quarta-feira, 13 mai. 2026

Michael Tilson Thomas: Democratizar a música clássica

O maestro, pianista e compositor norte-americano morreu aos 81 anos, após uma luta contra um cancro cerebral e foi uma das figuras mais influentes da música clássica contemporânea. Defensor de uma música acessível a todos, destacou-se pela capacidade de combinar rigor técnico com uma abordagem comunicativa.
Michael Tilson Thomas: Democratizar a música clássica

Defendia que a música clássica «deve ter vários elementos intrigantes, sedutores e instigantes que nós percebamos logo à primeira». «Mas, pela sua própria natureza, guarda muitos outros segredos e perspetivas, que só começamos a perceber que estão ali depois de ouvi-la várias vezes», disse numa entrevista à Associated Press, em 2004. Para Michael Tilson Thomas, a música clássica não pertencia a uma elite. «É para todos, e precisa de ser explicada e partilhada», dizia várias vezes. E de facto o seu estilo sempre combinou um grande rigor técnico com uma abordagem comunicativa e acessível. Queria aproximar o público do estilo, e conseguiu. Foi uma das figuras mais influentes da música clássica contemporânea. Considerado um visionário e criativo, durante a sua carreira, recebeu 39 indicações ao Grammy, arrecadando 12. Dirigiu orquestras em Buffalo, Miami, Londres e São Francisco. Michael Tilson Thomas morreu na quarta-feira, dia 22 de abril, aos 81 anos, na sua casa, em São Francisco, rodeado pela família.

Segundo o comunicado divulgado no seu site oficial, em 2021, o artista foi diagnosticado com glioblastoma multiforme, um tipo agressivo de cancro cerebral. «Mesmo durante a doença, continuou a fazer música - um testemunho do seu legado como artista e comunicador», lê-se no mesmo texto. Pouco tempo depois do diagnóstico, o maestro foi submetido a uma cirurgia e reduziu as suas aparições à frente das orquestras. Em setembro de 2024, abriu a temporada da Filarmónica de Nova Iorque, concerto precedido por aparições à frente de orquestras europeias. Meses depois, em fevereiro de 2025, anunciou o retorno do tumor.

Um talento distinto

Michael Tilson Thomas nasceu a 21 de dezembro de 1944, em Los Angeles, nos EUA, e cresceu no seio de uma família ligada às artes (foi a terceira geração a seguir a carreira artística). Os seus avós, Boris e Bessie Thomashefsky, foram os membros fundadores do Teatro Iídiche na América; o seu pai, Ted Thomas, foi produtor da Mercury Theatre Company em Nova Iorque, antes de se mudar para Los Angeles, onde trabalhou no cinema e na televisão; e a sua mãe, Roberta Thomas, foi chefe de pesquisa da Columbia Pictures.

Começou a tocar piano muito novo e acabou por frequentar a Universidade do Sul da Califórnia, onde se apaixonou também pela composição. Aos 19 anos, foi nomeado Diretor Musical da Orquestra de Estreia da Fundação de Jovens Músicos. Durante esse mesmo período, foi pianista e regente em masterclasses de Gregor Piatigorsky e Jascha Heifetz, e trabalhou com nomes como Stravinsky, Boulez, Stockhausen e Copland nas estreias das suas obras nos Concertos de Segunda-feira à Noite de Los Angeles.

Um ano depois de se ter formado - em 1968 -, participou no Festival de Tanglewood, onde conheceu o maestro Leonard Bernstein, que se tornaria o seu mentor: «Foi o melhor professor e desmistificador da música clássica para o público em geral desde Leonard Bernstein», defende o crítico Anthony Tommasini.

Foi codiretor musical e, posteriormente, diretor musical do Festival de Ojai, na Califórnia, no final da década de 60 e início da década de 70. Em 1966, foi assistente no Festival de Bayreuth, na Alemanha, ganhou o Prémio Koussevitzky no Tanglewood Music Center em 1968, e tornou-se maestro assistente da Orquestra Sinfónica de Boston um ano depois. Nesse mesmo ano, fez a sua estreia em Nova Iorque com a BSO e ganhou reconhecimento internacional após substituir o diretor musical William Steinberg a meio de um concerto. Posteriormente, foi nomeado maestro convidado principal da Orquestra Sinfónica de Boston, cargo que ocupou até 1974. De 1971 a 1979, foi diretor musical da Filarmónica de Buffalo e maestro convidado principal da Filarmónica de Los Angeles de 1981 a 1985. Em 1987, cofundou e tornou-se diretor artístico da New World Symphony. No mesmo ano, foi nomeado maestro principal da Orquestra Sinfónica de Londres, função que desempenhou até 1995, quando se tornou diretor musical da Orquestra Sinfónica de São Francisco.

As suas composições incluem Grace (1988), Four Preludes on Playthings of the Wind (2015-16) e Meditations on Rilke (2019). Ao longo da carreira, gravou 120 discos, com os quais ganhou doze vezes o prémio Grammy. Mesmo assim, de acordo com a AP, sempre se mostrou um grande advogado da música feita ao vivo. «O que espero é que as pessoas amem a música, tenham a mente aberta e se empolguem com a ideia de ouvir algo novo - seja do passado ou do presente - e se entusiasmem ao descobrir algo novo numa obra que já lhes é familiar. Um dos maiores perigos que enfrentamos neste século tem sido a maldição e a bênção das gravações e de todos os outros sistemas de retenção de informações nas artes. Isso faz-nos esquecer que a música é uma arte performativa e foi concebida para ser diferente a cada apresentação. Cada interpretação tem uma perspectiva ligeiramente diferente», disse, numa entrevista no início dos anos 90.

Além de maestro, pianista e compositor, Tilson Thomas destacou-se também como comunicador. Criou a série televisiva Keeping Score, dedicada a explicar obras e compositores ao grande público, ajudando a democratizar a música clássica.