domingo, 18 jan. 2026

Morreu a idosa que repintou o Ecce Homo

O Ecce Homo, depois do restauro falhado, tornou-se um ícone pop e um local de peregrinação
Morreu a idosa que repintou o Ecce Homo

Com uns quantos golpes de pincel mal dados, uma idosa de Borja, no Nordeste de Espanha, tornou-se uma celebridade imediata e transformou uma igreja praticamente desconhecida da sua localidade num lugar de peregrinação. A história remonta a agosto de 2012, quando Cecilia Giménez, então com 81 anos, tomou em mãos o restauro de um fresco do início do século XX que começava a dar sinais de deteriorar-se por causa da humidade. Mas se o fresco original – um Ecce Homo pintado em 1930 por García Martínez, professor das Belas Artes de Saragoça – não era propriamente uma obra-prima, o resultado do restauro foi um perfeito desastre. Apesar do «carinho» com que investiu o seu trabalho, Dona Cecilia transformou a imagem do Cristo coroado de espinhos num borrão que tinha muito poucas semelhanças com o original.

As fotos da pintura começaram a circular na internet, tornando-se objeto de escárnio e paródia. O Ecce Homo (Eis o homem) foi rebatizado pelos internautas Ecce Mono (Eis o Macaco), com um jornalista da BBC a descrevê-lo como «um esboço [...] de um macaco muito peludo numa túnica do tamanho errado». Para que a imagem deixasse de ser alvo de troça, o pároco local chegou a pedir à administração local que a tapasse,  mas viu o pedido ser-lhe negado.

O facto é que o Santuário da Misericórdia de Borja, até aí completamente ignorado, se tornou um local de culto, com pessoas de todo o mundo a quererem ver ao vivo o infame restauro, que se tornou um ícone. As lojas de souvenirs aproveitaram a onda e começaram a vender porta-chaves, t-shirts e ímanes com a imagem esborratada.

Entretanto, Dona Cecilia entrou em depressão. Com uma vida marcada pela tragédia ­– um filho com uma lesão cerebral, em cadeira de rodas, outro morto aos 20 anos de uma doença rara – soçobrou ao vendaval de críticas. Mas acabaria por afirmar que, se o tempo voltasse atrás, teria na mesma feito o restauro. Faleceu na segunda-feira, 29 de dezembro, numa casa de repouso estatal em Borja, aos 94 anos.