segunda-feira, 17 ago. 2026

Luís Represas. O artista que cantou a poesia

Comprou a sua primeira guitarra aos 13 anos com os 500 escudos que alguém, durante a véspera de Natal, lhe deixou no sapatinho. Nessa altura já sabia que queria fazer da música vida, e fê-lo da melhor forma possível. Hoje, é difícil encontrar algum português que não conheça as suas canções e que não lamente a sua partida. Morreu na quarta-feira, aos 69 anos

A música era, para ele, «uma arma de sensibilização», como disse numa entrevista ao nosso jornal em maio de 2022. «Sempre foi um instrumento de cativação das vontades, dos sentimentos, das almas e da realidade, bem como de abrir os olhos às pessoas e levá-las a encarar os acontecimentos de uma outra forma. Faz parte de todo um painel de instrumentos que são necessários para que se desperte essa atenção das pessoas e que não caiam no marasmo», explicou. Via a arte como «um fator endémico do artista». «É como uma bactéria que existe dentro dele, faz parte de cada glóbulo vermelho e de cada elemento que existe no seu corpo e na sua unidade».

Além disso, acreditava que, em qualquer forma de arte, a identidade e a impressão digital é «primordial» e «fundamental». «A música é aquilo que eu faço, que sei fazer, e aquilo que sempre fiz», garantiu, reforçando que era onde sentia a sua identidade, onde se sentia «útil». «A música tem uma vantagem fantástica em relação a outras artes, que é poderes encarar o teu público de frente e saberes o resultado real daquilo que fizeste. Isso é magnífico, é insubstituível, e faz com que tenhas constantemente essa necessidade e essa vontade de subir aos palcos. O teatro é muito assim também (...) O ator pode ensaiar uma peça durante as vezes que for necessário para a pôr em palco, mas quando está mesmo sobre o palco e se abre o pano e o público está lá... eu não sou ator, mas acredito que sintam o mesmo que nós sentimos. De repente, transformamo-nos. Somos outros. Somos os mesmos, mas somos outros», refletiu ainda, demonstrando também a gratidão que sempre sentiu pelo seu público que agora chora a sua partida, lembrando o legado daquele que é considerado um dos maiores artistas do país.

Luís Represas deixou-nos na quarta-feira aos 69 anos, vítima de doença prolongada, quando se preparava para assinalar, ao longo deste ano, cinco décadas de carreira, com um conjunto de concertos comemorativos, no Coliseu de Lisboa, do Porto e noutras salas do país, dedicados ao percurso que iniciou no Trovante e consolidou como artista a solo. A Blitz avançou que o músico combatia um cancro do pulmão e que a morte resultou de complicações relacionadas com a doença. Preparava-se para iniciar um tratamento inovador no Hospital de Santa Maria, em Lisboa – tinha sido encaminhado para o centro START, uma unidade dedicada a ensaios clínicos em oncologia que integra um dos maiores consórcios mundiais nesta área.

A criação do Trovante

Nascido em Lisboa em 1956, um dos seus primeiros sonhos foi ser militar, por admirar a imagem do seu tio-avô Malaquias que foi major na Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, a medicina substituiu esse sonho, influenciado pelo seu irmão mais velho, que seguiu o ramo. Depois do 25 de Abril, as prioridades começaram a inverter-se. «A música caiu-me no colo», disse no Alta Definição, em 2013. Comprou a primeira guitarra aos 13 anos, depois de lhe terem deixado 500 escudos no sapatinho de Natal, e rapidamente percebeu que era isso que queria fazer na vida. Sete anos mais tarde, acabaria por formar, com João Gil, João Nuno Represas, Manuel Faria e Artur Costa, o Trovante, que viria a tornar-se um dos grupos mais influentes da música popular portuguesa do pós-25 de Abril, marcando o início da sua carreira profissional. Recorde-se que, mais tarde, entraram para a banda Fernando Júdice, José Martins e José Salgueiro, consolidando a formação mais conhecida do conjunto.

Um ano depois da criação do grupo, editavam o primeiro álbum, Chão Nosso, seguido de Em Nome da Vida (1978). Ambos possuíam uma forte influência da música popular portuguesa, do canto tradicional, da chamada música de intervenção e do rock. Nessa altura, tal como contou Manuel Faria numa biografia da banda publicada em 2003, Trovante era ainda «uma mistura de trova, músico ambulante, e avante, para a frente, no melhor sentido da palavra».

Seguiram-se Baile no Bosque (1981), o disco que mudou a história da banda e incluiu grandes clássicos como Balada das Sete Saias, Outra Margem e Prima da Chula; Cais das Colinas (1983), onde se destacaram canções como Saudade e Lisboa; 84 (1984), onde experimentaram novos arranjos e uma produção mais moderna; Sepes (1986), frequentemente apontado como um dos discos mais consistentes do grupo; Terra Firme (1987), no qual estão presentes alguns dos temas mais conhecidos da música portuguesa como Perdidamente, 125 Azul, Memórias de um Beijo e Xácara das Bruxas Dançando; Ao Vivo no Campo Pequeno (1988) registo do histórico concerto realizado no Campo Pequeno, em Lisboa; e Um Destes Dias (1990), o último álbum de estúdio antes da separação da banda em 1992.

«Foi uma escola para todos nós, mas fundamentalmente foi uma vida», disse ao Nascer do SOL, em 2022. «Começámos com 19 anos e acabámos homens adultos, praticamente com filhos. Tudo isso, o que passámos, vivemos e construímos, deixa, além de tudo o resto, algumas saudades de momentos fantásticos que passámos e que são irrepetíveis. Não há como matar saudades desse tempo. A única forma que temos de matar algumas saudades é quando nos juntamos e fazemos um espetáculo. Mas, de facto, esses momentos são irrepetíveis», lembrava, revelando ainda que o Trovante teve «menos validade» porque «houve membros do grupo que entenderam que deviam sair porque não se sentiam identificados e que não era aquilo que eles queriam fazer». «Portanto, foi uma opção muito válida, foram fazer para outro lado a sua vida. Tentámos continuar sozinhos e chegámos à conclusão que aquilo não era o Trovante, era outra coisa qualquer, e não íamos chamar os nomes àquilo que as coisas não eram. (...) O que é que ficou? Ficou o património, as músicas e as canções, que faz com que nós possamos juntarmo-nos e voltar a cantar as canções como elas foram feitas», recordaria.

Em Março deste, a banda voltou a juntar-se para concertos em Lisboa e no Porto, com a promessa de ‘Viver tudo numa noite’ – slogan retirado da música Memórias de um Beijo. Em janeiro, numa outra conversa com o Nascer do SOL, Luís Represas, João Gil e Manuel Faria viajavam até 1976, tempo em que, em Sagres, começaram a pensar em criar uma banda. «Nós éramos um bocado esquisitos», brincaram, descrevendo-se como «um grupo indie», à época, que «não tinha nada a ver com o mainstream da altura». «Em tempos, um produtor disse-nos: ‘vocês bem deviam limpar as mãos à parede com esses coros’, porque não lembravam a ninguém. Mas o que é certo é que aquilo, a nós, soava bem». Admitiam que, se fosse para «refazer» a banda atualmente, poderia bem ser uma «catástrofe». «Aprendemos muitos truques ao longo da vida. Na altura, não sabíamos truques nenhuns. Provavelmente iríamos atrás de qualquer coisa que iria pôr em causa a boa memória que nós temos (...) As pessoas que andam pelas estradas secundárias conhecem muito mais vilas e lugares do que as que andam nas autoestradas», compararam.

Carreira a solo e a importância de Cuba

Luís Represas lançou-se a solo em 1993, com o álbum Represas, gravado durante uma viagem a Cuba, onde tocou e fez amizade com vários músicos, entre os quais Pablo Milanés. Estava num momento de «indefinição grande», de «orfandade de um coletivo» com o qual viveu durante 16 anos e, portanto, questionou-se sobre quem era.

«A questão não era tanto descobrir-me como artista, mas sim como é que ia produzir e realizar as ideias que tinha. ‘Como? Com quem? Quem é que me compreende no meio disto tudo?’, questionava-me», contou em 2022. E ter ido para Cuba, onde esteve com Miguel Núñez e com Pablo Milanés, ajudou-o nessa busca. «Eu conhecia o Pablo, não conhecia o Miguel Núñez, que era muito novo na altura, tinha 20 e poucos anos. Ele dirigiu magnificamente aquele disco e disse-me que a grande preocupação deles, mas principalmente dele, era: ‘O Luís Represas é um músico português, tem uma identidade de não sei quantos anos, é de uma cultura que não é a nossa, gosta e sente afinidade com a nossa cultura, mas o que ele vem cá buscar não é a nossa cultura, não vem cá fazer um disco de turista, como diz um amigo meu brasileiro’. Portanto ele pensou ‘O que é que temos de fazer aqui? O cuidado aqui é tratar isto com pinças e fazer com que a identidade cultural dele não se perca, com que o público dele o ouça e perceba quem é, e que possamos dar-lhe aquilo que quer da nossa música e da nossa cultura’. E, de facto, foi isso que o Miguel Núñez fez, de uma forma fantástica. No meio disto tudo, com isto, fez com que me visse ao espelho e dissesse: ‘Olha, este sou eu’», recordou o artista.

Desse primeiro álbum a solo fazem parte êxitos como Fora de Tempo, Neva sobre a marginal e Feiticeira, um dueto com Pablo Milanés que rapidamente se tornou um dos maiores êxitos da música portuguesa dos anos 90. Em 1995 editou Cumplicidades, onde colaborou com o pianista Bernardo Sassetti e, três anos depois fez nascer A Hora do Lobo, mais intimista e com grande influência da música ibérica e latino-americana. Depois disso, gravou mais quatro álbuns, o último em 2024.

Ao longo da sua carreira individual, fez também várias colaborações. «As colaborações nunca foram um fim em si mesmas; nasceram sempre da amizade e da vontade de partilhar música», referiu várias vezes. André Sardet, Mafalda Veiga, José Cid; Rui Veloso, Gilberto Gil, Carlos do Carmo, Jorge Palma, Paulo Gonzo, Martinho da Vila, Daniela Mercury, foram alguns desses «amigos».

Um eterno apaixonado pela carreira

Sobre a forma como compunha adiantou: «Sinto que aquilo que se procura, e que eu sinto que se deve procurar na arte, seja em que modalidade for, a beleza das coisas, é a originalidade, a impressão digital, a identidade, e não propriamente andar a correr atrás de uma metodologia de criatividade que provoca a repetição de fórmulas». Mesmo depois de anos de estrada, a subida ao palco continuava sempre a ser «um mistério». «E não é sobre se vai correr bem ou não. Não é isso. É o mistério de como é que os sentimentos se vão revelar, como é que o artista vai ser. Isto é um pensamento que tens e que nunca mais o vais descobrir e agarrar, porque quando o espetáculo acabou não consegues definir», apontou. Ao mesmo tempo, mantinha-se o «nervoso miudinho». «Há, e é bom que haja, e ansiedade e tudo. São as tais borboletas, dizemos isso de uma maneira carinhosa e existe, até porque no dia em que deixar de existir, é porque deixou de fazer sentido», defendeu. «Estamos a arrancar para o ponto máximo, ou seja, para aquilo a que se destina o nosso trabalho. Este é o destino final do nosso trabalho, entregar ao público aquilo que fazemos. Há dias estava a falar com uma atriz e estávamos a comparar estas coisas, estas emoções, e ela disse-me que sentia exatamente o mesmo. Uma tensão e mais, dias antes do espetáculo, quando a data se começa a aproximar, começam os sonhos. São sonhos coincidentes. Começa a vir esse estado de comoção e de emoção. Era bom que os psicólogos se pudessem debruçar sobre isto, sobre como é que se conseguem juntar tantos estados emocionais tão diferentes sem criar aqui uma crise qualquer», brincou o cantor. «Tem tudo a ver com o bom que tem aquilo que nós fazemos. Não te estão a levar para um fuzilamento, estão a levar-te para uma coisa boa, que se quer, que é agradável e boa. É assim, vais para uma fábrica de sonhos, que são teus e que foram teus quando os realizaste e quando os compuseste. São sonhos das pessoas. Há aqui uma cumplicidade. Por isso é que digo que vamos para a melhor coisa do mundo, que é sonhar», partilhou.

Hoje, despedimo-nos dele, tornando a sua voz eterna nas estrelas.