O que torna este museu extraordinário a nível mundial, é o facto de ser, ao mesmo tempo, uma coleção de obras primas e uma obra prima da arquitetura», afirma aos jornalistas Xavier Solomon, à entrada do museu Calouste Gulbenkian, que abriu portas no sábado, dia 18 de julho, depois de quase um ano e meio fechado para obras. «Quero lembrar toda a gente do quão maravilhoso é este museu. Primeiro, em termos de coleção... É uma coleção única em Portugal. Não existe mais nenhuma outra que se entenda desde o Egito, até ao impressionismo, até ao Islão, China e Japão. É realmente um conjunto fantástico de objetos. O senhor Gulbenkian costumava dizer que, para ele, interessava o melhor e apenas o melhor. E a verdade é que cada objeto desta coleção é uma obra de arte», lembra o diretor do museu. Essencialmente, a intervenção geral das obras no museu foi realizada com o propósito de «dotar as suas galerias de melhores condições técnicas para exibir a sua coleção», que volta a poder ser vista através da exposição Gulbenkian: 70 anos em cartaz.
Inspirar no passado para escrever o futuro
Segundo a arquiteta Teresa Nunes da Ponte, o projeto tratou essencialmente de retomar as rédeas e os princípios do projeto original que remonta a 1969. «Este conjunto de edifícios foi um projeto de Ruy Jervis d’Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa, com os arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles», lembra, acrescentando que «o conjunto foi classificado como monumento nacional em 2010». «Trata-se de um ícone da arquitetura moderna do país (...) Este projeto original é um exemplo muito feliz de uma fusão entre arquitetura e museografia», reforça a responsável que trabalhou em conjunto com o arquiteto francês Frédéric Ladonne. «É importante referir que muitos outros museus ao redor do mundo foram construídos ao mesmo tempo. No entanto, nenhum deles tem esta relação entre arte e natureza», completou Xavier Salomon.
A intervenção de renovação e requalificação do museu - reconfigurado com novas vitrinas, melhor iluminação, climatização otimizada e um restauro profundo das peças - teve como objetivo criar uma «harmonização do espaço». Inspirada no «conceito expositivo e no vocabulário arquitetónico», a renovação recuperou materiais como «a seda, a alcatifa, a madeira, o bronze, o vidro e o betão». «É como visitar um velho amigo, mas vê-lo numa perspetiva diferente», garante o diretor do museu, salientando que «não se trata de um restauro filológico do que existia antes», mas «conservar o espírito de um edifício e respeitá-lo é fundamental». A museografia foi revisitada através de um estudo minucioso das plantas de arquivo e fotografias da época.
«Além da estrutura, é também muito importante neste conjunto de edifícios a questão dos materiais. Não existem, por exemplo, paredes pintadas. Só existem materiais. Materiais que constroem o edifício, e materiais de revestimento que são sempre materiais nobres. Temos sempre o betão, o vidro e o bronze e nos revestimentos, a pedra, madeira, pele e, para além disso, o museu revestiu muitas paredes de seda», detalha Teresa Nunes da Ponte. De acordo com a mesma, Xavier Salomon sugeriu repor a alcatifa na parte da Arte Europeia, retirada no início dos anos 2000: «É uma enorme mais-valia para o museu. As pessoas vão discordar de mim, mas não faz mal», referiu o diretor. Para a arquiteta, a alcatifa devolve ao espaço a serenidade e calma que o museu tem. Na parte da Ásia todo o pavimento é em pedra, e na arte europeia passa-se para alcatifa, para as sedas e para as madeiras. Ou seja, «para os materiais mais confortáveis».
Recuperou-se ainda o diálogo entre as galerias e os jardins envolventes, permitindo «maior presença de luz natural, devidamente controlada, através da introdução de novas grelhas filtrantes que suavizam a luz e restabelecem a qualidade sensorial e a atmosfera contemplativa». «Em colaboração com os arquitetos paisagistas, consolidou-se a abertura das galerias para os pátios interiores e para a vegetação envolvente, determinante para o controlo da luz natural e o sombreamento dos espaços expositivos. A equipa estudou cuidadosamente a implantação das árvores e o seu comportamento ao longo das diferentes estações do ano, de modo a assegurar uma filtragem subtil da luz solar e a restabelecer o delicado equilíbrio entre arquitetura e paisagem», explica detalhadamente a Fundação num texto enviado à nossa redação.
As novidades
Segundo o diretor, o museu foi originalmente dividido em três secções que mantêm a sua forma: Antiguidade, Ásia e Europa. Uma divisão geográfica e, mais ou menos, cronológica. «O senhor Gulbenkian não colecionava antiguidades como faria um arqueólogo, mas o seu interesse residia em objetos bonitos», ressalta, enquanto percorre as salas dedicadas à arte antiga. «As coisas precisavam de ser bonitas e colecionava-as pelo seu valor estético e histórico», afirma. O percurso expositivo começa no Antigo Egito; segue-se a galeria dedicada à Mesopotâmia, Grécia e Roma, que estabelece a ponte entre Oriente e Ocidente; continua pelo Mundo Islâmico e pela Arménie; prossegue pelo Oriente, com as galerias da China e do Japão; na arte europeia, o visitante percorre um trajeto cronológico que vai da Idade Média ao século XX onde estão representados alguns dos nomes maiores da história da arte, como Rogier van der Weyden, Rubens, Rembrandt, Turner, Monet, Renoir, Degas e Rodin, e termina na renovada Sala René Lalique, dedicada à maior coleção de obras do joalheiro e vidreiro francês reunida fora de França.
Uma das novidades prende-se com uma pequena expansão do espaço, com «a adição de um novo armário numismático». «Há uma nova sala que mostra a nossa coleção de moedas e medalhas antigas da Grécia e de Roma e que tem o seu próprio espaço e tem um aspeto absolutamente fantástico», avança Xavier Salomon. A escala desta sala permite uma experiência mais intimista de contemplação destas peças, que são apresentadas em maior número e com uma organização temática. Entre as peças estará em destaque a moeda que inspirou o logótipo da Fundação Calouste Gulbenkian - a quadriga -, apresentada numa vitrina individual.
Outra mudança prende-se com a localização do imponente baixo-relevo assírio, anteriormente situado entre a Galeria da Mesopotâmia, Grécia e Roma e a Galeria da Arménia e do Mundo Islâmico, que passou a ocupar uma posição mais central na secção dedicada à Mesopotâmia. «A peça foi alvo de um conjunto de intervenções de conservação que permitiu remover camadas de cera descoloridas, restituindo a leitura da superfície original em alabastro», adianta a Fundação, acrescentando que é também de assinalar o conjunto de obras que regressa das reservas às galerias do Museu, como as estampas japonesas, as caixas de ouro, as medalhas, algumas esculturas ou o para-sol veneziano, que volta a ser apresentado numa vitrina própria, devidamente contextualizada no percurso expositivo.
O responsável, que está no cargo há menos de um ano, admitiu que o maior desafio foi concluir a intervenção dentro do prazo previsto para coincidir com o 70.º aniversário da Fundação Gulbenkian.