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Canta A Garota Não, na música Que Mulher É Essa, do seu álbum 2 de Abril, lançado em 2022: «Que mulher é essa/ Que eu vejo na telenovela/ As mulheres à minha volta/ Não se parecem nada com ela/ É só mulher sexy/ Que desliza quando passa /A coxa não entra/ E se entra é pra dar graça/ Que mulher é essa/ Que eu vejo na publicidade/ Será que as feias/ Vivem todas na minha cidade/ Só mulher bonita,/ Todas altas e esguias/ E só entra a gorda/ Para perder calorias». Esta música poderia muito bem servir o novo espetáculo de Sofia de Portugal, A Gorda, protagonizado pela brilhante Maria Rueff no papel de Maria Luísa, que estreou no dia 15 de junho no Teatro Maria Matos, em Lisboa.
Maria Luísa já não é gorda. Mas ainda pensa como gorda. Professora numa escola problemática, onde se defende que apenas a ação e os resultados interessam, fez uma cirurgia de redução de peso. O resultado foi um corpo com menos quarenta quilos. «Quarenta quilos é muito peso e foi os que eu perdi; quarenta quilos é realmente muito peso, é como ter perdido um gémeo siamês que estivesse agarrado a mim», diz logo no início do monólogo que trata temas como o amor-próprio, um intenso amor de juventude, o bullying, a rejeição, a depressão, a solidão e a perda, com o Portugal florescente e contraditório do pós-25 de Abril como pano de fundo. Trata-se de uma adaptação do livro homónimo de Isabela Figueiredo, lançado em 2016 pela Caminho, que se tornou um sucesso entre os leitores portugueses.
Já passa das 18 horas. Maria Rueff chegou pouco depois de nós ao Teatro Maria Matos. Esperamo-la, a ela e à encenadora, já dentro do auditório. A sala está vazia. As luzes do palco apagadas. O espetáculo só começa às 21 horas. Chegam cúmplices, entre sorrisos. A conversa acontece na primeira fila da plateia.
De mulheres para mulheres
Sofia de Portugal, já conhecia a obra e a escrita de Isabela. Nos últimos tempos tem estado numa travessia de adaptar textos de mulheres para a cena. «O Rui da Alverca desafiou-me para montar este texto. Portanto, li o livro e, dentro da minha cabeça, só ouvia a voz da Maria, já só ouvia cenas com a voz dela», revela. «É uma voz feminina corajosa que conta a nossa história recente no feminino, de uma forma despudorada do que é ultrapassar uma série de dificuldades», explica. «Algumas são dificuldades coletivas e são da nossa história recente, outras são da sua vida privada… E acho que ela fala de uma forma tão honesta, tão inteira, que é absolutamente fascinante e altamente teatral, porque não esconde partes, é muito inteira na sua escrita. Enquanto mulher, isso é digno de se colocar num palco», acredita.
Segundo a encenadora, Marta Dias fez a versão cénica, mas depois o trabalho foi muito feito «a três mãos»: «Eu, a Maria e a Marta. Interessava-nos muito contar a nossa história recente, portuguesa. Interessava-nos muito falar da outra margem – Margem Sul –, daquilo que chamamos os subúrbios. Foi engraçado porque embora tivéssemos ideias diferentes, eu e a Maria sublinhávamos sempre as mesmas partes do livro. Temos uma sensibilidade que eu acho que é muito irmã. É preciso dizer que fomos colegas no Conservatório. E, portanto, fomos muito próximas nas escolhas do texto», detalha. A verdade é que, se a peça pudesse durar três ou quatro horas, tinham material para isso. «Foi um desafio nesse sentido. E há uma série de tesouros que, enfim, ficarão para novas núpcias», brinca Sofia.
O encontro com a sua colega e amiga, foi muito especial. «Achei que a Maria era mesmo a pessoa ideal para o fazer. Não sabia se estava disponível, não sabia se era viável ou não, mas foi a minha vontade desde o princípio. E, portanto, é para mim uma alegria», partilha. Quando soube que a atriz estava disponível e percebeu que Isabela ficou contente em saber que esta poderia criar um espetáculo a partir do seu livro, disse-lhes: «Eu sinto que dois cometas atravessaram o meu céu e, portanto, eu, neste momento, só tenho que surfar a coisa. Porque isto vai ser uma chuva de lua». «Percebi que era um encontro muito maior do que eu, artisticamente falando. E, por isso, sinto-me muito honrada por ter construído este espetáculo a meias com a Maria, porque isto é uma criação, na verdade, coletiva», reforça.
Sobre aquilo que foi mais desafiante no processo, Sofia de Portugal conta que queriam pôr «diferentes latitudes» e, ao mesmo tempo, «não sair do monólogo». Simultaneamente, não queriam projeções. «Queríamos colocar espaço interior e espaço exterior. E como é que tudo isso poderia coabitar num espaço cénico? Desde o início que eu disse à Isabela: ‘Eu imagino dividir o espetáculo, as várias cenas, por diferentes espaços da casa, mas que, ao mesmo tempo, fosse apenas um espaço. Portanto, esse foi o primeiro desafio», revela. A conceção do espaço cénico foi muito em resposta a esse primeiro desafio: Como é que colocariam África? E Almada? Como é que eu colocariam o espaço interior, estando sempre tudo presente e podendo só estar parcialmente?. «Acho que foi uma felicidade o espaço cénico que o Aurélio Vasques encontrou. Eu diria que com isso, com o talento da Maria e com o talento da Isabela, não era difícil imaginar uma cena profunda e diversa», explica.
Um olhar para dentro
«A Sofia diz que foi um cometa, e para mim foi também qualquer coisa escrita no céu», diz, por sua vez, Maria Rueff. De acordo com a atriz, no Conservatório ainda se falava muito no preconceito sobre os cómicos. «Eu já tinha dado uns certos lamirés de comediante, e ela foi a colega que nunca se importou. O meu primeiríssimo trabalho na escola, foi feito ao lado dela… Eu sou madrinha de um dos seus filhos. Ou seja, o que nos comove é chegar a esta idade, talvez quase 40 anos depois, e acontecer isto a quatro mãos. ‘Agora somos nós que estamos no palco!’, pensámos. Todos os atores, ensinadores que nós aprendemos a ver, agora somos nós… Isso é muito comovente, porque trazemos no coração todos os que nos formaram, e portanto temos essa responsabilidade de inspirar ou de poder tocar os outros, mais do que alguma coisa de necessidade de ego, ou necessidade de fazer um brilharete», garante. Para si, que está sempre em palcos e plateias grandes, «poder voltar à escola, é maravilhoso». «Este processo foi feito muito caseiramente, como nós fazíamos os exercícios lá em casa… Fizemo-lo enquanto cozinhávamos e comíamos, com os maridos e os filhos à volta. Foi voltar à palavra amador. A palavra amador vem realmente de quem ama teatro», conta.
Maria Rueff adianta que Sofia ouviu a sua voz, porque conhece a sua vida e as dores que carrega desde pequenina. «Quando li o livro, identifiquei-me a 300%, porque a Isabela, inclusive, opera dentro dela o humor a partir daquela fratura. E esta fome é uma fome que vem justamente dessa separação. Isto fala de uma fatia da nossa sociedade que era pró-independência das ex-colónias, que é absolutamente a favor do 25 de Abril, que era contra a guerra colonial, e que é de esquerda. Vieram em adolescentes, e essa fatia, pelos extremos, foi sempre maltratada na sociedade portuguesa. Para ter uma ideia, aos quatro anos eu fui proibida de brincar com meninos brancos de cá. Fui fechada numa sala com meninos de Angola e de Moçambique, por ser retornada. Isto foi vivido, isto aconteceu!», exalta acrescentando que, por isso, sabe muito bem o que é o racismo. «O racismo perpetrado pelos próprios portugueses», sublinha.
Embora não seja isso, exatamente, que trata a peça, é daí que parte essa gordura. «Essa gordura pudesse ter sido resultado de outra coisa qualquer… De uma depressão, por exemplo. Aliás, a Maria Luísa tem uma depressão… À medida que vai tratando o corpo, trata também a cabeça. Por isso, todas estas fomes, esta ausência de amor próprio, são resultado de dores profundíssimas, que não só não são tratadas, como muitas vezes são olhadas de forma injusta», reflete, admitindo que o espetáculo também a ajudou. «Também me ajudou a mim, Maria, a resolver aqui alguns demónios que o humor disfarça, mas que estão cá dentro». Maria Rueff reforça ainda que a escritora foi acompanhando a versão cénica, portanto, o espetáculo não estreou sem ter o cuidado do seu olhar. «Porque, na verdade, isto é biográfico, tanto isto como os cadernos coloniais», refere.
Outro grande pormenor que diz valer a pena ter em conta é o facto de ter a mochila de comediante. «Era uma das minhas grandes preocupações. Não queríamos que se tornasse grotesco, mesmo na maneira como as roupas da gorda são tratadas pelo Dino Alves… Nunca é para pescar gargalhadas gratuitas. O humor é aqui usado de uma forma ácida, para mostrar a dor e não para ganhar gargalhadas. Foi tudo tratado com pinças para que fosse com o tom certo», garante.
Os maiores desafios
Interrogada sobre o que é que descobriu sobre a Maria Luísa durante os ensaios que não estava tão evidente nas leituras, a atriz fala da sua força. «Infelizmente a história repete-se… Estamos aqui numa volta da misoginia, do machismo, de uns partidos de extrema direita… Há uma nova geração de jovens que perfilham essa teoria. Isto não é uma tirada feminista, é uma tirada sempre no sentido da igualdade, de sermos todos de facto pessoas com os mesmos direitos, independentemente do nosso género, opção sexual, religiosa, ou quer que seja. Essa força pode não estar logo evidente no livro… Talvez eu a tenha descoberto em palco com a ajuda da Sofia», explica. «Esse lado de sobreviver a estas várias monstruosidades que lhe foram acontecendo… Ela passou por bullying, por abortos que não são tratados na peça, não conseguia ser mãe, a descolonização, a perda dos pais, já com essa idade, já ter enterrado os dois, ficar completamente sozinha no mundo. A orfandade é uma coisa muito dura de viver, tenha a gente a idade que tiver. Acho que só com o texto no meu corpo é que descobri essa força dela», partilha.
Além disso, as duas revelam que descobriram coisas sobre si mesmas durante o processo. «Eu acho que, ao criar um espetáculo, estamos sempre a levantar perguntas e a descobrir novas facetas dentro de nós», diz Sofia de Portugal. Foi altamente sedutor para a encenadora, o lado da psicologia, da forma como Maria Luísa se começou a analisar. «Isso fui descobrindo também com a Maria. Colocar o espelho… Esse fascínio dela começar a olhar-se e francamente amar-se… Seduz-me esse crescimento de olhar de frente para partes minhas que, à partida, parece que não gosto… Ter a coragem de olhar de frente, investigar. Ter a coragem de ir ver o que é e depois falar com essa parte, crescer com isso… Seduziu-me muito isso, de tal ordem que decidimos mesmo fazer disso um alicerce dramatúrgico, que não é evidente», detalha.
Para Maria Rueff, o maior desafio foi precisamente o mergulho que fez dentro de si própria. «Nós citamos o momento em que ela se separa dos pais em Moçambique. A Isabela veio com 13, eu vim com dois anos. Fiquei com esse trauma. E, portanto, foi difícil. Acho piada, porque a minha filha veio assistir e disse-me: ‘Mãe, estás a contaminar o espetáculo com a tua própria dor’. Ela também é psicóloga… Portanto, talvez o mais difícil foi conseguir deixar de contaminar. Precisei dela para servir a cena, para a construir. Mas, hoje em dia, tenho de citar apenas», conta, comparando-o com o humor que, segundo a mesma, acontece «quando realmente já não se está atafulhado no meio da dor e quando se consegue ver com distância». «E, portanto, acho que todos os dias a Sofia me lembra disso. ‘Não te esqueças de não chorar!’», lembra. Além dessa sensibilidade, a artista refere a brutalidade. «Eu sou muito bruta também… Tenho este lado muito parecido com a Isabela. Sou um carro de combate. E, por isso, às vezes, também não contaminar com demasiada força. Embora ela reaja de peito aberto contra o meninos do ciclo que lhe fazem bullying é diferente do que atropelar os meninos. No fundo, o que foi mais difícil foi arranjar o volume certo para cada cena que eu tenho que servir», acrescenta.
Maria Rueff sustenta o espetáculo praticamente sozinha. E, apesar deste não ser o seu primeiro monólogo «trágico», a atriz admite que é sempre um parto difícil. «A Sofia também esteve comigo quando nasceu a minha filha. Isto é um parto, é sempre um parto. Há pessoas que se preparam, respiram. Eu também fiz essas coisas todas que ensinam às grávidas… Mas na hora da verdade, é pedir a Deus que nasça e depressa! (risos) Na verdade, por mais técnica que tenha, por mais anos que passem, cada vez é pior… A angústia cada vez é pior e a responsabilidade cada vez é maior. Por mais que eu respire, por mais que eu estude, por mais que eu me prepare, que eu ensaie, na hora da verdade é pedir a Deus e fazer nascer», explica.
Felizmente e apesar da forma profunda com que mergulha nas personagens, já se consegue proteger emocionalmente das histórias. «Nós passámos por exercícios difíceis no Conservatório porque justamente a pessoa mergulha na dor e fica ali a chafurdar, e não é isso que depois deve acontecer… Deverá ser sempre a memória ou a impressão que essa dor deixou em nós», esclarece. A comédia ajudou-a muito ao longo destes anos a fazer o exercício de «não levar as dores para casa». «Por exemplo, os meus bonecos cómicos vivem dentro de mim. Volta e meia cito-os, vêm cá para fora como quem tem um papagaio, um cão, ou um gato. Vivem todos à minha volta. Estas personagens mais densas, consigo deixá-las no teatro. Aí sim é prática, são tábuas, como nós dizemos… É técnico», assegura. «Mas há dias que nos descobrimos mais, porque todas as noites o espetáculo é diferente. Às vezes basta uma respiração que nos dá um entendimento de uma cena diferente, e esse entendimento pode estar connosco durante uma semana, pode iluminar também os nossos próprios fantasmas. O tal papel catártico que o teatro tem também ajuda o próprio ator, não só o público», acrescenta Maria Rueff.
A atriz acredita que o teatro consegue proporcionar a um ator uma catarse muito grande. «A comédia é mais evidente, eu já fiz comédias em situações duríssimas e de facto sai-se mais leve, mesmo quem faz. Não é só a plateia que recebe. Na tragédia tenho pouca experiência, mas acho que é isso. Acho que essa catarse é de facto coletiva e, portanto, o teatro é uma arte que cura quem vê e quem faz», sublinha.
Falta de representatividade
Mais do que uma história sobre obesidade, trata-se de uma reflexão sobre a forma como o olhar dos outros molda a identidade e sobre a dificuldade em libertarmo-nos da imagem que construímos de nós próprios. E Sofia de Portugal acredita que as mulheres continuam a ser avaliadas pela aparência física. «E somos cada vez mais padronizados, da pior forma. Eu gosto tanto da diversidade. Acho que é tão bonito… Sou professora de teatro há muitos anos, adoro todos os tamanhos, todas as cores, todos os géneros. A diversidade é a nossa riqueza. Não há duas pessoas iguais. E há uma tendência e cada vez mais, nos tempos que vivemos, de criar padrões que depois geram um padrão mundial. Atualmente ainda é mais perigoso… Não é local, é mundial! A cultura está a ser muito cilindrada. Os nossos ideais, os nossos heróis e os nossos exemplos, de repente, são altamente padronizados, não diversos, afunilados, pouco inteligentes», lamenta. «É quase como se a cirurgia plástica estivesse antecipada à IA. Digamos que a humanidade está a ser toda plastificada antes de vir o imperativo do máximo da plastificação – no sentido de não pensarmos pela nossa própria cabeça –, que é a IA. Portanto, é uma robotização geral. Nós tivemos namorados ao mesmo tempo, crescemos juntas, muito antes de casarmos e termos filhos. E muitas vezes o que nos atraia em alguém, até era um dente fora do sítio, ou uma cicatriz, que hoje é apagada. O padrão não me atrai minimamente», completa Maria Rueff.
A encenadora admite que, por vezes, chega a ficar transtornada. «Escolho atores para fazer coisas e depois a pessoa começa a fazer dieta e eu fico tão tristinha. Mas para quê? Esteticamente, verdadeiramente, gosto. Gosto disso, acho que é um perfeito disparate», frisa. «Era o mesmo que obrigar a natureza a ser toda uma tangerina. A partir de agora só há tangerinas e peras», brinca Rueff.
As amigas acreditam que, neste meio e enquanto artistas, a única forma de combater tudo isso é manifestarem-se através de obras destas. «E, contra a ignorância, combater com quotas. Sou mesmo a favor! Cada projeto tem que ter, pelo menos, duas pessoas diferentes. Tem que ter, pelo menos, metade mulheres. Eu percebo que isto possa parecer horrível, mas eu tenho o meu lado professoral, e acho horrível não haver oportunidades para todos. E, portanto, contra a ignorância, quotas! Sobretudo quando falamos de uma produção que é financiada pelo Estado. Tem de haver quotas e a obrigatoriedade de haver representatividade de todas as partes», defende Sofia de Portugal. No entanto, para Maria Rueff, há que ter atenção na forma de se fazerem as coisas: «Essas pessoas não devem ser tratadas como animais do circo. Faço-me entender? Porque às vezes há esse perigo. ‘Temos de ter um preto, um homossexual e uma gorda. E atores velhos e atores novos, com certeza’».
Uma das grandes falhas do meio, no ponto de vista da encenadora, é a forma como os atores seniores são vistos e tratados. «Tu olhas para a televisão e vês meninas de 35 anos a fazer papéis de 60. Isto é absurdo! Deveria haver legislações como há noutros países… Defender que os projetos têm de ter atores de todas as idades!», acredita. Ou seja, combater a ideia do «prazo de validade». «É uma coisa sinistra! Nós, na arte, temos todos os meios desde que não sejamos regidos por pessoas ignorantes, que as escolhas não estejam nas mãos de pessoas que não pensem. Porque é isso que acontece, não é? Seguem a lei do mercado e não a ideia de que a televisão tem de ser um veículo de informação, de formação, tem de ter princípios, tem de ter propósitos. Não pode imperar só a lei do mercado», reforça.
Para Maria Rueff há também aqui o imperativo das redes sociais: «As novas gerações são bombardeadas com críticas, as tais críticas cobardes, porque é muito fácil criticar atrás de um ecrã. Falamos agora muito do Body Shaming, e vejo a dificuldade que deve ser para um adolescente…. Porque nós falamos de mulheres, mas não são só as mulheres que estão expostas a isso. Os homens também vivem isso, portanto, é terrível», lamenta. «E o que é que poderíamos fazer para melhorar? Eu acho que tudo o que é ficção poderia ajudar. Nós que pensamos em arte, em ética, estética… Deveríamos pensar que as nossas ficções deveriam ser visitadas por todos os corpos, porque é fundamental. Nós podemos ajudar a mudar as mentalidades. Agora temos que estar preocupados com isso», acrescenta Sofia de Portugal.
Além disso, existe a ideia errada de que «são os corpos bonitos que vendem». «Isso não é verdade! Há atores que enchem a boca: ‘Ah, isto é tipo Avenida Brasil!’. Não é verdade! As Avenidas Brasil tem, claro, dois ou três atores muito bonitos, mas é sustentado por atores muito bons, muito mais velhos. É isso que começa a perigar a ficção portuguesa!», alerta a atriz. «Houve tempos em que víamos o Nicolau Breyner, a Maria do Céu Guerra, a Eunice, etc. Hoje em dia já se vê muito pouco. Ou fazem por norma de campónios ou de empregados. Quer dizer, é profundamente injusto. A gorda é sempre a coitadinha, a amiga. A gorda, tal como diz a música da Garota Não: ‘Só aparece para perder calorias’. Os projetos têm de ser pensados de raiz, tem de haver um propósito. E é também um trabalho de casa, de educação, dos nossos filhos», acredita, contanto que a sua filha passou pela adolescência há pouco tempo, e queixava-se muito de alguns pais terem esse discurso com as próprias amigas. «De umas mães dizerem: ‘Estás a ficar muito gorda! Tens de fazer dieta! Não queres ir por mamas?’. Portanto, é isto que se passa em Portugal. As próprias mães que já estão a Xanax, porque já não são amadas, porque são trocadas por uma senhora mais nova plastificada, perpetuam estas ideias. Isto já é muito difícil desmontar. Isso é uma tragédia! Portugal, neste momento, é dos países onde as pessoas mais estão medicadas com ansiolíticos e antidepressivos, quando éramos um povo tão feliz… A psiquiatria da Estefânia, já não tem lugar para pessoas que tentaram suicídio. Estamos a falar de crianças! Temos que rapidamente pôr a mão nisto. Voltar à frase: ‘Gordura é formosura!’», remata Maria Rueff.