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40 anos depois da sua morte, é difícil encontrar alguém que não saiba, pelo menos, trautear alguns dos seus êxitos, como Cinderela, Pó de Arroz ou Playback, canção com a qual ganhou o Festival RTP da Canção em 1981 e que, hoje, dá nome à longa-metragem de Sérgio Graciano, protagonizado por Rafael Ferreira e Laura Dutra, que estreou no dia 6 de agosto nos cinemas portugueses. O filme leva o público por uma viagem pela vida do cantor, desde a universidade (onde se formou em medicina), à relação com os pais, à paixão pela sua Zaida, até à forma como se tornou uma figura incontornável da música portuguesa que morreu de forma trágica e prematura num acidente de carro quando ia a caminho de um concerto nas festas em honra de São Ginésio, em Penalva do Castelo. Recorde-se que o acidente ocorreu na antiga Estrada Nacional 1 (EN1), na zona da Amieira, perto de Rio Maior. Tinha apenas 30 anos.
Uma investigação profunda
«Costumo dizer que foi a ‘tempestade perfeita’. Eu acho que são os filmes que me escolhem… Eu escolho pouco!», começa por dizer à VERSA Sérgio Graciano. «Foi uma ideia do Mário Cenicante, o autor. Ele falou comigo e depois começámos a desenvolver este projeto… Já há três anos. Fomos ‘namorando’ com a Zaida Cardoso, que é a viúva do Paião, e o Mário foi construindo o guião… De repente, o apelo começou a chegar com mais força, a vontade de contar esta história começou a ser muito maior, porque através da Zaida comecei a aproximar-me imenso do Paião», lembra, adiantando que esta é uma mulher muito comedida, cuidadosa e muito elegante. Segundo o próprio, foi um processo demorado, para conseguirem «ganhar a confiança normal de alguém que vai partilhar uma vida com outra pessoa que não conhece».
O realizador sublinha que este não é apenas o biopic. «Acho que o Carlos sempre foi uma figura misteriosa e eu não quis resolver nenhum tipo de mistério. Aliás, quis que ele continuasse alegremente misterioso. Por isso é que o desenho do filme é muito mais sobre a cabeça dele e muito menos sobre aquilo que andava à sua volta», revela. «O meu interesse em falar com a Zaida – e apenas com a Zaida –, foi exatamente por causa disso. Não quis saber de mais opiniões. Quis conhecer aquele Paião. E o que vão ver é o meu Paião. O Carlos da história de amor, da família. Um Paião até ligeiramente melancólico», descreve.
Interrogado se houve algo sobre o cantor que tenha descoberto durante a investigação e que mais o tenha surpreendido, Sérgio Graciano refere que Paião foi muito mais do que as músicas orelhudas que criou. «Eu já existia naquela altura, e é ingrato dizermos que era um cantor popular sem profundidade. O Carlos Paião tinha imensa profundidade. Aliás, é só olhar para as letras e perceber que era uma pessoa dotada para a escrita. E isso transforma, não é? Transforma a minha experiência, transforma o filme… Obrigou-me a ver o Carlos Paião de outra maneira», garante. O realizador adianta ainda que o que o público verá no ecrã é uma grande história de amor. «Eles namoraram desde os 14 anos. Foi quase a vida toda dele… O filme começa numa história de amor e acaba numa história de amor. É isso que eu sei!», aponta.
Os protagonistas
Rafael Ferreira preparava-se para o seu primeiro dia de trabalho num restaurante quando recebeu uma chamada que lhe dava a novidade que tinha sido escolhido para o elenco. Segundo o ator, foi através de um momento de scroll no telemóvel, no verão passado, que viu um anúncio no Instagram do realizador a dizer que «precisavam de um Paião». «Mandei uma selftape a cantar a ‘Cinderela’. Pensei: ‘Ok, eu consigo cantar, mas não sou parecido com ele…’. Passada uma semana fui chamado para fazer uma audição presencial», conta à VERSA, admitindo não estar com grandes esperanças de ser escolhido. No entanto, dias depois, quando se preparava para abrir as portas do restaurante, recebeu uma chamada do seu agente. «Disse-me: ‘Olha Rafa, o elenco do filme está fechado’. O primeiro pensamento foi: ‘Pronto… Mais um não’. Mas estava errado. Fui escolhido como protagonista, não cheguei a começar esse novo trabalho», lembra, rindo.
Já Laura Dutra – que dá vida a Zaida –, foi convidada diretamente por Sérgio Graciano. «Ele sabe que eu gosto de desafios e sabia que eu ia ter que cantar e dançar. Eu não estava muito familiarizada com isso e, na altura, fiquei um pouco apreensiva, mas como confio bastante no Sérgio, sei que ele nunca me lançaria um desafio que eu não conseguiria abraçar», revela, admitindo que, mesmo assim, inicialmente não foi fácil. «Essa parte inicial foi mais desafiante, mas também foi super boa porque comecei a ter aulas de canto com o Diogo Pinto… Ou seja, o Rafa é aqui o protagonista da voz do Carlos. Eu só tinha que conseguir estar ali atrás sem desafinar», adianta. «Esse foi o principal objetivo para eu também estar tranquila nas cenas e não ficar a pensar muito nisso», acrescenta a atriz. Rafael e Laura já haviam trabalhado juntos noutros projetos e, quando a artista percebeu que iria contracenar com ele, não poderia ter ficado mais feliz: «Foi um reencontro muito especial».
Para o encontro com a personagem, Rafael Ferreira começou por ver todas as biopics – obras de cinema ou televisão que dramatizam a vida de uma pessoa real –, que conseguiu. «Na verdade, comecei por ver as lá de fora e pensar assim: ‘Eu tenho que conseguir falar como ele, agir como ele. Só que esqueci-me que a preparação dos que estão lá fora é de dois ou três anos. Eu tinha um mês! Então fui ver como é que se fazia aqui… Comecei a pesquisar vídeos, a ver como é que ele agia», partilha. De acordo com o ator, houve uma grande preocupação em captar a energia de Carlos Paião. «O primeiro vídeo que vi dele a falar foi num programa que dava na RTP, em que ele era júri e várias pessoas do país competiam. Havia teatro, música, dança… Estamos a falar já numa fase final da sua vida e carreira. Ou seja, ele já era o Carlos Paião respeitado, já toda a gente o conhecia. Já tinha outro à vontade», afirma. Nesse momento, percebeu que existiam vários traços de personalidade parecidos. «Ele tinha sentido de humor, era uma pessoa espontânea. Não se levava muito a sério. Eu também sou assim. Depois fui percebendo como é que ele era no início de carreira… Nós conseguimos ver no vídeo do Playback – no Festival da Canção –, que ele sabia o que tinha que fazer, só que não sabia muito bem para onde olhar. Então havia esse constrangimento», explica. De seguida era importante entender quem era a pessoa por detrás dessas luzes: «Juntamente com as histórias da Zaida, com o argumento que foi feito com a ajuda dela também, foi perceber quem era esta pessoa nestes dois mundos, como é que ela se movia na vida pessoal e profissional».
Sobre o trabalho com o Rafael e o encontro do equilíbrio entre a imitação e a criação de uma personagem, o realizador assegura que o ator não o imita. «Sempre foi uma conversa que nós fomos tendo… Eu acho que ele o compreendeu. Era importante para mim que ele o compreendesse e que não o imitasse. Claro que se for parecido fisicamente será muito melhor, mas acho que as pessoas se esquecem que os atores não são parecidos se eles fizerem bem o papel», explica. «O Rafael não é parecido ao Carlos, mas faz tão bem o seu trabalho que nós nos esquecemos disso. Acreditamos naquela personagem, naquele Carlos», sublinha.
As conversas com Zaida
Laura tinha menos registos de Zaida que, segundo a atriz, continua a ser uma mulher «muito discreta». «Há poucos registos dela com o Paião… Há uma mítica fotografia deles na cozinha, num contexto mais informal. E há também alguns registos dela, por exemplo, no Festival da Canção. Nós recriamos um desses momentos, numa cena com os jornalistas. Ela está ali a apoiá-lo», revela. «Mas falar com ela, ter essa possibilidade, abriu-me aqui várias portas para também perceber a mulher que ela era. Eu tentei transmitir no filme que, apesar de ser a musa do Carlos, era uma mulher totalmente independente, nunca viu a vida do marido como o foco da vida dela. Eu acho que isso é lindíssimo!», adianta. «Ela tentou apoiá-lo a 100%, mas nunca deixou de fazer o que queria», reforça, acreditando que «isso também traz aqui uma maturidade e uma camada muito adulta, apesar de ela ser muito nova na altura». De acordo com Rafael Ferreira, ela era «o lado cerebral do Carlos»: «Ela trazia-o um bocadinho à terra quando necessário. E às vezes também voava com ele, mas era sempre a pessoa que o trazia ‘cá abaixo’. Tentámos trazer para o ecrã, acima de tudo, o amor dos dois, trazer a alegria que se sentia neste casal até ao acidente».
Com o pouco tempo de preparação, o ator acredita que as coisas podiam ter corrido «muito mal». Felizmente, «foi tudo muito natural». «Num mês tínhamos de nos ‘encontrar’ com essas pessoas, tínhamos que decorar as letras, as coreografias…. Aprendemos as coreografias em dois dias. Foi muito desafiante», partilha. E, para Laura, a equipa foi muito importante: «Acho que, ao mesmo tempo, essa rapidez toda fez com que nós nos adaptássemos e nos ajudássemos mutuamente muito mais. Ou seja, houve aqui uma cumplicidade e disposição muito grande da parte de todos para conseguirmos fazer isto». Destacando, claro, o trabalho de Sérgio Graciano. «Acho que este projeto correu tão bem porque ele é um bom líder. É empático, respeitador, sabe ouvir», descreve Rafael.
O momento em que conheceram Zaida foi muito emocionante. «Tínhamos muita vontade de conhecê-la… Já estávamos mergulhados no processo e queríamos fazer perguntas… O Sérgio fez uma em especial, sobre o acidente e o pós, e ela foi extremamente disponível e aberta. Fiquei um pouco emocionada de pensar como é que teria sido para ela… Dava para perceber que havia um peso nas palavras. Ela sempre foi super simpática, nunca deixou de falar nada», garantiu Laura.
O realizador conta ainda que os anos 80 deste filme são bastante diferentes dos anos 80 de outras longas-metragens. «Eu acho que temos um imaginário, algo americano até, que os anos 80 portugueses são super coloridos… Tive a preocupação de fazer uns anos 80 ligeiramente mais monocromáticos, porque é assim que me lembro desses tempos. Esta coisa imaginária dos anos 80 coloridos pode trair um bocado a realidade. E foi isso o mais difícil, foi fazer esta recriação mantendo alguma memória e não fugir ao Portugal da década de 80, o Portugal mais negro do pós 25 de Abril», esclareceu, destacando o trabalho de luz de João Ribeiro. «Se repararem a luz não é super aberta e luminosa… Tem zonas escuras e isso é feito intencionalmente para mostrar que não era tudo luminoso em Portugal», esclarece o realizador.
«O Carlos Paião foi uma figura mítica e isso deverá ser suficiente para as pessoas terem curiosidade de ver o filme. Agora, eu nunca sei como é que os filmes funcionam em Portugal… Gostava que as pessoas se aproximassem do Paião, daquela história e depois de todo o filme. Nós fizemos este trabalho a pensar exatamente nisso e a perceber o público. Acho que é um filme feito com muito respeito», assegura Sérgio Graciano. «E acho que mesmo a nossa geração que não está tão a par da sua história, se vai identificar com várias coisas. Além disso, é sempre uma boa oportunidade para valorizarmos o cinema português», remata Rafael.