sexta-feira, 07 ago. 2026

Paulo Rezzutti: "Se não fosse D. João VI, o Brasil não seria o que é hoje"

O historiador e biógrafo defende que D. João VI não era o ‘bobão’ que se costuma pintar. E que, ao fugir para o Brasil, o monarca evitou um massacre em Portugal. ‘Os Braganças têm esse pendor de não derramar sangue’.
Paulo Rezzutti: "Se não fosse D. João VI, o Brasil não seria o que é hoje"

Arquiteto, historiador e youtuber natural de São Paulo, assinou biografias de D. Pedro I e II (do Brasil) e de D. Leopoldina. Tinha estado em Portugal em 2019 e regressou recentemente para promover D. João VI – A História Não Contada (ed. Penguin). Ao Nascer do SOL, Paulo Rezzutti diz que este Rei ‘maltratado’ pelos historiadores e conhecido pela sua incapacidade de decidir não era «o bobão» que costuma ser pintado. Considera que foi graças a ele que não houve um banho de sangue em Portugal durante a invasão de Junot em 1807 e que o Brasil manteve a sua unidade territorial, caso único no mapa da América Latina.

A transcrição mantém as expressões e a pronúncia brasileira do entrevistado.

O título do seu livro é D. João VI – A História Não Contada...

É uma série que eu tenho no Brasil desde 2015.

A história contada habitualmente é bastante desfavorável a D. João VI. Sente que ele até aqui tem sido injustiçado pelos historiadores?

Acredito que sim. Tanto aqui em Portugal, quanto no Brasil. Menos no Brasil, porque lá a memória de D. João é bastante marcada pelo processo de independência. Há toda uma teoria de que, na realidade, a independência do Brasil começa com a chegada da Corte e com tudo o que ele vai fazer lá. E aqui também, antes de partir ele tinha feito muitas coisas. Só que, com tudo acontecendo ao mesmo tempo – a Revolução Francesa, as invasões de Napoleão, etc. –, muita coisa acabou sendo apagada.

E foi fácil encontrar os vestígios dessas coisas que fez ou estavam muito soterrados?

Não. Porque ou você tem obras que falam de D. João aqui [em Portugal] e dão uma pincelada do que aconteceu no Rio de Janeiro, ou você tem o contrário, como o Dom João VI no Brasil, do Oliveira Lima, de 1908, que basicamente é o D. João no Rio de Janeiro. Fazer essa ponte foi complicado. Tem uma diferença da personagem nos dois lados do Atlântico. Isso se deve à complexidade do ambiente em que estava inserido, às questões políticas envolvendo todo o jogo de poder da França, da Inglaterra e da própria sociedade portuguesa, ainda fraturada pelo Marquês de Pombal. Os aristocratas queriam voltar a ter um lugar ao sol, dentro dos privilégios que haviam perdido, principalmente os associados aos Távoras, ou outros que foram perseguidos por Pombal. Essa história é muito mais complexa aqui; depois, no Brasil, é uma coisa mais suave, porque lá ele está sozinho, não tem tanta pressão.

No Brasil estava ‘escudado’ dessas forças políticas que o ultrapassavam.

Exatamente. Primeiro, porque os franceses não chegam até lá. O que havia de francês, ele tomou – uma das primeiras decisões é invadir as possessões da França na América. E a Inglaterra exerce uma força poderosa, ainda mais porque praticamente Portugal está na mão dos ingleses aqui. Há uma presença forte da Marinha Britânica [no Brasil], mas mesmo assim ele consegue lidar melhor com isso e fazer com que o Strangford, que era o ministro plenipotenciário, seja expulso. A única vez que a Inglaterra tenta exercer uma função maior, ele consegue que o ministro seja expulso. É um D. João que não é o bobão, o bobalhão, que é pintado até então.

Como é que disse?

Bobalhão. [risos]

[risos] Já mesmo com o exército francês em Portugal, ele continua a adiar a fuga até à última. Uma das características que se lhe apontam é a indecisão. Será que o facto de ser príncipe regente e não rei de pleno direito poderá ter pesado nessa incapacidade de decidir?

Não. Era o método dele mesmo. Ele procrastinava. Muitas vezes esperava até não ter mais recursos ou não conseguir mais evitar aquele assunto – e aí sim, tomava uma decisão. Era uma coisa pessoal dele. Só decidia quando era forçado a isso – ou quando era o que ele queria. Quando era realmente o que ele queria, era rápido. É o caso de quando o Conselho de Estado e o Ministério aprovam a ideia da partida da Corte. Aí, quem está ao lado dele nem reconhece aquele D. João: arrumando tudo, expedindo ordens e sendo superdiligente, inclusive com a questão do que levar para o Brasil: o Museu Real, a Biblioteca, a Academia dos Guardas-Marinhas [academia militar destinada a formar os oficiais da Armada Real], o laboratório, professores, alunos, tudo. Então são vários Dons ‘Joões’, na verdade.

Portanto, não estava antecipadamente estipulado o que ia e o que ficava. São decisões de última hora?

Aí é que está. Eu não sei se são de última hora, porque quando você transfere uma instituição inteira, como no caso dessa Academia dos Guardas-Marinhas, é porque muita coisa já estava sendo preparada. A diligência de algumas coisas que vão, por exemplo o tesouro, é após o Conselho de Estado. Mas já estavam sendo preparados navios para levar o D. Pedro – o plano inicial era se acaso a França realmente invadisse e a família Bragança ficasse sob o poder de Napoleão, o príncipe D. Pedro (I do Brasil, IV de Portugal) estaria na América e a tia-avó dele, a princesa D. Maria Benedita, assumiria a regência. E essa coisa de que a D. Maria é totalmente louca também não é bem verdade. Conforme ela se afasta do poder, começa a ficar mais calma e de vez em quando tem laivos de sanidade. E quando o D. João vai falar com ela sobre a partida do neto, ela fala para ele: ‘Ou vamos todos ou não vai ninguém’. E vão todos, efetivamente. Por isso eu questiono até que ponto já não estava muita coisa preparada antes de estar tudo oficializado. O Junot, em carta para a Laura Junot, a esposa dele, fala que levaram tudo. Inclusive um cristal lapidado como se fosse um diamante. Até um diamante fake levaram para o Brasil!

Onde aliás havia muitos diamantes…

Levaram tudo! Até os diamantes falsos.

Leio aqui no verso do livro: «A biografia reveladora de D. João VI, o monarca estratega que enfrentou Napoleão». Na realidade, nesse momento crítico da invasão ele vira as costas ao país, deixa o povo português entregue a si próprio.

Talvez o povo português tenha sido poupado por ele não enfrentar o mais poderoso exército da época, sabendo que a derrota era certa. A gente tem que lembrar que o exército de Napoleão só vai começar a perder grandes batalhas a partir da campanha da Rússia. Então, ficar e enfrentar Napoleão era derramar sangue português e era a certeza da prisão e de perder o trono de Portugal. E perder o trono de Portugal significaria também perder o Brasil. Então, D. João opta por uma saída estratégica: vai para o Brasil para evitar um banho de sangue em Portugal, e só depois é que vão começar os combates, com a ajuda dos ingleses. É engraçado, acho que os Braganças têm esse pendor de não derramar sangue. O D. Pedro, quando é obrigado a abdicar no Brasil, poderia ter movimentado o exército, mas não o fez. Depende da forma de ver. D. João pode ser considerado um rei covarde por ter fugido para o Brasil, mas eu não acho que seja covarde atravessar o Atlântico no meio de um período de tempestades.

Ele tinha um enorme receio da travessia.

Odiava trovão! Acho que foi um ato de coragem. Eu preferia o Junot a atravessar o Atlântico no meio de uma tempestade [risos]. 

Com a Família Real atravessaram o Atlântico milhares de pessoas. Quando esta gente toda chega ao Brasil, é preciso improvisar. Os portugueses são especialistas nisso...

Os brasileiros também. Herdamos isso de vocês. De fato, é preciso improvisar. Ele chega primeiro a Salvador e depois vai para o Rio de Janeiro. O vice-rei do Brasil recebe duas mensagens. A primeira é para preparar o Brasil para o ataque dos ingleses, caso a França invadisse aqui e o príncipe regente e a família fossem feitos prisioneiros. A segunda é para preparar o Rio de Janeiro para a chegada da Corte. Eu acho que ele estava mais preparado para se defender dos ingleses do que para receber a Corte no Rio de Janeiro. Aquilo incha de tal maneira que tudo fica muito provisório. O palácio dos vice-reis é preparado para receber a Corte. Atrás do paço, o Convento do Carmo é transformado no Paço da Rainha. A Dona Maria I vai falecer lá em 1816. Do lado, tinha a Casa de Câmara e Cadeia, que também é preparada para recebê-los. Aí tem uma piada. Quando o D. João estava chegando, o governador manda comida e frutas frescas ao navio. Quando essa escuna se aproxima, o D. João pergunta se tinham recebido notícias de que a Corte estava mudando. E o marinheiro responde: ‘Sim. O governador inclusive preparou a cadeia para recebê-los’!!!! [gargalhada] Aí o D. João deve ter pensado: ‘Escapo do Junot para ser preso’! O começo é muito provisório, e o D. João vai cultivar esse provisório, porque ele recebe a Quinta da Boa Vista, começa alguns melhoramentos, mas uma coisa muito tênue, muito tímida, com medo de que achassem que ele fosse ficar. Ele não queria voltar, mas era estrategicamente de bom-tom não dar pistas de que ia realmente ficar no Rio de Janeiro. 

Dona Carlota Joaquina foi a última infanta espanhola a ser rainha de Portugal. Ainda há poucos dias um historiador comentava comigo: ‘Gostámos tanto que não tivemos mais nenhuma’. Suponho que não seja uma figura muito querida no Brasil...

Não. Ela não deixou nenhuma lembrança positiva no Brasil. Acho que o D. João é culpado de muita coisa. A Dona Carlota era uma pessoa muito sagaz e... havia uma erudição. Colecionava arte, pintava, é bem falada pelo Volkmar Machado, que faz as campanhas de pintura em Mafra e em Queluz. Todo o mundo que teve conhecimento dela viu que ela tinha algo. Só que o D. João afastou-a da política desde cedo. Acho que isso deixou uma mágoa, porque ela gostava de se envolver. E tinha opiniões, ao contrário da maior parte das mulheres da sua época. Só que o D. João nem queria ouvir falar dela envolvida no governo. Isso acabou criando um distanciamento entre eles, que já começa aqui, em 1805, com a conspiração de Mafra, ou do Alfeite, também chamada dos Fidalgos [em que, num momento de fragilidade de D. João, D. Carlota tenta afastá-lo da regência, com o apoio de alguns membros da alta nobreza]. E, no Brasil, ela vai querer ser regente do Prata [vice-reino do Rio da Prata, sob domínio espanhol, que englobava a atual Argentina, Paraguai e Uruguai]. D. João alimenta esse sonho dela, mas depois quer que D. Carlota transfira isso para o sobrinho [D. Pedro Carlos] e para a filha [com quem D. Pedro Carlos era casado]… Não era uma coisa fácil, os dois eram terríveis.

Oliveira Martins diz que eles pouco mais tinham em comum do que o hábito de não tomarem banho.

[risos] Bom, eu acho que aí eles comungavam com boa parte da Corte e da população portuguesa e brasileira da época.

As guerras que vai haver mais tarde entre os irmãos, D. Pedro e o D. Miguel, podem ser vistas como um sintoma do que havia de errado no casal e na família?

D. João exerceu o poder de uma forma diferente da dos filhos. Entendia o seu papel. Acho que poderia até ser um bom rei constitucional, porque pairava acima das paixões. No entanto, essa família dividida tinha paixões. E essas paixões é que irrompem com a chegada de D. Miguel para assumir a regência. Ele não tinha qualquer preparação para assumir o trono. Tinha sido manipulado pela mãe, tanto na Vilafrancada como na Abrilada [golpes de D. Miguel para tentar restaurar o absolutismo, em 1823 e 1824]. O grande sonho dele era casar com a Princesa da Baviera, por quem se tinha apaixonado e a primeira coisa que faz quando é aclamado Rei é escrever pedindo a mão dela em casamento. E o pai dela casa-a o mais rápido possível com o primeiro nobre que aparece, para a tirar do radar de D. Miguel. É tudo muito atabalhoado, muito confuso. Mas era o que havia. A população estava querendo voltar ao que era antes. O povo é arrebatado facilmente pelas hostes conservadoras.

Seria um regresso à velha ordem.

Exato. À ordem confortável que eles conheciam. Não essa novidade que veio com a Revolução [Liberal] do Porto. O D. Pedro tem a ilusão, quando chega ao Porto, de que Portugal inteiro vai ficar do lado dele. E vê que o negócio não é assim. É muito irónico que ele escreve uma declaração no Porto em que diz: ‘Eu e os bravos portugueses, viemos libertá-los’. Libertar?! Quem pediu para ser libertado? E mais: só tem meia dúzia de portugueses com ele. O resto é tudo estrangeiro pago a soldo. Claro, tem Alexandre Herculano, tem grandes portugueses com ele, mas não é a massa. A massa está com o D. Miguel.

Sabemos que nos trópicos normalmente as pessoas comportam-se de maneira mais informal, mais relaxada. Isso verificou-se nos hábitos da Corte?

Não. Nesse ponto, acho o D. João muito conservador. Ele transporta os hábitos daqui para lá. Vai ter hábitos europeus nos trópicos. Informalidade eu não vejo... muito pelo contrário. Você vai ter situações que não havia antes no Brasil. O facto de você ter que abrir caminho para a rainha passar... O embaixador dos Estados Unidos tira a pistola, como no Velho Oeste: ‘Como assim? Você está mandando eu sair do caminho?’... Imagina sacar a arma para um guarda da rainha. Há muitos estranhamentos e confrontos. Eles estão tentando levar a civilização ao Brasil e, com essa civilização, vêm todos esses hábitos arraigados.

E que entram em choque com os costumes locais...

Total. São coisas a que a América não está acostumada. Você tem uma tentativa de europeização, principalmente no Rio de Janeiro, que não ocorria sem conflitos. E gera coisas até curiosas. Tem uma história que nunca consegui comprovar. A D. Maria tinha pegado piolho no navio, e aí teve que raspar a cabeça e sair com turbantes. As mulheres acharam que aquilo era moda e começaram a se envolver com turbantes. Tem muito essa questão de criar hábitos europeus no Rio de Janeiro, o que nem sempre dá muito certo.

Referiu que há quem veja a ida da Corte como o princípio da independência. Sabemos que D. João VI gostou muito do Brasil, mas ele não foi para lá para desfrutar, não foi de férias. Sabe que é preciso construir um estado, passar decretos, fundar instituições…

E do zero. É mais fácil você fazer algo num lugar que não tem nada do que fazer num lugar onde as instituições já estão consolidadas, que é o caso daqui. Mas mesmo quando ele está como príncipe regente aqui, cria algumas instituições no Brasil, como a Real Academia de Desenho e Artilharia, e manda que seja feita a vacinação contra a varíola. Quando está lá, só a abertura dos portos já é uma independência económica.

Porque havia uma lei que proibia as manufaturas.

Um alvará, de 1785. Era proibido você produzir. O brasileiro, claro, faz tudo por baixo dos panos. Devia ter alguma coisa, mas muito incipiente. Não se podia ter fábrica de tecer algodão, e agora começa a poder ter. Não podia ter imprensa no Brasil, tudo vinha impresso daqui, e o D. Rodrigo de Sousa Coutinho manda vir da Inglaterra uma prensa com todo o material tipográfico, que nem tinha sido desmontada. E aí vai ser criado o Diário do Rio de Janeiro e o embrião da imprensa nacional no Brasil. Tem também a criação da fábrica de pólvora e, no terreno de segurança em volta, o Jardim de Aclimatação, que vai virar o Jardim Botânico. Também abre para a exploração não apenas do ouro que brota de Minas, que era fácil tirar, ou os diamantes, que já estão em declínio, mas vai trazer várias pessoas de fora do Brasil, principalmente mineralogistas germânicos, para criar as primeiras siderurgias. Você tem a abertura de um monte de coisas que nem existiam antigamente… E há um grande fomento à indústria marítima brasileira no tempo de D. João. Ainda hoje é um personagem muito reverenciado pela Marinha brasileira.

Mas parece que os acontecimentos escapam sempre ao seu controlo. Temos as invasões napoleónicas, em 1807, a que ele não consegue fazer frente e foge. Temos em 1821 a revolta no Brasil, com a qual não consegue lidar. Em 1822 dá-se a independência do Brasil, que é um duro golpe para Portugal. E, quando tem de conceder a Constituição, fá-lo contrariado… Dá a ideia de alguém que sofre derrotas sucessivas.

No Brasil ele estava num crescendo. Invade e derrota os franceses na Guiana. E consegue o grande sonho da Coroa portuguesa, que era a margem ocidental do [Rio da] Prata. Derrota a Revolução Pernambucana em 1817, uma revolução causada por causa dos impostos para reconstruir Portugal depois das invasões. E, bem ou mal, ele derrotou o Napoleão quatro vezes: as três campanhas aqui e uma no Brasil. Agora, da Revolução [Liberal] do Porto em diante, é uma queda total. Uma derrocada. Acaba o poder do Rei e, com isso, tem uma sucessão de revezes. Só vai melhorar depois da Abrilada, quando, com a ajuda das potências europeias, ele derrota o filho. Isso em 1824, vai ter apenas mais dois anos de vida. E nesses dois anos, o que faz? Consegue resolver a questão da independência do Brasil de maneira muito polémica, porque a gente paga uma fortuna para Portugal.

Uma indemnização.

É. Esse problema das indemnizações ainda está a ser discutido 20 anos depois. Aí sim, concordo com você. Nesse interregno você tem todo um declínio do poder, desde a Revolução do Porto até à Abrilada. E da Abrilada em diante é a tentativa de salvar o que resta.

Um aspeto interessante, quando olhamos para o mapa da América Latina, é como o Brasil, aquele país imenso, não se desagrega e permanece unido.

Mas isso é o D. João.

É um legado dele?

Acredito piamente que sim. A América Latina se fragmenta porque não tem algo para se congregar em volta... O Bolívar até tenta uma união, mas não consegue porque são vários interesses locais que acabam fragmentando tudo aquilo. Uma das epígrafes que coloquei no livro é uma frase do Alberto Rangel: ‘Os pés de D. João fizeram mais do que 20 mãos dos seus predecessores’.Pelo fato de ele estar lá, há uma congregação em volta primeiro do príncipe regente, depois do Rei. E isso fortalece essa união, que vai depois ainda ser trabalhada pelo D. Pedro e que vai ser consolidada no reinado de D. Pedro II. O fato de ele ter ido para a América fez toda a diferença. Na América Espanhola, com a prisão dos Bourbons por Napoleão, você tem uma fragmentação de tudo aquilo. Eu acredito piamente nisso: se não fosse D. João, o Brasil não seria o que é hoje. 

Tem no seu livro um capítulo sobre os diamantes brasileiros. Não sei se já visitou o Museu do Tesouro Real…Ainda não consegui, mas está na lista. Existe lá uma enorme pepita de ouro em bruto, com 20 quilos, e pedras preciosas que nunca mais acabam. Como é que os brasileiros se sentem em relação a todas estas riquezas que foram trazidas do seu país para a Europa?

Tem gente estúpida dos dois lados do Atlântico. Tem muita gente que vem com aquela bobagem de ‘devolve meu ouro’, que vocês devem estar cansados de ouvir. A gente pagava imposto, o imposto era um quinto, era 20%; hoje em dia pagamos 27,5%. Estávamos melhores com os portugueses! [risos] Esse imposto veio para cá, os outros 80% ficaram no Brasil. E também muita coisa foi usada na estrutura do governo brasileiro: na criação de portos, de instituições... É uma grande miopia achar que Portugal deve algo, como essa coisa de reparação histórica. Não sei se deve alguma coisa. Acredito que não. Quem estuda realmente a História viu o que era o Brasil antes da descoberta das jazidas de ouro e depois. Fora o que a gente roubou. Tem até uma expressão que é ‘os descaminhos do ouro’.

Os desvios?

Em Minas Gerais tinha uma fábrica de fundição falsa de ouro. Até o próprio governador de Minas ganhava dinheiro com isso. Está tudo junto e misturado. E vocês é que montaram o museu aqui, mas a gente também tem muita coisa lá. O Museu Gerdau em Minas Gerais, no centro de Belo Horizonte... Nossa, é um dos museus de mineralogia mais ricos que eu já vi na vida. Não, eu não acredito muito nessa questão de reparação histórica.

Passados 200 e poucos anos desde a independência, ainda consegue identificar alguns problemas do Brasil atual e relacioná-los com o período histórico que é retratado no seu livro?

Sim. A ida de D. João fortalece um deslocamento de capital financeiro para o Rio de Janeiro. A mão de obra era mão de obra escravizada. Então, você tem um aumento maior do fluxo de escravizados para o Brasil com a presença da Corte, por causa dessa mudança do capital de Lisboa para o Brasil. Isso levou a uma grande diferença social.

A desequilíbrios?

Esse desequilíbrio social permanece até hoje. Mas também não foi resolvido com a República. Não fazia parte da República no Brasil solucionar nada disso. É uma coisa com que a gente ainda convive e que, de alguma forma, tem a ver com essa mudança do capital. Mas se não fosse D. João, seria outro. Não estou dizendo que ele é o culpado disso.