Os 101 dálmatas da poesia portuguesa

Os 101 dálmatas da poesia portuguesa

(…) Não sei; e para quê Poetas em tempos de indigência?
Mas eles são, dizes tu, como os santos sacerdotes do deus do vinho,
Que iam de terra em terra em noite sagrada.

Friedrich Hölderlin

O átrio central do antigo edifício da Caixa Geral de Depósitos abarrotava com ministros, reitores, banqueiros e empresários, entre eles meia dúzia de artistas, para ouvir o discurso de agradecimento de Lídia Jorge à atribuição do Prémio Pessoa 2025. Tecidas as homenagens e os elogios do costume, de «Querida premiada» a «é justo dizer que este discurso alargou a nossa percepção quanto à sua figura e o seu empenhamento», mas pouco ou nada relativamente àquilo que o mesmo contribuiu para expandir a nossa consciência para fora da sua figura, Lídia Jorge aproxima-se do púlpito e diz: 

— Receber o Prémio Pessoa, pela sua natureza e pelo nome do seu patrono, intimida. Não sei se os meus antecessores mais próximos na área da Literatura, os poetas João Luís Barreto Guimarães e José Tolentino Mendonça o sentiram. Eu, sim, e para tanto, preciso de imaginar que o anjo do bom humor se encontra pendurado da cúpula deste recinto a rir para mim. Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei. […] Sentir que há um júri, tão qualificado e tão numeroso e tão importante que acabou por escolher, este ano, o meu nome, diz que a minha vida afinal tem um sentido.

Este é o tom com que, por norma, os nossos poetas, transformados em instituição, recebem os prémios. Umas sessões em que se perdem em banhos de língua, lambuzares e miados, laureados e pevides, cedendo a manobras comerciais e encapando os regozijos com elogios encadeados, dirigindo-se à rasca aos poetas de cima, de lado, de dentro, mas no fundo sempre dispostos e aptos a vínculos, determinações sociais e maldições burguesas — tornando-se ele mesmo, o prémio, uma herança que mais do que a herança herda o herdeiro. 

Por outro lado, importa traduzir o arranque de uma conferência de Jorge Luís Borges, diante de um salão também ele lotadíssimo, pouco depois de lhe serem tecidas as habituais comparações a Homero, a Buda, passando pela capacidade de propor aos leitores um renovado Olimpo, entre outros louvores e encómios:

 … e com vocês… Borges, o palavrista! Vamos falar, Borges? — diz o entrevistador.

— Seria bom fazê-lo com um pacto de esquecimento mútuo. Odeio publicidade. — responde  desabridamente Borges.

O jornalismo procura deixar uma memória. Além disso, é uma entrevista informal na qual só nos interessam algumas respostas que ainda não deu. Entre elas, as mais simples. Quase como as do “questionário de Proust”…

— Sim, já sei, mas não creio que o tenha feito. Contém uma série de trivialidades. Creio que deve ter sido a cozinheira de Proust. — atira Borges.

Mais à frente, Borges confessa ter desenvolvido uma certa fobia pela publicidade. 

Num segundo momento, a propósito do doutorado honoris causa atribuído pela Universidade de Sorbonne, o argentino repetia: 

Creio que as pessoas se equivocam sobre mim. A qualquer momento podem dar-se conta do erro e pensar que sou um impostor. […] Eu não mereço estas honras. Eu não tenho trabalho. O meu é fracionário. Não possuo uma literatura em conjunto. Acredito que o prémio da Universidade de Sorbonne possa ser o erro de um país. Ou de todo um conjunto de países. Basta ler a história universal para saber quantas vezes o mundo se equivocou. Sou doutor honoris causa de Oxford, da Universidade de La Plata, da Universidade de Columbia, de Santiago do Chile, de Cincinnati e agora da Sorbonne. E de cada vez que eles me outorgam um prémio desta natureza, tenho vontade de rasgá-los e dizer-lhes que estamos todos errados. O meu único título verdadeiro é o do bacharelato, todos os outros são dons que me foram concedidos.

Dois conceitos de ‹‹literatura›› parecem assim existir lado a lado e ocupando virtualmente o mesmo espaço: o da literatura como aquilo a que Althusser chamou Aparelho Ideológico do Estado e o seu aparente contrário, a literatura como subversão da ideologia do Estado. A primeira associa-se à ‹‹institucionalização›› da cultura - embora, claro, tenha como premissa que a cultura, no seu sentido essencial, já é o discurso do Estado; a segunda associa-se à noção vanguardista de autonomia, não como uma afirmação de ‹‹arte pela arte››, mas como uma orientação crítica perante o Estado, fundada numa alienação constitutiva a partir dele (Louis Armand). Isto para trazer à baila a iniciativa que teve por título ‘Pairing Portugal: um país de[sen]cantado pela poesia’ e que parte de uma parceria entre a ‘VisitPortugal’ e a agência de marketing digital ‘Poets & Painters’ com vista a urdir a casta dos poetas à das uvas, e assim publicitar cem poetas, cem vinhos e cem regiões do território luso — o chamado: Leve três pague um! 

Outrora, ao invés do termo publicidade, dir-se-ia rèclame — re-clamar, chamar, gritar —, termo esse que se diluiu, tendo-se perdido a sua origem nos franceses que começaram por infiltrar à socapa notas e anúncios nas notícias, para chamar à atenção de outros assuntos.

Ainda não nos foi explicada a vindima e, só da premissa inicial, sobem-nos logo à memória uns quantos episódios passados: o célebre slogan de Fernando Pessoa do final dos anos 20 para a agência Hora, aquando do lançamento da Coca-Cola em Portugal — «Primeiro estranha-se, depois entranha-se»; para os mais esquecidos, relembramos que também Ary dos Santos compôs um dos mais famosos slogans para a cerveja Sagres — «A sede que se deseja»; outros recordar-se-ão dos humorados, mas não menos engenhosos versos de Alexandre O’Neill para a multinacional alemã — «Bosch é Brom»; «Há mar e mar/ Há ir e voltar» para o Instituto de Socorros e Náugrafos; «Com colchões Lusospuma você dá duas que parecem uma»; ou ainda, por brincadeira, uma proposta ao Metropolitano de Lisboa que lhe ia custando o emprego — «Vá de metro, Satanás!». Até o suposto imaculado Herberto não fugiu à regra, tendo, no período em que trabalhou para o consagrado atelier de arquitectura Conceição e Silva, permitido que um dos seus poemas viesse pintado nas fachadas da loja de discos Valentim de Carvalho, em Cascais, pela então avultada quantia de trinta contos. Enfim, ser-nos-ia possível enumerar tantos outros que, a dado momento, por umas coroas, trabalharam em agências ou escritórios publicitários. Não pensem que se trata de uma questão de Águas Luso. Em Itália, por exemplo, Gabriele D’Annunzio chegou a compor versos para as marcas de licores ‘Il Sangue Morlacco’ e ‘Aurum’, sendo que poderíamos juntar ao fardo Marinetti e o manifesto literário ‘O futurismo é a arte da publicidade’ (1931). Dito isto, o que é que mudou? O que nos cabe dizer ainda?

Tempos idos, esses em que os poetas recusavam os cem mil euros do prémio Camões e outros escreviam linhas extraordinárias para um anúncio esporádico, publicando ainda assim, contra o Estado Novo, livros como ‘Feira Cabisbaixa’ (1965) ou ‘País Possível’ (1973), em cuja unidade temática era a do mal-estar de um homem que, ao longo da vida, tem pagado caro o preço por haver nascido em Portugal […] e que intensamente se autodestrói; que se vai suicidando lentamente porque essa sociedade o destrói e assassina e o censura e a censura se instala na sua própria consciência (Ruy Belo). Pelo contrário, dado o cenário inverso, hoje o extraordinário seria se surgissem por aí dois versos violentos, indubitavelmente poéticos e extraviados desses ciclos proselitistas, que contornassem toda a linguagem publicitária e as estratégias de persuasão com que os nossos poetas tanto empanturram os versos, as apresentações de livros propositadamente cercadas de propagandas, as feiras e as mútuas homenagens, efeitos que usam para promover mercadoria com a própria mercadoria que escrevem (Joaquim Manuel Magalhães), as tão aguardadas listas do ano, as frequentes reportagens, sem nos esquecermos dos prémios e das bolsas de criação literária a todo o momento coniventes e também elas financiadas pelo ministro da cultura, que tanto edulcora a boca dos poetas.

Ainda assim, dantes, não nos faltavam desses que, seguindo a linha de Borges, reclamassem propostas divergentes, imposturas, discursos destoantes face às convenções gerais. Suspendia-se o tempo de cada vez que lhes líamos o pulso. Aquela espantosa eloquência, o ritmo exemplar, expressões de um todo em nada confundível ou, sequer, compatível com a mediocridade dos dias, os sentidos triviais da consciência ou quaisquer outros motivos vulgares e insignificantes. Não se limitavam a cortar as frases pelos tornozelos, simulando o aparato de uma composição poética, enobrecendo o discurso ou legitimando por mera semelhança gráfica banalidades, versos-genéricos, ocultando ainda correntes narcísicas por trás das folhas. Se a poesia lá lhes ia sobrevivendo, era somente pela garantia que nos davam os versos, uma vez que esta sempre recusou discursos defensores ou testemunhos de últimos herdeiros que volta e meia procuravam promovê-la entre os demais, acabando por feri-la. «Os poemas? Alguns funcionam,/ Outros não./ Se o que queres/ é uma garantia/ então compra um televisor», diz-nos Roger Wolfe, dando-nos a pista de que, perante uma época como a nossa, em que a poesia se deixa confundir diariamente com um produto consumível, e nos vem apresentada sempre em linhagem directa para com as lógicas do mercado, mais nos valia que os livros de poesia começassem a aparecer também eles com a percentagem de teor alcoólico, as bagas com que os produziram, percentagem de sulfitos, ou até mesmo, como os electrodomésticos, com uma garantia mínima de 3 anos, descontos dedutíveis em cartão ou facturas para troca e devolução. Mas, afinal, digam lá e sem rodeios, a que preço está a poesia?

A finalidade dos poetas dos nossos dias parece já não ser o poema. Antes a febre sempre morna do sucesso e da visibilidade, as vizinhanças estratégicas com certas editoras e instituições, a busca pelo domínio de cargos e acumulação de favores ainda antes de os versos conquistarem leitores. Que «a publicidade é o pior inimigo da integridade criativa e da qualidade da circulação da obra literária», já tinha sublinhado Joaquim Manuel Magalhães, acrescentando ainda que «a comunicação, nos dias de hoje, quase mais não é que estratégia, de passagem e colocação de materiais para degradar. [A poesia] sabe quanto a própria arte e a maioria dos seus criadores se submeteu a esse princípio do imediato. Sabe mesmo quanto as agressões no interior do próprio mundo da arte são uma intenção de vendedores e de impositores de material desnecessário». Também António Guerreiro em ‘Poesia, apesar de tudo’ apontou para a sensação de que a poesia se arrasta enquanto «arte anacrónica, num mundo dominado por uma racionalidade económica e por uma cultura do entretenimento a que ela não se adequa, de tal modo que soa a pedantismo dizer “eu sou poeta”».

A propósito desta empreitada reagiu Hugo Miguel Santos, cujo currículo nos diz ter sido livreiro da Térmita, empregado de balcão e [curiosamente] vindimador, de quem guardei memória de o ver ao lado de Manuel da Silva Ramos nessa mesma livraria, enquanto o co-autor de ‘Tuga’ nos contava que em Toulouse, juntamente com Alface, roubavam livros do Proust por serem os mais chorudos e, consequentemente, os mais caros, vendendo-os depois uns metros à frente num alfarrabista, preferindo estourar tudo em Moscatel. Desta vez reencontro Hugo Miguel Santos no texto ‘Poesia, publicidade ou sobrevivência’ que em tudo parece de bom ouvinte mas, ainda assim, um tanto mouco, ficando-se apenas pelo aperitivo e as azeitonas, vendo passar ao longe as saias do problema, sem se dar conta de que, tal como tantos outros, também ele está envolvido. A par do recurso à ironia e assumindo-se incrédulo com «o facto de a lusa pátria continuar a ser uma pungente nação de poetas, como comprova o facto de termos, pelo menos, cem poetas capazes de se deixar inspirar pelos eflúvios criativos da poção vínica», não lhe compreendo o espanto, muito menos que tenha tentado vincar nos poetas uma hierarquia, elegendo diferentes castas para a poesia portuguesa, confundindo aqueles que verdadeiramente o são com os que se sabem unânimes e consagrados — «há na lista apresentada, de facto, três ou quatro poetas que o são de pleno direito, assim como há vários poetas em potência, poetas de fim de semana, poetas de cerimónia, poetas em conserva e, não menos importantes, poetas criados para o efeito». Retomamos a Joaquim Manuel Magalhães — «Há sempre uma hierarquia, a qual é um nunca admitir pôr-se ao serviço de uma qualquer legitimação de um qualquer assenhoramento». 

Mas, se a Hugo Miguel Santos lhe parece óbvia a leitura de que tudo isto não passa da precariedade dos poetas subjugada a um gesto promocional, e logo num país tão hospitaleiro, prostitolhido e contrafeito à medida do estrangeiro, a verdade é que esta iniciativa não está assim tão distante dos esforços antológicos que nos têem chegado e que procuram também eles promover a ideia de que há uma geração lusa de poetas, por vezes reunindo-os não a partir do vinho mas em torno de temas como o campo, o substantivo feminino, o embrutecimento do quotidiano, etc. Ao contrário dessas antologias que secretamente partilham das mesmas ambições comerciais que a campanha que coroa o texto, ainda assim, a vantagem desta é a transparência com que nos diz logo ao que vem — «Visit Portugal alia vinho à poesia para atrair turistas». 

O que HMS não parece chegar a atingir é que a publicidade não se restringe aos meios de produção mediática, a encomendas ou serviços prestados à promoção de produtos específicos, mas a todo o  meio literário como hoje o conhecemos, repisado em gestos que procuram valorizar, iludir, elogiar, programar, convencer, propagandear ou incentivar o outro a tomar uma adesão imediata, incluindo, naturalmente, todos os recursos que prestigiam o poeta ou lhe dão uma liberdade condicionada, tais como as bolsas e os prémios literários financiados pelo Estado, ou homenagens prestadas por Instituições. Uns parágrafos mais tarde, termina o seu texto com a seguinte passagem: «Ou seja, um poema pensado na qualidade de veículo de comunicação publicitária é um mero oxímoro destituído de qualquer potencial lírico ou artístico. Defender a autonomia e a inoperância do discurso poético — ou seja, a sua necessidade — é a única forma de tornar possível a sua sobrevivência, não só enquanto domínio estético mas também político». 

Ora, almejando a coerência e admitindo que é possível obter uma autonomia da poesia, isto significaria não só uma recusa violenta e radical face a todos os discursos promocionais — apresentações, atribuições de prémios, bolsas e afins — como diante de qualquer posição que se revelasse cúmplice dos desejos e das finalidades económicas do Estado, que tão bem se tem aliado aos poetas para encobrir uma ideia de cultura que sabemos esfiapada por todos os lados. Não será por acaso que tantas dessas garrafas, mesmo sendo mais caras do que os livros de poesia, abundem na casa de todos os portugueses e que o bom português esteja mais disposto a gastar em vinho do que em livros de poesia. Mas o poeta-crítico parece acreditar que a poesia está acima do vinho, sem chegar a compreender que o vinho é, ainda assim, bem mais necessário que a poesia da maioria deste poetas.

Que haja cem nomes — como não duzentos? trezentos? — interessados em escrever poemas de cortiça ao serviço do Turismo de Portugal não é novidade. No final de contas seria a poesia a andar a reboque do vinho nacional e não o contrário. Tal como não nos espantaria que Hugo Miguel Santos, poeta-alvarinho, estivesse entre os cem, pois, para além de ter dedicado uma data de versos às bebidas alcoólicas, versos esses que dariam putativos slogans — «outras vítimas passarão, tudo passará, e não haverá sequer este bar onde escrevo a falta que me fazes sob um copo de whiskey»; «De regresso a casa, a loiça suja, o fundo dos copos vazios indicam-nos a única metafísica possível» e outros versos dedicados à grappa napolitana —, nunca ofereceu resistência aos mil euros da Bolsa de Escrita Dramatúrgica (BED) anunciados pela Associação Cultural e Filantrópica, nem aos sete mil e quinhentos euros da Bolsa da DGLAB, atribuídas pelo ministro da Cultura, que, convenhamos, comparados com os duzentos e cinquenta destes cem poetas… Mas se não o convidaram talvez tenha sido porque a promoção já estava feita, ou porque os seus versos nem para isso estavam capazes. 

Ainda há bem pouco tempo, precisamente dois meses antes deste seu texto, estava Hugo Miguel Santos na sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto pronto a ser homenageado por uma Instituição, num ciclo de leituras públicas, gabando-se e convertendo em balofa a sua poesia, numa postura inversa aquela com que sempre comparece nas livrarias, nas leituras leves e descomprometidas da Livraria Térmita ou da Poesia Incompleta. Mas lá está, e a novidade? São estes os poetas dos nossos dias. Se lhes é dada a menor das possibilidades, esvai-se toda a personagem e não tarda em adaptar-se ao cenário mais conveniente: «a poesia para mim continua sempre e por natureza. Ao contrário dos escriturários, os versos não têm um horário fixo (...) note-se a forma quase passiva como me acabei de referir à feitura dos poemas, como se os poemas me tivessem acontecido e não tivesse sido eu a fazê-los», diz-nos o poeta nessa mesma apresentação, acrescentando: «fiz estes versos tal como alguém fez a cadeira onde agora me sento. A diferença entre o carpinteiro e o fazedor de poemas é que o primeiro sabe perfeitamente onde comprou os materiais, em que dia começou e acabou a produção da cadeira, conseguindo até calcular o preço a cobrar pelo objecto. Aliás, o carpinteiro sabe perfeitamente qual é a finalidade do seu trabalho. Já o poeta, quando é sério com os demais, mas principalmente consigo mesmo, vê-se forçado a assumir que não só não conhece a origem dos seus materiais, como não sabe quando começa e termina a produção, vendo-se por isso incapaz de estimar um valor material ou qualquer forma de utilidade para o seu ofício». 

Afinal a questão não é tanto a que preço está a poesia, mas sim, o que é que esta vale para além do preço com que se nos é apresentada. Qual a diferença entre um poeta que não precisa da encomenda e que, no entanto, não tendo nada de suficientemente poético para nos oferecer a não ser as traduções de poetas vizinhos e o seu desinteressante quotidiano, para dar uma de boémio fanfarrão, dedica um horror de versos a bebidas alcoólicas, publica um livro com uma bolsa financiada em sete mil e quinhentos euros pelo Estado, e que assume que «No princípio,/ é-se livre: sem pátria.// No fim, tudo nos habita:// destrói-se/ o futuro// a cada instante», recebendo ainda a recensão de Pedro Mexia, conselheiro do Estado, e os tais «poetas criados para o efeito», que o fazem em troca de duzentos e cinquenta euros?

Temos por hábito discutir os preços dos livros, e HMS sabe-o bem enquanto livreiro. Ouvem-se comentários de que, por exemplo, a editora Barco Bêbado já não compete com as independentes, mas sim quase exclusivamente com edições estrangeiras e com a Imprensa Nacional, mas, ninguém se questiona se algum destes livros vale sete mil e quinhentos euros. Digam lá e sem rodeios, a poesia ainda é capaz de nos oferecer alguma coisa para além do preço com que é comprada? Do preço com que é vendida? Ainda lhe sobra alguma coisa para lá da lógica do mercado? Quando o poeta rèclama «Que não me aceitem,/ não me esperem/ à mesa/ dos contemporâneos,// prefiro morrer medieval», estará a falar de tipos como Fernão Lopes, esses medievais e vais que tais, que passaram de plebeus a cronistas oficiais do reino de Portugal, condecorados — à semelhança de Lidia Jorge — pelos serviços prestados à coroa? Ter-se-à esquecido que entre as cantigas de amor e amigo, também lá constavam as de escárnio e maldizer?

Perante o modo como Hugo Miguel Santos insiste em reduzir os versos a meras descrições dos membros da casa — dos amigos, da mãe, das avós, das amadas, dos sogros —, também ele ensimesmado «a partilhar o seu próprio quotidiano — banal e corriqueiro», confundindo e fabricando blendings de poesia com os reflexos que pontuam as janelas da casa, ou com os da água límpida das fontes italianas que tanto servem aos turistas para levar ao fundo as suas moedas, também os triviais versos nos soam temperados pela mão da cozinheira de que nos falava Borges, para quem certamente este poeta nunca desperdiçaria uma entrevista. E tendo citado a vulso Alfonso Berardinelli, o que nos diria o crítico italiano sobre os versos «Quando era nova, a minha avó rosa acordava cedo para colher flores»? Ter-se-á esquecido dos versos de Lezama Lima, por si traduzidos, «preparam a eternidade/ dos seus passos ou organizam-se,/ inclinando-se sobre um monte de folhas/ que faíscam sobre a jarra/ da avó,/ fogem do cinzeiro»? Ou até mesmo os de um outro poeta, também por ele traduzido, tendo-lhe inspirado à imagem do carpinteiro — «seguiram o seu chamamento/ e com o salário no bolso morreram»? (A. E. Housman) Já dizia O’Neill «destituído de qualquer potencial lírico ou artístico» com as suas tantas contribuições publicitárias, com um poema que se fosse «pensado na qualidade de veículo de comunicação publicitária» não estaríamos nada mal: 

Este país, enquanto se alivia,

manda-nos à mãe, à irmã, à tia,

a nós e à tirania,

sem perder tempo nem caligrafia.

E posto isto, terminadas as garrafas que dão mote às patas dos cento e um dálmatas, e tendo em conta os cuidados de sustentabilidade, onde é que sugerem que enfiemos as rolhas?

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