Nunca escondeu o seu gosto pela música, mas deu agora um novo passo ao gravar um novo álbum que é ‘O Canto dos Poetas’. Quando e como surgiu essa ideia?
Não foi a primeira experiência. Já tinha feito uma gravação com a mesma lógica: registar algumas músicas que fui fazendo ao longo da vida e usá-las, como foi no caso do álbum anterior [’Cantar de Amigos’], em alguns concertos de beneficência que fiz com amigos. O anterior também era um disco com duetos. Tenho esta sorte de conhecer alguns bons cantores profissionais. Sempre disse que, quer na vida profissional, quer nesta, a música é para mim um complemento indispensável. A música acompanhou-me ao longo de toda a minha vida e tenho dito sempre que teria sido um profissional diferente se não fosse a música. Acho que fui melhor profissional com a música do que teria sido sem ela. Mas como disse tive a sorte de conhecer alguns dos melhores músicos que temos e que se dispuseram a fazer duetos, quer no disco anterior, quer neste. Tal como na vida profissional, gosto de trabalhar e de fazer as coisas com pessoas que são melhores do que eu.
Até para aprender coisas novas.
Essa é uma maneira de melhorar, mas sei que nem todos pensam assim. Há pessoas que têm medo de ter muita competência ao pé de si. No meu caso é ao contrário e aprendi muito com estas pessoas que cantam comigo. Nesse aspeto, a experiência de parceria mais longa é com o Vitorino, que é um cantor excecional e com o qual aprendi muito. Também tenho dois professores que me deram aulas de canto, o Manuel Rabelo e o Kiko, que fazem duetos comigo neste álbum, assim como duas vozes femininas excecionais que são a Maria Ana Bobone e a Catarina Orega.
Maria Ana Bobone é uma das vozes que está mais associada ao fado.
Está muito associada ao fado mas já lhe disse, várias vezes, que é uma grande cantora de qualquer género de música. Aliás, neste caso, canta duas canções que não têm nada a ver com o fado e canta-as extraordinariamente bem.
Foi assumido desde o início que o álbum seria com duetos?
Sim, já tinha sido assim no anterior e tinha resultado bem. Tenho aulas de guitarra com o João Santos, o responsável pelos arranjos do disco, e fomos trabalhando as músicas que tinha feito ao longo do tempo. Há uma delas que se chama Uma Canção de Amor, um poema de Armindo Rodrigues que foi feita quando tinha 17 anos, mas foi-me ficando na memória, nem sequer tinha uma gravação desse tempo. Nessa altura, havia algo que neste momento já não existe porque, provavelmente, não é necessário que são as chamadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian que, aos domingos, paravam na praça principal e onde podíamos requisitar livros que levávamos para casa. Ia buscar livros de poemas e fui buscar um do Armindo Rodrigues, aliás tenho mais duas ou três canções com os poemas dele, mas ainda não foram gravadas. Para este álbum selecionámos 16, ainda ficaram algumas de fora.
Poderemos vir a assistir ao Canto dos Poetas volume 2?
Nunca podemos excluir nada, mas não sou um profissional da música e estas coisas têm um tempo de maturação. Este deu-me especial gosto porque as músicas foram trabalhadas ao longo de muito tempo, sem pressão. Quando comecei trabalhá-las com o João Santos não havia o objetivo de as gravar. Mas, ao longo das aulas de guitarra, fomos trabalhando-as, até que um dia dissemos: ‘Já estão tão trabalhadas, mereciam que as gravássemos’. Por outro lado, também temos quatro músicos excecionais que tocam connosco: além de João Santos, António Palma, Sérgio Fiúza e Diogo Melo de Carvalho. Tínhamos feito um concerto de beneficência, em fevereiro do ano passado, na Aula Magna, em benefício do Centro Social e Paroquial do Campo Grande que é uma obra social muito interessante e isso ajudou a alimentar esta ideia porque, além de termos as músicas trabalhadas, harmonizadas e escritas já tínhamos trabalhado com este quarteto de músicos e o disco quase foi uma consequência natural disso.
Então tudo começou há mais de um ano.
Em fevereiro tínhamos tudo preparado, no sentido de termos as canções e os músicos e, em setembro, começámos a fazer a gravação no estúdio. A própria gravação também foi feita sem pressão, ou seja, era para ficar o melhor possível e para ficar pronto quando ficasse. Não havia pressões comerciais, nem de qualquer espécie, entre gravação, misturas e masterização. Demorámos cerca de seis meses.
Está previsto apresentar o álbum ao vivo?
Gostava, estou a tentar fazer um concerto pequeno de apresentação, mas será feito em benefício de alguma instituição que tenha uma obra interessante. Isso já tinha acontecido com o disco anterior, ‘Cantar de Amigos’. Mas é preciso reunir todas estas pessoas que têm as suas vidas profissionais e, depois, vou ter de encontrar um espaço onde uma sessão dessas possa caber.
Um dos duetos é com Vitorino. Poderá ser visto como um dueto improvável tendo em conta as ideias políticas de cada um?
Seria improvável à partida, mas costumo dizer que a música é uma forma muito poderosa de aproximar as pessoas. Nem todos estes meus amigos que gravaram comigo são amigos de longa idade, o Vitorino conheço há cerca de quase 20 anos, mas há outros que são mais recentes. Conheci o Vitorino através da música. Fomos apresentados por outros amigos e, uma vez, desafiou-me com toda a sua generosidade para fazer um concerto de beneficência. Deu-me um gosto extraordinário, porque sempre admirei o Vitorino, é um cantor excecional e costumo dizer que cada concerto que vejo dele, e vi-os quase todos em determinada altura, é uma aula de canto. Depois desse concerto que já foi há muitos anos faço regularmente coisas onde o Vitorino participa, como é o caso desse da Aula Magna. Também na minha terra, em Estarreja, temos feito vários, nomeadamente para a Santa Casa da Misericórdia. Lembro-me que no primeiro que fizemos, precisamente em Estarreja, havia uma televisão para entrevistar o Vitorino e ele disse que estavam à procura de sangue. Apesar de eu e o Vitorino não termos as mesmas ideias em alguns assuntos nunca tivemos até hoje uma discussão ou o quer que seja, respeitamos muito as ideias um do outro e somos sobretudo unidos pela música.
Tem ideia se ele conhecia o seu percurso profissional?
Sabia, quando o conheci estava na CMVM [Comissão Do Mercado de Valores Mobiliários], mas tinha estado no ministério da Economia [no Governo de Durão Barroso], tinha estado com Durão Barroso em Bruxelas durante um ano e, quando nos conhecemos, o Vitorino não tinha dúvidas nenhumas sobre qual era o meu posicionamento – como eu também não tinha dúvidas nenhumas sobre seu. É engraçado, muitas vezes, o Vitorino é visto como uma pessoa muito agressiva – e não é – ou sectária – e de maneira nenhuma o é. E quando falamos sobre coisas que não são música ou quando fazemos concertos de beneficências, conseguimos unir-nos por objetivos que são independentes das posições de partidos.
A música e a arte em si tem esse objetivo de quebrar barreiras.
Essa é uma das forças da música. Mesmo em relação a estes meus amigos, nem sei qual é o posicionamento político de alguns porque, simplesmente, unimo-nos pela música.
Como surgiu o dueto com Maria Ana Bobone?
É engraçado e tem a ver com a minha vida profissional. Há dois casos que conheci quando passei pela administração do Banco Português do Atlântico, em Lisboa, depois de ter saído da primeira experiência de secretário-geral do Tesouro. Era quadro do Banco Português do Atlântico e quando regressei fui nomeado administrador do banco, onde também era meu colega de administração um senhor que, infelizmente, já faleceu, que se chamava João Esteves da Silva, que é pai de João Paulo Esteves da Silva, um músico hoje bem conhecido. Num desses dois episódios, João Esteves da Silva entrou no meu gabinete com um daqueles rádios com leitores de cassetes e pôs-me a tocar um bocadinho de uma música e perguntou-me: ‘Veja se sabe o que isto é?’. Como tinha um sabor mozartiano respondi Mozart, ele sorria, deixou passar a música e, no fim dessa introdução, apareceu o Vitorino a cantar Todos os homens são maricas quando estão com gripe. É uma música do Vitorino, arranjada por João Paulo Esteves da Silva e com o poema de António Lobo Antunes. É do disco ‘Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada’ e é simplesmente o melhor disco de Vitorino, mas também o menos conhecido e o menos vendido. Na altura, não conhecia Vitorino pessoalmente mas conhecia esta faceta de músicas que não são as mais conhecidas – quase toda a gente o conhece pela Menina Estás à Janela que não é não é de perto, nem de longe a melhor música – num disco trabalhado com quarteto de cordas, com uns arranjos excecionais nas fronteiras da música chamada erudita e da música ligeira. O mesmo João Esteves da Silva um dia também chega lá com um disco que se chama ‘Luz de Destino’, onde o filho também participava, cantado por uma jovem chamada Maria Ana Bobone e com uma música que se chama Leve, Breve, Suave, que é um poema de Camões. Já cantava muito bem, mas só vim a conhecer a Mariana pessoalmente a propósito do grupo musical da CMVM, que era ensaiado por Manuel Rebelo que a conhecia e, num desses concertos de beneficência que fizemos, convidou-a para cantar. Tive muita sorte em conhecê-la. Canta extraordinariamente bem, fez um disco que se chama ‘Smooth’, que não é de fado, e no ‘O Canto dos Poetas’ nenhuma das músicas tem a ver com fado. Canta comigo um poema de António Lobo Antunes, que se chama Não Vem ao Caso e que tem um sabor jazzístico. Depois tem uma música que canta sozinha: é um poema de Manuel Alegre sobre o qual fiz uma música que se chama Balada de Lisboa e era para ser em dueto, mas pensei ‘não vou interferir porque está tão bem cantada’.
É fácil conjugar as vozes?
Penso que estes casos até resultaram, mas sou suspeito para estar a fazer esta apreciação. No entanto, acho que a conjugação é boa em qualquer dos duetos que está no disco. No Não Vem ao Caso ficou bem a conjugação com a Maria Ana e é uma música cantada com muita suavidade pelos dois. Na Balada de Lisboa foi muito simples porque cantou sozinha, tal como aconteceu com a Catarina Orega, que é uma pessoa menos conhecida, mas é uma cantora excecional. Nos dois casos temos uma música em que cantamos em dueto e outra em que as deixei sozinhas.
Como foi feita a escolha dos poemas?
Como gosto de fazer músicas, mas não sei fazer poemas sempre tive o hábito de andar à procura de poemas que têm de ter algumas características especiais. Os poemas para poderem casar com músicas têm de ter alguma música nas palavras, daí metade dos poemas do disco serem de apenas de dois poetas. Manuel Alegre tem quatro poemas, aliás, já no anterior disco tinha três. Manuel Alegre tem esta característica porque além de ser, no meu entender, o maior poeta português, as palavras têm música e, muitas vezes, olho para os poemas e eles sugerem música. Também tenho quatro poemas de um outro poeta que, infelizmente, já não está entre nós que é Mário Montenegro. Era um poeta de Paredes de Coura e também o conheci por causa da minha vida profissional. Numa determinada altura, estava na CMVM e a filha de Mário Montenegro – Tânia Montenegro, que é professora da Universidade do Minho – convidou-me para ir fazer uma conferência sobre banca ou sobre o sistema financeiro à Universidade do Minho e, no fim, ofereceu-me um livro de poemas do pai que se chama Os Olhos ao Coração. Até como forma de retribuir a simpatia, cheguei a casa e fui vendo os poemas que tinham algumas dessas características, embora sejam de estilo bastante diferente em relação aos de Manuel Alegre.
Manuel Alegre fez agora anos. Pode ser visto como uma espécie de prenda?
Fez 90 anos e tive o gosto de estar na sua festa de anos.
E já ouviu o álbum?
Suponho que sim. Já lhe tinha enviado as ligações do Spotify, mas nos anos dei-lhe o CD físico e fiz questão de lhe fazer uma dedicatória que é o meu agradecimento por ter permitido que gravasse no total sete poemas, a contar com o [álbum] ‘Cantar de Amigos’. Se há alguma coisa que neste disco funciona bem são os poemas que são bons e a maioria deles foram publicados. Há um poema de Nicolau Santos que está publicado num livro juntamente com um dos meus sucessores do ministério da Economia, António Costa e Silva. Há um outro de Olga de Sousa que não é uma profissional da poesia e que conheci circunstancialmente. Enviou-me um poema que no álbum se chama Saudade de Amar. E há ainda uma curiosidade: a última canção do disco, cantada só pela Catarina Orega, que se chama Sad Song, é um poema em inglês. Tenho uma filha única, que mora nos Estados Unidos, que tem dois filhos. A minha neta, que vem cá nas férias, sobretudo no verão – e como a minha casa está cheia de instrumentos musicais – pegou num microfone e começou a cantar uma cantilena com música e com frases que percebi que eram dedicadas a uma das bisavós – ela ainda conheceu duas – que tinha falecido e que era uma canção triste, sem ela saber gravei e recompôs.
A sua neta ficou orgulhosa do resultado?
Ainda deu uns retoques depois de recompor a letra. Na altura, tinha 9 anos, agora acabou de fazer 12.
Está previsto ou gostaria de fazer um dueto, por exemplo, com um economista de renome ou um político conhecido?
Faço duetos e tenho gosto em fazê-los com quem gosta de música e que também queira cantar comigo. Além de gostar de música gosto da música de conjunto, ou seja, não gosto de estar sozinho, daí cultivar muito os duetos. Faria um dueto com um político de qualquer área desde que gostasse. Há duas condições que ponho sempre: que as pessoas me ensinem alguma coisa em termos musicais e que além de serem bons artistas sejam boas pessoas. Costumo dizer que há bons artistas que não são boas pessoas e que há boas pessoas que não são bons artistas, mas há quem consiga combinar as duas coisas. Estas pessoas com quem tenho feito música reúnem as duas características: são boas pessoas e são bons artistas. Há artistas que acho que são bons mas, por vezes, têm características pessoais que não aprecio e não sou capaz de gostar mesmo artisticamente porque acho que não são boas pessoas. Reconheço que é um problema meu.
Ao lançar este tipo de projetos acredita que pode acabar com a ideia de que uma pessoa com uma carreira profissional conhecida e séria não pode depois fazer outro tipo de atividades, como é o caso da música?
Nunca tive esse complexo, fiz muitos destes concertos de beneficência quando estava na CMVM e isso nunca me retirou nenhuma autoridade, nem respeito. O mesmo aconteceu quando passei para outro tipo de funções, aliás, nem são incompatíveis, até pelo contrário.
Como disse no início até lhe permitiu ser é um profissional diferente.
Completamente, o facto de as pessoas terem uma vida profissional e que no meu caso foi sempre intensa e foi sempre em lugares difíceis – talvez a fase da CMVM tenha sido aquela onde a música acabou por também estar mais presente, mas como se recorda na CMVM passei por todos os casos difíceis que nos podemos lembrar no sistema financeiro português – até seria absurdo se retirasse qualquer autoridade.
A minha questão era mais no sentido de ficarem surpreendidos?
Nunca escondi o meu gosto pela música e, talvez por isso, tenha sido sempre visto como natural, mas acho que toda a gente devia ter uma atividade complementar à vida profissional. A música para mim foi sempre um complemento indispensável. Chegar a casa ao fim de um dia em que tive de tratar de tantos problemas, em alguns casos, muito difíceis e poder dedicar uma hora ou duas a estudar ou a fazer música é muito bom. Sempre tive este gosto pela música, o meu pai tinha um conjunto musical e os ensaios eram em nossa casa.
A música não minimiza os assuntos, mas ajudou a tirar pressão?
Muitas vezes ajuda a vê-los de outra maneira. Não se atenuam, mas se tiver uma outra atividade que liberte o espírito, que o obrigue a ter um concentração diferente... e isso aconteceu-me, muitas vezes, ajudou-me a desligar dos problemas para no dia seguinte vê-los de outra forma.
No Governo era mais difícil dedicar-se à música do que quando estava na CMVM?
Era mais difícil por causa do tempo, mas mesmo no Governo nunca deixei de ter a possibilidade de à noite desligar-me das coisas. Estar ligado a um problema 24 horas por dia não ajuda a resolvê-lo.
Estudou acordeão e fez parte de dois conjuntos de música ligeira.
O meu pai tinha um conjunto em Estarreja e, a partir dos 8 ou 9 anos, comecei, primeiro, a tocar bateria, mas depois o meu pai mandou-me estudar música e acordeão. Mais tarde tive o meu próprio conjunto com pessoas da minha idade, entre os 14 e a ida para a faculdade, que se chamava Os Lordes. Tudo isto ajuda à formação das pessoas. No caso do meu pai tocava com músicos muito mais velhos, já eram adultos, enquanto eu ainda era criança ou pré-adolescente, mas eram pessoas que faziam aquilo a sério, sabiam música e para começar a tocar com eles tinha de me aperfeiçoar. No grupo Os Lordes já era com rapazes da minha idade, mas eu era o único que era estudante. Os outros, todos eles adolescentes, já tinham a sua profissão, trabalhavam e isso foi uma experiência de vida muito interessante para mim porque aprendi muito com eles. Dois deles trabalhavam numa fábrica, um numa oficina de automóveis e outro julgo que também era operário fabril. Isso foi uma lição muito interessante para mim porque via que já tinham de ganhar dinheiro para ajudar as famílias e apesar disso dedicavam parte do seu tempo à música. Ainda hoje ainda sou muito amigo deles, foi uma ligação que ficou para o resto da vida e também me ajudou a ser uma pessoa diferente.
Há uns anos era natural os jovens terem a sua banda. Acha que foi uma tendência que se foi perdendo?
Foi-se perdendo mas, naquela altura, era muito normal e até havia rivalidades regionais entre grupos. Nós éramos de Estarreja, mas havia um grupo de Ovar e disputávamos os bailes porque, na altura, não se faziam concertos. Íamos tocar para as pessoas dançarem. Tudo isso foi uma escola de vida muito interessante. Não tínhamos facilidades, nenhum de nós tinha posses até para ter grandes instrumentos e, por isso, tínhamos de gerir tudo.
E ensaiavam aonde?
No caso do conjunto do meu pai era em nossa casa. Primeiro na sala de jantar depois passou a ser na garagem. No caso dos Lordes era na casa de um deles, por acaso era uma casa pequenina, mas os pais permitiam que uma ou duas vezes por semana ocupássemos uma parte da sala para ensaiar. Lembro-me que íamos para muitos sítios fazer os tais bailes numa carrinha muito velha que volta e meia nos deixava a pé, a sorte é que um dos membros do conjunto era mecânico e lá conseguia normalmente resolver o problema.
Nessa altura, cantava ou tocava?
No conjunto do meu pai toquei acordeão e cantava algumas coisas antes de mudar a voz. Curiosamente, o meu pai era uma pessoa extraordinariamente aberta, quando cheguei ao grupo só tocavam coisas portuguesas, mas como eu estava no colégio em Estarreja e aprendi francês convenci-os que podiam tocar outras músicas. Lembro-me que gostava muito de Salvatore Adamo e cantei quase todo o seu reportório no grupo. Depois aprendi inglês e passei a cantar músicas dos Bee Gees.
O seu pai dava abertura para outros estilos?
Exatamente, porque o meu pai gostava simplesmente de música. Lembro-me que o que dizia é que tinha de ter melodia. Nos Lordes tocava guitarra, ainda sem a ter estudado. Só mais tarde é que fui para o Conservatório estudar guitarra a sério.
Achou que era importante, a partir de uma determinada altura, ter formação na área musical?
Quando acabei o curso de Economia, como tinha alguma flexibilidade nos primeiros anos, inscrevi-me no Conservatório em regime livre para estudar guitarra clássica que, na altura, ainda não era um instrumento de Conservatório. No entanto, havia um professor que queria mostrar que a guitarra podia ser um instrumento de Conservatório e hoje já é. Antes tinha aprendido acordeão e ainda fiz um ano de composição no Conservatório. Entretanto, entrei para o Banco Português do Atlântico e tinha duas atividades profissionais: durante o dia trabalhava no banco no gabinete de estudos, à noite dava aulas na faculdade e desapareceu o tempo para estudar guitarra. Foi uma pena ter deixado o Conservatório porque poderia ter-me aperfeiçoado bastante mais. Mais tarde como gostava de cantar – nunca tinha estudado também canto a sério – fui estudar canto, primeiro com Helena Vieira, depois com o Kiko e, mais tarde, com Manuel Rebelo.
Nunca pensou deixar a carreira de economia e dedicar-se à música?
Já me têm posto essa questão: ‘e se voltasse atrás?’ Não, o equilíbrio que encontrei foi muito bom, a única coisa que teria feito diferente teria sido estudar mais música, mesmo com algum sacrifício e talvez não tivesse parado o Conservatório. De qualquer maneira, ainda hoje tenho aulas de guitarra e continuo a tentar fazer minimamente bem aquilo que se faz. As pessoas quando têm os chamados hobbies ou outras atividades devem tentar fazê-las minimamente bem.
Intimida mais dar entrevistas ou estar no palco a cantar ou a tocar?
Gosto muito mais de estar no palco a cantar. Quando estou num palco para uma conferência digo sempre que gostava de estar ali, mas para cantar. Não é que me intimide falar sobre questões profissionais, mas dá-me muito mais gosto estar com estes meus amigos a cantar e a tocar. Um amigo meu há uns anos disse-me: ‘Carlos Tavares é uma pessoa completamente diferente no palco’ e acredito que sim porque sinto-me à vontade e não tenho aquele nervoso, se calhar inconscientemente – se calhar devia ter – até porque normalmente quando faço estes concertos toco com músicos e com parceiros de canto que são tão bons que o resultado final tem uma probabilidade alta de não sair mal.
Há um estilo musical que se identifica mais ou gosta de todos?
Costumo dizer que gosto de toda a música com alguns limites e tenho de dizer que não gosto da música chamada contemporânea ou vanguarda. Se calhar herdei do meu pai aquela regra que a música tem de ter melodia e ritmo. Estas são as definições da música e se falta alguma destes componentes... Agora gosto muito da música portuguesa boa.
Foi sempre uma opção cantar em português?
Gosto muito da música portuguesa e acho que a música portuguesa boa é muito pouco conhecida. Neste álbum não participa João Gil mas, normalmente, é um companheiro nos espetáculos ao vivo e há músicas portuguesas que se foram perdendo e algumas não são quase conhecidas. Houve uma altura, quando estava na CMVM com Manuel Rebelo, em que fizemos uma série de espetáculos que se chamavam Canções Perdidas, onde fomos buscar músicas portuguesas muito bem feitas e que praticamente não são ouvidas. Carlos do Carmo tinha uma expressão que achava muito agradável, que dizia que a rádio não teve tempo para passar esta música e tenho pena que a música portuguesa boa não seja mais divulgada. Ainda hoje a rádio passa muita música não portuguesa que não é boa e deixa de lado muita música portuguesa boa.
Entre tocar acordeão, guitarra e cantar, o que considera que é mais difícil?
Todos os instrumentos para serem bem tocados têm as suas dificuldades e temos de ter consciência que a aprendizagem da música não é simples e tem algum caráter penoso, no sentido em que exige muita dedicação e muito sacrifício. Mas também costumo dizer que é uma lição de vida porque com o aperfeiçoamento começam a sair sons bons, bonitos. E as coisas boas exigem normalmente sacrifícios iniciais, mas se houver trabalho e dedicação, os resultados acabam por aparecer. Tenho pena que me tenha dispersado por vários instrumentos e acabei por não fazer nenhum muito bem como gostaria. Cheguei a tocar acordeão bem, o meu pai, na altura, incentivou-me muito, mas depois o acordeão passou de moda e passei a tocar a guitarra elétrica que estava mais na moda no grupo com os meus amigos. Hoje praticamente já não sei tocar acordeão, mais tarde, quando fui para o Conservatório cheguei a tocar guitarra clássica, não bem porque não tive anos suficientes para isso. Depois, como gostava de cantar, também resolvi estudar canto. Tenho a vantagem de ter passado por vários instrumentos e aprendido várias coisas, mas com essa dispersão a desvantagem é que não tenho uma que faça muito bem.