Leitora voraz. Douta, majestática, protocolar, respeitada, temida, intolerante face à miséria intelectual e ao actual Acordo Ortográfico, contra o qual ferina e convictamente se bateu, Maria Alzira Seixo morreu na madrugada da passada terça-feira, em Lisboa, aos 84 anos. Da sua personalidade se pintaram desencontrados retratos. Houve quem, por sua causa, tivesse dado costas às Letras e quem, por sua causa, desistisse do curso de Economia para ingressar no curso de Letras. Amada e odiada, reinou com brilho no domínio dos estudos literários, deixando uma obra, no campo do ensaio, situada em elevado plano de exigência. «Poéticas da Viagem na Literatura» (Cosmos, 1998) ou «Outros Erros – ensaios de literatura» (Asa, 2001), distinguido com o P.E.N. Clube de ensaio, são dois exemplos à mão. Tendo-se dedicado especialmente ao estudo das literaturas portuguesa e francesa e à literatura comparada, esferas em que a importância do seu ensino e o reconhecimento da sua investigação literária galgou o perímetro nacional, presidiu à Associação Internacional dos Críticos Literários e à Associação Internacional de Literatura Comparada, cargos a que somou inúmeros outros.
Foram décadas de entrega generosa e intensidade apaixonada, vertidas em aulas, palestras, conferências, comunicações académicas, dentro e fora de portas, em diversas universidades (Poitiers, Chicago, Santa Barbara, John Hopkins), ensaios, textos críticos, prefácios, verbetes, artigos de jornal – sempre de costas voltadas para aquele teor democratizante que nivela as coisas por baixo.
Era insensível ao beija-mão: a sua coroa fora forjada fora da zona da lisonja, do câmbio dos favores; longe dos resultados medidos em acelerado número de papers. Antes no valor do trabalho, de rigor cirúrgico, exigente, empenhado, paciente, aberto à possibilidade de longamente ruminar uma ideia, perseguir uma hipótese eventualmente sem resultado, sem que isso significasse desperdício, perda, gasto, vanidade. Uma promessa de avanço, por vezes gorada, e ainda assim um triunfo. Seduzia-a o passo como unidade mínima de sentido, a possibilidade do recuo transformador, o gosto do desafio e do risco, a fazer da análise do texto «razão de vida», na adaptada formulação de Ruy Belo. Mas também o erro, que guindou a categoria heurística. Havia, aliás, na sua perspectiva, «um saber do erro», tendo confessado que no longo convívio com a literatura e a arte aprendera muito mais com «fabulosos erros herdados e incessantemente revisitados na sua fascinante e inesgotável fecundidade, do que com muitos acertos de correcção garantida, ou com resultados adquiridos de inequívoca e admirável solidez».
A sua prática ensaística, de atenção acesa e invulgar poder incisivo, caracterizou-a ela mesma: digressiva (ou dispersiva), atenta ao apelo de uma força centrípeta: o tempo. O tempo sempre teve, aliás, um importante papel a jogar no seu percurso que inicia justamente com a publicação do ensaio «A Expressão do tempo no romance português contemporâneo» (1968), sua tese de licenciatura em Filologia Românica. Certamente não por caso, Em busca do Tempo Perdido, de Proust, era o livro da vida desta académica, doutorada em Paris, na École Pratiques des Hautes Études onde foi aluna de Roland Barthes, que lhe coorientou a tese, e de Greimas, tendo tido a oportunidade de frequentar as aulas de Todorov e de Julia Kristeva, de Jacques Lacan.
O estudo do trabalho literário de dois autores de presença canónica na literatura portuguesa, José Saramago e António Lobo Antunes, veio definitivamente pôr-lhe nas mãos o ceptro que fora já de Jacinto do Prado Coelho e David Mourão-Fereira, seus professores. Se ajudou a nobelizar o primeiro, dicionarizou o segundo, dirigindo os dois volumes da IN-CM (2008). Este ceptro, incapaz dessa prática que é o cafuné crítico, espécie de afago capaz de amenizar as agruras da vida literária, não recuava diante da cabeça abstrusa. Nem hesitava em carregar onde mais doía: a sobreposição dos valores da indústria aos valores da cultura, não perdendo a oportunidade de relembrar o papel de um editor: um humanista, uma figura que não sobrepõe o dinheiro ao valor do livro; a qualidade do ensino. A chave do nível de cultura dos portugueses residia, em seu entender, num ensino de qualidade, da escola à universidade. Se existe uma substancial fatia de portugueses pespegados aos programas da manhã do Goucha, disse, o sujeito de culpa não é de quem luta por audiências, que faz o que lhe cumpre, mas do nosso ensino, incapaz de os desinteressar de um produto de muita fraca qualidade.
Com o mesmo ceptro que dava pancada vigorosa, a Professora puxava para os projectos que coordenava figuras maiores da nossa academia, assim aconteceu com a célebre colecção Textos Literários, da Editorial Caminho, com participação de Luís Miguel Nava, Manuel Gusmão, Carlos Reis ou Abel Barros Baptista, mas também estudiosos menos conhecidos que acolheu na Colecção António Lobo Antunes / Ensaio que dirigiu na Texto Editores, da Leya. A literatura, para Maria Alzira Seixo, nunca foi um domínio dividido em leiras, ou canteirinhos, com cercas à volta, espécie de feudos.
Os colóquios não eram para Maria Alzira Seixo um desfile incontinente de sabenças atiradas a um público dormitante. Nem a apresentação de livros necessariamente um lugar onde apresentador e apresentado trocavam sorrisos e reciprocavam elogios, sem expressar uma reserva, tomar uma distância, apontar uma imperfeição, comunicar um desagrado, uma reticência, podendo mesmo transformar-se num lugar de reparo, crítica frontal, capaz de embaraçar o apresentado. É também nestas coisas que se vê o metal de que esta académica era feita.
Professora catedrática aposentada da Faculdade de Letras Universidade de Lisboa, que entre 1996 e 1998 dirigiu, ali exerceu o seu principal ofício de professora. No caso desta académica, o ensino transcendia os limites estreitos e convencionais da sala de aula. São em número abundante os que se consideram seus alunos sem nunca terem passado pelos bancos da Faculdade de Letras, onde aliou harmoniosamente o ensino, a investigação literária e o ensaísmo, construindo uma obra vasta, sólida, de uma comunicabilidade dominantemente límpida.
No ano em que se preparava para se aposentar, pôs mãos a um trabalho de grande envergadura, publicando um volume de grossa lombada (650 páginas), laboriosamente escrito ao longo de um ano e dedicado a um autor sobre o qual nunca tinha trabalhado: «Os Romances de António Lobo Antunes» (2002), quinze até então publicados. Com um tal gesto, sinalizava que a aposentação não era vontade esvaziada de sentido ou desistência, nem significava o abandono do trabalho, cujos bastidores nos deixava por vezes entrever e que nunca recobria com vernizes românticos: «Céus, o que custa fazer uma tese, escrever um poema, o que custa também fazer uma simples recensão crítica, para a qual incessantemente partimos desarmados, inocentes, de olhos vagos e desprevenidos». O sub-título daquele livro dedicado ao autor de As naus, por cuja edição ne varietur foi responsável, com restauro e fixação dos textos do escritor – Análise, interpretação, resumos e guiões de leitura – diz bem de uma força expansiva que bem poderia ser a da vitalidade da autora ou a da vida agindo sobre ela, numa deriva controlada com frequentes lances de cintilação. A doença de Alzheimer veio travar-lhe o labor infatigável.