quarta-feira, 13 mai. 2026

Pêpê Rapazote. "Sou feliz em qualquer lugar e a fazer o que for"

É um dos atores portugueses mais reconhecidos lá fora. Teve uma educação dura e emigrou novo para a Venezuela. Sempre quis conhecer o mundo, compreender as pessoas, descobrir várias partes de si. ‘Aguenta, que é serviço!’, repete. Acredita que não podemos ter medo e não nos devemos acomodar. Descobriu a representação aos 27 anos e, desde então, que não parou. Aos 55 anos, Pêpê Rapazote será um dos protagonistas da nova série da TVI e da Prime Video, ‘Lisbon Noir’.

Continua a ter o complexo de Peter Pan?           

Sim, completamente! (risos) Continuar a ser criança e ter um coração puro é uma das fórmulas da felicidade. Estar sempre a sonhar e querer ser tudo na vida quando crescer… (risos) É esse entusiasmo que a minha Mafalda me diz que me diferencia de toda a gente.

«A minha infância deixou-me o coração sempre ao sol», disse numa entrevista. Desde pequeno que viveu sempre de uma forma muito intensa. Em que medida essa infância moldou a maneira como olha para a vida?

Eu continuo a viver essa infância. Mas o que é que moldou na vida? Uma ânsia enorme de conhecimento e de experiências, de experiência humana, de conhecer gente e povos, etc. Eu emigrei para a Venezuela, filho de imigrante, não um imigrante por necessidade, mas o meu pai foi abrir a filial da Teixeira Duarte. O mundo é maravilhoso. Caracas, nessa altura, era como chegar ao Dubai, mas sem nunca ter havido internet e, portanto, desconhecer completamente o lugar… Chegarmos ao Dubai sem nunca o termos visto antes, vindos de Lisboa, é uma loucura. Hoje em dia dá para imaginar o que isso é…  É outro planeta, não é? A Venezuela era assim, Caracas era assim naquela altura. De certa forma, isso criou-me. Eu quero conhecer o mundo, quero conhecer pessoas e não quero ser turista, quero trabalhar, quero ser imigrante, quero trabalhar com as pessoas, e foi isso que acabou por acontecer através da representação.

E essa mudança foi de alguma maneira dolorosa para um menino de nove anos?

Sim, mas eu sou da geração X. «Aguenta que é serviço», era o que me diziam os meus avós e os meus pais. Adoro a geração da qual faço parte e a descrição que fazem quando falam dela. Foi criada livremente, com pouca supervisão e curava as feridas sozinha. Não conheço muita gente da minha geração com marcas. Aquelas marcas que nós, hoje em dia, falamos que nos levam para a terapia. Traumas de adolescência ou de infância… Tenho as minhas coisas, mas «aguenta que é serviço». Limpa, joga fora!  Quando a educação é dura – e nós fomos educados por baby boomers que foram educados por gente ainda mais dura porque a vida nunca foi suave –,  temos as expectativas baixas e tudo que vier a mais é um bónus. Hoje em dia, se começarmos com expectativas altas, a depressão e a frustração vêm assim, num estalar de dedos. E essa é uma coisa boa da educação dura. Começas a trabalhar aos 10 anos, se te portares bem, ao fim de 50 consegues reformar-te, e tens uns diazinhos de descanso. «Tens direitos», como eu costumo dizer. Quando se fala muito em direitos e nos «direitos, liberdades e garantias», eu digo: «Tens direito à vida. Estás neste mundo! Parabéns! Respiras oxigénio… A partir daí só tens obrigações». Se ao fim de 10 obrigações conseguires um direito, boa, parabéns!

E foi isso que o seu pai lhe ensinou?

Foi! A vida é dura, e se te portares muito bem, ao fim de muitas obrigações acabas por ter um direito. Não tem de haver um equilíbrio entre direitos e deveres. Porque, quando nós invertemos a ordem dos fatores, ou quando nós alteramos o fiel da balança, quando nós achamos que temos mais direitos do que deveres, alguém vai ter que fazer os deveres por nós. Não é? Para ganhar dinheiro, ou melhor, para gastar dinheiro, alguém tem que o ganhar. E tem que ser na devida proporção. Se eu acho que tenho o direito de gastar o dinheiro todo do mundo, alguém terá que ganhar o dinheiro todo do mundo, e tem que ser alguém próximo, e que me ama o suficiente para mo dar. O Estado não é essa pessoa. Não ama o suficiente para dar. O Estado é muito bom rapaz, às vezes. Mas é esta coisa que temos que aprender… É tudo muito mais difícil para depois suavizar a seguir. 

Era um adolescente rebelde. Tinha bastante liberdade. Pesou fogo à casa duas vezes, matou 12 piriquitos ao seu irmão, pegou fogo outras duas vezes à escola… Percebe de onde vinha essa rebeldia?

De querer experimentar tudo. De querer fazer tudo e não ter medo de nada ou de ninguém. De não gostar nada de autoridade também! Dizem que tem a ver com o meu signo, com a personalidade, e com o meu pai. Não gosto sobretudo da autoridade que diz: «Não porque eu mando!». Perde-se a razão quando alguém diz isso. Preciso sempre de um bocadinho mais do que isso. Sobretudo se eu sinto que estou a cumprir as minhas obrigações todas, mereço uma explicação um bocadinho mais clara sobre isso. 

Quando regressou para Portugal foi para o Colégio Moderno. Sempre foi bom aluno em tudo… Teve dificuldade em escolher uma só área profissional? Primeiro, optou pela arquitetura. O que é que mais o fascinava nesse universo? Ainda hoje coloca o que aprendeu em prática…

Tudo, mas eu era feliz a fazer qualquer coisa! A servir às mesas, a fazer canalização, a trabalhar com madeiras. Ainda agora fui a um atelier de madeiras, por isso é que me atrasei. Eu gosto de fazer tudo. Por isso é que me dizem: «Pepê, tu és uma pessoa especial!». Eu não tenho vocação. Estou-me a borrifar para a representação. Absolutamente. Na minha educação sinto que sempre me foi transmitido que a vida é dura. Quando se diz aquela coisa:  «Gostas daquilo que fazes e nunca terás de trabalhar um dia na vida». Às vezes eu sinto-me privilegiado porque como gosto de tudo,  sinto que tudo me sai facilmente, sem esforço. E como tal, a representação não me custa.

Gosta de ser estimulado…

Eu estou sempre a ser hiper estimulado… Por isso é que eu digo que estou farto de ser ator. Eu dizia em outras entrevistas: «Um dia quem sabe sou um astronauta!». Estou sempre à espera do próximo desafio.

Isso significa que se encontra em qualquer lugar?

Encontro-me em qualquer lugar. Sou feliz em qualquer lugar e a fazer o que for. Mas também ao fim de algum tempo eu digo: «Nunca se aprende tudo sobre uma determinada coisa, mas se eu tiver aprendido 80 ou 85% deste meu métier, já chega, estou farto! Vamos começar a fazer outra coisa, porque a vida é curta demais para ficarmos só a fazer uma coisa».

Onde é que entra a música na sua vida?

A música é a primeira coisa que entra (risos). É mesmo. Altera-me completamente o estado espírito. E gosto de fazer melodias, fazer harmonias, gosto de escrever e gosto de tocar. A música entra em tudo. A música está sempre presente. É a única coisa que me consegue alterar. Pode estar toda a gente a tentar levantar-me o astral… Só a música é que o faz.  Ou antes pelo contrário. A música é capaz de me pôr completamente melancólico.

Só aos 27 anos é que surgiu a representação através de uma amiga que lhe falou de umas aulas. Já disse que quando começou a perceber o que era o teatro se sentiu ignorante… Gostava que aprofundasse um bocadinho a importância que esta fase teve na sua vida…

Nenhuma! Fui completamente descontraído fazer mais um hobby. E gostei muito, as coisas começaram a correr bem. Eu não tenho momentos de “heureca” na vida. Eu estou sempre muito consciente daquilo que me rodeia. Muito atento às pessoas e muito atento ao meio físico. «A quantos nós está o vento aqui? Qual é a probabilidade deste toldo cair em cima da nossa cabeça?». Eu estou com as antenas sempre todas no ar. Por isso é que comecei a dormir pior. Sobretudo ao ler informação até às duas da manhã. Não durmo mais. Fico a pensar… Poucas coisas me surpreendem, porque eu estou atento e consigo antever. 

Mas esse momento marcou uma viragem no seu caminho…

Foi giro. Havia miúdas giras a tirarem aulas comigo. Isso foi o que mais me surpreendeu. (risos) Surpreenderam-me alguns exercícios de teatro também. Isso sim! Com o Zé Boavida que já cá não está. Lembro-me de ter pensado: «Isto é super interessante!». A minha maior falha, na altura, seria a parte menos racional. Aquilo que eu consegui começar a aprender, a mexer e a dominar em termos de interruptor de emoções. Poder transmitir para uma personagem determinadas coisas… Isso sim, foi fascinante. Sentia-me um zero à esquerda, e acho que hoje em dia tenho uma grande construção como ator. Nunca pensei chegar tão longe, porque era um universo que me era muito distante.

O fascina mais na representação continua a ser o lado louco e imprevisível?

Sim! Sem dúvida! Porque como estou muito atento a tudo, só a surpresa me surpreende (passo o pleonasmo). Tudo o resto, se sair como planeado, eu já sei o que vai acontecer, não é?

Começou depois a fazer vários protagonistas para televisão e séries. Isso acabou por afastá-lo do teatro. É algo que o entristece?

Não! São fases da vida… Não há dúvida que o teatro é uma coisa fascinante. E é, eventualmente, a forma de representação mais nobre que existe, mais do que o cinema. O teatro é o teatro. É assim há 2500 anos, se calhar até mais, mas refiro-me às tragédias gregas… É um espetáculo ao vivo, sem rede… Não há nada igual.

O salto para o mercado internacional foi complicado? Foi o Pepê que foi atrás disso… Como é que se chega a esse lugar?

Foi! Foi muito trabalhoso. É seguir passo a passo todas as regras… Pesquisar na internet, saber como é que se faz, como é que é o processo de imigração, como é o processo da USCIS para emigrar para os Estados Unidos… É um ano de trabalho até às quatro da manhã, a levantar às sete para depois ir fazer a televisão. Muito, muito, muito, muito, muito trabalho. Estes «muitos», não chegam para nem metade.

A sua participação na série ‘Narcos’ trouxe-lhe reconhecimento mundial. A maneira de trabalhar lá fora é muito diferente?

Claro! Eu costumo sempre dizer que a maior diferença é o dinheiro, o orçamento. O dinheiro é uma indústria que nos Estados Unidos existe há 110 ou 120 anos. O dinheiro exige mais das pessoas, o dinheiro começa a criar novas faculdades, novos postos de trabalho, o topo de carreira, grandes ordenados, etc. Ou seja, o dinheiro é tudo. Isto significa que os Estados Unidos estão 100 anos à nossa frente como uma indústria, com os melhores técnicos, os melhores profissionais, os melhores catedráticos. É só um orçamento? Não! O facto de teres um filme de 50 milhões de dólares significa que há 110 anos dos melhores profissionais, das melhores faculdades, das pessoas com o maior brio profissional a trabalhar contigo. E isso é tudo, são 100 anos de evolução humana. Eu já nem digo evolução cinematográfica, são 100 anos de evolução humana. Suponhamos que Portugal era o país mais rico e tinha continuado a ser desde 1500. Onde é que nós estaríamos agora? Éramos 10 vezes mais evoluídos do que a Suíça, os Estados Unidos ou o Japão, certo? Claro que o dinheiro também nos pode trazer muito sedentarismo, mas normalmente permite a continuar a investigação, etc. 

Foi o sexto narcotraficante a quem deu vida. Alguma vez se sentiu rotulado?

Às vezes um bocadinho, sim. Às vezes pensam em mim, automaticamente. Por isso é um rótulo.

É importante não nos agarrarmos a fórmulas, não é? É fácil fazê-lo?

As fórmulas somos nós que as fazemos. A fórmula não pode existir nunca. Isso é encostar-nos à sombra da bananeira. Eu já sei que o olhar 33, determinada coisa, determinada forma de atuar num determinado personagem, resulta. E, portanto, o sedentarismo é preguiça. É o final de um ator. É um ator que deixou de se reinventar. Se acontecer aos 25 anos, acabou aos 30… 

Já admitiu que não acredita na expressão figura pública… Há um grande peso por ser conhecido?

Não, não!  Tenho ouvido imenso que intimido as pessoas. Até porque, à medida que vou tendo alguma idade, deixo de ser o louco que diz umas coisas, que é demasiado assertivo, e que não tem filtros, para passar a ser uma pessoa que intimida. Porque, afinal, já sou um homem com 55 anos que diz umas coisas duríssimas. E digo... E, por isso, cada vez mais tenho essa vantagem de intimidar e jogar com isso a meu favor. Não sou eu que dou por isso, são as pessoas que me chamam a atenção. Eu não queria, porque o monstro precisa de amigos. (risos) Também gosto muito de estar com pessoas, etc. Mas, se a conversa se torna séria, sou muito intimidante, sou muito contundente. Tenho algumas certezas. A dúvida tem que ser sistemática, mas já tenho algum conhecimento e gosto de dizer algumas verdades. Por exemplo: que as pessoas não podem ser preguiçosas, têm que estar atentas, fazer muitos sacrifícios, etc. Todas estas coisas que são difíceis de dizer. Sobretudo à medida que vamos tendo uma democracia cada vez mais sedentarizada e burguesa. A palavra esforço ou sacrifício cada vez perde mais significado.

É muito intenso também na forma como cria os seus personagens? Tem dificuldade em desprender-se?

Não, zero. No momento do «corta», vou dizer uma piadola e vou beber uma cerveja. Nem sei o que é isso de levar os fantasmas para casa.

Já são centenas de personagens, todos bastante diferentes. Considera-se um ator completo? No que é que sente que se diferencia dos outros?

Não há atores completos. Não há um ator no mundo que seja completo. Isso é impossível. Absolutamente impossível. Isto é dizer tens o universo dentro de ti? Não. Então ainda te falta alguma coisa. Ainda me falta tudo… O que é que me diferencia? Há uma coisa que em televisão funciona muito e que no cinema também. «Não representes!». Construímos um personagem da forma mais complexa e completa quanto possível, mas se no fim houver alguma coisa com a qual não nos sintamos completamente à vontade, que não nos saia de forma natural, não é orgânico. Temos que sentir que tudo é nosso, que já faz parte de nós. Temos de conseguir agarrar tão bem essas características da personagem que passa a ser nosso. Tudo o que seja a mais e que ainda estamos a esforçar por fazer é um apêndice, e vai-se notar que é falso. Vamos falar de uma característica física, mas que deveria ser uma psicológica ou emocional. Aquele tipo é coxo. Ele não dominou o coxear. Ninguém obrigou isso, foi ele que se propôs. O melhor é não coxear. Vai-se ver que o coxear é falso, vai chamar completamente a atenção e até pode estar a fazer um trabalho fenomenal do resto, mas ninguém consegue deixar de olhar para aquele coxear falso. Se eu disser que sou um tipo extremamente cruel, mas não conseguir dominar a crueldade como personagem, tenho que abandonar isso ou pelo menos essa profundidade. Vai ver-se que é falso e vou destruir todo o resto do trabalho que tive. Isso é uma coisa que eu tenho. Eu só vou representar aquilo de que tenho confiança plenamente. Por mais curto que seja. «Eu tenho consciência de que isto é metade do que devia ter feito, não tive tempo para mais. Prefiro ter esta metade sólida do que estar a brincar às metades que estão coxas».

Tal como falávamos, já participou em grandes produções lá fora, mas continua a regressar à televisão nacional… A televisão para si é um exercício. Já a comparou com um género de recruta…

Porque em Portugal há pouco dinheiro e, portanto, temos que gravar muito em pouco tempo. Isso exige uma concentração de atleta de alta performance para os Jogos Olímpicos. É por isso que é. É das 8 às 20h00 com muitas cenas, muitos textos. Não existe país no mundo que tenha mais minutos de produção diários e que tenha menos dinheiro a fazê-lo. Por isso, nós aqui somos puxados ao limite como um sprinter de 100 metros. Não há ninguém no mundo que faça como nós.

E é bom regressar a essa recruta às vezes?!

Sim, porque significa estar em alta competição outra vez e ficar acordado. Há pessoas que dizem: «Ai meu Deus, a quantidade de cenas que vocês fazem, eu seria incapaz!». A certa altura dás por ti a decorar e a estudar o triplo das cenas que estavas à espera e que tu achavas que tinhas capacidade.

Muitas pessoas dizem que, ao falar outras línguas, ganham outra personalidade. Acredita nisso? Acredita que é um ator diferente em cada país?

Todos os dias. Eu sou uma pessoa diferente cada vez que falo uma língua diferente. Não há dúvida. A melodia, o linguajar, a expressividade com que se falam línguas muda-nos a personalidade. Eu tenho cinco personalidades completamente distintas mais as personagens que vêm atrás de cada uma dessas línguas.

É muito crítico em relação ao estado da política em Portugal… Estando tantas vezes lá fora, o que é que mais o entristece, neste momento, no nosso país?

A comparar com o continente americano? Só me dá alegria ser português. (risos) Portugal, apesar de tudo, fica na Europa, na União Europeia. E, apesar de termos aqui muitos bichos esquisitos na Europa, neste momento, Portugal não é dos piores. Estamos no pior momento da democracia, mas há coisas muito piores. E então falando do continente americano, não há comparação. É muito pior. É como eu costumo dizer... Na maior parte dos países desse continente há candidatos de extrema direita e de extrema esquerda. E sempre foi assim. A começar pela Argentina, a passar pelo Brasil ou pela Colômbia, são ditaduras atrás de ditaduras de esquerda e direita, e também as há no Hemisfério Norte. Não há dúvida. Nós vivemos no paraíso comparado com o continente americano. À exceção do Canadá. Gosto muito de ser português.

E relativamente ao que se faz aqui… Como é que vê a evolução das produções portuguesas?

Eu ando a trabalhar muito nesse sentido, a montar produções executivas, a fazer montagens financeiras de projetos maiores. Tem-se feito muito pouco. Isso entristece-me. É preciso trabalhar politicamente…Também ando de alguma forma a trabalhar nisso, para alterarmos alguma da legislação e acrescentarmos à Directiva Europeia, porque enquanto os streamers, os grandes grupos de media e as plataformas não sentirem obrigações legais para produzirem em Portugal e em português, eles não se vão fazer porque somos só 10 milhões. Não compensa nada. E, portanto, tem que se encontrar outros caminhos, tem que se fazer muitas coproduções com Espanha, com Brasil, com países que nos são afiliados, com a Colômbia, com o México. Tem que se procurar. Isso implica um grande investimento pessoal e financeiro para poder obter determinados resultados. Mas é preciso trabalhar em tudo e, às vezes, os governos não sabem exatamente o que é necessário fazer para melhorar e criar bases para uma indústria em Portugal. 

«Vamos escrever estes parágrafos e alterar esta lei e já ajuda muito, porque obriga a produzir em Portugal e em português», é isto que eles deviam dizer e fazer. Se nós obrigarmos a produzir em Portugal e em português, e se pressionarmos na União Europeia para que isto seja cada vez mais uma realidade, só traz dinheiro de investimento, paga os impostos, criam-se postos de trabalho,  etc. É um caminho árduo, e é muito complicado.

O que é que nos pode contar sobre esta nova série ‘Lisbon Noir’?

Desde logo, está muitíssimo bem escrita. A dupla Artur Ribeiro e o Nuno Duarte escreveram aqui uma coisa maravilhosa. Está com uma fotografia absolutamente extraordinária. Cada plano é pensado… A história está bem estruturada e estou à espera de uma grande série, apesar de ainda não ter visto nada. Uma série de que nos podemos orgulhar muito, inclusive na Prime Video. Temos a obrigatoriedade de provar ao mercado internacional que também se conseguem fazer coisas aqui. O nosso problema são sempre os epifenómenos… Isto acontece de três em três anos… Isto não é uma indústria, nem leva a que pessoas invistam em Portugal. Se nós fizermos um bom produto de três em três anos, então isto está descontente. Podíamos estar a lançar um de três em três meses. Pode ser muito engraçado para os atores, para o realizador e para o diretor de fotografia. Fizemos um trabalho de porreiro? Fizemos! Mas é quase já na perspetiva saudosista. «Lembra-se quando fizemos o ‘Lisbon Noir’? Opa! Grande pinta! Já lá vão 20 anos! Nunca mais voltei a fazer nada assim!», este é o discurso português. Não serve.

E como é que chegou até à personagem? De que forma se deu a sua construção?

O texto deu-nos muito. Muitas vezes eu leio os guiões, tiro notas, etc. E houve uma mensagem que enviei ao Artur Ribeiro a dizer: «Eu vou escrever uma nota, mas depois acabo por apagar!». Está lá tudo. Praticamente não tirei notas para esta personagem. A descrição está lá toda. Mesmo que não esteja a descrição da personagem, está subjacente, sempre, a cada cena. É ótimo. Eu gostava de dizer que tive muito trabalho e que foi extenuante o processo criativo. Não… Entrou que nem ginjas, como uma cervejinha gelada com 40 graus em agosto. Entrou como um copo de água, que eu gosto muito de água quando estou com muita sede. Voltando à personagem… Tem o peso de alguém, sem ser um peso muito grande, que tem um pai – que podia ter sido o meu eventualmente –, que é o Vítor Norte, que veio da Guerra de África… Um homem duríssimo que fez um filho duro também. Vou contar uma história sobre a forma como a geração dos meus pais lidava com os traumas dos pequenos. O meu irmão mais novo odiava água. O meu pai pegou nele ao colo, levou-o para dentro de água e levou-o ao fundo várias vezes. «Sim, tens trauma, toma lá». Terapia de choque que, durante muitíssimos anos, não resultou. E acho que até piorou. Nunca foi um gajo de água, mas hoje em dia nada por saúde. Água era comigo. Eu é que gostava de andar debaixo de água. (risos)

A personagem do Vítor Norte é isso mesmo. Com algum racismo, xenofobia, marcado pelo facto de ter estado na Guerra de África, ter voltado… A série trata muito os dias de hoje também. Ter educado este filho desta forma… Nós tendemos a contrariar, ou não. No meu caso, o contrariar é tentar preencher as lacunas dos meus pais. Aquilo que eles não me deram, eu vou dar às minhas filhas. Tento ser um pai perfeito.

E vê-se perfeitamente muitos dos traumas que este rapaz tem, e agora por causa da terapia de choque, o Daniel tem um problema com as alturas, uma atração pelo abismo, que não é uma coisa particularmente psiquiátrica ou psicológica, mas é o suficiente para o fazer perigar a vida. E foi um trauma que o pai lhe «cortou» quando descobriu. Mas mais uma vez, entra a geração X. Este problema existe, vais ter que conviver com ele, mas o que é que vais fazer? Vou varrer o lixo para debaixo do tapete e ele fica lá enquanto eu quiser. É um bocadinho isto. Aqueles psicólogos que nos dizem: «Olhe você devia fazer psicoterapia todos os dias até aos 80». «Mas você está maluco? Você acha que eu tenho tempo para isso, ou paciência? Eu tenho a capacidade, porque fui aprendido, precisamente, por não ser acompanhado em criança, de compartimentar as coisas. Se há coisa que eu sei fazer é: ‘Este bocado do cérebro vai deixar de funcionar porque só tem problemas. Vou varrer o lixo para lá, fecho a porta e deito a chave fora». E é assim que o Daniel funciona. Eu tenho um trauma, dois traumas, três traumas, vou para este compartimento do cérebro e daqui não saio. Só saio quando eu quiser. Onde eu preciso que eles saiam, para desanuviar um bocadinho a pressão. É como uma panela a vapor, não é? 

Sei que não procura por personagens… Mas olhando para todos os trabalhos que já fez, o que falta fazer?

Tudo. Falta-me fazer tudo!

E sobre projetos futuros? O que nos pode contar? 

Estou a fazer uma novela para a SIC, vou fazer produção executiva de alguns projetos, estou com reuniões com Espanha, com Estados Unidos, com coproduções… São muitas diligências do caminho das pedras, porque não só a nossa legislação não está preparada, como as mentalidades não estão preparadas para trazer para cá estúdios. Quando há muitos anos ouvia dizer: «Ah, mas nós temos um problema maior que é a língua». Não! A Dinamarca tem um mercado de produção audiovisual 12 ou 15 vezes maior do que o nosso e não me lixem, só os dinamarqueses é que falam dinamarquês. Quantos são? Vendem para quanto? Para quem? Para o mundo todo e para todas as plataformas! É um mercado que não acaba mais, portanto não me lixem com a língua… já lá vai o tempo. Aliás, nunca achei que fosse esse o problema. Se fizermos bem, dobra-se, legenda-se. Agora… É preciso fazer o caminho das pedras e, mais uma vez, o empreendedorismo é fundamental aqui.

Dá muito trabalho, dá! Dá muito trabalho emigrar para os Estados Unidos? Dá! São oito meses de trabalho, até às quatro da manhã. «Ah! Não vale a pena! Vou ficar aqui a ver a morte da Bezerra, o abismo a chegar». Não! Temos que nos mexer! Temos que nos mexer muito. É isso que falta e é por isso que falo tanto da imigração e dos imigrantes, dos empreendedores. Enquanto nós estivermos aqui muito quietinhos, as coisas não vão acontecer... «Não faças muito barulho! Se fosse a ti filho, arranjava um emprego na função pública e depois estava caladinho, já ninguém te pode despedir. Daqui a 40 anos reformas-te, estás bem? É isso que vais fazer. Pede ao teu padrinho lá no Ministério que te arranje espaço e vais ver como te sais bem». Isto leva-nos a fechar. Tem que se ter a ânsia de fazer mais, de chegar mais além. O medo não se transmite geneticamente, mas se eu ouvir a minha bisavó, o meu avô ou o meu pai a dizer-me para ter cuidado, para ficar, amochar… Precisamos de ouvir antes: «Atira-te de cabeça! Mas afinal quem és? És um homem ou és um bicho? Coragem pá, vai!». É sempre o contrário do que nós ouvimos. Somos um país do medo.