quarta-feira, 09 set. 2026

Mona Lisa. Além de uma pintura, uma obsessão

Na manhã de 22 de agosto de 1911, um pintor que por ali andava deu pela falta de um quadro no Salon Carré do Louvre. A Mona Lisa esteve desaparecida durante dois anos. Quando regressou a Paris, tinha o estatuto indisputado de pintura mais famosa do mundo. Curiosamente, o homem responsável pelo roubo foi declarado como ‘imbecil’
Mona Lisa. Além de uma pintura, uma obsessão

A esmagadora maioria dos 30 mil visitantes que entram todos os dias no Museu do Louvre tem um objetivo muito preciso: ver a todo o custo o quadro mais famoso do mundo, nem que seja preciso dar umas cotoveladas para abrir caminho no meio da multidão. Na imponente Salle des États, isolada por uma caixa de vidro à prova de bala e vigiada em permanência, a Mona Lisa, ou La Gioconda, como também é conhecida, é o alvo de todas as atenções. A tal ponto que muitos dos turistas que ali entram nem reparam na tela que ocupa a parede oposta – As Bodas de Caná, de Paolo Veronese, a maior pintura do museu. Com perto de 10 metros de comprimento por sete de altura, não é fácil que este colosso passe despercebido. E, no entanto, muitos saem do museu sem sequer saber da sua existência.

Nem sempre foi assim. Em finais do século XVIII, quando o Louvre abriu ao público, a tela de Veronese era mais popular do que a Mona Lisa. E em meados do século XIX a pintura de Leonardo partilhava a parede com dezenas de outras obras-primas, encaixadas que nem peças de um puzzle, com as molduras quase a roçarem uma nas outras. Naquele tempo, as obras mais populares do Louvre eram esculturas da Antiguidade, como a Vénus de Milo e a Vitória de Samotrácia, ou expoentes do romantismo como A Jangada de Medusa, de Géricault, e A Liberdade Guiando o Povo, do seu herdeiro Eugène Delacroix.

Como conquistou então o pequeno retrato feito por Leonardo da Vinci o estatuto que tem hoje?

A edição do Guia Baedeker de Paris e Arredores de 1911, uma espécie de ‘bíblia’ para os turistas de então, descreve: «É durante a segunda estadia em Florença (1503) que [Leonardo] pinta a Gioconda, o retrato de mulher mais célebre do mundo, cujo sorriso de esfinge – interpretado de formas tão diversas por artistas e poetas, possui, ainda que o quadro tenha escurecido notoriamente, um encanto realmente cativante».

«O retrato de mulher mais célebre do mundo». A Mona Lisa não era portanto uma desconhecida, nem nada que se parecesse. Mas nesse ano algo de sensacional estava para acontecer e ela ia passar para outro patamar de celebridade.

O vigilante e o copista

Na manhã de 22 de agosto, uma terça-feira, um vigilante de seu nome Poupardin começa a sua ronda pelo museu, que vai reabrir depois do habitual encerramento de segunda-feira.

Ao chegar ao Salon Carré, Poupardin repara no espaço vazio entre a Alegoria do Marquês Alfonso d’Avalos, de Giorgione, e O casamento místico de Santa Catarina, de Correggio. Sabe exatamente qual é o quadro em falta, mas não liga muito e segue em frente.

Poupardin não é o único a notar a ausência. À mesma hora anda por ali Louis Béraud, um pintor que ganha a vida a fazer pinturas dos interiores do museu que vende aos turistas endinheirados. Desde 1793, quando o antigo palácio real foi convertido em Museu Central das Artes da República, qualquer um, profissional, amador ou estudante de Belas-Artes, pode trazer os seus materiais e copiar à vontade uma ou mais pinturas, para aprender com os mestres. A prática é tão encorajada que estes copistas podem até chegar antes de o museu abrir as portas ao público.

Béraud prepara-se para instalar o seu cavalete no Salon Carré, o Salão Quadrado, quando vê, no lugar da Mona Lisa, apenas um retângulo de parede com quatro pregos espetados. Como pode fazer a sua pintura nestas condições? Vai à procura do vigilante e pergunta-lhe onde está o quadro.

Poupardin não está nada preocupado porque evidentemente, como tantas vezes acontece, a pintura foi levada para o estúdio Braun & Cie, os fotógrafos oficiais do museu, e será trazida de volta ainda antes de chegarem os primeiros visitantes. Só que, como ela nunca mais aparece, Poupardin começa a ficar inquieto e manda os seus homens ao estúdio trazê-la de volta para a galeria. Estes regressam com a notícia de que o quadro também não está lá.

É dado o alerta

Por volta das 14h, é chamado de urgência ao Louvre o prefeito da Polícia, o eficiente Louis Lepine, a quem chamam «o homem baixinho com um grande bastão», que de imediato convoca 60 inspetores e um detetive para investigarem o desaparecimento. É dada ordem de evacuação e encerramento do museu – justificação: um problema nas canalizações que exige uma intervenção rápida.

As buscas dão resultados. Junto ao plinto da Vitória de Samotrácia aparecem a moldura e o vidro que protegia a pintura. Recentemente, a direção do museu havia decidido que as pinturas estariam mais resguardadas – do pó e da humidade, mas também do vandalismo – se tivessem um vidro à frente. Em 1909 uma empresa fora contratada para executar o trabalho. A medida gerara protestos, constando que um poeta descontente chegara mesmo a rapar o cabelo em pleno museu, usando o reflexo de um dos quadros como espelho.

Logo no dia seguinte, 23 de Agosto, a imprensa noticia o roubo com estrondo. O Le Matin desafia videntes, cartomantes e médiuns a localizarem a pintura, prometendo uma recompensa de cinco mil francos. O Le Petit Parisien declara em grandes parangonas: «O célebre quadro de Leonardo da Vinci La “Gioconda” desapareceu do museu do Louvre». E questiona: «Como? Desde quando? Não sabemos. Resta-nos a moldura».

De facto, o vidro e a moldura constituem as únicas provas disponíveis. Talvez uma análise das impressões digitais venha a revelar a identidade do criminoso.

As autoridades iniciam uma vaga de interrogatórios. O poeta Guillaume Apollinaire é um dos nomes na lista de suspeitos, por causa de um mal-entendido que envolveu o roubo de estatuetas ibéricas do Louvre por parte do seu secretário, e chega mesmo a passar uns dias na prisão. O caso também envolve Picasso, que chegou a ter as ditas estatuetas em sua posse, antes de as devolver para evitar chatices ainda maiores.

Falsas pistas surgem de todos os lados. A mais persistente fala de um homem visto no comboio rumo a Bordéus na posse de uma caixa suspeita.

Quando o museu reabre, uma semana depois do roubo, o retângulo vazio no Salon Carré transforma-se em local de romaria. As pessoas fazem fila para ir ver o espaço onde antes se encontrava a Gioconda. Está dado o tiro de partida para um fenómeno de multidões que se mantém até hoje.

Depois, o lugar é ocupado por outro retrato famoso, o de Baldassare Castiglione pintado por Rafael. Mas o escândalo é indisfarçável e o diretor do Louvre acaba despedido.

Entretanto, a esperança de reaver a pintura vai esmorecendo. Os meses passam e a Mona Lisa continua sem dar sinal de vida. No seu número de 31 de dezembro, o New York Times dizia: «O ano encerra com muitos mistérios por resolver». Obviamente, o da Mona Lisa é o maior deles.

‘Um sorriso mais divino que humano’

Muitas pessoas hoje perguntam-se o que tem de tão especial este retrato de 77 por 53 cms. Vimo-lo tantas vezes – em livros, t-shirts, anúncios, postais, cópias vendidas na feira – que temos dificuldade em resgatá-lo do domínio da banalidade. Mas as suas qualidades excecionais não passaram despercebidas a Giorgio Vasari, ele próprio pintor e arquiteto, que em 1550 publicou as famosas Vidas dos Mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos:

«Leonardo encarregou-se de pintar, para Francesco del Giocondo, o retrato de Mona Lisa, sua mulher. […] Quem tiver desejado ver quão aproximadamente pode a arte imitar a natureza terá sido capaz de o compreender ao ver este retrato. […] Os olhos tinham aquele brilho e aquela luminosidade aquosa que se veem ao vivo, e à volta deles tons rosados perlíferos, a par das pestanas, que não podem ser representadas sem a maior das subtilezas. […] O nariz, com as suas belas narinas, rosadas e delicadas, parecia estar vivo. A boca, com a sua abertura, e os seus cantos unidos pelo vermelho dos lábios à carnação da face, pareciam ser, na verdade, não a representação das cores, mas carne. Ao olhar-se com intensidade para o pescoço, ver-se-ia o batimento do pulso».

Para Vasari, não se tratava, portanto, de uma mera pintura, mas de algo a que o artista tinha conseguido transmitir o dom da vida. A proeza envolveu todos os recursos técnicos e intelectuais ao alcance do mestre. Walter Isaacson, na sua biografia de Leonardo (Porto Editora), dedica várias páginas a explicar os meandros do processo:

«A misteriosa atração de Mona Lisa começa com a preparação do painel de madeira que Leonardo lhe destinara. Numa prancha de textura fina cortada do centro de um tronco de álamo, maior do que o habitual para um retrato doméstico, aplicou um primário de alvaiade, em vez da habitual mistura de gesso, giz e pigmento branco. Leonardo sabia que esse primário refletiria melhor a luz que atravessava as finas camadas de velatura translúcida, aumentando, desse modo, a impressão de profundidade, luminosidade e volume.

Como resultado, a luz penetra nas camadas e parte dela alcança o primário branco, para ser refletida de volta através das camadas. Os nossos olhos observam uma interação entre os reflexos de luz que ressaltam das cores à superfície e aqueles que ressaltam das camadas mais profundas. Isto cria subtilezas de modelação variáveis e elusivas. Os contornos das maçãs do rosto e do sorriso são criados com suaves transições de tonalidade que parecem veladas pelas camadas de velatura, e que variam à medida que a luz na sala e o ângulo do nosso olhar se alteram. A pintura ganha vida.»

Mas ainda estamos só no início do processo. Em seguida, Isaacson dedica-se aos efeitos de luz, à representação dos véus e tecidos, aos «artifícios ópticos da paisagem». Até nos conduzir ao âmago da questão:

«Vista de frente, a figura olha diretamente para nós, se nos movermos de um lado para o outro, o olhar mantém-se direto. Ainda que Leonardo não tenha sido o primeiro a criar a ilusão de que os olhos de um retrato nos seguem, o efeito é-lhe tão associado que é por vezes chamado de “efeito Mona Lisa”.

Dezenas de especialistas estudaram Mona Lisa para determinarem as causas científicas deste efeito. Uma das causas é que, no mundo real tridimensional, as sombras e a luz sobre um rosto alteram-se à medida que se altera o ponto de vista, mas num retrato bidimensional isso não se verifica. Temos, por consequência, a perceção de que os olhos nos olham diretamente, mesmo que não estejamos diretamente de frente para a pintura.

A mestria de Leonardo com sombras e iluminação contribuiu para tornar o fenómeno mais pronunciado em Mona Lisa.

E, por fim, há o elemento mais místico e cativante de Mona Lisa: o sorriso. Nesta obra de Leonardo», escreveu Vasari, ‘havia um sorriso tão agradável que era mais divino do que humano.’ Vasari contou mesmo uma história sobre o modo como Leonardo manteve a verdadeira Lisa a sorrir durante as sessões de retrato: ‘Enquanto pintava o seu retrato, contratou pessoas para tocarem e cantarem para ela, e bobos para a manterem alegre, evitando aquela melancolia que os pintores transmitem amiúde nos retratos.’

Há um certo mistério naquele sorriso. Ao olharmos, estremece. Em que stará Lisa a pensar? Os nossos olhos movem-se um pouco, e o seu sorriso parece alterar-se. O mistério adensa-se. Desviamos o olhar, e o sorriso perdura nas nossas mentes, tal como perdura na mente coletiva da humanidade. Nunca numa pintura estiveram o movimento e a emoção, as duas pedras-de-toque da arte de Leonardo, tão interligados.»

O que diz a ciência

Por último, o contributo decisivo da ciência:

«Quando se olha diretamente para um objeto, este parece mais nítido. Quando se olha para esse mesmo objeto de modo periférico, entrevendo-o pelo canto do olho, aquele fica um pouco desfocado, como se estivesse mais distante.

Com este conhecimento, Leonardo foi capaz de criar um sorriso incomparável, e também elusivo se estivermos demasiado concentrados a olhar para ele. As linhas muito finas no canto da boca de Lisa revelam uma pequena declinação, como a boca no topo daquela página de anatomia. Ao olhar-se diretamente para a boca, a retina capta estes pequenos pormenores [sic] e delineações, o que faz com que pareça não estar a sorrir. Mas ao desviar-se um pouco o olhar da boca, para se olhar para os olhos ou para as faces ou para outra parte da pintura, apenas se verá a boca perifericamente. Fica, então, um pouco desfocada. […] O resultado é um sorriso que cintila mais luminoso quanto menos o buscarmos.

Os cientistas descobriram recentemente uma forma técnica para descrever tudo isso», continua Isaacson. «‘Um sorriso claro é muito mais evidente nas imagens de baixa frequência espacial [mais desfocadas] do que nas imagens de alta frequência espacial’, de acordo com Margaret Livingstone, neurocientista da faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. ‘Assim, ao olhar-se para a pintura focando o fundo ou as mãos de Lisa, a perceção da boca é dominada por baixas frequências espaciais, pelo que parecerá muito mais alegre do que quando se olha diretamente para ela.’»

Kenneth Clark, o notável historiador da arte e diretor da National Gallery, foi mais conciso, ainda que não menos entusiástico:

«Como devia ser requintadamente bela a Mona Lisa quando Vasari a viu! […] Continua a ser belíssima ainda hoje, sabe Deus, se a pudermos ver em condições. Qualquer pessoa que tenha tido o privilégio de ver a Mona Lisa retirada do poço profundo onde está pendurada e trazida para a luz, recordará a maravilhosa transformação que ocorre. A presença que surge diante de nós, muito maior e mais majestosa do que imaginávamos, já não está mergulhada em águas profundas. Sob a luz do sol, algo da vitalidade que Vasari admirava regressa-lhe, tingindo-lhe as faces e os lábios, e podemos compreender por que ele a considerava, antes de mais, como uma obra-prima do naturalismo. […] A superfície tem a delicadeza de um ovo acabado de pôr, e ainda assim está viva.»

E concluía: «A familiaridade cegou-nos para a beleza da Mona Lisa».

Com Leonardo até à morte

Afinal, quem era esta mulher que continua a sorrir para nós e a quem quase poderíamos medir o pulso?

Nascida em 1479 no seio de uma família ilustre mas em declínio, Lisa Gherardini casara-se aos 15 anos com Francesco del Giocondo, um abastado comerciante de tecidos bastante mais velho que possuía um filho da primeira mulher, entretanto falecida. Lisa teria 24 anos, e dois filhos, na altura em que posou para Leonardo.

O artista representou-a «sem as joias ou o vestuário elegante indicadores de um estatuto aristocrático», nota Isaacson. Tudo na sua pose e atitude aponta antes para uma graciosidade discreta. Para a posteridade ficou o epíteto ‘La Gioconda’ – por ser casada com Francesco del Giocondo, mas também por causa do enigmático sorriso (‘gioconda’ poderia ser traduzido por ‘alegre’ ou ‘risonha’).

Ao que parece, em 1506 o artista ainda não tinha dado o retrato por terminado, o que só viria a acontecer cerca de dez anos depois, pelo que nunca chegou a entregá-lo aos clientes nem, obviamente, a receber a soma combinada. Levou-o consigo para França e manteve-o junto de si até ao final. Acabou por ser comprado pelo Rei Francisco I, que o protegeu e o acompanhou inclusive no seu leito de morte, «a erguer e segurar-lhe a cabeça, de modo a assisti-lo e a honrá-lo até ao fim, na esperança de aliviar-lhe os sofrimentos», como escreveu Vasari.

‘O homem é doido’

O facto de a Mona Lisa se encontrar em França teve um peso direto no seu desaparecimento em 1911. Pelo menos foi o que se descobriu quando voltou a haver notícias da pintura, em novembro de 1913. O alerta foi dado pelo antiquário Alfredo Geri, de Florença, depois de receber uma carta, assinada por um tal ‘Leonardo Vincenzo’, que dizia ter a Mona Lisa na sua posse e propunha a sua venda por 500.000 liras, sob a condição de a pintura ficar em Itália.

Geri achou tratar-se de uma brincadeira. «O homem é doido», terá comentado. «Se fosse a verdadeira Mona Lisa não ia arriscar-se a ser preso escrevendo uma carta destas a um desconhecido». Depois, para jogar pelo seguro, Geri fingiu-se interessado e, já acompanhado pelo diretor dos Uffizi, acedeu a ir verificar a autenticidade da obra.

Dois anos depois do roubo, a 12 de dezembro, os Carabinieri encontraram a Mona Lisa no quarto de hotel onde ‘Leonardo Vincenzo’ estava instalado, numa caixa de madeira com fundo falso, debaixo da cama.

O verdadeiro nome do homem era Vincenzo Peruggia. Pintor e carpinteiro, tinha trabalhado no Museu do Louvre justamente a colocar os vidros protetores nas obras-primas. No dia 21 de agosto de 1911, entrara no Museu do Louvre com o seu uniforme de operário. Embora não trabalhasse no Louvre há coisa de oito meses, conhecia os cantos à casa e não levantou suspeitas. Dirigiu-se ao Salon Carré, retirou a Mona Lisa da parede, separou-a da moldura numa zona mais escondida e tomou o caminho mais curto, saindo pelo pátio Visconti com ela debaixo do braço, provavelmente embrulhada no seu avental de operário.

Durante dois anos teve o sorriso da Mona Lisa só para si, um poderoso consolo para quem vivia num apartamento pouco mais que miserável. Mas agora que a necessidade apertava, via na venda da pintura a sua tábua de salvação. Pouco antes de ser apanhado, escrevia aos pais: «A fortuna com que sonho há tanto tempo está prestes a tornar-se realidade».

Por essas e por outras demonstrações de ingenuidade, Peruggia, que se apresentara em tribunal como «um pobre diabo», foi declarado como «frenasténico», uma espécie de eufemismo, ou termo técnico, para débil mental. O diagnóstico fora confirmado pelo psiquiatra de serviço com recurso a uma ratoeira: «Se houver dois pássaros numa árvore e um caçador der um tiro num deles, quantos ficam na árvore?». Peruggia respondeu sem hesitar: «Um!».

«Só um imbecil diria um», concluiria o médico. «Qualquer pessoa com um mínimo de raciocínio sabe que, se for dado um tiro, os pássaros fogem da árvore».

Outra prova da inépcia de Peruggia foi o facto de declarar que queria restituir a Mona Lisa a Itália depois de ela ter sido roubada por Napoleão. Este tê-la-ia sem dúvida rapinado… não fosse dar-se o caso de a pintura estar em território francês desde o início do século XVI.

Sentenciado a 18 meses de prisão, a pena de Peruggia acabou por ser revista, passando para apenas sete meses. Saiu como um herói, acarinhado pelo grande público, mesmo a tempo de participar na Grande Guerra de 14-18, onde foi capturado pelos austríacos, passando dois anos como prisioneiro de guerra – aproximadamente o mesmo tempo que ele tivera a Mona Lisa em cativeiro. Morreria de ataque cardíaco no dia do seu 44.º aniversário, 8 de outubro de 1925.

Alvo para todos os gostos

Depois de estar exposta alguns dias na Galeria dos Ofícios, em Florença, a Mona Lisa regressou a Paris com toda a pompa e circunstância. E com o estatuto de pintura mais célebre do mundo.

Isso teve o condão de excitar a fantasia dos loucos, como comprova a seguinte lista, com dados fornecidos pela wikipedia:

- Em dezembro de 1956, um boliviano atirou uma pedra contra a pintura, partindo o vidro protetor e causando um pequeno dano.

- Em abril de 1974, estando o quadro exposto no Museu Nacional de Tóquio, uma mulher atirou-lhe com tinta vermelha – já com um vidro à prova de bala, a Mona Lisa ficou incólume.

- Em agosto de 2009, uma mulher russa a quem havia sido negada a cidadania francesa atirou-lhe com uma caneca comprada na loja do museu, que se estilhaçou com o impacto.

- Em maio de 2022, um ativista do clima disfarçado com uma cadeira de rodas acertou-lhe com bolo.

- Em janeiro de 2024, duas ativistas lançaram-lhe sopa para cima. Mais uma vez não houve estragos a registar, uma brigada de limpeza bastou para resolver o assunto.

Num ensaio de 1963, Salvador Dalí questionava-se sobre o porquê de a Mona Lisa constituir um alvo tão apetecível, distinguindo dois tipos de agressões: as intelectuais e as primárias. Na primeira categoria, inscreviam-se brincadeiras como a de Marcel Duchamp, que em 1919 tinha desenhado bigodes em cima de uma fotografia da obra, colocando em baixo as letras: ‘L.H.O.O.Q.’, que se leem como ‘Elle a chaud au cul’ (que por sua vez tem uma dupla leitura, literal ou ‘apimentada’).

Já os ataques acima enumerados, à pedrada, com tinta ou comida, encaixavam na segunda categoria. Elaborando sobre o complexo de Édipo, Dalí afirmava:

«O ataque é a única resposta possível a um sorriso deste tipo — ou então pode roubar-se o quadro para o esconder piedosamente do escândalo e da vergonha de ser exposto num local público».

E concluía: «Quem conseguir oferecer explicações diferentes para os ataques sofridos pela Mona Lisa que me atire a primeira pedra; pegarei nela e com ela continuarei a minha tarefa de construir a Verdade».

De uma forma ou de outra, objeto de ódios e paixões violentas, a Mona Lisa monopoliza desde 1911 todas as atenções. Depois da renovação do Louvre, cuja conclusão está prevista para 2031, vai até ter direito a uma sala própria.

Até lá, a esmagadora maioria dos visitantes continuará a nem se dar conta de que na mesma sala que a Mona Lisa está exposta a maior e outrora mais famosa pintura do museu, As Bodas de Caná, de Veronese. Essa sim, roubada por Napoleão e retalhada em pedaços, para poder ser levada como troféu e exibida na capital francesa.