terça-feira, 21 jul. 2026

Marisa Liz: “Discos para mim são livros autênticos, de descoberta e de viagens."

A cantora lança o seu segundo albúm de originais, 'Relato de um Coração Confuso', e revela que o trabalho reflete muito a sua própria confusão, sobretudo após ter sido diagnosticada com autismo. O disco conta com a colaboração de Camané e Rui Veloso e a nova tournée começa já 13 de junho.
Marisa Liz: “Discos para mim são livros autênticos, de descoberta e de viagens."

Numa conversa franca, Marisa Liz revela como foi o processo de criação do seu novo disco e conta como têm sido os últimos dois anos. Pede para nos sentarmos na esplanada. Gesticula e perde-se no entusiasmo com que fala.

Sem rodeios, confessa à VERSA como surgiram os diagnósticos de PHDA [Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção] e autismo e a forma como os enfrentou. Relatos de um Coração Confuso acaba por ser filho destes tempos e é para ser ouvido como um todo: cada canção tem uma estória e todas juntas funcionam como um “livro”.

Ao mesmo tempo, Marisa fala da relação com o público, revela os ataques de pânico que já teve depois de alguns espetáculos e explica por que é que não gosta de tirar fotografias no final dos concertos. Conta ainda a história da avó que cantava o fado e foi proibida pelo marido de sair em tournée pelo mundo fora, a convite de uma grande editora, na mesma altura em que Amália também dava os primeiros passos no meio artístico.

Vamos falar sobre este novo disco, o seu segundo álbum, e que se chama ‘Relatos de um Coração Confuso’. Porquê este título?

O título era a primeira coisa que eu tinha, e a única, há dois anos e tal. E o título acho que explica muita coisa porque eu estava confusa. Em relação ao mundo, a mim... especialmente a partir do momento em que fui diagnosticada com PHDA e com autismo. Fiquei indignada durante uns tempos, sobretudo com este último diagnóstico. A minha cabeça, também por causa disto, vai para hiperfocos, e estes últimos dois anos foram avassaladores. A minha confusão estava a ir para um sítio de sofrimento, e o não saber o porquê de tanta coisa, o não perceber, o não compreender a maldade gratuita, a normalização da violência, estas questões todas... Isto é horrível, mas os porquês não aparecem.

O porquê de o ser humano fazer isto? Como é que nós damos a volta a isto? Emocionalmente, na educação, isto e aquilo, tudo foi um turbilhão que eu sempre tive durante a infância, mas que efetivamente estes dois anos, se calhar por estarmos a viver as atrocidades que conseguimos ver... quando fechava os olhos continuava a vê-las.

Em que é que isso influenciou este disco?

Tive aqui um processo de dois anos em que, através da música, queria passar mensagens que eu acho que podem ser positivas, para mim, em primeiro lugar, e para quem as ouve. Estar confusa e não saber sempre esteve associado, a partir de certa idade, a uma fraqueza.

O risco do desconhecido, que é estranho, dá medo. E era assim que eu me sentia: estranha.

Tendo o nome do disco - e sabendo que precisava de aprender -, conscientemente não queria compor tanto neste disco, não me queria dedicar tanto a isso. Queria, sim, ter canções de compositores que eu admiro e interpretá-las. Quase como se elas não tivessem país, nem língua, nem sexo, nem cor.

Ser só música, uma coisa universal.

Universal. Durante dois anos, foi uma pesquisa intensa de reportório, juntei-me com vários compositores. Tivemos uma boa conversa, mas não se traduziu em música. Outros traduziam-se em música, mas não uma música que depois fizesse sentido com esta história. E depois tive a sorte de ter uma data de compositores que, cada um deles, escreveu para mim. Nenhuma destas canções que estão aqui são canções soltas, ou sem propósito, ou sem conceito. Têm uma história. Foram horas a falar das merdas que eu sentia, daquilo que eu queria dizer, daquilo que eu não sabia se queria dizer. Estava numa ansiedade brutal. E lá está naquela cena de ‘Eu não sei, se calhar não vou fazer disco nenhum’.

E isso tem a ver com o diagnóstico de autismo que teve?

Não, sempre foi assim. Eu para fazer alguma coisa tenho de ter uma necessidade. E essa necessidade tem de vir de um sítio, de algo que eu ainda não fiz. É como, por exemplo, com os duetos. Eu não convido ninguém sem ter uma canção. As coisas para mim têm de ter uma ordem. Diferente da maior parte do cérebro da malta, mas... Primeiro é a mensagem, depois é a canção. E depois da canção, quem é que esta canção está a chamar. E depois, a partir daí, fomos para a produção.

É um processo de descoberta?

Foi um processo de autodescoberta, como sempre. Como qualquer trabalho na arte. Acho que esse é um dos propósitos. Porque a malta é artista. De alguma forma, principalmente porque eu nasci em 82 e ser artista, nessa altura, ou querer ser artista, era o mesmo que ser maluco.

Não havia dinheiro, não era um trabalho. Portanto, só se ia para as artes, efetivamente, por necessidade. O aplauso é a última coisa que se ouve. Há todo um processo de anos do artista com ele mesmo. Com a criação, com a insegurança da sua própria criação. Daquilo que se é, daquilo que se quer ser.

Se estivesse a pensar nas pessoas que vão ouvir, ou no aplauso que vou ter, não fazia arte, música. Acho que a autenticidade depois também vem daí. Pelo menos foram esses os exemplos que eu tive dos artistas que eu ouvia.

E é uma partilha sua com os outros? Tem de ser seu primeiro, para depois chegar aos outros?

Todas as canções que eu cantei, ou todas as letras que eu escrevi, ou todas as canções que eu pedi, em primeiro lugar são sempre mensagens para mim. Tenho de ter histórias para mim mesma. Que me ajudem, ou que me ponham em sítios vulneráveis que eu precise.

Disse que não tinha tanta disponibilidade para se dedicar neste disco, mas acabou por escrever três letras.

Três letras e três canções. Não estava fechada a compor. Não pus pressão em cima de mim. Aquilo que eu queria, como sempre quis, são boas canções. Sejam feitas por mim ou não. Porque um dia destes morro e o que fica cá são as canções.

As canções são mágicas e são imortais. E podem ser interpretadas milhares de vezes com cores diferentes. Com uma pessoa que vem de uma vida diferente. Com uma experiência diferente. E para interpretá-las... Há canções que fiz e que estava a adorar interpretá-las. Mas aquilo que eu sentia era que isso não chegava. Não me estavam a deixar desconfortável. Não me estavam a fazer aprender. E a música sempre teve um papel, para mim, de desconforto necessário. A arte para mim sempre teve um papel de desconforto. Do que é estranho até deixar de ser. O que é estranho, ou o que é desconfortável, só o é enquanto não se conhece.

Não posso continuar a ser a compositora ou a cantora que era há dois anos. Agora não sou a mesma mulher. Tenho de perceber que mulher é que sou agora. E tudo isto é um processo de autodescoberta. Acho que os artistas sempre estiveram um passo à frente nesta parte das emoções.

Então, que mulher é que é agora?

Continuo confusa, mas agora já não tenho medo de estar confusa. Agora sei que há uma razão para estar confusa. Não é para ter as respostas todas, mas é para continuar a aceitar que há coisas que não aceito.

Disse que quando teve o diagnóstico de autismo isso contribuiu para se sentir confusa. Entrou numa certa negação?

Não foi numa certa [negação], foi total! Porque, mais uma vez, há falta de informação. Eu sabia, quando fui diagnosticada com PHDA, que havia muita coisa que não fazia sentido só dentro desse diagnóstico. Comecei a pensar: ‘Ok, eu tenho PHDA, mas se calhar é um PHDA diferente’. Porque depois conheci outras pessoas que tinham PHDA, mas os sintomas deles não eram compatíveis com o PHDA. Fui a três ou quatro médicos, depois de tanta negação, precisei de ir a vários para me dizerem: ‘A gente sabe o que é que anda a fazer. A gente estudou esta merda, Marisa!’.

E eu entrei em negação porque a ideia que eu tinha de autismo era de que a maior parte das pessoas são pessoas que estão encostadas a um canto a abanar a cabeça, que não conseguem manter uma conversa nos olhos, que não conseguem expressar emoções. E há vários espectros do autismo. Nas mulheres é muito mais difícil de ser diagnosticado, muito mais do que para os homens, porque as mulheres têm uma capacidade e foram educadas a comportarem-se bem e a terem aquela frase mítica do ‘está tudo bem’. E quando não está tudo bem sou eu que estou cansada. Estou cansada, estou não sei o quê, há sempre...

... um problema qualquer.

E então é muito mais difícil de diagnosticar em mulheres. Nem fui eu que percebi. Este diagnóstico veio num almoço com a malta, em que por acaso uma das pessoas que lá estava era um psiquiatra e uma das especialidades dele é o autismo. Ele acabou o almoço e disse-me: ‘Marisa, depois precisava de falar contigo’.

Mais tarde, o psiquiatra disse-me que gostava que eu fizesse os testes, sem pressão. E depois foi um processo de me dizerem que eu tinha autismo e de eu continuar a perguntar: ‘Não, mas espera aí. Será que me fizeram bem os testes todos?’ Mais tarde explicaram-me uma data de coisas e, finalmente, aceitei. Coisas que fazem todo o sentido e que isso não é um problema, é só diferente.

A questão é que o seu diagnóstico foi muito tardio, por volta dos 40. Se calhar isso também dificultou o entendimento das coisas.

Acho que é assustador! Há outras gerações que tiveram o que eu tenho e nunca tiveram uma explicação. E que se devem ter sentido completamente estranhos neste mundo. Portanto, independentemente da idade em que descobri, agradeço ter tido a vulnerabilidade de deixar que me ajudassem. O autismo é a solidão total. É a necessidade tremenda de me autorregular com silêncio. Por isso é que eu tenho dificuldade em tirar fotos a seguir aos concertos. Já falei muitas vezes disto, mas já houve público que ficou chateado. E eu tento explicar, mas essa explicação só chega quando as pessoas querem saber.

Durante muitos anos tive ataques de pânico e não sabia o porquê. Porque não conseguia perceber como é que estava em cima de um palco e me era tão confortável e necessário cantar e partilhar aquilo com as pessoas, mas quando acabava o concerto, só queria entrar num buraco. Foi quando o meu médico me disse: ‘Marisa, tu estás em cima do palco, tu não estás no meio da malta’.

Foi aqui que comecei a perceber que não saio, não vou para festas, não vou ao lançamento de uma marca, nunca me vai ver, nem nunca me viu nesses sítios. Eu, para ir a um concerto não posso estar sentada. Não consigo ir a um concerto num Tivoli, tenho de estar na régie, porque há certas luzes que me baralham completamente. Já me sentei na plateia e, de repente, o meu corpo começou a ter reações físicas - como começar a transpirar - a um ponto surreal. Se eu não sair dali eu vou baicar! Isto é estranho e cansei-me de tentar encaixar-me em comportamentos.

Antes inventava mentirinhas. Dizia que tinha de ir apanhar ar porque estava com uma quebra de tensão ou porque tinha comido alguma coisa que me tinha feito mal. Porquê? Porque se eu disser que tenho autismo as outras pessoas ficam desconfortáveis. Já não me lembro a que propósito é que estou a dizer isto…

Foi na sequência de sabermos que mulher é hoje em dia.

Pois… E eu acho que tudo isto que estou a falar está diretamente ligado ao disco. Esta confusão que teve de ter um caminho. Eu estava confusa, eu não sabia para onde é que eu ia, mas eu fui à mesma. E quando fui à mesma, quando se continua a andar, as coisas vão aparecendo, de alguma maneira, porque ficar parado é antinatural. Tudo está em movimento.

Não parece, mas neste momento o planeta está em movimento, as flores estão a crescer, o mar está em movimento, há movimento dentro do nosso sangue. As nossas emoções e sentimentos criam ondas de movimento. E o ficar parado é o primeiro passo para a confusão, para passar para outro sítio, que é pior ainda. É a apatia. O não pensar nas coisas.

Isto é a realidade e eu não me conformo, porque se alguém tem a responsabilidade de alterar isso, são os adultos. Pelas crianças que aí vêm. Para mim, a escola, foi das piores experiências que tive na minha vida, porque me senti burra a vida toda. E incapaz. Até porque eu tenho uma dificuldade tremenda, não consigo ler um livro.

Durante anos não falei nisto porque sentia vergonha. Porque não sabia o porquê, então achava que era por... (pausa)

Distração?

Ou falta de... A inteligência está ligada ao racional. Os testes de inteligência na escola são feitos pelo racional. Atualmente sabemos que a inteligência está espalhada por vários ramos. Mas durante muitos anos, e na minha geração, isso nem sequer estava em cima da mesa.

Já não ando na escola, mas a intenção no mundo não pode ser só em relação à nossa vida. E todas as coisas pelas quais eu luto, e que gostava de mudar para melhor, na verdade não vou usufruir delas. E mesmo que eu não tivesse filhos, não é só por esse motivo. Obviamente que é pelos meus filhos, mas todas as crianças do mundo são nossos filhos.

Pensa sempre mais além, talvez pelo facto de ter compreendido por que é que tinha as suas confusões?

Ou por nunca ter compreendido, por me ter sempre sentido incompreendida.

Sim, mas finalmente tem um motivo.

Há um motivo, não quer dizer que seja aquilo que eu queria. Vem uma dúvida lixada, quando tens este diagnóstico. Que é isto que depois andei a trabalhar. Então, tudo o que eu sou é um diagnóstico? Quer dizer que todas as pessoas que têm autismo e PHDA, elas são como eu? Porquê? Porque, de repente, começamos a ver sintomas, sintomas, sintomas. E a questionarmo-nos: ‘Então, onde é que eu estou dentro disto? Quem é que eu sou? Ou eu sou dois transtornos?’ E é aqui que se começa a perceber e a ter de fazer terapia para isso, para perceber que não sou um deles. Sou uma junção de tudo. E que o meu transtorno responde de forma diferente, por causa da minha personalidade, ao de outra pessoa que tem o mesmo diagnóstico que eu. Mas todas estas confusões me deram um motivo para fazer um disco, aquele que eu não tinha. Foi quando eu pensei: ‘Não sei que disco é que vou fazer; vou fazer um disco sobre isso’.

O single mais recente, o ‘Gente Aberta’ é uma versão do Erasmo Carlos com a colaboração do Camané. Sei que gosta sempre de fazer uma versão. Porquê?

Porque sempre fiz. Quando começo a cantar com a malta de Donna Maria foram 10 ou 12 anos a cantar em bares onde nós fazíamos versões. Na altura, escolhíamos fado e púnhamos eletrónica. A malta do fado tradicional caía-nos em cima! Isto há 20 anos!

Cantei o ‘Foi Deus’ com Donna Maria, com um efeito na voz que a minha avó ouviu o disco e disse: ‘Filha, o disco está estragado’. E eu ‘não ‘vó, é mesmo assim’. A minha avó queria muito que eu cantasse um fado. Disse-lhe que não era fadista, mas que ela já tinha fados para ouvir. Podia ouvir Amália, mas eu não sou a Amália. Disse à minha avó que tinha de aceitar que se eu cantasse um fado nunca iria ser um fado. Não era um fado. Era eu a cantar um fado.

Foi assim que começaram as versões?

Não só. Eu era uma cantora miúda que tinha uma tessitura vocal estúpida! Conseguia ir a agudos, ir aos graves, e tinha uma facilidade técnica muito grande, auditiva, de reproduzir aquilo que ouvia. Desde muito nova, tive uma banda de solo, depois fui para o clássico.

Mas nada me chegava, porque nada daquilo era eu. Eu estava a reproduzir coisas, de emoções de outras pessoas.

A ‘Gente Aberta’ era a música que eu estava a ouvir há não sei quanto tempo. A partir do momento em que decidi que era esta, nunca mais a ouvi. É um trabalho em que primeiro olho para o poema, depois tento fazer um reset ao cérebro, como se eu nunca tivesse ouvido aquela canção, e a única coisa que eu tenho é a melodia e a letra. É como se esta canção tivesse nascido agora e eu fosse a primeira pessoa a dizer estas palavras. Como é que eu as dizia? É a minha construção. E até pode dar-se o caso de eu fazer uma versão, e de o compositor ouvir e dizer assim: ‘Esta maluca estragou-me a música!’. Acho que até hoje nunca aconteceu com nenhuma versão, porque há um respeito tremendo em relação à composição, e só há uma música. Eu só pego numa música para fazer uma versão, quando eu admiro aquela canção.

Mas quer torná-la um bocadinho sua?

Totalmente, na verdade. Porque eu não consigo aos bocadinhos. Lembro-me que com Amor Electro fiz uma versão de um tema do Cid, do ‘Cai neve em Nova Iorque’, em que o Cid me disse das frases mais bonitas que eu ouvi, que foi: ‘Eu nunca tinha ouvido a minha canção assim’. Quando a cantei não sabia o porquê daquela letra, e ele contou-me a seguir, e foi impressionante. O sítio para onde eu fui para cantar essa música foi quase o mesmo sítio para onde ele foi para a escrever, por razões diferentes. E eu nunca vou contar-lhe o porquê, nem da dele, nem da minha.

Há de ter sido muito emocionante.

A arte, quando se está aberto e conectado... Para mim, a dona desta merda toda é a música! Não é a minha voz. Não é a produção. Não são as fotos. O aplauso é a última coisa. É a música. Para mim, a deusa da música só não manda nisso tudo, porque Deus a trancou numa cave. Até ela dar um grito de caraças, partir as janelas e sair dali de dentro!

Além do Camané tem a colaboração do Rui Veloso. Porquê estas duas escolhas?

Mais uma vez, a música pediu-me isso. Queria cantar com o Camané há anos. Há muitas pessoas com quem eu quero cantar há anos e ando à espera de uma música certa. Com o Camané apareceu.

Porquê esta admiração pelo Camané?

Para mim, o Camané fala em português, que é a minha língua, mas ele fala uma língua que é só dele. Que não tem... Nem é português, nem inglês, é uma língua dele. Nós os dois falamos português, mas cada um fala português à sua maneira. O que faz com que a música, para mim, não tenha, lá está, essa barreira.

O Camané é um intérprete inacreditável. Além de ser das pessoas mais fixes do meio, não só ele, ele como os irmãos, o Hélder Moutinho e o Pedro Moutinho. Foi um trio de ouro, em que aquela mãe e aquele pai, claramente, puseram pós purpurina em cima daquelas crianças. Eles são dos seres humanos mais gentis, generosos, com respeito à música e à admiração por colegas. Na música, é das coisas mais bonitas.

E o Rui Veloso?

O Rui Veloso foi mais difícil porque ele não estava cá. E eu andei a chateá-lo. E chateei, chateei. E ele só me dizia, gosto muito da música. E eu ‘pois pá, porque esta música é para ti’. Porque no meu cérebro havia aqui um intervalo de duas notas, que é um intervalo igual a um final de um tema que ele tem. Não estou a falar da frase, é ali.

Tanto o Camané como o Rui, são pessoas que vão interpretar um tema quando lhes faz sentido fazê-lo. Não é porque se está a pedir. Como comigo também. Só vou interpretar uma canção se eu vir que posso somar alguma coisa a isto. Se não, estou a fazer isto pelas razões erradas. Ou por ego, ou porque vai ter hype.

Lá o convenci. Ele foi ao estúdio, gravou a música e estava maravilhoso. Só que senti uma tristeza tremenda porque ele não a gravou comigo. Liguei-lhe e disse-lhe que tinha de fazer isto comigo, para não me retirar esse presente. Fomos para estúdio gravar e tive das noites mais inesquecíveis!

Vem aí o verão, como é que está a sua agenda?

A aproximação do verão está boa, mas a minha agente é que sabe porque, como eu disse, tenho PHDA e não faço puto de ideia das datas! Sei que a partir de 13 de junho arranca a nova tour.

O que é que se pode esperar desses espetáculos?

A nova tour tem tudo a ver com o conceito todo daquilo que está a acontecer neste disco, que é ser como um livro. Já que não os consigo ler, este é o disco que eu gostava mesmo que as pessoas lessem como se fosse um livro. Como se ouvia música antigamente porque discos para mim são livros autênticos, de descoberta e de viagens. Cada canção é uma viagem para um sítio diferente. Faz sentido aquele conjunto e faz sentido eu ter pedido o prefácio ao Paulinho Mosca, para ter um bocadinho a sensação de ter um livro quando não os consigo ler.

Um disco que funciona como um livro, em que se tem de ler do princípio ao fim?

Isso! O Paulinho foi das primeiras pessoas a ouvir o meu disco inteiro quando ainda nem sequer estava misturado para poder escrever um prefácio, que é uma apresentação de tudo o que está daqui para a frente. O texto que ele escreve é o resumo das horas e horas de conversas que tivemos.

Isto acaba por ser um conceito inovador para os dias de hoje, em que tudo é muito rápido e as pessoas, geralmente, já não ouvem discos. Ouvem só alguns temas, em plataformas de streaming.

Também depende do conceito de música. Quando se começa a limitar a criação porque a música tem de ter dois minutos, senão não passa na rádio… Se começamos a limitar a nossa criação porque temos medo de que alguém não conheça aquela palavra, ou porque o beat que está a bater é este… Eu tenho um enorme respeito pelo público. Acho que não é dada a oportunidade ao nosso povo e que há muito aquela tendência de pensar que a malta não vai ouvir isto ou a malta não vai perceber isto. Nós somos muito mais inteligentes do que aquilo que nos estamos a pôr e fomos dos povos, no mundo inteiro, que mais se abriu à cultura do resto do mundo

Como é que hoje olha para aquela criança que esteve nos Onda Choque e que participou em concursos de talentos? Como é que olha para a Marisa Pinto?

Não sou eu. Sou eu sem ser eu. Consigo ter a perceção de me ver em criança e parecem-me muitas Marisas de quem eu quero ser amiga.

Foi a primeira pessoa na sua família a cantar?

Desta forma sim. A minha avó cantava o fado e, quando era nova, quando a Amália também estava a entrar no meio, houve uma pessoa de uma editora que queria que a minha avó fosse fazer uma tour pelo mundo inteiro. O meu tio explicou-me que era uma cena… Que ela ia cantar a um sítio que era uma loucura!

Nunca tinha sabido desta história, depois eu perguntei ao meu tio porque é que ela não foi e ele explicou-me que o meu avô não a deixou. Eram tempos diferentes e é normal que eu lute por estas coisas. Como é que eu posso não ser grata e fazer aquilo que me apetece quando me deram esta oportunidade?

Vamos terminar com uma curiosidade: como é que escolheu o seu nome artístico?

Na verdade, o meu nome é Marisa Pinto Oliveira Pinto. Dois pintos porque o nome da minha mãe era Pinto e o nome do meu pai também. Quando comecei a ter email, por volta dos 18 anos, o marisapinto ou pintomarisa ou marisa.pinto já estava tudo ocupado. Depois tentei marisalis, de Lisboa, mas também já estava ocupado. Então tentei marisaliz, com z e consegui! A partir daí comecei a ser a Marisa Liz! Foi só isto.