega e um grande empenho de todos nós. Sabíamos todos que não podíamos levar isto com leveza e distanciamento», admite. Jani garante que o realizador – que é também seu companheiro –, teve o cuidado de não transformar o filme em algo panfletário, moralista, fundamentalista, em não tomar partidos, «em abordar realmente esta ambiguidade e esta incerteza, estas dúvidas que acho que partilhamos todos». «Vivemos numa altura em que há tanta opinião e tanta certeza, tanta convicção, que uma pessoa esquece que há lugar para a dúvida», continua a protagonista da história, acrescentando que «este filme aborda tudo isso, tentando ainda humanizar as personagens ao máximo no sentido em que elas não são só uma coisa, não são lineares, não são previsíveis, não são cliché, trazem várias camadas das contradições».

Os maiores desafios para os atores  

No filme, a atriz dá vida a Rosa e, para si, este foi um casting muito particular, porque já tinha uma ideia do projeto, uma noção da sua dimensão e da sua dificuldade. «Foi mesmo um casting muito intenso, muito minucioso. Se calhar também veio da minha perspetiva de haver uma responsabilidade acrescida por saber a carga que tudo isto carrega e a responsabilidade que tenho não só enquanto atriz, mas também enquanto cidadã, porque estamos a dar voz a um tema muito delicado, tabu, que é abafado já desde sempre e que a informação que há é muito escassa, é muito difícil de encontrar e o que se encontra não se percebe bem quais são as fontes. Portanto pode não ser fidedigna e hoje em dia com a desinformação é preciso ter um cuidado redobrado», alerta. 

Jani Zhao partilha que a Rosa a obrigou, por isso, a ter uma consciência política muito maior. «Posso dizer que me politizei a partir dela. Foi um processo meio esquisito e esquizofrénico, porque nós, atores, tendemos a achar que sabemos mais do que as personagens, porque somos nós que tomamos as decisões por elas, somos nós que pensamos por elas. Com a Rosa foi exatamente ao contrário, eu senti que ela sabia mais do que eu, então foi um bocado difícil ao início», explica. «Houve uma certa desconfiança, uma tentativa um bocado moralista de avaliar as suas decisões, de achar que ela não tinha tomado o caminho certo… Houve muitas discussões internas entre mim e a Rosa, foi um período um bocado angustiante», lembra. Depois passou uma fase de um grande encantamento, um grande fascínio, uma inveja ao pensar: «Uma pessoa anda aqui estes anos todos e, de repente, tens uma personagem que te dá lições, que puxa por ti e que te mostra que se calhar não estás assim tão bem como tu achavas». 

Tal como a colega, Rodrigo Tomás – que dá vida a Jaime –, teve o primeiro contacto com o projeto através de um convite para um casting por parte de Ivo Ferreira. «Para me preparar fui mergulhar nesta temática e foi duro construir este Jaime. Houve várias etapas. A primeira era de perceber todo o contexto histórico e social e de estudar o guião. Depois, em set, tentar desconstruir alguns preconceitos e certezas que eu já tinha em relação a ele. Foi um trabalho constante com o restante elenco e com a direção do Ivo. Foi muito intenso», garante à VERSA. Segundo o ator, o maior desafio no processo foi, talvez, encontrar a insegurança no Jaime, «porque era muito óbvio onde é que ele era muito certo, onde é que ele tinha as suas convicções muito vincadas». «Foi desconstruir isso. E encontrar onde é que ele tem realmente as suas inseguranças. E isso foi uma coisa que o Ivo apelou sempre, porque eles são trapalhões, eles não são super-heróis. Eles são muito, muito trapalhões, são muito inseguros, têm receios», refere.  

Houve, por isso, muito espaço para o erro. «O Ivo costumava dizer que: ‘Se vocês tiverem muita certeza do que estão a fazer, é porque estão a fazer muito errado’. Isso desarma, porque nós vamos criando mecanismos de defesa e estratégias… Depois é muito angustiante quando estamos num local seguro, confortável, mas onde temos alguém sempre a puxar o tapete. É angustiante e deixa-nos em situações muito delicadas, mas lá está, nós percebemos logo à partida que o exercício seria esse», conta Jani Zhao. E Rodrigo concorda: «Isso desmonta-nos, mas ajuda a acrescentar camadas à personagem, ao próprio filme e à própria cena». 

Um filme sobre o erro 

Segundo o realizador, o trabalho com os atores é fulcral. «É um trabalho fundamental para mim. É quase uma coisa de maestro… O tom da representação é uma coisa importantíssima, e foi isso que se trabalhou com os atores e, ao mesmo tempo, definindo e redefinindo as personagens. E todos os ensaios, por exemplo, foram feitos a ser filmados. Enquanto fazíamos os ensaios o André Godinho ia reescrevendo os diálogos. Foi sobretudo um trabalho ancorado na ambiguidade moral. Este é um filme sobre o erro, sobre a dúvida e nunca sobre verdade nenhuma. Se não sentirmos dúvidas, o filme está a falhar», sublinha Ivo Ferreira. 

O que tem gostado mais de perceber é que o filme fica com as pessoas durante algum tempo. «É muito gratificante saber que as pessoas ficam a falar sobre ele. Isso para mim é a coisa mais importante, porque eu acho que a discussão é daqueles pilares fundamentais da democracia e da paz. Eu trabalho sempre sobre as zonas cinzentas da história contemporânea portuguesa, que são as zonas mais lamacentas. Estava sempre a dizer que se Portugal fosse ao psicólogo, ficava lá. Era internado compulsivamente», afirma. 

Para si, o cinema acaba quando há «maniqueísmo moral das personagens». «Aí é uma coisa que deixa de me interessar. Evidentemente que o filme é pacifista, mas é claro que há pessoas que ficam confusas com o facto de eu gostar deles (membros da organização) e da câmara gostar deles. Mas esse ato de amor é também feito com as outras partes. Com o Ivo Canelas na polícia, por exemplo… É uma forma de abordagem claramente minha e nada que se esteja a querer dizer ou passar. Filmar é um ato de desejo», diz Ivo Ferreira. 

Um processo criativo intenso 

De acordo com os atores, o processo de construção de personagens foi muito duro. «Da luta interna passou para o trabalho com os meus camaradas…  Decidimos fazer uma residência artística de três dias, sem acesso a nada, a não ser nós próprios, as roupas das personagens e uma pistola.  Andávamos com uma pistola de água para ter a sensação do que é ter aquele objeto connosco a toda hora, tentando disfarçá-la ao máximo. Estes pequenos detalhes, estas pequenas questões que havia na vida destas pessoas, tínhamos que as trazer para o nosso dia a dia», revela Jani Zhao, acrescentando que o elenco passou por situações muito inusitadas. «No primeiro contacto, vendaram-nos, meteram-nos dentro de um carro, andaram lá às voltas nos montes do Alentejo e deixaram-nos no meio do nada, apenas com um mapa rudimentar que nos indicava o caminho até à Casa Abrigo. Havia sempre casas para onde os operacionais, se tivessem de entrar na clandestinidade, tinham de ir. Havia informações muito escassas, mas as informações concretas eles tinham-nas… Era uma questão de segurança, não só deles próprios, mas da própria organização», explica. «Então, andávamos pela aldeia, vestidos de personagem, e a isto juntava-se a brincadeira dos policiais estarem lá… O Ivo Canelas estava lá à nossa procura… Isso tudo levou-nos logo para um lugar muito específico, uma atmosfera muito concreta», acrescenta. Os atores também tiveram treino de tiro na Polícia Judiciária e stunt driving – pilotagem de risco, direção perigosa ou manobras arriscadas. 

No filme, a atriz contracena com o filho que tem em comum com Ivo Ferreira. Com apenas seis anos, Lee dá vida a Mao. «Foi das coisas mais extraordinárias que tive na vida, porque eu achava que ia estar muito mais a segurá-lo, a levá-lo, e não foi isso que aconteceu. Acho que aprendi muito mais do que ensinei. Ele já tinha duas rodagens em cima, por isso foi também com algum arcabouço e isso ajudou muito», diz a protagonista, acrescentando que Lee trouxe também muita humanidade às personagens. «Foi muito lindo porque trabalhámos as cenas juntos, ele não precisava de muito tempo porque tem uma memória extraordinária e é um muito dedicado. E acho que a relação da Rosa e do Mau é muito bonita porque a cumplicidade, o à vontade, o amor, a ternura que há entre mãe e filho é muito específica, e seria muito difícil criá-la com uma criança que não fosse minha», admite. 

Segundo a artista, Rosa elevou-lhe a fasquia enquanto pessoa e atriz. «Tudo o que eu sou enquanto atriz está ali… Ainda estou na ressaca, no vazio. Já estou um bocadinho melhor, já consigo não chorar, já consigo não estar sempre à procura dela, já aceitei que a Rosa vai estar comigo para sempre, e perceber também que apesar de gostar muito dela e ter muita inveja dela, ela também tem as suas falhas», reflete. 

Ivo Ferreira reforça que, por um lado, o filme não é nada saudosista em relação à violência. Mas pode ser saudoso em relação à energia da época. De uma série de pessoas que querem melhorar o mundo, querem um mundo mais justo. «Depois, uma coisa que é horrível, é perceber como é que a quimera, a utopia, pode colapsar com a realidade. Como é que tu podes estar num caminho que tu próprio acabas por não reconhecer… Não reconheces os teus atos ou os atos da própria organização. Eu acho que foi o que acabou por acontecer. Com o tempo, a organização acabou por perder um pouco a bússola moral e ter ações completamente irreconhecíveis para os próprios membros», afirma. «Um gajo faz um filme sobretudo para tentar perceber o mundo, tentar perceber as pessoas, perceber as coisas no concreto. Este é um filme que discute política, mas não é panfletário. Era o que me faltava! Isto não é um filme americano, é um filme sobre pessoas que têm a sua vida, que têm desejo sexual, que querem beber copos e que fazem parte dessa organização… Isso para mim era muito importante», garante o realizador. 

Recorde-se que o guião foi escrito com Hélder Beja a partir de uma investigação científica que será publicada em livro – editado pela Tinta da China e da autoria do historiador Francisco Bairrão Ruivo.