Tenho, na minha sala de estar, à minha frente, livros. Por detrás de mim, livros. As paredes que me ladeiam estão pejadas de livros. Eu gosto de livros. Sempre gostei. Posso dizer alguns títulos que vejo à minha frente no exato momento em que, estando a teclar este texto, viajo um pouco para dentro desses meus livros. Eis alguns: Entre Fialho e Nemésio, de Óscar Lopes (edição da INCM), o Cânone Ocidental, de Harold Bloom (a edição da Círculo de Leitores), um livrinho de Hernâni Cidade, em capa dura, O Conceito de Poesia como Expressão da Cultura; Conversações de Goethe com Eckermann; os três volumes da presença, edição fac-similada da Contexto e outras revistas igualmente em fac-símile (a Portugal Futurista, a Centauro, a Athena e a Exílio, a Eh! Real!, a Árvore – neste caso os números todos, mas originais, encadernados e em dois volumes também brochados, Estrada Larga e ainda a revista Graal, capa dura e os fascículos das Imagens da Poesia Europeia, uma edição Artis, das traduções de David Mourão-Ferreira…). E uma série de fotobiografias (de Sophia e de Cardoso Pires, de Lobo Antunes e de António Nobre, de Camilo Pessanha e de Pessoa, as de Antero e de Ramos Rosa, a de Leonard Cohen e uma edição especialíssima da música/ letras de Van Morrison…). Olho melhor: também ali está a fotobiografia de Pascoaes e a de José Gomes Ferreira igualmente comparece. E a edição em fac-símile da revista O Tempo e o Modo (antologia de textos), e da Raiz e Utopia, igualmente antológica. De Artur Anselmo, a edição que me ofereceu: As Origens da Imprensa em Portugal, belíssimo livro que tem na lombada o brasão, as quinas… E mais vejo três exemplares de um mesmo título: Um Século de Poesia 1888-1988 – A Phala/ Edição Especial (Assírio & Alvim). E o Novo Cancioneiro, o Fausto, de Goethe (tradução de João Barrento) e um livro essencial, Paideia: a formação do homem grego (ed. Martins Fontes) e esse inescapável livro Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, uma maravilha de livro da Quetzal…
Por que razão gostamos de livros? Eu creio que haverá muitíssimas razões. Uma das mais ocultas será aquela que se prende (ninguém abertamente o diz) com um certo estatuto que o livro, a sua posse e leitura, conferem ao seu possuidor e leitor. É natural, faz parte. Já se sabe: num mundo em que o poder passa pela aquisição material, há aqueles para quem o estatuto se conquista e se mostra tendo muitos carros (de coleção, ou último-modelo), e aqueles que ostentam o que querem ostentar porque podem e querem: roupas luxuosas, ou casas com piscina, canetas ou relógios, seja o que for. Nada contra. Há até aqueles que mostram a sua vaidade (coisa humana, sem mais) ostentando o tamanho da sua nódoa, ou nódoas, na camisa que vestem. São os paradoxos que nos definem, humanos, imperfeitos, singulares que somos…
Mas eu cá gosto é de livros! Não tenho carta de condução. Nem carro. A minha questão, porém, mantém-se: para além da legítima posse de livros que são para nós a única riqueza que se fez e tem, que outras razões há para gostarmos deles? Eu avançarei com três razões que me parecem basilares. Primeiro: os livros são companheiros de jornada, fiéis testemunhas do que fomos sendo e fazendo. Eles viram quem esteve na nossa vida (livros dados por amigos, por amores, por mestres, por alunos! Até por vizinhos!). Quem entrou e saiu dela. Quem nela permanece. E por isso, para além de testemunhas (ai se os livros falassem!!), são-nos marcos geodésicos à medida que, consoante este ou aquele livro de poesia, esta ou aquela crónica lida, esta ou aquela peça de teatro, este ou aquele romance, fechamos portas e abrimos outras. Há livros de que gostamos por uma segunda razão: é que sendo testemunhas e companheiros, são símbolos. Dentro deles há imagens, frases, palavras, metáforas, sentenças, que, quando menos esperamos, pontificam o dia, sublinham, ou iluminam uma determinada data, ou transportam-nos – tais frases, imagens e metáforas e palavras – no tempo.
Em 1991, numa feira do livro de então, comprei com o dinheiro que juntei, dois livrinhos que vêm até hoje (estão lá dentro, no escritório!): Os Mestres e as Criaturas Novas, de Jim Morrison, com chancela da Assírio, livro inserto na mítica coleção «Rei Lagarto». E da mesma coleção um outro livro comprado nesse longínquo mundo: a biografia dos mesmos The Doors. Tradução e comentários do Paulo da Costa Domingos, creio… (Estou sentado e não me levantei para ir consultar as datas e quem fez a tradução… Está a saber-me bem esta viagem pela memória desses marcos geodésicos…). Escrevo sobre livros porque, talvez, também eles me escrevam a mim. E a memória de cenas vivas, isso vem e está com e nos livros. Gastão Cruz: «Homenagem a uns livros grandes e pequenos», relembro – é um poema magnífico onde o autor de Repercussão (2004) convoca livros da sua vida (Cantata, Toda a Terra, Coração do Dia, Cenas Vivas…) para, no fundo, aliar à ideia de existência a ideia de livro: tudo, com efeito, nasce para ser livro, escreveu Mallarmé. E não resisto a lembrar David: entre a palavra «liberdade» e a palavra «livro» não há diferença: derivam de «liber», isto é: tanto mais livre quanto mais livros!
Portanto, gostar de livros terá que ver, no limite, com a inevitabilidade da memória: ter livros significa cultivar a memória, viajar no tempo e, recuando ou projetando, saber que esse objeto tem qualquer coisa de imperecível, de permanente. Ter livros – sobretudo quem os tem recheando praticamente todas as paredes da casa – é, de algum modo, combater o tempo que corre. Eternizar o efémero. E aí já estamos muito longe daquela primeira razão, a do estatuto. Uma razão natural, mas muitíssimo insuficiente e venal. Lembrem-se do que aconteceu à famosa Biblioteca Palha… É que sem memória, a liberdade esvai-se e, com ela, a memória dos livros. É neste ponto que estamos em 2026: num país que não tem memória. Nem do que custou a liberdade, nem do facto óbvio que a liberdade e democracia exigem livros, literatura, História, compreensão filosófica do mundo, da vida social… Só assim o que é frágil e efémero se prolonga no tempo. Por que razão o ódio grassa pelos discursos inflamados dos populistas? Por que razão os fascismos regressam? Porque se patrocina uma política de terraplanagem: apaga-se a memória, depois queimam-se livro, e, cedo ou tarde, regressam os autos-de-fé.
Se virmos bem, correlata à questão da eternização dos instantes, posto que podemos sempre reler e ao reler, reviver, e, nesse passo, considerar que fugimos, ou que adiamos para muito longe, o inevitável, ter livros, lê-los – eis a 4ª razão! – implica outra coisa ainda (e essa coisa é que é linda!): implica cuidado. Cuidar dos livros, isto é, lê-los e tê-los: cuidar deles porque são lidos, compreendidos. Cuidar deles porque os guardamos connosco, em estantes que limpamos; livros devidamente acondicionados. E isto eu julgo que alguma coisa terá que ver com o Dia do Livro, o dia 23 de Abril. E vem aí a Feira do Livro! Não deveríamos todos – agentes políticos, educativos, culturais – prezar o livro e exigir uma verdadeira promoção desse artefacto cultural tão belo? Nas escolas, feiras do livro com primeiras edições; nas livrarias, novas comunidades de leitores; nos autocarros a publicidade: «Leia Rodrigue Miguéis! Sabe quem foi?», «Quem escreveu Aparição?», «O Dia Cinzento e outros contos, já leu?»… E as pessoas nas paragens seriam instigadas por estas palavras. E na televisão um programa sedutor, sobre poesia, analisando-se textos, dando a analisar, a ler e a ouvir, poemas. Como seria se?
Num país cada vez mais bruto e brutalizado por uma rede multimediática que considera o livro um objeto não essencial, cada vez mais penso (e sinto) que comprar livros, ir aos alfarrabistas, descobrir edições antigas e – se puder ser – comprá-las, resgatá-las de esquecidas estantes, tudo isso terá uma relação óbvia com a eeucação. Quero dizer: com a escola. «Escola», palavra que significa «suspensão do tempo». É isso! Os livros são uma escola, suspendem o tempo, convidam-nos a mergulharmos fundo nas águas silentes de um outros tempo… Arrastam o passado para cá: presentificam-no. São memória viva. Aulas vivas!
Num país que não lê, e numa época em que o ignorante e bruto, o caceteiro e mal-educado, o homem cheio de ódio e de estupidez impera, regresso aos livros. Estou nos livros e com os livros. Não sei de outra casa mais bela onde viver. Não preciso de carros. Vou com um no bolso por aí, por essa Lisboa, não a de hoje, estragada de tanto provincianismo a fingir modernidade… Páro numa esplanada da Av. Roma, ou até ao Coreto de Carnide, revisito o café Nilo em Benfica, apanho o comboio até Sintra… levo livros. Vou livre. Leve. Vivo num tempo só meu, numa cidade só minha. Se vou ao Cais do Sodré, parece-me que ali está o Cardoso Pires, no bar que frequentava… Se percorro o Bairro Alto, vou ali à Bizantina e revejo Cesário ou O’Neill. E se levássemos os mais jovens – os enredados nas redes sociais – aos lugares do livro?