segunda-feira, 14 set. 2026

Os novos livreiros, de feira em feira

Pouco se tem questionado aquele que é, entre nós, o modelo da grande exposição dos livros, um evento episódico cada vez mais constante, virado inteiramente para o mercado e que rouba espaço às livrarias e aos alfarrábios, mas também não foge ao perfil rotineiro e monótono, tendo dado origem a um curioso personagem: o livreiro-caixeiro-viajante.
Os novos livreiros, de feira em feira

A Feira do Livro do Porto regressou no passado dia 21 aos Jardins do Palácio de Cristal e contou com a habitual e sempre efusiva promoção por parte da generalidade dos órgãos de comunicação, rendidos ao triunfalismo com que as mais rotineiras operações ‘culturais’ nos são vendidas. Foi preciso esperar pela madrugada de segunda-feira para que o mau tempo viesse introduzir um elemento de imprevisibilidade, tendo a tempestade fustigado o recinto, causando danos nalguns dos barracos, o que obrigou a organização a encerrar o evento na segunda-feira para dar lugar a reparações. Por esta altura, e apesar da chuva, o evento prossegue como a festa que pretende fazer da fermentação da tinta tipográfica um modo de gerar uma atmosfera de embriaguez cultural, celebrando esse sentido de abundância e profusão que a multiplicação dos volumes deveria patentear. No entanto, esta mesma operação de charme esconde há décadas o definhamento de um sector confrontado com uma atrabiliária fuga para a frente, um efeito de lógicas que lhe são inteiramente estranhas e que o colonizaram a partir de fora, definindo metas que obrigam a uma aceleração constante dos seus processos de modo a instigar ao consumo, gerando um ritmo extenuante, que é inimigo da lentidão essencial aos diferentes níveis de leitura.

Se a feira do livro se tornou um modelo indiscutível, tido como imensamente benéfico por promover um dos raros momentos em que editores e público se contactam directamente, há muito ficou reduzido a mercado ensosso, desprovido de qualquer galhardia a nível de invenção, arredando-se das possibilidades que podiam fazer desta uma proposta cultural que apontasse noutros sentidos, se ensaiasse, se deixasse compelir e testar percursos imaginativos, promovendo um ambiente de regeneração, e não aquela engrenagem de déjà-vu, que se pauta pelo esgotamento e a rotina.

Se a leitura deve promover o hábito da interrogação, do questionamento, é curioso como, ano após ano, damos notícias de certames que procuram funcionar como uma grande exposição do livro, mas se deixa de fora qualquer exame crítico ou meditação. Os pressupostos vão sendo abandonados, e nada se faz pelo fervor e prazer que devem proporcionar os grandes encontros, antes vemos os livros ali caídos num ambiente lastimoso, atraindo um público que não anda animadamente por ali à descoberta mas escorre, uns em busca de bestas céleres, outros como caçadores de níqueis, de alguma pechincha. Tem-se muitas vezes a impressão de que basta pôr a cassete de um ano anterior e não se daria pela diferença, sendo o visitante instado a passear-se entre a policromia e o garridismo impante das capas, dos volumes que se foram tornando cada vez maiores. Assim, vamos por ali aos encontrões entre aqueles que se deixam deslumbrar por essa literatura de mercado livre, respondendo ao imperativo de competir ou perecer, e aqueles que adquiriram com os anos o hábito de se benzerem ininterruptamente sempre que se encontram diante de livros, havendo ainda aqueles que, todos emperiquitados, aproveitam qualquer oportunidade para apontar e pigarrear os títulos que já leram, entoando as duas ou três banalidades que se podem respigar nas badanas, sendo que aquilo que triunfa verdadeiramente, aquilo que todos os anos é celebrado é a monotonia, a rotina, uma cupidez que torna estas feiras resistentes à mínima oscilação, apenas se permitindo crescer, sendo qualquer ousadia tomada como uma perturbação.

É com este evento mortiço que editores e livreiros se deixam representar, numa altura em que as livrarias, mesmo as independentes, na sua larguíssima maioria estão transformadas em meros pontos de venda. O facto é que são cada vez mais raras, até num efeito que decorre da multiplicação destas feiras e dos saldos, que levam a que um leitor só se dirija a uma livraria ou por militância ou em busca de algum fármaco para aliviar uma dor de dentes do espírito.

O anti-milagre da multiplicação

O certo é que, com o passar do tempo, a esfinge faz-se cada vez mais amarga. E perante o interminável firmamento de capas coloridas, a multidão de caracteres tipográficos, essa vertigem causada pela sucessão de espelhos que deveriam multiplicar o mundo, às tantas parece que fomos sendo condenados ao culto da promessa, a gozar apenas momentaneamente a ilusão de que poderíamos ir além desses elementos de superfície que atiçam a curiosidade, a ânsia de darmos uma oportunidade a este volume ou aquele, e que é, na verdade, o desejo de nos darmos a nós uma oportunidade. Mas, com o passar dos anos, é já difícil sacudir a impressão de embuste, a ilusão de que esse ciclo se vai tornando cada vez mais breve e previsível, à medida que nos atravessa a angústia por ser claro como o tempo de vida que nos resta não admitirá já movimentos realmente inesperados, rupturas, sendo apenas uma espécie de folga, um recreio para se ser mordido por sensações e delírios contidos. Assim, todo esse mar de papel impresso começa a banhar a miséria de uma actividade prospectiva que se foi dissolvendo na promessa. Vemo-nos obrigados a reconhecer que passámos muito mais tempo a reunir as condições, a erguer pilhas de livros e fazer intermináveis preparativos, a preparar cuidadosamente as malas, com isso adiando até se tornar impossível a tal fuga. Depois de uma certa idade, passear por uma feira do livro torna-se um modo de se envenenar de nostalgia, até o recusarmos por ser óbvio que só nos resta reservar o pouco tempo que temos para aquelas leituras que, em vez de esboçar horizontes infindáveis, garantem um sustento mínimo, já não uma odisseia de prodígios, mas aqueles requintes delicados que estimamos nas teses e temas da nossa eleição, não sendo já essencial a aparência de uma realização absoluta, mas tão-só umas distracções firmes enquanto vamos viajando, sem proveito, em direcção à campa.

Dantes o que eram as cidades senão um subsídio à fortaleza ociosa dos espíritos. Mesmo depois da morte, ainda temos notícia dessa busca desinteressada e que dava carácter aos grandes escritores, esses para quem cada palavra que escreviam vinha dum trabalho árduo. Se um poeta como Seféris nos diz que as imagens, por mais poderosas que sejam, ainda são a parte mais fácil do seu ofício, e que o ritmo é que lhe criava maiores problemas, pois este só pode apreender-se lentamente, no confronto com a incerimoniosa inquietude dos espaços, isso levava-o a sair, percorrer as ruas, tentando lançar os sentidos, afiná-los frente ao movimento nos restaurantes, vendo os eléctricos, os teatros de bairro, parando nesses cafezinhos onde, picando por passatempo uns frutos secos, a noite se lhe tornava menos penosa. Contudo, tornou-se bem mais difícil dominar a pontuação e deter o fluxo à medida que as nossas cidades se vão tornando cada vez mais dispendiosas, inóspitas para quem não encontra zonas de refúgio calmosas, tendo, desde logo, as livrarias sido arrancadas do centro e lançadas para a periferia, isto se puderam persistir. Tornou-se tão comum o admirar-nos a magia do passado imediato, de todos esses hábitos e ocupações que o acosso quotidiano nos força a abandonar. Estamos sempre a dar com uma literatura de enlatados, autores enfiados em aspas, citados meio à balda, e às tantas um Albert Camus, parece reconhecer que foram os próprios literatos que se viram obrigados a «forjar para si uma arte de viver em tempos de catástrofe para nascer uma segunda vez e em seguida lutar, com o rosto descoberto, contra o instinto de morte que está activo na nossa história».

Se é certo que todos só crescemos verdadeiramente ao desenvolver aptidões que nos permitem ser contra outros, se só crescemos por um aprofundamento das nossas recusas, ao reconhecer quem somos isso só acontece devido aos traços e a uma fisionomia que nos distingue ao darmos por nós a colher aquelas matérias, substâncias aromáticas, essências de modo a apurar o perfume de uma ambição menos terrena, o que também nos obriga a entender algo sobre o que os livros fazem e são. Como nos diz Italo Calvino, «os livros estão feitos para ser contra outros; um livro só tem sentido quando se confronta com outros livros, quando continua e precede outros livros». «Assim tem sido desde que os livros eram rolos de papiro que se alinhavam sobre as estantes das bibliotecas, cilindros verticais como os tubos de um órgão, cada um com a sua voz própria, grave ou delicada, ousada ou melancólica. A nossa civilização funda-se na multiplicidade dos livros: só encontramos a verdade se a seguirmos através das páginas de um volume até às de outro volume, como uma borboleta de asas matizadas que se nutre de diversas linguagens, de confrontações, de contradições.»

Isto toca o nervo da impostura do nosso tempo, em que toda a multiplicação é um mero efeito de aparência, um simulacro, porque a proliferação absoluta do livro só serve para enfraquecê-lo, para derrotar aquele anseio de se manter a par, de ler e acompanhar os movimentos, de lhes dar resposta nalgum nível às suas solicitações e sugestões. Lembramo-nos de um tempo em que parecíamos ter ainda capacidade de acompanhar as novidades, sendo fácil reconhecer como tantas delas não passavam de espécimes descartáveis, alimentando uma espécie de alarme difuso, mas que, mal líamos algumas páginas, se dissolviam nas nossas mãos como livros de areia. Mas esse gozo de andar pelas livrarias ia a par com a paixão inesgotável das ideias, dos estilos vigorosos, desses intelectos subtis e atormentados, dessas personalidades radiosas capazes de nos defender de uma civilização decrépita, e esse encanto durou enquanto os nossos dias urdiam entre si um enredo em busca dos prazeres da expressão. Mas se é certo, como nos diz a antropóloga francesa Michèle Petit, que, independentemente do meio onde vivemos ou da cultura que nos viu nascer, «precisamos de mediações, de representações, de figurações simbólicas para sair do caos, seja ele exterior ou interior», se «o que está em nós precisa primeiro procurar uma expressão exterior, e por vias indirectas, para que possamos instalar-nos em nós próprios, para que pedaços inteiros do que vivemos não acabem incrustados em zonas mortas do nosso ser», também é certo que hoje se perde demasiado tempo a enaltecer potencialidades, ao mesmo tempo que tudo no pacto social contemporâneo vai no sentido de desacreditar e corroer os ânimos e as acções que procurem romper com a previsibilidade, degradando qualquer ensejo que não esteja inteiramente submetido à lógica da produção e do consumo. Tudo o mais é combatido e denunciado como materiais heréticos, e silenciado.

A situação delicada em que se encontra o livro

Tendo em conta os sintomas mórbidos que se transferem à medida que a mercadoria impõe os seus ritmos celerados, o fetichismo que condena tudo por igual à abstracção, as compulsões do consumo que vive de produzir ilusões, promessas sucessivas que nos servem de aguilhão e ao mesmo tempo nos frustram, passando tanto tempo a perseguir miragens, as tais necessidades fictícias que acabam por consumir-nos, sendo este o verdadeiro predador dos homens, é importante reconhecer como toda esta trama gera os seus próprios personagens. Se os livreiros hoje se vêem condenados a deixar os seus buracos, as livrarias que muitas vezes não são mais do que bafientos depósitos, damos com eles nos tais ‘pavilhões’ ou ‘stands’ das feiras, pequenos estábulos, barracas, onde ficam de castigo, sem espaço para uma secretária, sem muitas vezes poderem estar quietos, sentados numa poltrona a ler, obrigados a zelar pela livralhada, essas pilhas pelas quais ninguém como eles foi levado, ao fim de uns anos, a adquirir maior desprezo, sendo que, por dever profissional, se vêem obrigados a um teatro de vendedores de bugigangas, e numa altura em que o cepticismo já os corrói, são forçados a cumprir com esse culto que ergue em torno dos livros uma magnífica impostura, uma suposta religião, com as suas lendas carunchosas, e que obriga a fingir por aqueles volumes de papéis sujos de tinta o respeito que se mostra às relíquias sagradas, mesmo quando, no seu interior, toda aquela algaraviada não abre vias desconhecidas, redes de trilhos secretos, possibilidades de fuga, mas são apenas intrigas espúrias, outras tantas vizinhanças mortas, sendo que só estão bem assim, fechadas e enterradas, ignoradas, poupando as mentes mais impressionáveis desse dilúvio incessante da estupidez humana tão fértil em todas as épocas. Só os puritanos mais ávidos ou descarados fingem assanhar-se por ver toda essa literatura de mercado vendida por bagatelas, muitas vezes vendida literalmente ao peso, sendo que a estimativa mais grosseira não falha muito se considerar que quase tudo o que alimenta o abate de árvores nos nossos dias serve à reprodução das banalidades que transmitem entre si múmias amortalhadas, sempre num estilo engessado, com a sua servil deferência à gramática, um vocabulário indigente e aquele tom insípido e insonoro.

Naturalmente, e para servir esta clientela, o livreiro que tem de andar com a casa às costas é hoje uma espécie de caixeiro-viajante munido de uma prosápia que vai burilando e que aquilata o próprio discurso a uma negociata de ideias. Poderíamos retratar esta figura decalcando-a a partir das páginas de Um Embuste Perfeito de Italo Svevo. Não vamos entrar nas peripécias desta divertida novela sobre um escritor obscuro que é levado a crer que chegou finalmente o momento da sua consagração, mas é-nos bastante útil para traçarmos o contorno desse industrioso sacripanta e que, através de uma perspectiva bastante cínica, reconhece melhor que ninguém a situação difícil, delicada, se preferirem, e tantas vezes embaraçosa , em que se encontram os livros hoje, procurando-se gerar um arrebatamento e uma excitação excessiva, tantas vezes avaliando-os em função das vendas e do número de edições, dos galardões e honras conferidas aos autores, sempre em busca de transfusões de sangue com alto teor motivacional.

Ora, é a partir do caixeiro-viajante que nos é apresentado por Svevo que podemos chegar a este livreiro dos nossos dias, alguém que não padece de grandes alergias face a um ambiente em que, quando se fala de livros, o que prevalece são conversas disparatadas e inanes, as quais procuram sempre gerar esse engodo para um rabo-leva de gente que anda sempre em busca de uma vocação, um qualquer estado de graça, e este tipo que vence todo o pudor e recai numa espécie de deboche, mostrando-se capaz de estimular este regime de fanfarra, vai alimentando a ilusão provocada pela bruma desta época. O mais certo é que, quando jovem, e mesmo que por um breve período, este livreiro ou promotor da leitura noutro desses órgãos e institutos que fazem a defesa dos livros e da leitura, também terá tentado fazer poemas e umas escaroladas ficções, tendo-se iniciado então nos rituais da desfalcada e tão desavinda corporação dos literatos, mas depois, e progressivamente, as necessidades impuseram-lhe que encarasse a literatura como um modo de sobrevivência, e foi assim que, aos poucos, o caixeiro-viajante foi estrangulando o poeta, ao passo que outros terão continuado a nutrir a esperança de os seus escritos estarem destinados à glória, mesmo que tardia, mesmo que póstuma, servindo isto de alento suficiente para passarem as suas mesquinhas existências na inércia de um empregozito cinzento, ordinário, alimentando-se de sonhos e de fábulas.

Livreiro-e-caixeiro-viajante

Svevo esclarece-nos que não é ofício de diletante o ser caixeiro-viajante. «Antes de mais, passa a vida longe da mesa, o único lugar onde se podem fazer versos e prosa; mas, além disso, o caixeiro-viajante corre, viaja e fala, sobretudo fala até à exaustão. Talvez não tivesse sido assim tão difícil suprimir nele o ensejo da literatura. Passara, certamente, por aquele período de idealismo que por vezes preludia também a formação dos tiranos, e de tal período não restava nele maior vestígio do que o da larva no insecto alado. Poder-se-ia triturar tudo e depois analisar, sem descobrirmos no seu organismo uma só célula forjada para servir outra coisa que não fazer bons negócios.» Se diante do ser assim tão cruamente autopsiado surge em nós um impulso que nos torna um tanto injustos e severos no juízo que fazemos deste personagem, sendo difícil perdoar-lhe o que nos parece uma transformação tão radical, basta pensarmos de que modo todos nós fomos comprometendo um pouco as exaltantes promessas que nos fizemos nos períodos de maior fervor juvenil, e então reconheceremos como, pelo menos em parte, também participámos nesta transformação. De qualquer modo, se «vermos um pássaro na gaiola dá compaixão, mas também ira», isto acontece, como sugere Svevo, porque reconhecemos que «se se deixou apanhar, quer dizer que já pertencia um pouco à gaiola, e se depois a suportou é prova certa de que não merecia outro destino».

O certo é que se considerarmos a forma como nos relacionamos com este livreiro-e-caixeiro-viajante, o mais provável é que ele goze hoje, e junto de nós, de alguma estima e até respeito, de uma reputação pelo menos de segunda ordem na hierarquia literária, tendo-se visto empurrado para a custosa sobrevivência no entulho destas feiras, gémeas das de artesanato e dos produtos regionais, sendo que ele, pelo menos, foi ligando as partes desconexas de um pequeno país cada vez mais desagregado, desconhecido para si mesmo, entregue no que lhe resta de vícios literários a um tipo de fantástico que parece sempre a um passo da loucura, sendo um fantástico de doença e de delírio. Ora, este livreiro ao percorrer as pequenas cidades (sim, porque ao contrário do que se imagina por cá, só as temos pequenas ou mesmo minúsculas), pode gabar-se de que, com este modo de ligar as partes, ele é capaz de uma leitura geral do que resiste dessa fé junto daquela população (os seus clientes) que, no seu monótono ritmo de vida, ainda vai nutrindo o tipo de esperanças avelhantadas e que constituem uma tristeza aprazível, cultivando o gozo da leitura como uma depravação de velho apaixonado, entre tantos outros que, com a sua candura artificial, com o seu entusiasmo postiço, só fazem por aumentar a nossa desconfiança nessa fé medíocre que cerca os livros. Assim, este personagem não é tão caricaturável como poderia parecer à primeira vista, até porque ele, mais do que ninguém, tem tido a possibilidade de variar o repertório, coleccionar impressões, polindo o seu número. O certo é que viaja acompanhado por uma inexaurível conversa fiada, pelo apetite e pela sede, conjuntamente as três qualidades sociais por excelência. E se tem tanto talento para o embuste isso faz dele algo mais do que um mero intrujão ou um biltre qualquer, aprimorando-o de modo a que o seu fosse um embuste mais amável, mais difícil também assim de lhe resistirmos. Com os anos, com a experiência, este foi-se tornando de tal modo ardiloso que consegue fazer do cliente ludibriado alguém que, mesmo quando percebe a marosca, não lhe leva a mal, antes aprecia a audácia.

Assim, os seus clientes não resistem a ter-lhe alguma estima, admiração e sentem-lhe a falta quando entram numa livraria onde ninguém os abordará para impingir seja o que for, pois continuam a divertir-se com aquele personagem esboçado como uma fantasia reles, mas, ainda assim, que a elevou ao máximo de fantasia que uma época cínica como esta admite a si mesma, até para melhor ilustrar as suas mesquinhas convicções.

Talvez possamos supor que este amor pelo embuste seja o resíduo das suas tendências artísticas suprimidas. Pois, como nos diz Svevo, no fundo, o embusteiro é um artista, uma espécie de caricaturista cujo trabalho é beneficiado não pela necessidade de trabalhar, mas de inventar e mentir de maneira a que o ludibriado faça a caricatura de si mesmo. «Um trabalho delicado precede e acompanha o embuste, e compreende-se que um embuste conseguido permaneça imortal. É verdade que se fala mais dele se contado por um homem como Shakespeare, mas diz-se que ainda antes dele se falava muito do que foi realizado por lago.»

Clientes em busca de consolo

Por mais arguto e engenhoso que seja o embusteiro, há uma espécie de lei da física que se lhe impõe e que leva a que todos os seus embustes estejam limitados à urgência de para promover bons negócios. Assim, se o literato se cingiu à fábula, à vaga e um tanto imbecil confiança na posteridade, se não dos seus intentos literários, pelo menos da pronúncia e do incenso que lhe sobem à cabeça quando se entrega a estes eflúvios, não conseguirá deixar de invejar o livreiro que se entregou, sem o menor remorso, àquela impostura e que, nos momentos de maior exaltação, quando consegue alimentar no espírito do seu cliente um fervor que já não vive em primeira mão, é como se se aproximasse daquela beatitude longínqua e tão desejável que hoje nos parece uma forma perdida dos séculos, uma espécie de quimera, asseverando, assim, que talvez seja o nosso destino nos tempos que correm gozar apenas deslumbramentos que se sustentam do ludíbrio.

A verdade é que o livreiro-caixeiro-viajante sabe tirar a pinta a um leitor à primeira vista, e mesmo que se engane, nunca se lança de cabeça, podendo corrigir de imediato, mas estruturando o seu discurso de modo a acomodar e acompanhar as pretensões do cliente. Ora, num tempo em que ninguém tem paciência para ninguém, com tanto pastor órfão de rebanho, tanta gente a compor e recitar por aí as suas homilias indigestas, acaba muitas vezes por ser o livreiro-caixeiro-viajante a servir de confessor e algo mais, alguém que reconhece que não se passa impunemente, seja pelo mais breve espaço de tempo, por um sonho de glória sem posteriormente lamentar a sorte daqueles que não souberam livrar-se dele. Acontece que, tendo padecido desse mal, pelo menos o livreiro pode apadrinhar essas almas perdidas vagueando por todas as superfícies onde lhe seja possível aprisionar a água verde e parada do espelho, apurando a poção dos seus reflexos, perseguindo a sombra das carícias que lhe transmite esse sonho. Assim, muitas vezes, aquele cliente dirige-se às livrarias independentes em busca de consolo por até ao momento não ter encontrado o lugar que, em seu entender, a república das letras já devia ter-lhe concedido, e, como não encontra nenhum balcão onde submeter reclamação, onde ir pedir notícias quanto ao deferimento dos processos a que foi dando entrada, é junto do livreiro que consegue obter um caldo que lhe sossegue a úlcera da vaidade ultrajada. Só o livreiro tem suficiente cuidado, uma vez que a sua sobrevivência pode depender disso, para não esmagar de vez o literato que vem exibir as feridas, esperando que ele vá listando outros tantos nomes, nomes como o de Svevo, génios ignorados e que muito penaram até que em torno deles o consenso geral admitisse que eram merecedores de uma estima e de um culto como a posteridade reserva só a um punhado em cada geração.

Assim, não haverá livreiro que consiga segurar alguma morada, safar-se da miséria num país em que cada vez menos se lê, que não tenha alguma ciência ou sagacidade na forma de lidar com aquele cliente que se faz mobília da casa, mesmo que a casa seja um barraco numa feira aqui ou ali, que não tenha a subtileza de gerir uma certa fragilidade, de modo a impingir outros suplementos da alpista literária, mas sem ir tão longe ao ponto de revelar o seu fundo desprezo pelas ilusões daquele pretenso escriba, algo que faria desmoronar o seu chilreio e certamente o levaria a ir procurar poiso noutro ramo cediço. Se todos nos lembramos de um ou outro caso de livreiros extremamente habilidosos a embalar e gerir as tão desmesuradas ambições dos nossos engalfinhados escribas, sendo que uns depois não se podem cruzar com os outros, nem aguentam a ideia de que a sua meretriz expresse os mesmos sentimentos por todos os clientes, mais raro é encontrar o tipo de livreiro que mantém uma postura soberana e até se entrega a sórdidos regabofes com as aspirações daqueles que lhe entram pela porta adentro ou que se postam nas suas barracas. A verdade é que, para os tantos embusteiros que alimentam as sórdidas fantasias deste tempo, ainda há um ou outro que consegue, embora com enormes dificuldades, manter o seu negócio, defender um critério minimamente restrito, servindo a quem os visita apenas aqueles pormenores lacónicos e precisos para orientar quem realmente está empenhado na sua aventura pessoal enquanto leitor, sendo sempre eficazes ao enxotar esse exército inumerável de pedantes armados de ignorância e despojados de talento, que vão erguendo meio ao calhas bibliotecas onde não faltam sequer algumas obras escritas por verdadeiros mestres.