segunda-feira, 14 set. 2026

O mundo despede-se da inimitável Yayoi Kusama

Desde criança que Yayoi Kusama via o mundo coberto de pontos e padrões. Décadas depois, essas visões tornaram-se a assinatura de uma das artistas japonesas mais reconhecidas do mundo, que dizia querer criar obras capazes de “brilhar” depois da sua morte.

Era conhecida como a artista que via o mundo às bolinhas, uma espécie de marca de água das suas esculturas e instalações. A tendência começara por volta dos 10 anos, quando teve as primeiras alucinações em que via pontos e padrões como uma rede que se sobrepunha à realidade. Transporia essas visões para obras de arte provocatórias e profundamente originais - um universo que ainda recentemente esteve em exibição em Serralves.

«Jamais deixarei de me esforçar para criar obras que brilhem após a minha morte», dizia. «Há noites em que não consigo dormir simplesmente porque o meu coração transborda com a aspiração de criar arte que dure para sempre».

Nascida em 1929 em Matsumoto, uma província rural do Japão, no seio de uma família conservadora que tinha um negócio de cultivo de sementes, Yayoi Kusama cresceu rodeada de flores. Passava grande parte do tempo sozinha no meio das plantações de abóboras e violetas, desenvolvendo um fascínio pela botânica.

A falta de afeto da mãe e a leviandade do pai também deixariam uma forte marca na sua personalidade. Frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Kyoto, por volta dos 20 anos passou por aquilo que descreveu como um «colapso mental» e em 1957, aos 28 anos, decidiu emigrar para Nova Iorque. Integrou as vanguardas nova-iorquinas e trabalhou com figuras como Andy Warhol e Donald Judd.

Em 1966, apresentou Jardim de Narciso na Bienal de Veneza, uma obra composta por 1.500 esferas espelhadas, colocadas no relvado fronteiro à entrada da Bienal, para a qual não havia sido convidada. Haveria de ser a representante do Japão em Veneza em 1993, vinte anos depois do regresso ao seu país natal. Diagnosticada com esquizofrenia e transtorno obsessivo-compulsivo, vivia desde 1977 numa instituição psiquiátrica de Tóquio, onde se internou voluntariamente.