Quem me dera ser tão corajoso quanto eles», diz Pavel Talankin, o protagonista desta história, referindo-se aos russos que protestaram contra a invasão da Ucrânia nos primeiros tempos de guerra. «Mas não sou», acredita. A verdade é que é! E Mr. Nobody Against Putin é a prova disso. O documentário, que filmou em 2022, estreou em janeiro do ano passado no Festival de Cinema de Sundance, onde conseguiu o Prémio Especial do Júri. Atualmente está nomeado para Melhor Documentário na 98.ª edição dos Óscares, que acontecerá no dia 15 de março, no Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia.
Pasha, como é chamado pelos seus alunos, é professor numa pequena escola primária em Karabash, uma cidade mineradora nos Montes Urais, conhecida pelos altos níveis de resíduos tóxicos. Adora a sua terra natal. A imagem das chaminés e dos prédios soviéticos inspira-o. Os seus alunos ainda mais. Neste estabelecimento de ensino, o seu gabinete serve de lugar seguro para vários adolescentes. Sobretudo para aqueles que se querem expressar livremente numa altura em que a escola se transforma e começa a implementar a nova «política de educação patriótica» de Vladimir Putin. Ao mesmo tempo que faz o seu trabalho como docente, Pavel é convidado a registar essa nova realidade - a escola é obrigada a produzir propaganda e enviar vídeos para um portal do governo, e o professor é escolhido para essa função, já que é também o videógrafo do espaço. Rapidamente transforma esse trabalho numa missão secreta e inimaginavelmente arriscada para documentar a guerra de informação em território nacional com a ajuda de David Borenstein, um documentarista da Dinamarca que já tinha experiência com filmes independentes. Segundo várias fontes, Talankin encontrou Borenstein através de um contacto inicial inseguro (inclusive por Instagram). Borenstein, ao perceber o valor histórico e político do material, propôs trabalhar com ele para transformar essas filmagens num documentário completo. «Eu era a única pessoa que realmente sabia o que é que ele estava a fazer. Era preciso manter segredo de todos», disse David numa conversa com o Tedhope.
Moldar uma geração
Pavel filma o novo currículo nacionalista, as mentiras sobre a necessidade da invasão contadas como factos, os exercícios militares forçados e os juramentos de lealdade impostos a crianças que parecem quase apáticas. O objetivo é claro: moldar uma geração de forma a que ela cresça numa visão ultranacionalista e que tenha vontade de se juntar ao exército para lutar contra a Ucrânia. «É crucial eliminar opiniões divergentes para que não haja divisão política no nosso país. Amam a vossa pátria por obrigação. Tal como amam a vossa mãe. Se nasceram neste país e não acreditam que estamos a fazer a coisa certa, vão-se embora. Vão para o país que acham melhor! Se vivem no nosso país e não o amam, então são parasitas. Vão-se embora!», diz a dada altura Abdulmanov, um professor de história assumidamente apoiante de Vladimir Putin e admirador de Josef Estaline.
Ser o videógrafo da escola confere uma espécie de camuflagem institucional a Pavel. A sua câmara não é percebida como uma ameaça. No entanto, com o passar do tempo, filmar torna-se um ato cada vez mais perigoso e o realizador tem noção disso. Recorde-se que publicações como o The Moscow Times ou o Meduza foram imediatamente banidos após a guerra começar. Ou seja, Pasha sentiu que estava num lugar privilegiado para contar esta história. «Percebi isso na primeira aula que me pediram para filmar, por determinação do Ministério da Educação. Eu estava a filmar e parecia que até a minha câmara estava a suar. Era inimaginável o que estava a acontecer. Percebi que não tinha o direito moral de simplesmente apagar esse material. E agora temos um documentário indicado ao Óscar», disse ao Tedhope. «Soube logo que isto ia ter de ser preservado como um registo histórico. Percebi logo que era material que não se podia perder», disse o docente numa outra entrevista ao Observer. «Qualquer jornalista que tentasse filmar o que estava a acontecer nas escolas era detido imediatamente. Fui colocado perante uma situação única. O Ministério da Educação da Rússia enviava imediatamente ordens para que certas aulas fossem filmadas, eu ia lá e filmava», revelou, acrescentando que «as escolas são, muitas vezes, os primeiros locais onde se espalha a propaganda». «O fascismo pode enraizar-se das formas mais fáceis - começando nas escolas, com as crianças», reforçou Pasha. No documentário vemos que muitos dos exercícios de propaganda - como marchar com a bandeira russa ou lançar granadas -, são supervisionados por veteranos de guerra e até mesmo por mercenários do Grupo Wagner.
Segundo o professor, muitos dos seus colegas não concordam com esta nova realidade. Porém, «estão encurralados». «As pessoas estudam para serem professores e sonham em educar as crianças, depois veem-se forçadas a espalhar propaganda», lamentou, explicando ainda que em Karabash, as oportunidades de emprego não são muitas e, por isso, especialmente para professores, «não há grande opção senão seguir a doutrina».
Sobre a forma como os alunos recebem as informações, de acordo com Pavel, para as crianças mais novas, «tudo o que os professores dizem é verdade e o impacto a longo prazo da propaganda militar vai ser sentido». Já os mais velhos muitas vezes são mais céticos, «ainda que a maioria acabe por ceder à propaganda».
Pavel Talankin acabou por fugir do país em junho de 2024 sem contar a ninguém, nem mesmo à mãe. Consigo levou sete discos rígidos de filmagens que resultaram neste documentário. «Quero que tanta gente quanto possível veja isto na Rússia. Não apenas em Karabash, mas em todo o lado. Para o próprio bem deles», disse à mesma publicação.