Com um conjunto já significativo de publicações, Michael Marder, professor universitário no país vizinho, chega agora à edição portuguesa com Filosofia no Lixo. Uma fenomenologia da devastação (VS Editor). Nota-se, ao longo destas cerca de duzentas páginas, a influência desta respeitável tradição filosófica, a fenomenologia, que começa com Edmund Husserl e o filósofo nazi Martin Heidegger, mas que nos últimos decénios tem vindo a ficar enclausurada no universo académico (sai deste a espaços, muitas vezes através de certos bastardos que dialogam com ela). É uma obra de fôlego, que atravessa diversas disciplinas e que está, digamos assim, no ‘ar dos tempos’. Tenta, mais do que transformar-se numa sintomatologia ou nessa estação meteorológica do fim do mundo de que falava Karl Kraus, criar um ponto focal que consiga unificar um conjunto de investigações díspares, que vão dos estudos recentes em ecologia e do inevitável Antropoceno, passando pelo impacto do digital, da aceleração do tempo, até ao trabalho de um autor como Jussi Parikka, que intui que as ruínas do futuro serão a imensidão de telemóveis, computadores e outros dispositivos tecnológicos que, para serem produzidos, transformam o planeta num amontoado de detritos (a paisagem é, doravante, histórico-natural, com ambos os domínios a contactarem através da catástrofe).
Se o início do século XX viu nascer, com Benjamin, Heidegger, Musil, Proust, Wittgenstein ou Kafka, uma cartografia das stimmungen (termo de difícil tradução), das ‘emoções’ onde é o próprio mundo que se abre, e que surgiram como forma de lidar com uma ruptura imposta pela Grande Guerra, a tarefa que nos coube em sorte parece ser mais módica – nem que seja porque a magnitude avassaladora dos problemas é de tal ordem que dificilmente é pensável um sujeito que consiga organizar a experiência e sobreviver ao choque permanente. Já não podendo cartografar esse conjunto de ‘emoções’ originárias que traduziam a clivagem inaugurada pelo século (talvez tenham desaparecido no entulho que esse mesmo século foi criando), resta somente conseguir criar linhas provisórias de investigação, organizações parcelares do caos – e é nesse sentido que podemos encarar o livro de Marder.
O planeta inóspito
Da contaminação dos oceanos e do ar (cada vez mais subsumidos ao plástico, a única forma de eternidade que conseguimos criar), passando pela luta de classes a nível global criada pelas alterações climáticas ou pelas redes sociais e meios internéticos, vivemos hoje, dirá Michael Marder, numa queda permanente no lixo e na lixeira em que o planeta se transformou, que já não é uma casa, mas um local inóspito que já não nos quer e que queremos à pressa abandonar. A quantidade de projectos para abandonar o planeta, a ânsia na descoberta de exoplanetas, por mais distantes que se encontrem, talvez se explique tendo como pano de fundo um cenário que parece saído de um romance de Philip K. Dick: a terra é, doravante, uma lixeira inabitável e é preciso sair dela o mais rapidamente possível, mesmo que a retórica grandiloquente usada para justificar essa fuga vá no sentido de expandirmos a espécie para outros lugares distantes.
Arregimentando a tradição filosófica (passando por Platão, Heráclito, Husserl, Derrida, Nancy e o inevitável Heidegger), Marder vai delineando um conceito de lixo nas múltiplas modalidades em que hoje o encontramos um pouco por toda a parte. Lixo não designa, desta forma, apenas a literalidade da contaminação das águas, do solo e do ar, nem também a verdadeira luta de classes global que faz com que uma parte ínfima da população mundial tenha acesso àquilo que tomávamos por garantido para todos e em abundância – as guerras do futuro terão como objecto, talvez, os elementos primordiais dos primeiros filósofos, o ar não contaminado e a água potável, numa espécie de retorno do arcaico. Designa, igualmente, uma queda no indiferenciado e no indiferente, onde o plástico não se distingue da matéria natural, onde tudo se amontoa sem qualquer diferença possível – indefinidamente, num lugar que não é um lugar e num tempo ausente de tempo.
«Mas a sua indiferença é tão profunda que fica aquém da mesmidade e da diferença, anulando também essa outra dicotomia. À medida que os monturos crescem, afogam a existência e obstruem todas as modalidades de tempo, incluindo o passado.»
Tudo aquilo a que nos encontrávamos habituados, a nossa capacidade de discernir linhas de racionalidade, de criar agenciamentos de sentido, a própria noção de mundo ou de cosmos (que pressupõem uma inteligibilidade), se encontram agora subsumidas à lixeira em que se transformou tudo – e que, como uma onda imparável, submerge toda e qualquer edificação conceptual.
Apocalipse e catástrofe
O historiador francês François Hartog, numa entrevista, distinguia uma tradição apocalíptica, que é ainda da ordem da revelação e da verdade, mesmo pressupondo o fim do mundo, de uma outra tradição, relativamente recente, e que diz respeito à catástrofe (que, no limite, não é um acontecimento único, como o primeiro, mas que vai acontecendo). A catástrofe, ao contrário do conceito de índole teológica do apocalipse, não tem qualquer relação com a verdade. Diz respeito, apenas, àquilo que cai sobre nós, sem haver aí qualquer sentido ou inteligibilidade (cai porque sim, por um acaso, por uma lógica causal de onde me encontro ausente). Há hoje todo um género literário que pode ser subsumido a essa lógica da catástrofe (em si mesma bastante perigosa, como, aliás, o conceito de Antropoceno), mas talvez se possa dizer que o livro de Marder engloba esse mesmo conceito num outro, mais vasto, aquele da lixeira, do monturo. A catástrofe é ainda algo que diz respeito ao mundo, que faz ainda demasiado sentido. Da mesma forma que o desaparecimento do planeta daqui a milhões de anos, quando a nossa estrela envelhecer e aumentar de tamanho, é algo desprovido de sentido (Lyotard diria que para adquirir sentido teríamos de estar nos dois lados dessa fronteira temporal), também a lixeira contemporânea engole e torna indiferente qualquer significado.
E o lixo contamina tudo, não apenas o mar, o ar e a terra, mas também as relações pessoais («descartar alguém após um período de enamoramento não põe simplesmente fim a uma relação; esse acto de despejo desfaz-se também da racionalidade»), a atenção, que «está estranhamente dispersa, paralisada pela turbulência e a instabilidade», ou mesmo os nossos sentidos, capturados por uma «apatia do seja o que for» e onde a hiperestimulação «aprisiona o corpo em si mesmo» ao mesmo tempo que dissocia a consciência do mundo.
Prazer na destruição do mundo
Um dos momentos mais interessantes da análise de Marder encontra-se na ligação que estabelece entre, por um lado, a lixeira global em que vivemos e, por outro, o prazer que daí decorre. Bastante crítico do termo ‘Antropoceno’, que, defende, mais não é que um elemento do narcisismo da espécie humana, que chega ao ponto de criar uma época geológica que transporta o seu nome, Marder sublinha o entrelaçamento que existe entre o horror e a angústia perante a lixeira global (horror e angústia tantas vezes paralisante) e o prazer experimentado na destruição do mundo. É um argumento subtil, que convoca uma leitura da metafísica (tema próximo a Heidegger e ao seu discípulo Agamben), que é hoje visível no imaginário contemporâneo, mas que, no limite, tem que ver com uma forma de compreensão do prazer que o liga indelevelmente ao poder. Queremos de tal forma um poder desmedido que, para o conseguir, não temos problema algum destruir tudo: a lixeira é, ainda, não apenas a marca e os vestígios que o humano deixa à superfície do planeta (mas, actualmente, até o interior do planeta se encontra em perigo), mas o elogio do humano e a exaltação do humanismo. É o sonho, dirá Marder, da metafísica, que transforma o planeta em lixo de forma a libertar-se, por fim, de qualquer aspecto material.
Poder-se-ia fazer, um dia, a história das diferentes aplicações que a segunda lei da termodinâmica de Newton foi tendo ao longo do século passado, nos diferentes géneros artísticos, mas também no pensamento (e o livro de Marder parece subsumir-se a uma leitura da entropia que culmina na lixeira de onde nada sai e que atingiu uma dimensão de apatia e de indiferença que encontra um paralelo somente no espaço interestelar – tudo isto, evidentemente, é bastante mais complexo do que isto). Em todo o caso, e apesar da estreita ligação que Marder estabelece entre o prazer e a destruição, talvez se possa dizer que o entrelaçamento entre essas duas forças é ainda mais próximo do que aquele que Marder estabelece. Freud, a dada altura, parece ter intuído algo do género, quando estabelece o famoso ‘para além do princípio do prazer’, a ‘pulsão de morte’, mas talvez ninguém como Kafka tenha levado ao limite esse entrelaçamento entre desordem, caos e prazer. Em O Castelo há uma passagem onde esta ligação se torna evidente – e, como tudo em Kafka, é de uma perversão sem igual. K. encontra-se em casa do regedor que, a dada altura, pede à mulher, Mizzi, para procurar o processo que levou o agrimensor à aldeia nas imediações do castelo. A passagem é bastante clara: «O regedor não levantou nenhuma objeção; o que K. não podia, podiam os ajudantes. Atiraram-se logo aos papéis, mas o que eles faziam era mais revolver o monte que procurar, e enquanto um soletrava um escrito, o outro arrancava-lho da mão. Pelo contrário, a mulher, ajoelhada diante do armário vazio, já não parecia procurar o que quer que fosse, de qualquer modo, a vela estava longe dela.»
Já nenhum deles procurava o que quer que seja, podendo dizer-se, inclusive, que nunca quiseram procurar; nenhum deles, nem os ajudantes nem a mulher, queriam dar ordem ao caos ou criar qualquer linha de inteligibilidade. A sua vontade perversa, o seu prazer secreto, estava precisamente na desordem, no caos, no lixo acumulado à sua volta (o prazer tornara-se equivalente ao lixo).
Naves espaciais vogando num espaço vazio
Um pouco dialecticamente, numa lógica de campo/contra-campo, encontramos aqueles «espaços de ar condicionado» (a formulação é de uma artista plástica contemporânea), autoimunes, que parecem inscritos na paisagem apenas sob a forma de uma distância absoluta relativamente a esta e da sua autoexclusão perante qualquer forma de espacialidade – são, na realidade, naves espaciais vogando num espaço vazio ou esvaziado. Pensemos, por exemplo, em certas unidades hoteleiras idealizadas para famílias, que se encontram fora das cidades e que, não tendo qualquer relação com as suas imediações, se transformam em complexos concentracionários autocontidos de onde não é preciso sair, ou, pior ainda, de onde não é possível ou pensável sair – «isto é nenhures, e é para sempre» para usar uma citação próxima a Mark Fisher.
Estes ‘paraísos artificiais’, com todo o conforto excessivo que impõem, mesmo que carregados de uma ligeira e quase imperceptível angústia e mal-estar – não conseguimos estabelecer durante muito tempo uma relação ao plástico –, mantêm ainda uma ténue e distante ligação à lixeira. Mas são, para usarmos um conceito freudiano, a sua denegação ideológica, de tal forma próximos do lixo que apenas o podem colocar à distância.
Mas se estes espaços são uma forma alienada de relação à lixeira global – pretendem ser naves espaciais que se libertaram de qualquer relação ao planeta e que, no seu universo de plástico, até a música, em modo suave e contínuo, se subtraiu ao tempo –, o que encontramos em Kafka vai muito mais além de uma relação quase dialéctica, é bastante mais sombrio que o elogio do humanismo que se encontra contido na análise de Marder. É um desejo – secreto, perverso – pela lixeira.