quarta-feira, 09 set. 2026

Luísa Costa Gomes: ‘Olho para muitos dos meus livros como se tivessem sido escritos por outra pessoa’

Assume que há contos seus de que não gosta e que até teria vergonha de incluir numa antologia. Filha de um piloto da Força Aérea, estudou no Instituto de Odivelas, onde foi muito infeliz. ‘Odiei, mas reconheço que foi uma boa formação’.
Luísa Costa Gomes: ‘Olho para muitos dos meus livros como se tivessem sido escritos por outra pessoa’

Declinada em romances, livros de contos, peças de teatro, guiões, crónicas, libretos, livros para crianças, a obra literária que Luísa Costa Gomes, desde o começo da década de 80, tem vindo a construir define-se também pelos seus desapegos, as suas recusas, as suas aversões: o convencional, o canónico, o lugar-comum, o solene e as formulações herdadas do protocolar. O libreto que escreveu para a ópera Relicário Perpétuo, que encerrou as comemorações oficiais do V centenário do nascimento de Camões e que voltará a subir à cena em setembro, no Teatro Nacional de S. João, é um exemplo claro da troca da reverência excessiva e tantas vezes estéril pela ousadia do empreendimento útil.

Divertimentos, acabado de publicar na Tinta-da-China, é o seu mais recente livro, voltado para a gente nova. 

Divertimentos, com ilustrações de Jorge Nesbitt, marca a sua entrada no catálogo da Tinta-da-China. É uma retirada da Dom Quixote, onde há muitos anos publicava?

Já há uns tempos que andava a namorar a Tinta-da-China, que eu acho que tem uns livros muito bonitos, e às vezes as razões são tão simples como invejar a beleza dos livros... Não houve nenhum conflito com a Dom Quixote, colaborei com a Cecília Andrade trinta e tal anos, somos amigas, deixei lá alguns livros, aliás a última colecção de contos saiu há pouco tempo. Antes de parar na Dom Quixote publiquei em cerca de dez editoras, comecei na Bertrand, passei para a Difel e Quetzal com a Piedade Ferreira, publiquei muito episodicamente na Relógio d’gua, na Cotovia, na Assírio, etc. Sempre me fez uma certa confusão a exclusividade...Mas sei que isso foi mal visto pelos editores, que investiam e promoviam, até internacionalmente, mais os autores ditos ‘da casa’. Isto foi nos tempos em que havia essa preocupação.

Essa última colecção de contos, publicada pela D. Quixote, Triunfo do triunfo, abre com o conto homónimo, escrito há cerca de duas décadas, mas mantendo uma actualidade inquietante: a banalização das reuniões, dos projectos, das carreiras brilhantes sempre em vias de se fazerem, a importância do sucesso, a via rápida das juventudes partidárias, a cultura municipal...

Foi escrito em 2007. Ao relê-lo, achei curioso que, estando nós bastante mais degradados, não estamos assim tão longe. O que temos hoje começou aqui – até mais remotamente. O ambiente ‘cultural’ que aqui se respira – e então hoje com o domínio da extrema direita bronca, que chega a níveis de delírio – é perfeitamente reconhecível. O título do livro é uma expressão completamente vazia porque significa que o que triunfa não é o trabalho, o mérito, mas o triunfo completamente balofo, oco, vazio, em que vivemos numa sociedade que adora triunfos mas triunfos que não estão ligados com coisa nenhuma que se possa considerar digna desse nome. Queria mostrar um pouco uma atmosfera generalizada de concurso de televisão: há uns grandes entusiasmos e nós, diante daquelas coisas mínimas, não conseguimos perceber porquê. Se este entusiasmo todo fosse posto ao serviço de qualquer coisa de útil, de criativo, que sociedade produtiva teríamos.

Há uma personagem que, a propósito de um projecto, é convidada a preencher um formulário no qual regista ‘Cultura e Desporto’, assim amalgamados. É uma coisa profética, se pensarmos no governo de Luís Montenegro.

Sem dúvida [risos]. Para nós, em 2007, isso era uma coisa totalmente impensável. A ideia da cultura e do desporto, à maneira fascista, da gestão dos espaços culturais, quer dizer, gimnodesportivos, tem a ver, curiosamente, não com o primeiro governo cavaquista, mas com o primeiro governo em que há um Ministério da Cultura, e em que se começa a falar de uma indústria da cultura, e em conteúdos culturais – tudo isso era uma linguagem aberrante para a minha geração. A noção de equipamento cultural, a noção de formação de público, que hoje se transformou numa coisa perfeitamente banal, na altura, estava a formatar-se a cultura nesses parâmetros.

A expressão já é bastante reveladora...

Era o império dos formatos. Comprava-se o formato e adaptava-se. Do ponto de vista da cultura (vamos continuar a chamar-lhe assim), era o início de uma figura terrível, que é a figura do gestor cultural. Isso significava para mim uma total inversão do que é escrever, encenar, interpretar, tudo ligado à criatividade pessoal, a um projecto de escrita. O que se passou a fazer foi a criar uma cultura municipal em que o gestor cultural, ou no caso dos vereadores da cultura, é que determinavam, no fundo, qual era a oferta cultural. O que também aconteceu no mundo dos livros. A FNAC e a Bertrand passaram a ser agências culturais a determinar o que é que o escritor ia escrever. Havia coisas que não se vendiam, portanto não valia a pena escrever. Quando isto começou nos anos 90, final dos anos 80, ainda existia uma teoria segundo a qual havia lugar para tudo. Muitas pequenas editoras, o que faziam era publicar livros de grande circulação para depois conseguirem pagar livros que não se vendiam, ou se dizia que não vendiam. Só que isso funcionou durante um tempo, até, por exemplo, aparecer a Leya e abarbatar-se com todas as editoras. Há uma cada vez maior homogeneização industrial da criação cultural.

As figuras e os lugares-comuns da municipal vida cultural surgem também num dos Treze contos sobre água, que tem o significativo título de ‘Redondilha’. Lá temos o escritor, entalado entre frases de circunstância, arrazoados que passam por culturais, medidas velhas e os presidentes das juntas de freguesia, com as suas rivalidades, as suas quezílias. É uma fixação?

Sim, é a ideia de cultura como consumo. E também escrevi várias crónicas sobre o tema porque achei uma inversão tal, le monde à l’envers, as coisas todas de pernas para o ar. Os próprios concursos públicos. A ideia de que uma peça de teatro pode ser considerada uma obra pública, e avaliada. Foi o que se passou também com a avaliação dos professores. As pessoas não têm de ser avaliadas, mas aparentemente faz parte de uma configuração social, económica e cultural. Gosto muito de citar o Tao Te Ching: ‘quando o tao desaparece, entra o bem e o mal’. E de facto é verdade. Quando desaparece a graça, o sentimento de que estamos longe do bem e do mal, e das dicotomias da formação de público, perdeu-se essa graça.

Mas parece-lhe que, de algum modo, os artistas, os escritores têm cedido?

Mas não é uma questão de ceder ou não ceder, é uma questão de comer ou não comer. Se houver a percepção de que a tua tarefa artística não tem recepção...Por exemplo, o meu último livro de contos [Visitar Amigos], procurei traduzi-lo, procurei editora... em vão. ‘São muito bons mas não se vendem’, foi o que me disse a agente literária com quem eu falei. A editora a mesma coisa. Há aqui uma contradição bizarra, em que há uma formatação que é ela própria ideológica, no sentido mais lato do termo, dentro da qual se escreve. O público formata o escritor e o escritor formata o público. É como ter um polícia dentro da cabeça. E depois há uma total falta de preparação das pessoas que estão naqueles cargos. Não é um vereador da cultura que vai determinar quais são os fundos que vão ser alocados ao festival do tomate ou ao grande festival do conto literário de Adalouca da Beira. Normalmente, são as pessoas que lá estão e que têm essa tarefa artística. Mas é verdade que a quantidade e a qualidade de coisas que estão a acontecer no país não tem nada a ver com as décadas em que nada existia. Foi muito importante a criação dos teatros municipais.

Parece pairar sobre o conto o estigma da obra menor, como se fosse praticado no intervalo da produção romanesca, para manter a forma.

Sim, houve sempre essa ideia, mas com alguma razão de ser. Embora a duração não seja critério de coisa nenhuma, há um empenhamento, há uma duração que pode fazer elevar um pouco a dignidade do texto. Para mim também não faz propriamente muito sentido, mas há uma tradição de um certo menosprezo de géneros; não só do conto, como do género satírico e tudo o que tenha a ver com comédia, mas isso é o velho Aristóteles que ainda anda a fazer das suas.

Na contracapa deste Triunfo do triunfo, assume as escolhas, os contos de que ainda gosta e que não se envergonha de assinar, como se outros tivessem perdido predicados. O que é que poderia fazer com que tivesse vergonha de os assinar?

A primeira coisa de que me envergonharia era voltar a incluí-los numa antologia. Não que eu os enjeite, mas tendo de ter uma seleção muito apertada de textos para este livro, há uns que me parecem mais interessantes que outros. Por exemplo, o próprio conto ‘Setembro’, que deu título ao livro e já tem praticamente vinte anos [Setembro e Outros Contos], é um conto que considero falhado desde o princípio, que não consegui controlar, de que não gosto. Assim como o conto ‘Que’, que foi escrito de encomenda para uma edição comemorativa d’Os Lusíadas, com uns desenhos muito bonitos do Pedro Proença. É um conto que tentei reescrever, mas que nunca foi nada. Ao contrário, há um conto de que sempre gostei muito mas que nunca percebi, ‘O Amante Natural’. Reescrevi-o, cortei bastante, e finalmente tornou-se mais claro aquilo que está em jogo naquele texto.

Há nos seus livros constantes que se desenharam cedo, em boa verdade logo no livro de estreia, Treze contos de sobressalto, que representou um saudável abalo na ficção que por cá se produzia: a camoniana virtude do muito imaginar, uma certa indefinição entre realidade e ficção, ou ilusão. Há aspectos que foram ficando para trás, que foi abandonando?

Há aspectos de que fui desistindo um pouco, eram talvez mais artificiosos, não faziam parte das minhas preocupações. Quando somos novos temos muitas preocupações que achamos que devemos ter, para mostrar para a galeria que sabemos e temos algum mérito. Mas penso que as preocupações sempre visíveis têm que ver com a vida interna, a educação das crianças, que é uma das grandes zonas de paradoxos e de contradições, e incerteza em que nós narcisicamente estamos investidos e pensamos que sabemos muito mais do que sabemos. A infância é um tema permanente, mas também a ideia da realidade e da ficção como algo interchangeable, o que faz com que estejamos sempre a aferir as regras das coisas, ou seja, a pergunta é permanente: o que é que se está a passar agora à frente dos meus olhos? E depois o paradoxo, a noção de que as coisas podem ser – e muitas vezes são – verdade e falso ao mesmo tempo, sob a mesma perspectiva, o que dá aos textos sempre uma atitude razoavelmente combativa e crítica em relação àquilo que se vê. Como se houvesse um véu na realidade que, de vez em quando, rasga ou levanta, permitindo-nos ver qualquer coisa que depois esquecemos, um vislumbre. Aquilo que Platão chamava a reminiscência. No fundo, sabemos sem saber. Acho que nas minhas personagens buscam uma certa revelação do sentido disto tudo, como se houvesse um momento em que as coisas fizessem sentido.

É uma coisa muito presente nos Treze contos sobre água.

Porque esses contos rodam muito em torno da paixão e a paixão é uma espécie de ilusão de sentido. Como toda a tua percepção, no teu estado passional, é elevada, como se vivesses em realidade aumentada, ficas com a ilusão de que tudo o que sabes nesses momentos é espiritual, é místico, tem um sentido mais elevado. A realidade parece maravilhosa e a cores. Tudo ilusório.

E o humor, aquele génio humorístico que é estrutural na sua escrita, acompanha-a desde miúda?

Sim, já no colégio era muito ‘a palhaça’. E fui várias vezes castigada por fazer palhaçadas. Sempre adorei fazer rir – adoro, aliás. Tenho uma costela de comediógrafa, é inexplicável, nem sempre apreciada. E acho graça às pessoas que me acham graça, o que não é comum. Há diversos tipos de humor que passam por arrogância, por insolência, desprezo pelos outros. E eu nunca percebi isso. Depois, começaram a dizer-me [risos]... eu não fazia por mal. 

O Instituto onde estudou não seria propriamente o local ideal para exercitar essa sua costela...

Sim, estudei no Instituto de Odivelas, que foi criado para filhas de oficiais órfãs de guerra. Depois, foi expandindo, foram entrando as filhas dos sargentos que não tinham acesso ao curso dos liceus. E entretanto alargado às filhas dos militares. O meu pai era piloto da Força Aérea, foi para a guerra em 1960, e eu fiquei com os meus avós; depois foi para a NATO e eu fui para o colégio. Em termos académicos, era o melhor colégio do país. Tinha alguns problemas graves, como um autoritarismo maluco. E tinha uma religiosidade extrema. As vigilantes eram civis, quase freiras laicas, o que é muito pior... Mas tinha um currículo académico extraordinário, diferente do do ensino cá fora. Do 1.º ao 5.º ano, o currículo incluía latim, bordados, costura, canto coral, religião e moral, culinária. Podes calcular qual era a minha taxa de sucesso [risos]. Curiosamente, depois, aos quinze anos, comecei a fazer a minha própria roupa.

Esse regime de internato, muito violento, deixou-lhe marcas?

Deixou marcas no romance Florinhas de Soror Nada, que tem alguma coisa de Odivelas, onde se estudava das oito da manhã às oito da noite. No fundo, tive uma vida de filha de oficial de carreira. A minha família estava sempre na guerra. Passei a viver com os meus pais lá para os 18 anos. Estive no colégio até ao 5.º ano, sempre muito infeliz, mas depois no liceu de Oeiras durante dois anos não foi preciso estudar. Odiei o colégio, mas reconheço que foi uma boa formação, também ao nível da disciplina de trabalho, sacrifício... Se uma pessoa sobrevive àquilo tem mais capacidade de sobrevivência [risos]. E eu considero-me um pouco uma sobrevivente.

E no entanto continua a querer escrever comédia...

Cada vez mais. É uma coisa que faço com alguma espontaneidade, mas não é muito fácil escrever comédia. É preciso ter o sentido sempre muito afinado, para manter o valor literário. A escrita de teatro, onde escrevi comédia mais consistentemente, fez-me aprender bastante. Por exemplo, o conto ‘Sonho do cão’ é um conto cómico, no sentido Kafkiano do termo. Kafka quando lia contos dele aos amigos rebolava-se a rir perante obviamente o ar perplexo e embaraçado, imagino eu, dos amigos. Esta personagem quer o cão mas percebe que vai ser dominada pelo cão. Por vezes desejamos coisas que não desejamos de facto. É uma fantasia sobre um desejo, um cómico um tanto patético.

Divertimentos, o novo livro, é uma colecção de poemas, textos de nonsense, jogos fonéticos, glosas de trava-línguas populares. A literatura para crianças e jovens (a designação, muito contestada, é controvérsia) é talvez o ramo que mais desconsideração tem enfrentado. Há escritores que se queixam, por exemplo, de serem apresentados como ‘autores infantis’...

Isso faz sentido do ponto de vista da editora e do livreiro. O infanto-juvenil ainda é uma categoria que vende. Ainda é das poucas categorias etárias que continua a subir porque tudo se inclui nessa categoria, como por exemplo os livros para colorir, os livros de mandalas. É um mercadão! [risos]

O livro incluí-se naquela categoria a que gosta de chamar ‘livros para todos’. Destina-se não apenas aos mais novos, mas a quem o quiser ler. E a verdade é que poderá servir a miúdos e a muito graúdo. Penso, por exemplo, no texto ‘A perda’, centrado no uso do telemóvel.

Se não o temos é como se nos faltasse um braço. É raro, mas quando me esqueço dele em casa, sinto um grande alívio. Há aquele primeiro momento de pânico, mas depois vem a sensação de liberdade. Esse texto é bastante revelador do que o telemóvel te leva a fazer. E sobretudo daqueles professores que o querem incluir na pedagogia. O grande paradoxo didáctico é a inclusão da tecnologia na sala de aula para de certa maneira apajar, fazer a vontade à dependência tecnológica dos pais e das crianças e, ao mesmo tempo, com uma crítica feroz a essa dependência, o que cria nas crianças um double bind, uma coisa quase psicótica: em casa, cada um no seu telemóvel, mas eu é que não posso ficar dependente?

Há muito que não escrevia para a gente nova, um público bastante exigente...

Desde 2009, creio. As crianças são muito mais exigentes porque ainda não estão habituadas a ler. Quando nos habituamos a ler há uma série de coisas sobre as quais passamos, como se não estivessem lá, porque os protocolos já estão interiorizados. Só percebemos os infinitos protocolos da leitura quando há alguém que não é sensível a esses protocolos. Tinha um amigo que me dizia que não conseguia ver cinema porque não percebia as elipses. Não percebia que uma pessoa que estava cá em baixo a abrir a porta do carro era a mesma que abria a porta lá em cima, na cena seguinte. Há neste livro um texto que só mais tarde percebi que era bastante terrível: ‘Quem gosta de quem e do quê’. Apareceu-me todo de uma vez, assim sem razão. A ideia é um topos clássico, as correias de amor não correspondido. Parecia uma reivindicação da liberdade mas, se lermos bem, é o exacto oposto. Primeiro, vais um pouco pelo som e pelo divertimento, pelo nonsense, a brincadeira, que é muitas vezes o que acontece nas coisas para crianças em que desbloqueamos um tipo de energia e de criatividade que está mais controlada noutros campos.

O texto de abertura, ‘Qu’apitão!’, entra-nos pelo ouvido e pode levar-nos a territórios muito variados, e até à praia. Das concessões tem-se ouvido um apito, «um apito não, um apitão», como no seu texto. Quem é que apita nas praias do país? O que lhe parece a ideia do uso privado destes espaços?

Acho uma coisa absolutamente escandalosa. Mas sinto que há uma impotência generalizada em conseguir travar as imoralidades, os escândalos absolutos, a total destruição de tudo o que é valor colectivo, de solidariedade, direitos das pessoas. Parece que está tudo aberto para o saque. Aqui, na Costa da Caparica, esse problema já existia, porque as praias são públicas mas os caminhos até às praias já eram privados e, portanto, os estacionamentos passaram a ser pagos, mas se fores a pé já é público, por enquanto. Quando Tróia começou a ser aquilo que é hoje, era uma questão de tempo até se transformar numa ilha praticamente privada.

Os concessionários têm-se defendido com as suas responsabilidades legais, sobretudo a nível da segurança e da vigilância, da limpeza. É a eles que cabe garantir a contratação de nadadores-salvadores, a limpeza da área – tudo a implicar custos, é o que argumentam. 

Será justo que os concessionários tenham as suas compensações, mas já é uma grande compensação ser-se concessionário numa praia. É que do ponto de vista dos empreendedores, parece que é tudo custo e que não há benefício. Aqui na Costa, é um benefício brutal: cada vez mais gente que consome mais. O nosso empreendedor, à boa maneira neoliberal, é aquele que considera sempre que está a gastar, mas que não recebe nada em troca, porque é o empreendedor que ainda é corporativista, está pendurado no Estado. A nossa economia neoliberal sempre foi toda a gente pendurada no Estado, que é donde vem o grande capital, até o secarem. E agora, com Donald Trump, vemos a apoteose do assalto ao Estado.

Era um desastre já anunciado...

Quando pões as pessoas em determinadas situações em que entram e saem do Estado – como o próprio primeiro-ministro com o escândalo absolutamente repugnante da dita Spinumviva – é o que acontece. O que acho curioso nestes últimos tempos é que a administração Trump nunca foi tão transparente. Quando ele diz: ‘os sauditas deram-me um avião’, é um corrupto que não esconde a corrupção. É uma total inversão de valores. Quando Trump foi eleito da primeira vez, e começou o disparate, aquilo que eu entendi é que era uma espécie de sistema virado do avesso: aquilo que estava escondido passou a estar visível e, portanto, aquilo que era necessário era banalizar o visível; tornar completamente banal que uma pessoa possa trocar favores com os investidores – não subscritores – da sua candidatura.

Como é que se luta contra o despudor absoluto? 

Como é que lutamos contra alguém que já está para lá de Marraquexe? Continuando a apresentar os factos. E é verdade que sempre que se apresentam os factos, das últimas vezes, o homem levanta-se e sai, não aguenta nenhum contraditório. O que eu acho mais extraordinário é que diante da mentira (Trump mente sempre, tal como os primeiros-ministros na Europa, que mentem permanentemente) as pessoas continuam a acreditar porque há todo um sistema de media que vive disso, com todas as suas turbinas a funcionar. Na política, perderam todos o compasso moral, toda a moralidade se ausentou. No caso de Trump, ele lança a rede e as pessoas estão sempre a mamar naquele esgoto. Era um desenvolvimento espectável do que se estava a preparar. Agora estou muito mais desperta para a configuração social e cultural do Estados Unidos como geradora deste tipo de conflitos. A sociedade americana desde sempre, desde aquele pioneirismo de destruição e alargamento, colonialismo dentro do próprio território, é uma sociedade que tem o seu posto avançado nos filmes, nas séries, em que o conflito, a destruição, a violência, o terror, a violência psicológica – sobre as mulheres, crianças, os fracos – é uma constante. 

Passemos das praias de Portugal para a «lusitana praia» e de Donald Trump para Camões, sempre ficamos mais bem acompanhadas. Escreveu o libreto da ópera Relicário Perpétuo, com música de Luís Tinoco, que encerrou as comemorações oficiais do V centenário do nascimento de Camões e que voltará a subir à cena em setembro, no Teatro Nacional de S. João. Diria que o título cheira a mofo [risos]...

Foi um trabalho de algum risco, mas que me deu um imenso gosto fazer. Para mim, foi extraordinário conhecer a obra de Luís Tinoco e a pessoa maravilhosa de Luís Tinoco. É mensch, e é tão difícil encontrar uma pessoa assim. Foi um trabalho bastante único, estávamos todos em sintonia, razoavelmente divertidos e empolgados. Depois, há muitos compositores que fazem a sua coisa, dê lá para onde der; Luís Tinoco não, a música faz brilhar o outro, é de uma generosidade incrível. O que eu senti, ao ver o espectáculo, era que tudo aquilo que eu fazia em comédia nunca era menorizado, nunca era de uma forma que pudesse rebaixar o outro. Camões nunca sai rebaixado, pelo contrário. A ópera é talvez uma elegia cheia de compaixão por aquele poeta multifacetado que nós, pela nossa limitação, queremos meter numa caixa fechada. E há sempre coisas que sobram, que não cabem nessa caixa, como as cartas que nos trazem um Camões completamente fora da caixa.

Foi difícil decidir o que fazer sobre Camões que não tivesse sido feito ainda? Talvez nunca a convenção, contra a qual sempre luta, se tinha imposto com esta força. Como fazer de Camões uma relíquia viva?

A ideia do relicário era curiosamente uma ideia antiga. Quando comecei a ler, a investigar, comecei a ficar preocupada com a tarefa que tinha pela frente, comecei a perceber que a peça já estava escrita antes de eu a escrever. Antes de a fazer, já a estava a ver, e isso é a morte do artista, não me interessa nada estar a escrever uma coisa que está escrita. Fiz uma pausa e lembrei-me de um projecto bastante antigo que se chamava justamente relicário perpétuo e cuja ideia era esta de ir buscar, aqui e ali, pequenas sinédoques. Percebi que havia muitas partes de Camões que não estão estudadas, e havia que ter o cuidado de ressalvar a totalidade da obra. E de que maneira é que vamos recuperar uma obra do passado para fazer com que ela hoje faça sentido.

Camões, essa peça central do nosso sistema literário e cultural, tem de lutar aqui pelo seu lugar no cânone, com o qual mete conversa...

Não se consegue tirar a ideologia do cânone e é disso que eu também falo. À majestade agrada o grande que a majestade engrandece. Não há reis que gostem de sátira. Gostam de elegias, epopeias, coisas heróicas que os façam fazer boa figura.

Houve leituras que a tivessem ajudado, que lhe tivessem apontado algum caminho durante o tempo que trabalhou neste libreto?

Sim, foi importante a leitura do livro do Carlos Maria Bobone [Camões – vida e obra, 2024]. E o Helder Macedo abriu-me uma perspectiva que penso que foi extremamente produtiva para o libreto porque, no fundo, o que quis indicado é uma de cada dessas grandes partes do corpo da obra de Camões (não é por acaso que ele de vez em quando aparece sem um pé, sem um olho, depois é o outro olho...): a épica, a lírica, a parte dramatúrgica, a parte epistolográfica. Achei que aquilo que eu podia fazer era pegar em bocadinhos do corpus de Camões e traduzi-lo de uma forma dramatúrgica, com consistência.

Que parte de Camões a surpreendeu mais?

A parte das cartas intrigou-me imenso. E há uma coisa que o Helder Macedo diz e me interessou imenso e que é uma pena não estar estudado: a língua de bordel. Há uma carta em que Camões se queixa das prostitutas na Índia porque elas não se expressavam naquele falar codificado, elegante, sofisticado e que, por isso, são uma decepção. Estes aspectos eróticos e de excitação da linguagem, usada de forma desviada da sua realidade, pareceu-me uma avenida de investigação muito interessante, que para mim foi uma revelação. 

Terminemos com o vate. No canto X, há aqueles versos célebres: «Vão os anos descendo, e já do Estio/ Há pouco que passar até o Outono». É uma das passagens mais melancólicas do Poema, onde Camões reflete sobre a passagem do tempo, o peso da idade. Desta altura da vida, que olhar é que lança aos seus livros? E a ideia da morte, inquieta-a?

Para mim, é completamente pacífico. Preocupei-me excessiva e obsessivamente com a morte quando ela não tinha qualquer realidade, quando era muito miúda, na adolescência sempre fui uma pessoa muito assombrada pela ideia da mortalidade. Depois, começam a nascer os filhos e a vida começa a ser a vida. Curiosamente, transferi muita da preocupação com a morte para a preocupação com a vida dos meus filhos, até muito tarde. Depois, há um momento em que a morte se torna uma coisa concreta. Ensaias algumas doenças um pouco mais borderline e percebes que isto não tem nada que saber, a menos que seja uma coisa muito dolorosa. A dor e o sofrimento são uma malfeitoria, uma coisa perfeitamente aleivosa. Mas olho para trás, para os meus livros, como se grande parte deles tivesse sido escrita por outra pessoa. Não estou ligada ao passado dessa forma vital, o que fiz ficou feito. Mas de certa maneira vejo com uma certa bonomia uma espécie de novo estatuto, como olhávamos para os velhos escritores quando éramos novos. Começo a perceber que me começam a pedir prefácios, posfácios... E lembro-me do João Gaspar Simões e de umas pessoas que só escreviam prefácios. Nós pedíamos prefácios como uma espécie de penhor, de e-primatur. E isso causa-me imensa ternura. 

Oxalá não lhe venha a acontecer como a Eduardo Lourenço que, já perto do final da vida, parece que estava ainda em falta com uns cem prefácios.

Andei meses atrás dele para que me escrevesse um prefácio para o Setembro [e outros contos], que veio a escrever. Na sua argúcia e sensibilidade, começava por dizer que naquela colecção (eram uns dez ou doze contos), havia três bons. E tinha toda a razão.