quinta-feira, 14 mai. 2026

Nova série traz de volta o primeiro serial killer português. Mas afinal, quem foi Diogo Alves?

A história de Diogo Alves volta a despertar curiosidade. Mais de um século depois, entre mito e realidade, o homem associado ao Aqueduto das Águas Livres permanece como uma das figuras mais marcantes do crime em Portugal.
Nova série traz de volta o primeiro serial killer português. Mas afinal, quem foi Diogo Alves?

Mais de 180 anos depois, o nome de Diogo Alves continua presente no imaginário lisboeta. Entre o registo histórico e a construção do mito, a figura associada ao Aqueduto das Águas Livres regressa agora à atualidade através da ficção televisiva, com a nova série da TVI e Prime Video, denominada Lisbon Noir, que recupera este universo criminal para construir uma narrativa passada na Lisboa contemporânea.

A série inspira-se nos crimes associados a Diogo Alves, que ao longo do tempo, se foram afastando dos factos estritamente documentados e aproximando-se da lenda urbana.

A verdade é que o interesse em torno do seu nome nunca desapareceu por completo, e desde sempre que a imprensa, a tradição oral e, mais tarde, o cinema desempenharam um papel decisivo na consolidação da imagem do “assassino do aqueduto”. Um dos exemplos mais antigos dessa transformação é o filme Os Crimes de Diogo Alves (1911), uma das primeiras produções do cinema português.

Mas afinal, quem foi Diogo Alves?

Antes de se tornar uma das figuras mais sombrias do imaginário português, Diogo Alves foi apenas mais um emigrante anónimo em Lisboa.

Nascido no norte de Espanha, na Galiza, em 1810, numa região marcada pela pobreza e pela emigração, fez o que muitos galegos da época fizeram: atravessou a fronteira rumo a Lisboa à procura de melhores condições de vida. Começou por trabalhar como criado em casas abastadas, integrando-se nos estratos mais baixos de uma cidade profundamente desigual.

Durante esse período, não há registos de comportamentos particularmente fora do normal. Era, ao que tudo indica, mais um homem entre muitos outros que tentavam sobreviver numa cidade difícil. Uma realidade confirmada por investigações históricas como as reunidas por Miguel Carvalho Abrantes, na obra Os Segredos de Diogo Alves.

Da vida comum à violência

A transição de Diogo Alves para o mundo do crime não está totalmente documentada, mas enquadra-se no contexto de uma Lisboa marcada pela instabilidade social. A primeira metade do século XIX foi um período de pobreza acentuada, fraca presença policial e crescimento urbano desordenado.

Numa cidade onde a desigualdade era evidente e as oportunidades escassas, muitos indivíduos acabavam por circular entre o trabalho precário e atividades ilegais. Pequenos furtos, burlas e assaltos faziam parte de uma criminalidade difusa, difícil de controlar pelas autoridades da época.

É neste cenário que o percurso de Alves começa a afastar-se da normalidade. Embora os detalhes concretos sejam escassos, várias reconstruções histórias divulgadas pela RTP apontam para um envolvimento progressivo em práticas criminosas, inicialmente de menor escala, mas que terão evoluído para atos de maior violência.

Mais do que um caso isolado, o seu percurso reflete também as fragilidades de uma cidade onde o controlo social era limitado e onde a criminalidade crescia longe do olhar das autoridades.

Ainda assim, o que o distingue não é apenas essa trajetória comum no contexto da época, mas a forma como o seu nome passou a ser associado a um padrão de violência repetido, capaz de criar medo coletivo e marcar profundamente o imaginário de uma cidade.

O aqueduto e o nascimento do terror

É neste ponto que o nome de Alves se cruza com aquele que viria a tornar-se o elemento mais marcante da sua história: o Aqueduto das Águas Livres.

Construído no século XVIII, o aqueduto era uma estrutura monumental, mas também um local relativamente isolado e de difícil vigilância, utilizado como via pedonal. A sua altura superior a 60 metros fazia do monumento um espaço tão impressionante quanto perigoso.

Segundo relatos divulgados ao longo tempo, nomeadamente em conteúdos históricos da RTP, terá sido neste cenário que Diogo Alves encontrou o local perfeito para atuar.

O padrão descrito ao longo das décadas repete-se em diferentes versões: abordagens rápidas a pessoas que circulavam sozinhas pelo aqueduto, assaltos violentos, e quedas forçadas do topo da estrutura.

Mais do que episódios isolados, foi a repetição dessa narrativa que ajudou a consolidar um modus operandi associado ao seu nome.

Corpos no vale e uma cidade em sobressalto

Com o passar do tempo, começaram a surgir relatos de corpos encontrados na zona do vale de Alcântara, sob o aqueduto. Num período em que a investigação criminal era ainda rudimentar, muitas destas mortes não tinham explicação imediata e terão sido interpretadas, em alguns casos, como possíveis suicídios.

A ausência de respostas alimentou o medo. E o medo, rapidamente, transformou-se em explicação.

A investigação tornou-se mais profunda: não era normal o crescimento exponencial de casos sem explicação. Foi aí que o nome de Diogo Alves começou a estar associado a estes episódios.

Segundo a NIT, algumas narrativas populares chegaram a apontar para mais de 70 vítimas mortais, embora esses número nunca tenham sido confirmados de forma rigorosa por registos judiciais consistentes.

Ainda assim, o impacto desta narrativa foi suficiente para construir um fenómeno de pânico coletivo.

O momento da captura

Apesar da forte ligação ao Aqueduto das Águas livres, a figura que mais tarde seria descrita como o primeiro serial killer português não foi detida neste contexto.

Diogo Alves, fazia parte de uma quadrilha e em 1839 foi detido na sequência de um assalto violento a uma residência, que resultou na morte de várias pessoas. Este episódio foi determinante no processo judicial que conduziu à sua condenação.

O julgamento centrou-se sobretudo nos crimes comprovados, já que os episódios associados ao aqueduto faziam parte da tradição oral.

Dois anos depois, em 1841, terá sido enforcado em Lisboa, protagonizando um dos últimos casos de execução por enforcamento em Portugal, antes da abolição da pena de morte.

A cabeça que permaneceu

Após a execução, o caso ganhou um desfecho invulgar.

A cabeça de Diogo Alves terá sido removida e preservada para estudo científico no contexto da frenologia, uma prática do século XIX que procurava estabelecer ligações entre características físicas do crânio e comportamentos humanos.

Nos dias de hoje, encontra-se conservada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, sendo frequentemente referida em reportagens e conteúdos culturais.

Este elemento contribuiu para prolongar o interesse público no caso, reforçando a dimensão simbólica que a sua figura viria a adquirir.

Entre os factos e a construção popular

Com o passar das décadas, a história de Diogo Alves foi-se afastando dos registos estritamente históricos e entrou no campo da construção popular.

A repetição de relatos, muitas vezes sem confirmação documental, contribuiu para consolidar uma narrativa que ultrapassou os factos comprovados. O número de vítimas foi sendo ampliado nas versões transmitidas ao longo do tempo, o método tornou-se mais definido e o Aqueduto das Águas Livres passou a assumir um papel central e simbólico nesta história.

Um caso que atravessa gerações

A história de Diogo Alves não se limita ao registo criminal nem à memória popular, transformou-se numa referência que atravessa gerações.

Entre o que é possível confirmar e aquilo que foi sendo acrescentado, permanece uma figura que continua a suscitar curiosidade, dúvidas e novas leituras.

O Aqueduto das Águas Livres mantém-se como o principal símbolo dessa narrativa, não apenas pela sua importância arquitetónica, mas pelo peso das histórias que ali foram construídas.

Mais do que um episódio isolado da história criminal portuguesa, é também a história de uma cidade e da forma como o medo, repetido e reinterpretado ao longo do tempo, pode transformar um homem num símbolo que ultrapassa a própria realidade.

[texto editado por Joana Ludovice de Andrade]