segunda-feira, 09 fev. 2026

Morreu João Canijo, uma das vozes mais intensas do cinema português

O realizador tinha 68 anos e foi encontrado morto em casa. Deixa uma obra marcada pelo rigor, pela crueza emocional e por retratos profundos das relações familiares e do feminino.
Morreu João Canijo, uma das vozes mais intensas do cinema português

João Canijo, um dos cineastas mais marcantes do cinema português contemporâneo, morreu esta quinta-feira, aos 68 anos. O realizador foi encontrado sem vida na sua residência, numa morte que apanhou de surpresa o meio cultural e cinematográfico nacional.

Autor de uma filmografia reconhecida pelo olhar exigente, intenso e profundamente humano, Canijo construiu ao longo de décadas uma obra singular, centrada nas tensões familiares, nas desigualdades sociais e, em particular, em personagens femininas de grande densidade emocional. O seu cinema, cru e rigoroso, tornou-se uma referência incontornável em Portugal e além-fronteiras.

À data da morte, João Canijo encontrava-se em plena atividade criativa. Estava a ultimar o filme Encenação e tinha terminado, há cerca de duas semanas, a rodagem de uma peça de teatro diretamente ligada a esse projeto, confirmando uma carreira que nunca abrandou nem se acomodou.

Nascido no Porto, em 1957, João Manuel Altavilla Canijo passou pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde frequentou o curso de História no final da década de 1970. Pouco depois, descobriu o cinema e iniciou o percurso profissional como assistente de realização de nomes maiores do cinema europeu, como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter — uma formação que marcaria de forma decisiva a sua linguagem cinematográfica.

Só após a confirmação da morte, o Governo reagiu através da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, que lamentou “com profundo pesar” o desaparecimento do realizador. Em comunicado, o Executivo descreveu Canijo como uma “figura maior do cinema português contemporâneo”, sublinhando uma obra que conciliou “rigor formal” com “intensidade emocional”.

A ministra destacou ainda a sensibilidade do cineasta para captar dinâmicas familiares complexas e universos femininos, considerando a sua morte “uma perda irreparável para a cultura portuguesa” e lembrando o legado “intenso, realista e profundamente humanista” que deixa ao país.

Com a morte de João Canijo, o cinema português perde uma das suas vozes mais exigentes, incómodas e necessárias — um autor que nunca fugiu ao conflito nem ao retrato cru da condição humana.