É noite e faz frio em Lisboa, mas o Xafarix, em Santos, está lotado. Pessoas sentam-se em pequenas mesas redondas, copos na mão, à espera de ouvir piadas em inglês. Alguns bebem cocktails coloridos, preparados atrás do balcão por Francesco Kirchhoff, que alterna entre o papel de anfitrião, barman e comediante. Antes de começar a noite, é também ele quem assume o papel de emcee: aquece a sala, fala com o público, explica as regras não escritas do stand-up e ganha a confiança de quem ainda se mostra contido. No público há portugueses, estrangeiros a viver na cidade e turistas. Pessoas com idades, percursos e sotaques diferentes acabam sentadas lado a lado, inicialmente tímidas, a reagir em uníssono às mesmas piadas, como se formassem um único organismo atento ao que se passa em palco. As luzes baixam e o espetáculo começa.
«O inglês junta toda a gente», diz Ash, comediante indiano de 29 anos que vive em Lisboa desde 2016. Foi um dos primeiros a insistir em noites regulares de comédia em inglês na cidade e é hoje uma figura respeitada pela comunidade por ter ajudado a fazer este circuito crescer em Lisboa. «Aqui ninguém se sente de fora».
O stand-up em língua inglesa cresce pela Europa fora – e Portugal não foge à regra. Em cidades cada vez mais cosmopolitas, o inglês tornou-se a língua comum de uma geração habituada a consumir comédia online e que, depois da pandemia, voltou a querer rir ao vivo.
Lisboa acompanha o movimento. Americanos, russos, indianos, chineses, alemães ou italianos encontram na cidade um lugar onde subir ao palco. «A minha ambição é tornar Lisboa no circuito de stand-up mais atrativo e interessante da Europa continental», diz Francesco Kirchhoff, comediante italo-alemão e fundador da Republic of Comedy, o clube residente no Xafarix, também ele reconhecido pelos pares como uma das figuras centrais no crescimento deste meio na cidade.
Kirchhoff veste-se todas as noites de forma minimalista – calças de ganga escuras e camisa preta, um uniforme discreto que contrasta com a dimensão da sua ambição.
Durante anos, fazer comédia em inglês em Portugal era uma exceção. Hoje, os palcos multiplicam-se. Hugo Nóbrega, fundador da H2N Culture Connectors, fala numa «explosão da indústria». O autor Filipe Homem Fonseca lembra que os comedy clubs praticamente não existiam. «Isto não era normal», diz. «Agora, os comediantes perceberam que isto pode ser uma carreira».
Ainda assim, trata-se de um meio que cresce discretamente, muitas vezes fora do radar de quem não frequenta estes espaços.
Comédia em inglês
No Xafarix, a fronteira do palco confunde-se com o próprio público. A sala é pequena, banhada por luzes arroxeadas, mas os risos aquecem-na rapidamente. À medida que a noite avança, o público solta-se: ri mais alto, reage, responde. Quem sobe ao palco fá-lo noite após noite, num exercício de resistência e persistência. Há algo de quase compulsivo neste regresso constante ao microfone: uma mistura de vício, missão e necessidade de fazer rir.
Kirchhoff começou a fazer stand-up em Berlim há cerca de dez anos, depois de um amigo o convencer a ir a um open mic. Veio para Portugal por trabalho, ficou pela comédia e, no mês passado, despediu-se do emprego fixo. «É um risco enorme», admite. «Nada disto me foi oferecido. Trabalhei muito para chegar aqui». Reconhece, no entanto, a ausência de uma indústria em Portugal. «Não há um caminho claro para a televisão ou o cinema». Ainda assim, acrescenta: «A comédia em inglês na Europa é muito mais livre do que nos Estados Unidos».
A ideia é partilhada por Daniel Burt, comediante americano sorridente, de trato fácil e quase sempre de boné – um acessório que mantém fora do palco, à americana. Fez comédia de sketch durante 25 anos nos Estados Unidos e chegou a ter audições para o Saturday Night Live. Mudou-se para Portugal em 2023. «Queríamos que a nossa filha estivesse segura», diz. «Descobri que havia treinos com armas nas escolas americanas». Com raízes na Madeira, encontrou em Portugal um lugar para recomeçar.
«No que toca à comédia, há muito tempo de palco», acrescenta. «Aqui posso praticar, experimentar. Posso fazer aquilo que quiser».
Em palco, a sua postura muda: torna-se mais elétrico, anda de um lado para o outro, levanta a voz e enumera frustrações. «As pessoas esperam que eu fale do Trump», explica. «Isso dura uns 20 segundos. Depois acompanham-me na viagem».
Sotaque russo num lugar seguro
Para Anatoly Drobzhev, comediante russo de 32 anos, Lisboa é um ponto de partida. Tem um ar distante, reservado, quase tipicamente russo, fala com calma e mede as palavras. Começou a fazer comédia em Moscovo e chegou à televisão, mas saiu do país em 2022, após a invasão da Ucrânia. «Se ficas na Rússia e continuas a fazer comédia, não é seguro», diz. «Podes ser preso por praticamente qualquer coisa».
Em Portugal, optou pelo inglês. «Se fosse só um hobby, faria em russo», explica. «Mas se quero que isto seja uma carreira, tem de ser em inglês». Sobre Lisboa, é direto: «Há menos pressão. Isso é ótimo para crescer».
Num espetáculo recente, espera encostado a um sofá, bloco de notas na mão. «Escrevo todos os dias. Doze piadas por dia, durante quase três anos». Em palco, o sotaque russo misturado com o inglês, os silêncios calculados entre as piadas e a postura firme surpreendem o público, que reage de forma entusiasta ao seu estilo de one-liners.
«Os portugueses podem gostar um pouco demais de mim», admite. «Uma vez atuei numa noite em português e foi uma das melhores atuações que já tive».
A receção calorosa repete-se noutras vozes. Ash lembra-se do início. «Quando cheguei, havia uma noite em inglês por mês», diz. «Agora há espetáculos todas as noites». Gere hoje um comedy café, o Selva, e vive da comédia.
Um setor em crescimento
Xinyi Li, comediante chinesa de cabelo comprido, veio de longe para Lisboa em 2017 para estudar. Entra na sala sempre com um sorriso fácil. Começou a fazer comédia em 2020. «O público português é muito simpático, muito gentil». Nota, no entanto, diferenças entre contextos. «Na comédia portuguesa, sinto que há muitas semelhanças. Os temas das piadas repetem-se imenso». Atua sobretudo em inglês, mas também em português, explicando que a comédia não é só a língua: «são as referências que partilhas».
A diversidade é uma das marcas deste circuito. Como explica Kirchhoff, «em inglês há mais diversidade, porque há pessoas de origens diferentes».
Nem tudo é leve. Vários humoristas sentem mudanças no clima político e social. Ash nota que Portugal já não é o país que encontrou em 2016. «As pessoas não são tratadas da mesma forma». Drobzhev alerta para a consciência histórica e social, lembrando que, na Rússia, muitas vezes os próprios cidadãos conhecem menos a sua história do que os imigrantes. «Compreendo que as pessoas queiram preservar as suas tradições e proteger a sua história, mas nós não estamos aqui para mudar a vossa história».
Kirchhoff relativiza: «O ódio contra os imigrantes não é um obstáculo à comédia. Este é um país livre». Ash acrescenta: «A comédia junta as pessoas. Durante aquele tempo, somos todos iguais».
Apesar de ainda passar despercebido a muitos, o crescimento é visível para quem está dentro. «Estamos a fazer muitas coisas certas», diz Kirchhoff, sublinhando que o Xafarix já recebeu comediantes reconhecidos noutros países, alguns em digressão pela Europa, outros de passagem por Lisboa.
Hugo Nóbrega lembra que apostar em comédia em inglês já foi um risco. «Mas a partir de 2019, quando trouxemos nomes como Daniel Sloss, Jimmy Carr e Louis C.K., o risco já era nulo».
Para os comediantes que vivem em Portugal, estes exemplos funcionam como prova de que o circuito, ainda em desenvolvimento, tem margem para crescer. Fora de Lisboa, há público no Porto, em Braga, no Algarve. «Fiz um espetáculo no Porto com cerca de 100 pessoas e todos adoraram», diz Burt. «Quanto melhores os comediantes ficam, melhores ficam as audiências».
Para Drobzhev, é apenas uma questão de tempo: «Isto vai crescer, sem dúvida».
E noite após noite, em caves, bares e salas cheias, imigrantes continuam a subir ao palco. Microfone na mão, piadas em inglês e gargalhadas a espalharem-se pelo país.
Para quem está a assistir de perto, uma coisa é clara: isto está só a começar.